Iago Fraga: “Para a esmagadora maioria das crianças, o galego é umha língua tam estrangeira coma o francês”



img_0116Iago Fraga é cambadês. Atreve-se a falar em galego no ensino secundário onde tem, numa docente de galego, uma ótima aliada. Pola sua experiência discente julga que a diglossia é quase impossível de vencer nas escolas galegas. Começa este ano a estudar filologia clássica em Compostela. Para a sua passagem ao reintegracionismo foi importante um exemplar da História da Língua em Banda Desenhada que achou na livraria Lello no Porto. Vai estudar C2 na EOI.

Iago Fraga nasceu em Cambados. Como era a fotografia linguística na tua casa aquando criança? E a da vila?

A minha mae e a sua família sempre fôrom galegofalantes. O meu pai, nom, é neofalante. Medrei numha casa em que a língua era importante e onde o meu pai fazia um esforço constante para que o nosso galego fosse o mais correto possível. A minha mae é dumha aldeia de Rois, que pertence à área dialetal fisterrá, e por isso, mesmo sendo de Cambados, eu falo um galego que mistura traços dela (sou cheísta) e outros do Salnês (terminim, falim, etc.).

Fora da casa, na escola, ninguém falava galego. Estivem nove anos numha aula de 22 alunos em que a única comunicaçom em galego era com alguns professores e sempre por obrigaçom. Eu tamém nom o falava e mesmo rejeitava ativamente o galego.

Com os anos, contodo, fum descobrindo alguns companheiros que também falavam galego. Todos o ocultávamos e nom foi até a secundária que me atrevim a falar galego com eles e, depois, com todos.

Na vila de Cambados o galego está extinto na prática: nom o fala nengumha criança. Nas paróquias do arredor é bem distinto e por isso nom comecei a o falar até entom. Isto está a mudar, infelizmente, e também nas paróquias os rapazes falam menos e menos galego.

Na vila de Cambados o galego está extinto na prática: nom o fala nengumha criança. Nas paróquias do arredor é bem distinto e por isso nom comecei a o falar até entom. Isto está a mudar, infelizmente, e também nas paróquias os rapazes falam menos e menos galego.

É um processo triste e que qualquer pessoa pode observar.

No momento de te instalares no galego, lembras como foi o processo e quais os teus aliados e aliadas para o abordar?

Em primeiro da ESO tivem umha professora de galego maravilhosa. Lembro que um dia lhe perguntárom: “Profe, ¿tú siempre hablas gallego?”. Ela respondeu que si e em primeiro lugar fiquei surpreendidíssimo. Depois dei-me conta de que era absurdo que fosse tam estranho ser galego e utilizar o galego normalmente como língua.

Durante esse ano fum vendo muitos dos preconceitos que tinha para o galego, graças sobretodo a ela. Por exemplo, no meu grupo de amigos, falávamos castelhano entre nós, até que nos demos conta de que todos falávamos galego na casa e estávamos a manter um teatro ridículo. Aos poucos, fum deixando o castelhano nas relaçons sociais. É um processo que pode durar anos e mui complicado. Escutava constantemente perguntar “¿tú desde cuando hablas gallego?”, “¿y ahora por qué se te dio por ahí?”. Qualquer pessoa que passasse polo mesmo processo sabe o difícil e incómodo que pode chegar a ser.

Eu dei esse passo com treze anos, mas a maioria dos galegofalantes nunca o fai: a diglossia é quase impossível de vencer nas escolas galegas.

Tens 18 anos e vais começar os estudos de Filologia Clássica em Compostela. Quais as tuas motivações? E as tuas esperanças?

Nom tomei a decisom de estudar latim e grego até este ano (antes queria estudar história ou mesmo filosofia), mas, olhando para trás, pode-se dizer que era quase inevitável.

O meu pai também estudou clássicas e crescim rodeado de manuais de latim (meu pai já me dera algumhas aulas de latim com seis ou sete anos!), livros de Salústio ou César e a Odisseia de Homero. A minha mae é professora de francês e isso também motivou que as línguas se tornassem nalgo fundamental para mim.

As línguas clássicas estám a cair no esquecimento e há um certo toque romántico em as aprender. Penso que o grego, mas sobretodo o latim, ponhem-nos em contacto com as nossas origens, história e cultura. O latim foi praticamente a única língua de prestígio na Europa até o Renascimento e mesmo Newton escreveu a sua obra em latim.

