Hadriana Ordoñez: “Antes da associação sexualidade e infância já incomoda sexualidade e maternidade”



“A sexualidade na gente miúda” é o título com o qual a psicóloga e especialista em educação e terapia sexual Hadriana Ordóñez abordará o terceiro e último módulo da formação que a escola Semente Compostela impulsionou arredor da sexologia, pensando em educadoras e famílias. Na tarde da próxima sexta, 30 de Abril, poderemos aprofundar nalguns dos fios desta conversa em que percorreremos dúvidas e medos arredor da evolução das crianças no seu relacionamento com o corpo. Ou abordamos a importância de recorrermos ao pensamento feminista para as acompanhar na conformação do que ela denomina género feliz.

Pensas que juntar na mesma frase sexualidade e infância segue gerando desconforto?

Escola Foresta

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O que me estás formulando foi o primeiro conflito que tivemos na casa quando montei a proposta para vós. Comparto-as sempre com a minha mulher, porque ela não conhece estas questões a nível profissional, para que me diga se se entendem bem. E tivemos esta discussão, porque a primeira opção era “O sexo da gente miúda”. E ela dizia-me: acho que não é um bom binómio, o sexo é algo de gente adulta. Quando montava os meus primeiros projetos neste campo punha educação afetivo-sexual, e isso era melhor acolhido. Porque o afetivo já vai incluído em sexual mas, se não o dixeres, não se dá por feito. É muito incómodo, do ponto de vista judeu-cristão porque, em si, à infância não se dá a categoria de ser sexuada, nem sequer de ser sentinte. Falamos a partir do cérebro adulto, mas as crianças não estão aí. Ainda, o que necessitam, com certeza que não o vais ter, porque te esqueceste disso. É como quando vou a uma sala de aulas de sexualidade com adolescentes. Mmisturas essas duas palavras e o seu esquema mental é: primeira vez, despidos. Mas talvez na vida se despiram, nem com é-las mesmas. Então isto é conflituoso em todos os grupos de idade quando são menores. Ora, quem tem curiosidade reconhece: perdo-me, deixo-me levar polos meus medos.

É muito incómodo, do ponto de vista judeu-cristão porque, em si, à infância não se dá a categoria de ser sexuada, nem sequer de ser sentinte.

Que há nesses medos?

Vivências próprias. A sexualidade das crianças é um espelho daquilo que nós não temos trabalhado como pessoas adultas, porque elas descobrem o corpo instintivamente. Quando são pequeninhas descobrem que têm o dedo gordo do pé e chupam-no, e mordem-no. Nós já o misturamos com: vão-se magoar, isso não é higiénico… Então, tal como vão crescendo as crianças vão fazendo cousas que nos incomodam a respeito da nossa ideia de sexualidade, e a maior parte de nós temos uma construção da sexualidade erotofóbica, muitos medos e preconceitos. Estamos com muito medo a que os firam, à violência sexual. Na maior parte das formações que figem saiu isso. Então, cada descoberta que faz o menor para ti é um sufoco, porque vês perigos, quando na verdade a questão é que quanto maior a descoberta, maior conhecimento das cousas.

O trecho de idade que colocas nos conteúdos do curso é de 0 a 6 anos. Quais achas então que seriam as características que singularizam a sexualidade na infância, e que não encontramos noutras idades da vida?

O que caracteriza a sexualidade de 0 a 6 é a exploração e a curiosidade, é o cérebro instintivo puro, gosto de tocar-me aqui, repito. Gosto de que a minha mãe me apanhe no colo, procuro-a. Procuro calor. Qualquer livro sobre educação sexual é em geral bastante aborrecido. Os mais teóricos falam da sexualidade como uma dimensão das emoções, mas muitas vezes, eu a primeira, não o acabamos de perceber. Nas formações feministas vemos que os miúdos têm um mestrado sobre o seu próprio corpo, e as meninas não. Porque os medos têm também essa componente de género. Então os meninos terão muita mais segurança à hora de relacionarem-se com outra gente, e as meninas menos, porque vão ser educadas noutro tipo de valores, que as restringem.

Nas formações feministas vemos que os miúdos têm um mestrado sobre o seu próprio corpo, e as meninas não. Porque os medos têm também essa componente de género. Então os meninos terão muita mais segurança à hora de relacionarem-se com outra gente, e as meninas menos, porque vão ser educadas noutro tipo de valores, que as restringem.

