Guimarães Rosa, excelente escritor do Brasil



Guimarães Rosa com Drummond de Andrade e Manoel Bandeira.

Guimarães Rosa com Drummond de Andrade e Manoel Bandeira.

O Brasil ganhou cinco copas do mundo em futebol, mas, desde 1901 até o dia de hoje, nunca algum dos seus cidadãos conseguiu o Prémio Nobel, em qualquer das seis áreas em que é distribuído. Este nosso grande país que é o Brasil, (e digo nosso porque pertence à nossa mesma área linguística da lusofonia), não tem mesmo nenhum prémio Nobel. Neste tema a situação é quase vexatória, e tal maldição não tem explicação alguma, pois, especialmente, nas rubricas da literatura e da paz, teve e tem destacados especialistas que bem mereciam ser premiados, antes que muitos outros que, com efeito, foram premiados. Para mim é muito grave a marginalização de que até agora tem sido objeto o Brasil na eleição das pessoas premiadas cada ano para a área da Literatura, campo em que o país do Amazonas tem tido ao longo dos tempos escritores de verdadeira valia e de categoria suficientemente contrastada. Embora seja verdade que nunca nenhum governo brasileiro se preocupou, nem fez nada, porque algum dos seus cidadãos fosse premiado com o Nobel, e menos literatos. Porque também é insultante o desprezo dos Comités do Nobel para com o nosso idioma internacional, o terceiro mais importante do mundo e o sexto em número de falantes. Só uma vez, desde 1901, foi premiado um escritor do nosso idioma, o português José Saramago em 1998. Por esta razão, dentro da série que estou a escrever sobre grandes personalidades da Lusofonia, quero dedicar os próximos meus depoimentos aos grandes literatos brasileiros, assim como aos portugueses. E inicio a minissérie por João Guimarães Rosa (1908-1967), admirado pelo nosso Valentim Paz Andrade (ao qual dedicou o livro publicado em 1978 intitulado A galecidade de Guimarães Rosa). Os seguintes depoimentos estarão dedicados a Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Joaquim Maria Machado de Assis, Bernardino Machado, Jorge de Lima e Gilberto Freyre, entre os brasileiros, e José Saramago, Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Fernando Pessoa, Gil Vicente e Almeida Garrett, entre os de Portugal.

PEQUENA BIOGRAFIA

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Fotografia de David Zingg

João Guimarães Rosa foi o terceiro ocupante da Cadeira número 2, eleito em 8 de agosto de 1963, na sucessão de João Neves da Fontoura e recebido pelo Acadêmico Afonso Arinos de Melo Franco em 16 de novembro de 1967. Com tal motivo, a Academia de Letras do Rio de Janeiro publicou no seu dia uma pequena biografia do académico, que tenho por bem reproduzir.

João Guimarães Rosa, contista, novelista, romancista e diplomata, nasceu em Cordisburgo-Minas Gerais, a 27 de junho de 1908, e faleceu no Rio de Janeiro, em 19 de novembro de 1967. Foram seus pais Florduardo Pinto Rosa e Francisca Guimarães Rosa. Aos 10 anos passou a residir e estudar em Belo Horizonte. Em 1930, formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais. Tornou-se capitão médico, por concurso, da Força Pública do Estado de Minas Gerais. Sua estreia literária deu-se, em 1929, com a publicação, na revista O Cruzeiro, do conto “O mistério de Highmore Hall”, que não faz parte de nenhum de seus livros. Em 1936, a coletânea de versos Magma, obra inédita, recebe o Prêmio Academia Brasileira de Letras, com elogios do poeta Guilherme de Almeida.