As línguas clássicas estám a cair no esquecimento e há um certo toque romántico em as aprender. Penso que o grego, mas sobretodo o latim, ponhem-nos em contacto com as nossas origens, história e cultura. O latim foi praticamente a única língua de prestígio na Europa até o Renascimento e mesmo Newton escreveu a sua obra em latim.

Ter acesso direto a milénios de poesia, história e mesmo ciência sem ter de passar por umha traduçom (se há) é algo que me motiva muito.

Sei que o panorama profissional das línguas clássicas está a esmorecer. Gostaria de dedicar-me ao estudo e ser professor de universidade. O caminho é difícil, mas vale a pena.

A livraria Lello no Porto, que há quem diga inspirou Hogwarts de Harry Potter, também te inspirou a ti, em que sentido?

img_0062Com 15 anos batim cum exemplar perdido d’A história da língua em banda desenhada, editado pola Através Editora. Antes disso, sabia que o galego reintegracionista existia, mas nom o entendia e pensava que era um código reservado ao grafite dissidente nas cidades (Ser jovem nom é um delito cheguei a ver escrito nalgumha parede de Vila Garcia).

Graças a este livrinho entendim os porquês e os para quês do reintegracionismo. Também me ajudou a ver doutra perspetiva a história da língua. Depois, vinhérom outras leituras e, por cima disso, começar a aprender português na casa, só com umha gramática de Celso Cunha, e ver que aquilo que aprendia, as normas que memorizava, etc., nom eram outra cousa que re-aprender a língua que já falava.

O mesmo Celso Cunha, um dos melhores gramáticos do português, nom duvidava a incluir o galego e os seus blocos dialetais como parte dumha língua conjunta que abrange da Amazónia aos Ancares, e assi o registava no mapa linguístico que incluía o livro, em que os blocos dialetais do galego aparecem como umha variedade mais da língua comum.

Todas estas cousas, somadas à frustraçom pola incapacidade da norma isolacionista de normalizar a língua, figérom-me ver que precisamos de outra estratégia para o galego.

Com 15 anos batim cum exemplar perdido d’A história da língua em banda desenhada, editado pola Através Editora. Antes disso, sabia que o galego reintegracionista existia, mas nom o entendia e pensava que era um código reservado ao grafite dissidente nas cidades (Ser jovem nom é um delito cheguei a ver escrito nalgumha parede de Vila Garcia).

Este ano vais estudar C2 na Eoi de Compostela. É o nível mais alto. Quais as tuas expetativas sendo como serás, provavelmente, o aluno mais novo da turma?

Comecei a aprender português em janeiro de 2018 e em junho desse mesmo ano tirei o nível de B2 em Vila Garcia, aprendendo, como já dixem, dumha gramática de Celso Cunha e do YouTube.

Em 2019 decidim nom deixá-lo ficar aí, e matriculei-me no nível de C1. Eu já estudava alemám na EOI (continuo), mas tivem umha experiência fantástica com a minha turma e o meu professor. Tinha meia dúzia de companheiras, mulheres adultas (eu rompia um pouquinho com as caraterísticas do grupo), mas sempre me sentim mui cómodo.

Este último ano nom pudem seguir estudando porque nom havia turma em Vila Garcia, mas agora tenho a oportunidade de continuar a melhorar e continuar em contacto com o português.

Creio que o português nos achega a nós próprios. Ouvindo mulheres do Macau ou do Moçambique tenho escutado palavras que eu próprio escutava na casa dos meus avós ou à minha mae quando era cativo e que ficárom enterradas por baixo de castelhanismos.

Espero continuar aprendendo, escutando e melhorando. Quanto mais português souber, mais e melhor galego saberei.

Creio que o português nos achega a nós próprios. Ouvindo mulheres do Macau ou do Moçambique tenho escutado palavras que eu próprio escutava na casa dos meus avós ou à minha mae quando era cativo e que ficárom enterradas por baixo de castelhanismos. Espero continuar aprendendo, escutando e melhorando. Quanto mais português souber, mais e melhor galego saberei.

O reintegracionismo é umha estratégia para a nossa língua. Por onde julgas que deveria transitar para avançar ainda mais socialmente?

O reintegracionismo tem um grande problema onde nom vejo nenhum progresso: A gente nom o sabe ler. Quando lhe mostras um texto na norma AGAL a qualquer pessoa, a primeira reaçom é “isto nom é galego”. É umha reaçom natural.