Então em 0-6 o mais básico é: que tenho?; para que serve? Quem são?, porque já as categorizam como menino, menina ou outro género; de que gosto? E o mais importante é sentir o calor. Ao virem de 0 anos o que mas experimentaram foi a sexualidade através da maternidade. O sabor da teta de mamai, gostar do colo, gostar do coleito. Aí é onde liberaram oxitocina. Então a parte mais porreira de 0 a 6 perde-se depois quando tens 15 e procuras a sexualidade adulta, deitar-te com alguém, despir-te. Tudo bem, mas com prazer? Não, baixo o mandato de género, que também percebo nas salas de aulas. As meninas dizem: como sobreviver a uma primeira vez? Com sangue, com dor. E quando já somos mais crescidas, como sobreviver a uma sexualidade como querem eles? E deixamos polo meio as apalpadelas, que gostamos que nos chuchem, que sintamos prazer. É como se isto se fosse perdendo. Oxalá a gente ficasse com que entre os 0 e 6  anos está a base de aprender a gostar e do desgosto. O binómio que mais incomoda, antes de sexualidade e infância, já é a sexualidade e a maternidade. É anterior e mais potente. Seja ou não um parto biológico, a maternidade vai acordar um monte de medos que havia aí na mamai, ou em quem criar. Só diria calor entre 0 e 6, calor e curiosidade, mas dá-nos medo, escapam-nos, há cousas inesperadas. A masturbação é das que mais saem. Masturba-se? Toca-se? Claro, ainda bem que se toca. O problema é como ordenas tu culturalmente quando, onde, diante de quem se toca. E tudo isso incomoda, porque tens que falar do tema. A grande pergunta é essa, quando o falo? Já o estás a fazer desde que chegou à tua vida. Então, a questão diferencial dos 0 a 6 são as apalpadelas que fazem com quem os cria, e é bué de fixe.

Só diria calor entre 0 e 6, calor e curiosidade, mas dá-nos medo, escapam-nos, há cousas inesperadas. A masturbação é das que mais saem. Masturba-se? Toca-se? Claro, ainda bem que se toca. O problema é como ordenas tu culturalmente quando, onde, diante de quem se toca.

Leio nos descritores do teu curso um ponto arredor da comunicação em relação com o corpo. Às vezes censuramos expressões de dor, por exemplo quando as crianças se mancam, com esse lugar comum que diz: não chores, que não foi nada. Que achas que ocorre aí?

Ocorre todo, estamos a lhe dizer à menina: apanda com o que há, não protestes. Estamos-lhe a amputar a conexão língua, estômago, coração. Para mim tem muito a ver com o tipo de feminismo que se pratica. Há pouco conheci Ana Requena, que escreveu Feminismo vibrante, e esta rapariga, com a qual coincido em idade, faz uma reflexão boíssima sobre que o feminismo, ou passa polo prazer, ou não vai. Nós vimos culturalmente de uma estrutura em que as mulheres que ousaram discutir o sistema passaram por muitíssima violência. E continua a estar penalizado que nos atrevamos a falar e opinar. Então com esse “não protestes que não é para tanto” pensamos que as estamos criando para a dureza que vão ter, e é verdade. Ser mulher não presta, é difícil, é um desafio social. Então quando lhes dizemos às meninas “não te queixes” dizemos-lhe: sê forte, sê valente, não esgotes a energia em parar-te a sentir, a protestar.

Sim, mas pensava-o muito concretamente em relação com o corpo. Que tipo de mensagem lhe estamos a dar?

Aguenta e chupa o que vinher, literalmente. Culturalmente, às mulheres o facto de calar serviu-nos para sobreviver. E, na verdade, o sexo socialmente está relacionado diretamente com a dor. Nas mulheres, não nos rapazes. Quanto puxas desse fio é quando te encontras com todo o húmus da violência sexual, em todas as famílias, em todo o sistema. Dá-me muita carragem isso, mas sim que lhes dizemos de milhões de maneiras: a tua voz, a tua opinião, não são importantes. Isso em relação com o corpo supõe desligar-te dele. Quando falas com uma grávida sobre como vai ser o parto, e diz: não quero saber nada, quero entrar e sair o antes possível de ali. Então, e falando do caso de mamai biológica, se analisamos gravidez e parto com certeza vamos encontrar violência obstétrica, com uma mãe que viveu uma violação durante o seu parto por parte dum conjunto de profissionais sanitários intitulados. E depois certamente que encontramos uma mãe a que lhe tutorizaram a criação. Possivelmente ela nunca conseguiu exercer o poder de criar um menino ou menina. Vamos encontrar uma mamai que, no melhor dos casos, tivo uma conexão com o seu bebé, esse “és parte de mim, estou para ti, são válida como mamai”, que não é o habitual. E depois está o prazer do corpo, o prazer de comer, por exemplo. Em muitas das oficinas que fago em grupos de apoderamento de mulheres, a comida ocupa muitíssimo espaço, porque não nos damos de conta de como forçamos os menores pela boca, muitíssimo. Talvez não sejam famílias da Semente, mas sim socialmente. Uma menina de três é forçada a comer determinada comida, determinada quantidade, até o ponto de meter-lhe a colher na boca. Todo isto com três anos não dá nas vistas, mas depois chegamos aos 15 e forçam para meter coisas na boca que ela não quer, e aceita. Ou para que tomem um medicamento, porque convencê-los é uma complicação. Então 0-6 dá para um montão de lugares que já ocorreram, e podem-nos chegar a dar um pouco o pânico sobre o que estivemos a fazer até agora sem nos dar de conta.

