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Homenagem às mestras republicanas no Dia da República, com o filme ‘As Mestras da República’

José Paz Rodrigues (*) – Já o tenho escrito e dito muitas vezes. Do ponto de vista educativo, o período republicano, que vai de 1931 a 1936, foi o mais extraordinário da história educativa do nosso país, ainda hoje não superado.

Entre as muitas realizações de tão rico período, quero destacar a construção de infinidade de escolas em todo o território; a criação de numerosas bibliotecas; a posta a andar do melhor plano de formação de professores de toda a história: o denominado Plano Profissional de 1931; a preocupação pela renovação pedagógica dos docentes e pela sua estima social; a posta em funcionamento das famosas “Missões Pedagógicas” pelas zonas rurais do país e, muito especialmente, o, seguindo o pensamento dos grandes educadores da ILE, Giner e Cossío, considerar acertadamente que a “alma da escola” é o mestre e a mestra. Nos que precisamente era necessário gastar, antes que noutros temas educativos, para elevar a sua condição social e a sua autoestima.

Alma, Maria, alma”, recomendava o grande pedagogo Cossío à mestra Maria Sánchez Arbós, trabalhar com alma, com dedicação e entusiasmo. Eram os tempos da Segunda República e, até aquele momento, os tabiques de madeira que separavam nas escolas os meninos das meninas, terminam por cair. Iniciava-se um período, infelizmente curto, apenas de cinco anos, mas intenso e enormemente frutífero, em que o labor por uma educação pública de qualidade, laica e solidária rompia todos os tabus vividos até então no país. E aí apareceram as extraordinárias mestras, que simbolizaram como ninguém os valores do novo modelo político republicano, enfrentando-se a um pensamento retrógrado e conservador, luitando contra o analfabetismo que ascendia naquela altura a 32 % dos maiores de dez anos. Estas mestras magníficas, e também muitos mestres, deitaram para fora numerosas barragens, e com o seu trabalho nas cidades e, especialmente, no campo, converteram-se nas novas mulheres, independentes, livres e defensoras da igualdade entre sexos. Foram todas umas mestras comprometidas que participaram na conquista dos direitos femininos, através do seu labor, e na modernização da educação, plantando as raízes de um ensino público e de qualidade. Durante muito tempo, por desgraça, estas mestras foram autênticas desconhecidas para a maioria dos cidadãos, pelo que é muito importante recuperar a nossa memória histórica escolar e educativa daquele formoso período de grandes valores sociais, culturais, humanos e pedagógicos. Muitas destas mestras, de forma imoral, igual que numerosíssimos mestres, foram duramente represaliadas depois da guerra civil e o triunfo do golpe de estado franquista. E algumas perderam a vida. Muitas deixaram um lindo legado e, em especial, o de que com o otimismo muitas cousas são possíveis. Elas nos deram um exemplo e as chaves muito claras para o ensino. Algumas foram apartadas do exercício profissional, acusando-as de crimes contra a moral. Outras sofreram privação de liberdade em prisões, e algumas foram assassinadas. Muitas, por sorte para elas, puderam exilar-se noutros países, principalmente no México (graças à excelente acolhida do Presidente Lázaro Cárdenas), onde criaram escolas rurais, e outras sofreram o exílio interior, que foi muito duro e triste, tendo que conformar-se com dar aulas particulares, tendo que aprender a viver no silêncio, o horror e o medo. Foram estas as mestras primorosas que nas suas aulas, com alegria e admiração, recitavam aos seus alunos os poemas de António Machado e Juan Ramón Jiménez, com respeito e emoção.

Todas estas docentes entregaram-se em corpo e alma ao labor pedagógico, trabalhando pela construção de uma sociedade mais justa e solidária, mas depois da guerra foram perseguidas, encadeadas e, durante demasiados anos, esquecidas, pelo que é necessário resgatá-las para sempre da amnesia da nossa história coletiva. Todas representavam o modelo de “mulheres modernas e independentes, que mesmo não necessitavam de se casar”. Foram responsáveis pela construção de uma nova identidade cidadã, ao educarem os estudantes nos valores da igualdade, a liberdade e a solidariedade, e participarem de maneira comprometida e valente no desenvolvimento do projeto educativo republicano, um dos grandes compromissos sociais do governo que entendia que a educação era o meio de levar a cultura aos locais mais afastados e poder construir uma sociedade mais justa, livre, equitativa e solidária.