Quando vemos “nom” escrito com –m, lemos instintivamente /nom/, e em galego nom pronunciamos /nom/ nem /em/. Isto cria um sentimento de afastamento e rejeitamento mui difícil de superar. Eu também pensava isso e tardei anos (!!) em me dar conta de que nom é assi. Pensa-se que o galego reintegracionista é algo que se fala e nom simplesmente um jeito alternativo de grafar a mesma língua, com os mesmos sons, com as mesmas palavras.

Se queremos que a estratégia reintegracionista tenha êxito, fai primeiro falta que a gente poda ler e ver que é o mesmo galego que já falam. Duvido que houvesse progresso percetível nas últimas décadas neste sentido.

Se quadra, se o grafite de Vila Garcia “ser jovem nom é delito” ou “Galiza, umha naçom” fosse “o –m final na grafia da AGAL lê-se como –n: bem=ben” eu teria, desde sempre, outra percepçom do reintegracionismo. Sei que é um grafite bem pouco dissidente, mas a ideia entende-se bem.

Há umha falta enorme de informaçom sobre o quê é o reintegracionismo e principalmente o “como” do reintegracionismo. Avançar nesse sentido seria um enorme progresso.

Por outro lado, mudar a mentalidade dominante de “o reintegracionismo é um decalque do português” a “a grafia ILG-RAG é um decalque do castelhano” é chave. Nom só porque achegaria muita gente ao reintegracionismo, mas também porque é a verdade.

Porque decidiste tornar-te sócio da AGAL? O que esperas do trabalho da associaçom?

Penso que as minhas ideias e o meu trabalho podem ser úteis para espalhar estratégia reintegracionista: no meu grupo de amigos, há vários que já passárom a escrever com “lh” e “nh”. Se umha única pessoa pode fazer isso, mais poderá umha associaçom.

Imagina que estamos no ano 2040. Como achas que será a presença social da nossa língua naquela altura?

O galego está numha situaçom desastrosa e praticamente irreversível. Tenho mui pouca fé no futuro do galego, mas nom deixo de trabalhar por ele e, muito menos, de o falar.

Para a esmagadora maioria das crianças, o galego é umha língua tam estrangeira coma o francês. Se isto é assi em 2020, em 2040 será quase com certeza pior.

À rutura da transmissom geracional soma-se outro problema igual de grave: umha intromissom tam grande do castelhano no nosso galego que podemos falar dum processo de dissoluçom do galego. Quando conjugamos os verbos sistematicamente à castelhana, quando substituímos “sorte” por “suerte” e rompemos a sintaxe e morfologia tradicional, que nos resta realmente do galego?

À rutura da transmissom geracional soma-se outro problema igual de grave: umha intromissom tam grande do castelhano no nosso galego que podemos falar dum processo de dissoluçom do galego. Quando conjugamos os verbos sistematicamente à castelhana, quando substituímos “sorte” por “suerte” e rompemos a sintaxe e morfologia tradicional, que nos resta realmente do galego?

Mas nom é apenas isso. Mesmo os falantes nativos perdemos a fonética galega. Nom importa o muito que cuide o meu galego nem todos os castelhanismos que evite, eu nom conservo a fonética galega da minha avoa e, ainda que faga um esforço ativo por a imitar (o qual fago) nunca vou consegui-lo realmente.

“O único galego mal falado é o que nom se fala” é um princípio terrivelmente prejudicial para a língua. Ter erros é normal e inevitável. Nom trabalhar nem fazer nada para o solucionar, nom.

Apesar disto, nom perdo a esperança. O hebreu estivo morto muitos séculos e voltou à vida. O galego também se pode recuperar. Esperemos que nom tenha de morrer no caminho.

Conhecendo Iago Fraga

Um sítio web: estraviz.org

Um invento: A imprensa.

Umha música: Paraísos artificiales

Um livro: Ensaio sobre a cegueira e Ensaio sobre a lucidez.

Um facto histórico: A queda do Império Romano.

Um prato na mesa: Qualquer que cozinhe a minha avoa.

Um desporto: Ciclismo.

Um filme: La estanquera de Vallecas e The Truman Show.

Umha maravilha: O sol-por em Cambados.

Além de galego/a: leitor.