Uma menina de três é forçada a comer determinada comida, determinada quantidade, até o ponto de meter-lhe a colher na boca. Todo isto com três anos não dá nas vistas, mas depois chegamos aos 15 e forçam para meter coisas na boca que ela não quer, e aceita.

É percetível nos estudos sobre psicologia infantil e criação, uma certa divisão entre escolas que consideram determinante o papel das famílias e outras que destacam o do grupo de iguais. Que pensas disto?

Escola Foresta

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Quando falas do valor da família, as pessoas pensas que és de direitas, antiquada, ou até fascista. Há que dizer tribo. Penso que à família falta protagonismo de uma perspetiva de esquerdas, liberal, não no sentido do laissez faire, mas no de dar oportunidades. A família é quem te dá acesso aos iguais, é-o todo para o desenvolvimento de uma criança. E também a nós, custa apanhar esse poder. E dizemos: ai, olha, leva o menino à cantina porque assim ali aprende a comer bem. Ou: mando-o a inglês porque assim ali ensinam-lhe. E então tu que parte de acompanhamento vais fazer? Uma das perguntas mais difíceis que fago às famílias é: para que foste mãe de…? É uma pergunta muito dura, como uma encomenda que pôs aos teus descendentes. Em geral parece-me que não nos vemos como educadoras válidas. Somos mais do estilo A história de uma serva, mulheres que parimos para um modelo produtivo: parir, trabalhar, andar com estresse, a mil por hora. Também na maternidade, na criação, na família. E ao mesmo tempo para mim é importante falar do meu trabalho. A minha filha sabe que em terapia significa que há gente que se sente mal. E diz ela: talvez essa pessoa está triste mas já se sente melhor estando triste. Os iguais são importantes porque lhes põem balizas, porque aprendem a se relacionar noutras ligas. Mas as famílias delegamos muitíssimo, em coisas que podemos fazer nós. Agora Moraima diz-me: na escola vimos os planetas. E digo: ótimo, porque na casa já os víramos, já os conhecias. Mas está o medo a ser má mãe, não digamos já quando há uma estrutura de família heterossexual ou outras pressões no modelo familiar.

Por exemplo?

Espero que saia nessa formação um questionamento empático em relação com o modelo de amor que praticamos, com o modelo de família, de criação, porque esse é o que estamos validando ao educar. E é um modelo que às vezes está construído com palavras lesivas. É um efeito repetido que as mulheres que acompanho como psicóloga questionem o casal e o modelo de família. Exemplo: não tem cartão da biblioteca, e gostaria que o tivesse, que se ocupasse de coisas em que não tenho que pensar por ele. Afinal, o modelo que tu praticas é aquele do que vens, a não ser que o discutisses ou que te estorvasse. Então, sou contra o modelo de heterossexualidade? Ai não, ho. Deu-me duas crianças maravilhosas, mas havia ritmos de vida e ritmos intelectuais diferentes.

Na parte anterior desta formação estivemos falando com Xosé Cabido sobre a conformação das masculinidades e os danos do patriarcado. É a infância o momento de começar a trabalhar sobre estas questões com crianças? Como acompanhar a conformação de uma masculinidade não hegemónica sem que a autoestima destes meninos se veja afetada nas relações com o grupo?