Na nossa cidade, felizmente ainda vive, próxima a ser centenária, Isabel Suárez, uma daquelas mestras formadas na Escola Normal de Ourense com um excelente Plano de Estudos, o de 1931, e com um extraordinário labor educativo. Especialmente a ela vai dedicado este meu artigo e estudo, porque bem o merece. E, para homenagear estas mestras, e lembrar que o dia 14 de abril é o “Dia da República”, escolhi o filme documentário “As Mestras da República”, realizado pela diretora alicantina Pilar Pérez Solano, em 2013, e que vem de conseguir um prémio Goya concedido pela Academia de Cinema, como melhor documentário.

 

Ficha técnica do filme:

Título original: Las Maestras de la República (As Mestras da República). Documentário.

Diretor: Pilar Pérez Solano (Espanha, 2013, 65 min., a cores e branco e preto).

Roteiro: Pilar P. Solano, segundo o livro de Josefina Aldecoa Historia de una maestra.

Produtora: Transit Producciones (em colaboração com Fete-UGT).

Fotografia: Isabel Ruiz. Música: Carlos Salas. Voz em off: Marta Barriuso.

Atriz Mestra: Laura de Pedro. Textos da voz em off: Josefina Aldecoa.

Pessoas entrevistadas: M.ª del Carmen Agulló Díaz, Hilda Farfante Gayo, Carmen García Colmenares, Herminio Lafoz Rabaza, Elvira Ontañón Sánchez-Arbós, M.ª del Mar del Pozo Andrés, Sara Ramos Zamora e Alfonso Vigre García.
Prêmio: Prémio Goya ao melhor documentário no ano 2014.

Argumento: As mestras da Segunda República foram umas mulheres valentes e comprometidas que participaram na conquista dos direitos das mulheres e na modernização da educação, baseada nos princípios da escola pública e democrática. Este documentário, através da recriação de uma mestra da época, e imagens inéditas de arquivo, descobre-nos o maravilhoso legado que nos deixaram as mestras republicanas, e que chegou aos nossos dias. Articulado em base a testemunhos de investigadores e familiares, imos conhecendo o momento histórico que viveram estas docentes e a sua participação na transformação social do nosso país através da educação.

 

 

Lembrando as exemplares mestras da nossa República:

No nosso pensamento, na nossa memória e no nosso coração, temos presentes aquelas mestras exemplares que durante a Segunda República, desenvolveram com total entrega, entusiasmo e vocação pedagógica um imenso labor educativo, cheio de grandes valores humanos e sociais. Entre outras muitas, na nossa mente estão mestras modelares como: Enriqueta Agut Armer (1912-1998), Leonor Serrano Pablo (1890-1942), Isabel Esteban Nieto (1893-1936), Antónia Adroher Pascual (1913-2007), Margarita Comas Camps (1892-1973), Carmen de Burgos (1867-1931), Pilar de Madariaga Rojo (1903-1995), a tagoreana Maria de Maeztu (1882-1948), Aurélia Gutiérrez-Cueto Blanchard (natural de Santander e assassinada em Valhadolid em agosto de 1936, sendo diretora da Escola Normal), Regina Lago (1897-1966), a tagoreana Maria Lejárraga (1874-1974), a esposa de Lorenzo Luzuriaga Mª Luisa Navarro Margati (1885-1948), a passionária do povo galego Enriqueta Otero Blanco (1910-1989), Amparo Poch i Gascón (1902-1968), Concepción Sainz-Amor (1897-1994), Josefa Uriz i Pi (1883-faleceu na República Democrática de Alemanha em data desconhecida) e Maria Zambrano Alarcón (1904-1991).