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim


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  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Na Galiza há um processo de apagar a língua que é bem semelhante ao do Ocitano, e que vai caminho de grande sucesso. A escola nacional (deles) é uma poderosa alavanca, de reforço dos preconceitos…
    Entanto há quem brinca com trabalhos e projetos, que poriam muito contentes aos felibriges mistralianos e o próprio Mistral, o da grande obra Mirèio, adorariam

  • Ernesto Vazquez Souza

    que magnífica esta série de entrevistas… carambas… anima muito – quando menos par os que estamos já irremediavelmente deprimidos e desenganados de tudo – ver gente assim nova com tanta proposta e ideia…

    Pois é… bibliotecas inteiras que ninguém lê, por estarem em “formatos” obsoletos… bom programa: 😉

    ” Ter acesso direto a milénios de poesia, história e mesmo ciência sem ter
    de passar por umha traduçom (se há) é algo que me motiva muito.

  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Fagim, ainda há uma grande distância com o Francês, até o mais castelhanizado tem conhecimentos adquiridos passivamente, se isso não fosse assim, até os neofalantes seriam miragem, e não percebo aos galegos e galegas como novos judeus recuperando a sua terra ancestral
    https://www.google.com/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=&ved=2ahUKEwieyqit0KnsAhUBBGMBHY1dABsQFjACegQIBRAC&url=http%3A%2F%2Frevistas.fflch.usp.br%2Fvertices%2Farticle%2FviewFile%2F71%2F78&usg=AOvVaw1sO4D_VkcfTs-XNCXdf-Os

  • Not a Troll

    O galego é umha língua tam estrangeira para os pequenos quanto o francês. E depois ainda teremos de aturar o Venâncio por acô a dizer que o nosso problema é escrevermos ‘pão’ e ‘vieram’.

    • Venâncio

      Pazinho,

      Não és só tu a ter de “aturar” esse diabólico Venâncio.

      Queres saber? O júri dum importante Prémio nacional louvou-me o ter eu decantado a “independência” do Português. E gastei eu 300 páginas tentando mostrar o contrário.

      A nossa dependência foi crónica: primeiro, do Galego (a tua língua, ó feliz Troll), depois, do Castelhano, depois ainda, do Francês… Como o Português tenha sobrevivido, eis a história seguinte que contarei.

      • Not a Troll

        Bem sabia, Prof. Venâncio. Os meus parabéns polo reconhecimento e por outra ocasiom bem aproveitada para comentar alguma cousa que pola qual nom nos importamos muito acô. Mesmo assim, ja vim nos comentários desta página que o senhor desconhecia a estrutura verbal “tinha sido” ser empregada em galego. Isso também está recolhido no livrinho? Bom, prefiro nom saber.

        Sim estimava que me contestasse outra pergunta, dado que conhece bem aquelas terras: se tivesse vivido no Flandres de XIX também andaria a pedir aos flamengos luitando por un minimo de ensino em neerlandês para os filhos deles que esquecessem a Holanda?

        Aliás, perda todo o cuidado em me lembrar que a minha língua é o “galego”. Eu sempre lhe chamei assim e nom tenho pensado mudar-lhe o nome, mas isso nom me impede saber que é a mesma que se fala em Mértola, sob outro nome com o qual é reconhecida internacionalmente. Vaites, o mesmo que lhes acontece aos flamengos!

        • Venâncio

          Primeiro, Troll. Aconselho-te a leitura deste meu trabalhinho. Vai-te dar informação talvez necessária.

          «O neerlandês, idioma de flamengos e holandeses», in Valentim Fagim (org.), Quem fala a minha língua?, Santiago de Compostela, Através Editora, 2013, págs. 37-55.

          Depois, em várias das entrevistas que dei mais recentemente a jornais, falei desse absurdo que é o desprezo de que o Galego é objecto.

          Mas, e bem mais importante: o livro (que, para grande pasmo meu, muitos portugueses têm vindo a ler) destinou-se a contar-lhes a história da sua própria língua, que foi uma criação de galegos. Sou um mero historiador, não um sociólogo.

          Quanto a essa tua insistência de o Galego ser “Português”. Deixo-te nessa convicção. É sempre bom termos sentimentos tão positivos.

          Mas, se algum dia leres a obrinha, verás que fiz um exercício que há muito já era urgente: o duma comparação estrutural dos dois sistemas. Não ficarás feliz com o resultado, mas foi um labor honesto.