Uma das maiores preocupações como mães é ter filhos varões, porque quando criamos, repetimos a estrutura de meninas vítimas, meninos agressores. Se tens um filho varão, tens medo de que repita esse modelo violento. Se virmos o sistema machista duma perspetiva do talento, vemos em que nos capacitou como as melhores. E foi em criar, em cuidar, mimar, expressar o afeto, ser próximas. E não é mau, porque aprendemos. Outra cousa é que seja uma obriga. Então nesse continuum de necessidades de todas as pessoas, vou ver essa possibilidade em todas as crianças, porque é um talento aprender a cuidar, ser valente, assumir riscos. Trata-se, antes de mais, de que os meninos sejam consciente dos privilégios, de que não é casual que se comportem assim, e também daquilo que lhes falta. Não vou castigar um rapaz porque fale na sala de aulas, porque isso é um privilégio maravilhoso, aprender que a tua voz é importante. Mas deve saber que se a apanhar muito, o resto não podem falar, porque ele ocupa o espaço. Vejo muita rapaziada que não quer repetir os privilégios, mas também não tem modelos em que se olhar.

Não vou castigar um rapaz porque fale na sala de aulas, porque isso é um privilégio maravilhoso, aprender que a tua voz é importante. Mas deve saber que se a apanhar muito, o resto não podem falar, porque ele ocupa o espaço. Vejo muita rapaziada que não quer repetir os privilégios, mas também não tem modelos em que se olhar.

Porque ser homem que racha com o modelo hegemónico também é um risco, vais ser expulso socialmente. Tanto amputar a língua como amputar a eles o coração é igual de doloroso. Em todos os projetos que vou fazer daqui a finais de ano os meninos são os protagonistas. Que eles digam o que necessitam, o que lhes falta, o que querem. Deixai em paz as meninas, que já têm interiorizado o discurso de que elas têm valor. Agora temos de dizer o mesmo aos miúdos. Mima, permite-te cuidar, estar quieto, ser mesmo preguiçoso. O outro dia, numa sala de aulas de 2º da ESO, dizia uma rapariga a um rapaz, procuro que ele aguente, falavam de uma broxada, de perder a potência sexual numa relação. E pensava na pressão para essa criança, que tem direito a não carregar com o prazer dela. Também por isso falava antes do modelo heterossexual, que tem que levar consigo que papai faga o choio porque, se não fizer, estorva, resta. Assim sendo, ou és neutro ou somas, porque a vida de um rapaz de género feliz é muito dura, igual que a de uma menina que quer ser ela. É o mesmo jugo para uma e para o outro. Vejo-o assim também criando um menino e uma menina. Quando vemos o Xurxo Fernandes de Pan Sen Fron, por exemplo, para o meu filho Martiño esse homem com os olhos pintados alarga o seu modelo de masculinidade. E repara em que há modelos em livros, em películas, em canções, que já estão a praticar um género feliz, ainda que custoso socialmente.

E também, como acompanhar o crescimento com as meninas? Como, sendo mães, podemos acompanhar tratando de superar a herança, em muitos casos uma história acumulada de repressão, medo e violência?

E para que lhas vais ocultar? O cérebro reptiliano é a parte que deteta se há perigo. Eu sou um coelho e tenho que reconhecer que as águias são predadoras para mim, ou podem sê-lo. Ocultar as violências é muito perigoso. É ao revés, outra cousa é a maneira em que lho ensinas. O livro Teoria King Kong [de Virginie Despentes] fala disso, de que tens que assumir como mulher que é muito provável que te agridam, também sexualmente. Tens duas opções, ficar na casa a calcetar, porque o medo pode contigo, ou sair à rua. A minha filha Moraima tem 7, e eu sou vereadora de Serviços Sociais e Igualdade em Rianjo. Diana Quer está em Assados, na nossa freguesia. Recordo explicar o caso à menina, adaptado à sua idade. Por que tínhamos postas as t-shirts de Rianjo em preto, que havia uma menina que morrera porque um homem entrara na sua vagina sem permissão. Quando ela tinha quatro anos nós já trabalháramos muito as questões de pedir licença e pôr nome às partes do corpo. Também, por exemplo, conto uma experiência de formação com um grupo de 4ºESO. Elas trabalharam sobre o facto de que negar-se podia ser um motivo de morte, e é algo que têm que saber. Decidiram que iam sair de festa juntas, rapazes e raparigas. Eles também aprenderam na formação que podiam ser vistos como agressores pelas suas colegas. E também que podiam protegê-las, com os seus privilégios. O cérebro necessita trabalhar com a inteligência de saber onde está o risco para ajudar na sobrevivência.

Ana Salgado

Ana Salgado

Ana Salgado nasceu em Loureiro, O Irixo, em 1974. Trabalha como professora de Língua e Literatura no Secundário. Foi coordenadora da Revista ProTexta, da Tempos Novos, e é mãe da María, que frequenta feliz as aulas da Semente Compostela.
Ana Salgado


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