Todas as mestras republicanas foram mulheres comprometidas com a igualdade social e de género, estavam conscientes de que cada passo que davam representava o desenho do caminho pelo que outros iam transitar. Com o seu interesse por inovar, pesquisar e desenvolver um discurso próprio no âmbito da educação embarcaram-se nas viagens de estudos pela Europa, participaram nas Missões Pedagógicas, ocuparam postos de direção nas escolas e formaram parte de organizações sindicais, políticas e associações feministas e cidadãs. Foram pioneiras nos processos de inovação e de práticas pedagógicas que abriam as aulas a uma metodologia ativa e participativa. Porque acreditavam na igualdade, derrubaram os muros que separavam os alunos das alunas, propondo práticas de relacionamento que lhes permitisse partilhar interesses e conhecimentos. Uma coeducação que lhes possibilitaria aprender a partilhar a vida em igualdade. Este projeto ficou interrompido depois da guerra civil, com a terrível depuração exercida pelo bando vencedor sobre um magistério comprometido com as ideias republicanas. Nas mestras a repressão foi especialmente terrorífica, ao tentar acabar física e simbolicamente, com os valores de igualdade e autonomia que elas representavam.

As mestras republicanas simbolizam o projeto de transformação social e cultural da 2ª República. Nas suas trajetórias vitais encontramos a plasmação das esperanças, as experiências e as conquistas alcançadas pelas mulheres espanholas nesses anos de profundas mudanças, em que as mulheres obtiveram a cidadania civil e a cidadania política, e em que a educação era concebida como o fundamento de uma autêntica democracia. A profissão de mestra era um dos poucos âmbitos laborais em que as mulheres tinham conquistado, desde o século XIX, um campo de afirmação, reconhecimento e legitimação na esfera pública. Nos anos trinta do passado século, numerosas mestras identificaram-se com as ideias de liberdade de pensamento e de cátedra, de promoção da liberdade individual e de laicismo. Nas aulas utilizavam a experimentação, a criatividade e os métodos participativos de aprendizagem, trabalhavam ao ar livre, faziam excursões e fomentavam a educação física de alunos e de alunas. É, portanto, muito importante, recuperar e difundir a história e as histórias destas mestras republicanas, rendendo uma homenagem a umas mulheres decididas, valentes e comprometidas, que participaram na conquista dos direitos das mulheres e na modernização do ensino e, com isso, na construção de uma sociedade democrática e livre. Nas suas vidas conjugam dous objetivos políticos que hoje em dia continuam a ser referentes e mantêm a sua vigência: a luita pela igualdade entre homens e mulheres e por uma educação pública e democrática.

 

Temas para refletir, debater e elaborar:

Utilizando a técnica de dinâmica de grupos do “Cinema-fórum” debater, depois de ver este documentário, sobre as diferentes opiniões que vão dando as pessoas entrevistadas e sobre as suas histórias de vida. Também se podem analisar as imagens inéditas de arquivo que foram recuperadas para realizar este filme, tendo em conta o contexto e a época em que foram filmadas.

Seria muito formoso organizar nos estabelecimentos de ensino Mostras monográficas sobre as mais famosas mestras republicanas, com painéis, fotos, textos e desenhos. A documentação para desenhar estas mostras, ademais de em livros sobre a educação na época republicana e monografias que nos últimos anos foram publicadas, pode ser pesquisada na internet. Também se pode elaborar uma monografia que pode ser policopiada, e mesmo um blogue.

Uma bonita atividade que se podia realizar seria organizar um “Livro-fórum”, depois de ler entre todos os participantes no foro o livro de Josefina Aldecoa História de uma mestra. E se podia estabelecer um debate-papo arredor do que diz a mestra Gabriela López Pardo, protagonista do livro: “Se eu quisesse explicar o que era então para mim a política, não saberia. Eu acreditava na cultura, na educação, na justiça. Amava a minha profissão e entregava-me a ela com verdadeiro entusiasmo. Tudo isso era política? Encontrei em Ezequiel tudo aquilo que meu pai me tinha ensinado, a austeridade, a mística do trabalho, a inesgotável entrega. Era isso política?”.

 

(*) Académico da AGLP, Didata e Pedagogo Tagoreano.

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