          • Venâncio

            P.S.

            Não sei se te dás conta. Mas, para um português, só a ideia de que o seu idioma foi criação alheia é um atentado à sua auto-estima. Contudo, é esse o meu trabalho, contar-lhes a sua própria história.

            Vejo que, em geral, os reintegracionistas vêm para cá com falinhas mansas, confirmando os portugueses nos seus mitos. Viessem, antes, com a verdade da situação do Galego, que tu insinuas que não tenho suficientemente em conta.

            Mas não. Vindes cá lamber as botas dos já de si auto-suficientes portugueses, que vos desprezam tanto quanto os castelhanos.

            Eu envergonho-me de vós.

          • Not a Troll

            Prof. Venâncio bem vejo que nem chio do que lhe dixem mais arriba. Acho profundamente estúpido dizer que a língua portuguesa foi umha ‘criação’ de galegos porque quando nasceu o romance ocidental ibérico nem existia a Galiza nem os galegos nem existia Portugal ou os portugueses. E o seu desenvolvimento posterior tem tanto de galego quanto de português. Porém, se dizer que Afonso Henriques falava galego lhe serve para epatar o sempre mui nacionalista povo português e o encontra ajeitado para jogar ao enfant terrible eu acho perfeito.

            A mim as comparações estruturais da lingua tanto me tenhem, isso fica para os linguisticas como o senhor encerrados nas torres de marfim da academia. E sobretudo se som comparações em base ao galenhol que se fai passar por galego hoje na Galiza. Eu simplesmente constato que quando vou ao Brasil -decote, por causa do meu trabalho- sou percebido -falando no meu galego, sem castelanismos- polos meus colegas brasileiros. E isso acontece mui raramente com castelhanos, catalães, italianos ou franceses. Nom é conviçom, é realidade e, sim, bem positiva.

            E nom se engane o senhor, acô nom lambemos bota portuguesa nenhuma. E a melhor prova som os seus choradinhos de que nom lhe fazemos caso. E quiçã é por isso que se envergonha tanto de nós, pensava que ia ser -como dizemos na Gailza, nom sei no resto da Lusofonia- chegar e encher mais nom foi. Pois continue a rabear logo.

          • Venâncio

            Trolininho,

            Não percebeste puto do que eu te acabo de dizer.

            Primeiro, é em Portugal, e não na Galiza, que as eminências reintegracionistas vêm lamber as notas, isto é, alardear dos mitos portugueses como se fazê-lo fosse “cultura galega”.

            Depois, eu nunca me queixei de desatenção na Galiza. Bastantes ensaios meus estão publicados aqui, no PGL, e as melhores revistas galegas publicaram-me outros.

            Depois também, aquilo que comparei com a Norma portuguesa europeia não foi nenhum “galenhol”, mas a Norma galega. Ela pode ser aqui e além deficiente, mas é uma Norma, ao contrário da balbúrdia que hoje é a “Norma” reintegracionista.

            E sim, este idioma em que me exprimo foi, inicialmente, uma criação galega. Está tudo explicadinho em Assim Nasceu uma língua… Se fazes essas andanças brasileiras, terás uns tostões para adquiri-lo.

            A vantagem disso será que não me mandes à cabeça mais trapalhadas que não me são devidas.

          • Not a Troll

            Se nom percebim é mui provavelmente culpa do senhor.