Diplomata por concurso que realizara em 1934, foi cônsul em Hamburgo (1938-42); secretário de embaixada em Bogotá (1942-44); chefe de gabinete do ministro João Neves da Fontoura (1946); primeiro-secretário e conselheiro de embaixada em Paris (1948-51); secretário da Delegação do Brasil à Conferência da Paz, em Paris (1948); representante do Brasil na Sessão Extraordinária da Conferência da UNESCO, em Paris (1948); delegado do Brasil à IV Sessão da Conferência Geral da UNESCO, em Paris (1949). Em 1951, voltou ao Brasil, sendo nomeado novamente chefe de gabinete do ministro João Neves da Fontoura; depois chefe da Divisão de Orçamento (1953) e promovido a ministro de primeira classe. Em 1962, assumiu a chefia do Serviço de Demarcação de Fronteiras.

guimaraes-rosa-capa-livro-grande-sertao-veredas-1A publicação do livro de contos Sagarana, em 1946, garantiu-lhe um privilegiado lugar de destaque no panorama da literatura brasileira, pela linguagem inovadora, pela singular estrutura narrativa e a riqueza de simbologia dos seus contos. Com ele, o regionalismo estava novamente em pauta, mas com um novo significado e assumindo a caraterística de experiência estética universal. Em 1952, Guimarães Rosa fez uma longa excursão ao Mato Grosso e escreveu o conto “Com o vaqueiro Mariano”, que integra, hoje, o livro póstumo Estas estórias (1969), sob o título “Entremeio: Com o vaqueiro Mariano”. A importância capital dessa excursão foi colocar o Autor em contato com os cenários, as personagens e as histórias que ele iria recriar em Grande sertão: Veredas. É o único romance escrito por Guimarães Rosa e um dos mais importantes textos da literatura brasileira. Publicado em 1956, mesmo ano da publicação do ciclo novelesco Corpo de baile, Grande sertão: Veredas já foi traduzido para muitas línguas. Por ser uma narrativa onde a experiência de vida e a experiência de texto se fundem numa obra fascinante, sua leitura e interpretação constituem um constante desafio para os leitores. Nessas duas obras, e nas subsequentes, Guimarães Rosa fez uso do material de origem regional para uma interpretação mítica da realidade, através de símbolos e mitos de validade universal, a experiência humana meditada e recriada mediante uma revolução formal e estilística. Nessa tarefa de experimentação e recriação da linguagem, usou de todos os recursos, desde a invenção de vocábulos, por vários processos, até arcaísmos e palavras populares, invenções semânticas e sintáticas, de tudo resultando uma linguagem que não se acomoda à realidade, mas que se torna um instrumento de captação da mesma, ou de sua recriação, segundo as necessidades do “mundo” do escritor.

Guimarães Rosa fez uso do material de origem regional para uma interpretação mítica da realidade, através de símbolos e mitos de validade universal, a experiência humana meditada e recriada mediante uma revolução formal e estilística. Nessa tarefa de experimentação e recriação da linguagem, usou de todos os recursos, desde a invenção de vocábulos, por vários processos, até arcaísmos e palavras populares, invenções semânticas e sintáticas, de tudo resultando uma linguagem que não se acomoda à realidade, mas que se torna um instrumento de captação da mesma, ou de sua recriação, segundo as necessidades do “mundo” do escritor.

Além do prêmio da Academia Brasileira de Letras conferido a Magma, Guimarães Rosa recebeu o Prêmio Filipe d’Oliveira pelo livro Sagarana (1946); Grande sertão: Veredas recebeu o Prêmio Machado de Assis, do Instituto Nacional do Livro, o Prêmio Carmen Dolores Barbosa (1956) e o Prêmio Paula Brito (1957); Primeiras estórias recebeu o Prêmio do PEN Clube do Brasil (1963).

Nota: Uma ampla e detalhada sua biografia pode ser consultada aqui.