            1) Podia-me dar um exemplo do primeiro?
            2) Nunca se queixou porque nom tem queixa. De facto eu acho que lhe concedemos tempo de mais para toda a vara que dá. Mas nom estava a falar da atençom que lhe damos, que certamente é muita. Eu referia-me ao facto do senhor andar-se a a laiar polas caixas de comentários sobre nom fazermos o que você acha melhor. Eis o malvado bando de lusistas galegos escreverem em lisboeta, por exemplo, ou sas ’eminências reintegracionistas’ a lamber botas em Portugal. É só queixa permanente, podia filiar-se ao BNG.
            3) Concordo, a norma reintegracionista é mui melhorável e eu preferia nada de soluções duplas e cousas assim, mas afinal aí nom decido eu e também nom tenciono fazê-lo. Mas acontece hoje, Sr. Venâncio, que a “Norma galega” é empregada por persoas que tenhem o castelhano como língua principal porque esa é a realidade galega. Se o senhor o que fixo foi apanhar artigos dos jornais galegos em galenhol verá que aquilo é castelhano escrito em alegado galego. Mesmo acho que perdeu o tempo em pesquisar castelhanismos que escaparam da perigosa banda dos lambebotas lusistas. Imagine, se gente preocupada pola língua coma essa nom dá posto de lado o virus castelám imagine o jornalista de La Voz de Galicia que escreve 1 pagina em galego por dia e 26 em castelhano.
            4) Nom tenho interesse em ler o Assim Nasceu uma língua. Já o Valentim Fagim, no Praza Pública, deixou claro que é umha obra que adoece de cherry-picking e de sesgo ferinte. Também nom é mui difícil de intuir lendo-o aquí. Académicos trapalheiros hai muitos, assim que prefiro ler com os que eu concordo. Além disso, eu nom vivo do dinheiro público e os meus quartos ganho-os no mercado com muito esforço -eu sei que você nom sabe o que é isto de ganhar o dinheiro a criar valor para os clientes, mas já lhe adianto que é difícil- e prefiro gasta-los em cousas que me prouguem. Assim, pode perder cuidado, os seus petos nom vam ver um euro meu. Ainda se fosse um bocado mais simpático para os galegos que discordam do senhor poderia ser, mas como isso nom acontece é melhor que lhe encarregue ao H. Monteagudo umha encomenda.

          • Venâncio

            Pazinho,

            É uma covardia esconderes-te sistematicamente num nick, por cima ainda tão parvo como esse teu. Mas perdoemos a desvergonha humana.

            No livro que não vais ler, exponho detidamente um exemplo gritante desse “lamber de botas” portuguesas por parte de eminências do vosso círculo.

            *

            E por aqui me fico, Not a Troll. Não é saudável para a nossa psique falar, e menos ainda discutir, com fantasmas.

          • Paulo Reis

            Caro Prof Fernando Venâncio: qualquer português minimamente culto saberá que “o português”, na sua essência, é uma “criação alheia”. Desde logo, começou por ser um latim “mal falado”, certo? Acresce a isto as múltiplas influências alheias que foi sofrendo ao longo da sua história. Isso é um drama? Claro que não. Partilhamos essa “criação alheia” com quase todas as línguas europeias. E um aviso à navegação (com todo o respeito, pois claro): tenho a sensação que lhe continua a passar ao lado a situação absolutamente dramática do “galego”. E enquanto o barco se afunda, você continua a pôr à frente da orquestra as suas pautas de etimologia e diferenciadoras. Com certeza que quem está no barco se está nas tintas para elas, e tenta arranjar lugar no bote do português, como única hipótese de salvação, que é também a mais lógica (na minha modesta opinião!). Fosse eu cidadão da Galiza, faria exactamente o mesmo. Parabéns ao caro Iago Fraga. Um abraço!

          • Venâncio

            Caro Paulo Reis,

            O que mesmo os portugueses mais cultos não sabem é que o português é uma criação de galegos.

            Tudo quanto me diz («Partilhamos essa “criação alheia” com quase todas as línguas europeias») parece esquecer, ou pelo menos tentar relativizar, esse, para nós, importantíssimo dado histórico. Francamente, não entendo o interesse de Vc o vir fazer.

          • Paulo Reis

            Caro Prof. Fernando Venâncio: Desculpe, mas não ponha na minha boca algo que eu não disse. O que qualquer português minimamente culto saberá, é que esse “latim mal falado” deu origem ao galaico-português, originário deste território de aquém-e-além-Minho. Ou seja, de galegos das duas margens do Minho, não exclusivamente da actual Galiza pertencente ao estado espanhol, portanto. Creio que isto ainda se aprende no ensino secundário, acho. Para não ir mais longe.

          • Venâncio

            Caro Paulo,

            O “galaico-português”, ou o “galego-português”, nunca existiram. Foram uma invenção dum grupo de linguistas lisboetas em finais de Oitocentos.

            Isto, que lhe parecerá pouco, é o cerne da questão, para não dizer do nosso drama: a incapacidade dos portugueses em admitirem que, durante tempos (séculos, na realidade), a língua do Reino de Portugal foi o Galego.

            Todo o meu livro gira à volta disso.

            Mas, como vejo que não o conhece, remeto-o para este texto que expõe o essencial.

            https://www.facebook.com/notes/fernando-ven%C3%A2ncio/o-passado-galego-do-portugu%C3%AAs/912226775493082/

          • Venâncio

            Outra coisa. No território original do idioma, o sector que um dia seria “Portugal” é muito pequeno.

          • Paulo Reis

            Caro Fernando: não, ainda não adquiri o seu livro, porque não ando com muito tempo para ler (trapalhadas várias). Além do mais, também não tenho “Feissebuque”, ou antes, tenho, mas não utilizo. Entretanto, li o seu artigo no Diário Liberdade De qualquer forma, e o que pretendia dizer, é que não existem línguas estanques, a não ser que se viva isolado do mundo. Não são, nem devem ser peças de museu, portanto, porque são estruturas vivas. Não são exclusivamente património e símbolos identitários, mas sobretudo ferramentas de comunicação. E sim, a língua do Reino de Portugal foi o galego (ou o “galego-português”, como lhe queiram chamar), sem dúvida. Acrescento ao mapa de Piel, o que diz José Mattoso na sua “História de Portugal”: “O Entre-Douro-e-Minho foi sempre o grande alfobre de gente. Foram sobretudo os minhotos que povoaram Portugal e que partiram pelos quatro cantos do mundo”. Creio que isso também terá alguma influencia na língua. Porque de facto “era o que havia”.

          • Paulo Reis

            E em jeito de curiosidade: todos os Leitores de Galego que passaram por cá, pela Universidade do Minho, todos, sem excepção, tornaram-se reintegracionistas (dos maus!). Acresce a este facto, que os miúdos oriundos da Galiza, e que por cá estudam, também não têm o português como uma língua alheia. Antes pelo contrário. Convido-o a ouvir o programa da Rádio Universitária do Minho, realizado por galegos, cuja a pedra de toque é exactamente essa; a unidade linguística.

          • Venâncio

            Paulo Reis,

            E eu convido-o a ler Assim nasceu uma língua, em que certo linguista português examina detidamente essa «unidade linguística». Não lhe revelo o resultado.

            A obra foi apresentada aí em Braga pelo Prof. Álvaro Iriarte, da AGLP. Veja as más companhias em que eu ando.

          • Paulo Reis

            Sim, tenho de ler, sem dúvida. Além do mais, nunca disse que andava mal acompanhado. E o caro Prof. Álvaro Iriarte é um bom exemplo. As minhas discordâncias consigo são exclusivamente sobre as respostas para o tempo presente.

          • Venâncio

            Isso de “mal acompanhado” foi uma gracinha para certo público aqui. Desculpe.

            Pede-me “respostas para o tempo presente”. Paulo, eu sou um historiador, não um sociólogo. As minhas respostas para o tempo presente são a História que conto a portugueses e a galegos. E ouso pensar que, no fim de contas, o conhecimento duma História que tanto honra a Galiza há-de valer alguma coisa.

            Mas suspeito que o Paulo só estará contente quando eu vestir a farda de activista.

  • Ernesto Vazquez Souza

    Para além de muitas cousas interessantes e terríveis a respeito do futuro escuro do galego, na entrevista chama a minha atenção este trechinho:

    ” O reintegracionismo tem um grande problema onde nom vejo nenhum progresso:
    A gente nom o sabe ler. Quando lhe mostras um texto na norma AGAL a
    qualquer pessoa, a primeira reaçom é “isto nom é galego”. É umha reaçom
    natural.

    Quando vemos “nom” escrito com –m, lemos instintivamente /nom/, e em galego nom pronunciamos /nom/ nem /em/. Isto cria um sentimento de afastamento e
    rejeitamento mui difícil de superar. Eu também pensava isso e tardei
    anos (!!) em me dar conta de que nom é assi. Pensa-se que o galego
    reintegracionista é algo que se fala e nom simplesmente um jeito
    alternativo de grafar a mesma língua, com os mesmos sons, com as mesmas
    palavras.”

    Insisto mais uma vez, … o noM, neM, o -çoM foi um erro estratégico… e é perder tempo tratar de guiar a gente nisto não sendo que entrem na militância reintegracionista.

    é mais doado dizer à gente: está escrito Não, e podes pronunciar à portuguesa… mas podes pronunciar NON à galega… que convencer à gente de que lendo NOM pode pronunciar NON…

    Isso ou recuperar no reintegracionismo AGAL as formas em -ON… que seriam as tradicionais, nacionais e mais ponte com a norma ILG.