FICHAS DOS DOCUMENTÁRIOS

0. Guimarães Rosa: Biografia (aula 1).
Duração: 11 minutos. Ano 2017.

1. Guimarães Rosa: Contexto histórico da geração de 45 (aula 2).
Duração: 10 minutos. Ano 2017.

2. Guimarães Rosa: Caraterísticas da escrita do autor (aula 3).
Duração: 69 minutos. Ano 2017.

3. Entrevista raríssima a Guimarães Rosa em Berlim (1962).
Duração: 7 minutos. Ano 2016.

4. Especial João Guimarães Rosa.
Duração: 27 minutos. Ano 2018. Entrevista à sua filha Vilma, pela Trilha de Letras.

5. Palestra sobre Guimarães Rosa.
Duração: 85 minutos. Ano 2012. Fala Nivaldo Cordeiro (São Paulo).

6. Introdução a João Guimarães Rosa.
Duração: 49 minutos. Ano 2016. Fala Paulo César Carneiro Lopes.

7. Sagarana, de João Guimarães Rosa.
Duração: 19 minutos. Ano 2019. Fala Léa Mara.

8. Sagarana, de Guimarães Rosa.
Duração: 106 minutos. Ano 2017. Produtora: Centro Cultural São Paulo.

9. A hora e a vez de Augusto Matraga, de João Guimarães Rosa.
Duração: 27 minutos. Ano 2016. Produtora: Carecas de Saber Videoaulas.

10. Guimarães Rosa, do sertão às fronteiras.
Duração: 57 minutos. Ano 2018. Produtora: Academia Brasileira de Letras.

11. A terceira margem do rio, de Guimarães Rosa.
Duração: 42 minutos. Ano 2016. Comenta: José Miguel Wisnik.

12. A terceira margem do rio: Análise completa (aula 7).
Duração: 87 minutos. Ano 2017. Fala: Léa Mara.

13. O espelho, de Guimarães Rosa: Análise completa (aula 8).
Duração: 75 minutos. Ano 2017. Fala: Léa Mara.

14. A filha de Guimarães Rosa.
Duração: 9 minutos. Ano 2014. Fala: Vilma Guimarães Rosa.

15. Museu Casa Guimarães Rosa.
Duração: 26 minutos. Ano 2016.

16. Campo geral, de Guimarães Rosa: Café Literário.
Duração: 76 minutos. Ano 2011.

17. Grande Sertão: Veredas.
Duração: 31 minutos. Ano 2014. Fala: Willi Bolle.

18. Há 110 anos, nascia o escritor João Guimarães Rosa.
Duração: 3 minutos. Ano 2018. Produtora: TVBrasil.

19. Desenredo, de João Guimarães Rosa.
Duração: 8 minutos. Ano 2018.

A OBRA LITERÁRIA DE GUIMARÃES ROSA

Guimarães Rosa, no Sertão de Minas Gerais, 1952 (Foto: Eugênio Silva/ O Cruzeiro)

Guimarães Rosa, no Sertão de Minas Gerais, 1952 (Foto: Eugênio Silva/ O Cruzeiro)

João Guimarães Rosa foi um homem de muitos talentos, embora seja consagrado por seu trabalho na literatura. Nascido em 1908 em Cordisburgo, cidade no interior de Minas Gerais que tem hoje cerca de 9 mil habitantes, desde pequeno ele se interessou pelo estudo das línguas. Falava e lia pouco mais de uma dezena (entre elas, esperanto e russo) e estudou a gramática de outras quantas, inclusive o tupi. A carreira de escritor de Guimarães Rosa começou com a publicação de contos em revistas, e em 1936 ele chegou a escrever um livro de poesias, Magma, que venceu um concurso da Academia Brasileira de Letras. Entretanto, o próprio autor o considerava “algo menor”. A primeira publicação que não foi renegada posteriormente por ele foi Sagarana, de 1946. Esta coletânea de contos chamou atenção na época pela linguagem inovadora e ajudou a colocar o regionalismo novamente em pauta, mas abordando questões existenciais universais. O nome Sagarana é um neologismo criado por Guimarães Rosa, com a junção das palavras “saga” e “rana”, que vem do tupi e quer dizer “semelhante a”. O significado da nova palavra seria “próximo a uma saga”. A sua produção literária mais importante é a seguinte:

Ilustração: Olavo Costa

Ilustração: Olavo Costa

-Sagarana, contos (1946).
-Com o vaqueiro Mariano, conto (1952).
-Corpo de baile, ciclo novelesco, 2 vols. (1956).
-Manuelzão e Miguilim (1964).
-No Urubuquaquá, no Pinhém (1965).
-Noites do sertão (1965).
-Grande sertão: Veredas, romance (1956).
-Primeiras estórias, contos (1962).
-Campo geral (1964).
-Tutameia (Terceiras estórias), contos (1967).
-Estas estórias, contos (1969).
-Ave, palavra, diversos (1970); além de obras em colaboração:
-O mistério dos MMM (1962) e Os sete pecados capitais (1964).

Nota: Sobre a sua obra literária merece a pena ler o texto que aparece aqui e também nesta ligação.

A PALAVRA DE GUIMARÃES ROSA

Apresento a seguir uma antologia de frases do escritor:

-“É preciso sofrer depois de ter sofrido, e amar, e mais amar, depois de ter amado”.
-“Se todo animal inspira ternura, o que houve, então, com os homens?”.
-“E um vaga-lume lanterneiro que riscou um psiu de luz”.
-“Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa”.
-“Felicidade se acha é em horinhas de descuido”.guimaraes-rosa-capa-livro-sobre-ele-por-paz-andrade
-“Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.
-“Para onde nos atrai o azul?”.
-“O mais importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, mas que elas vão sempre mudando”.
-“Saudade é ser, depois de ter”.
-“Infelicidade é uma questão de prefixo”.
-“Viver é um descuido prosseguido”.
-“Mas, onde é bobice a qualquer resposta, é aí-que a pergunta se pergunta”.
-“O rio não quer chegar, mas ficar largo e profundo…”.
-“Para ódio e amor que dói, amanhã não é consolo”.
-“Ah, mas a fé nem vê a desordem ao redor…”.

Um Poema: Soneto da saudade

Quando sentires a saudade retroar
Fecha os teus olhos e verás o meu sorriso.
E ternamente te direi a sussurrar:
O nosso amor a cada instante está mais vivo!
Quem sabe ainda vibrará em teus ouvidos
Uma voz macia a recitar muitos poemas…
E a te expressar que este amor em nós ungindo
Suportará toda distância sem problemas…
Quiçá, teus lábios sentirão um beijo leve
Como uma pluma a flutuar por sobre a neve,
Como uma gota de orvalho indo ao chão.
Lembrar-te-ás toda ternura que expressamos,
Sempre que juntos, a emoção que partilhamos…
Nem a distância apaga a chama da paixão.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um cinema-fórum, para analisar o fundo (mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a João Guimarães Rosa, excelente escritor do Brasil. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.

Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino um livro-fórum, em que intervenham alunos e docentes. Podia ser interessante, por encontrar-se a nossa escola na Galiza, escolher para a leitura o livro escrito por Valentim Paz Andrade, publicado em 1978 pelas Edições do Castro-Sada, sob o título de A galecidade de Guimarães Rosa. Poderiam valer também qualquer dos seus livros de contos e também o romance Grande sertão: Veredas, de que existe uma edição em 2005 na editora brasileira Nova Fronteira e outra de 2017 na Companhia das Letras.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.


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  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Há a literatura brasileira e logo está Guimarães Rosa…ele é um universo, um grandíssimo universo ele só

  • Jose Carlos Silva

    Um gênio das letras e um escultor de palavras, que é leitura obrigatória (difícil para muitos, mas obrigatória para todos). Ele entendeu a alma do sertanejo, a cultura dos povos do interior do Brasil. Parabéns José Paz pelo texto.