Graciliano Ramos, representante do modernismo literário do Brasil



a28img01Dedico o presente depoimento da série lusófona a outro grande escritor e literato do Brasil. Graciliano Ramos (1892-1953) foi o autor do romance Vidas Secas, a sua obra de maior destaque. É considerado o melhor ficcionista do Modernismo literário e o prosador mais importante da Segunda Fase do Modernismo. As suas obras embora tratem de problemas sociais do Nordeste brasileiro, apresentam uma visão crítica das relações humanas, que as tornam de interesse universal. Os seus livros foram traduzidos para vários idiomas do mundo. Vidas Secas, São Bernardo e Memórias do Cárcere, foram levados para o cinema. Recebeu o Prémio da Fundação William Faulkner, dos EUA, pela obra Vidas Secas. Em Ourense foram projetados no seu dia, respetivamente pelos cineclubes “Padre Feijóo” e o “Minho” da ASPGP, dous filmes baseados em duas obras deste literato: Vidas secas, realizado por Nelson Pereira dos Santos em 1963, e Memórias do cárcere, realizado em 1984 pelo mesmo diretor. O presente depoimento faz o número 50 da série que estou a dedicar aos grandes vultos da Lusofonia.

Alguns dados biográficos e literários

A brasileira Dilva Frazão escreveu no seu dia uma pequena e interessante biografia do escritor brasileiro, que coloco a seguir.
Graciliano Ramos nasceu na cidade de Quebrângulo, Alagoas, no dia 27 de outubro de 1892. Filho de Sebastião Ramos de Oliveira e Maria Amélia Ferro Ramos era o primogênito de quinze filhos, de uma família de classe média do Sertão nordestino. Passou parte de sua infância na cidade de Buíque, em Pernambuco, e parte em Viçosa, Alagoas, onde estudou no internato da cidade.
Em 1904 publicou no jornal da escola seu primeiro conto O Pequeno Pedinte. Em 1905 mudou-se para Maceió, onde fez seus estudos secundários no Colégio Interno Quinze de Março, onde desenvolveu maior interesse pela língua e pela literatura. Em 1910 foi com a família morar em Palmeira dos Índios, Alagoas, onde seu pai abriu um pequeno comércio. Em 1914 foi para o Rio de Janeiro, quando trabalhou como revisor dos jornais Correio da Manhã, A Tarde e em O Século. Voltou para a cidade de Palmeira dos Índios, onde duas irmãs tinham falecido de peste bubônica, em 1915. Trabalhou com o pai no comércio. No ano seguinte, casou-se com Maria Augusta Barros, com a que teve quatro filhos.
Em 1928, Graciliano Ramos foi eleito prefeito da cidade de Palmeira dos Índios. Nesse mesmo ano, já viúvo, casou-se com Heloísa de Medeiros, com quem teve quatro filhos. Em 1930, deixou a prefeitura e mudou-se para Maceió, onde assumiu a direção da Imprensa Oficial e da Instrução Pública do Estado.

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Graciliano com as netas Sandra (à esquerda) e Vânia (à direita), Rio de Janeiro, 1949 (Fundo Graciliano Ramos do Arquivo IEB/USP / GR-F13-001)

Graciliano Ramos estreou na literatura em 1933 com o romance Caetés. Nessa época mantinha contato com José Lins do Rego, Raquel de Queiroz e Jorge Amado. Em 1934 publicou o romance São Bernardo, e em 1936 publicou Angústia. Nesse mesmo ano, ainda no cargo de Diretor da Imprensa Oficial e da Instrução Pública do Estado, foi preso, sob a acusação de que era comunista. Ficou nove meses na prisão, sendo solto, pois não encontraram provas. Em 1937, Graciliano Ramos mudou-se para o Rio de Janeiro. Foi morar em um quarto de pensão com a esposa e as filhas menores. Em 1939 foi nomeado Inspetor Federal de Ensino. Em 1945 ingressou no Partido Comunista. Em 1951 foi eleito presidente da Associação Brasileira de Escritores. Em 1952 viajou para os países socialistas do Leste Europeu, experiência descrita na obra Viagem, publicada em 1954, após sua morte.
Graciliano é considerado o mais importante ficcionista do Modernismo, fez parte do grupo de escritores que inaugurou o realismo crítico, representando os problemas brasileiros em geral ou específicos de determinada região. Trata-se de uma literatura que traz para a reflexão problemas sociais marcantes do momento em que os romances foram escritos. Literatura destinada a provocar a conscientização, o romance regionalista tem como lema criticar para denunciar uma questão social.

 

Graciliano é considerado o mais importante ficcionista do Modernismo, fez parte do grupo de escritores que inaugurou o realismo crítico, representando os problemas brasileiros em geral ou específicos de determinada região. Trata-se de uma literatura que traz para a reflexão problemas sociais marcantes do momento em que os romances foram escritos. Literatura destinada a provocar a conscientização, o romance regionalista tem como lema criticar para denunciar uma questão social.

A preocupação com a linguagem é o traço peculiar do escritor. O interesse de sua narrativa está centrado na problemática do homem. O interesse está diretamente voltado para o comportamento, atitudes e conduta humana, e a descrição da paisagem nasce da própria caracterização psicológica dos personagens: Vidas Secas (1938) é considerada a obra-prima de Graciliano Ramos. Narra a história de uma família de retirantes nordestinos, que atingida pela seca é obrigada a perambular pelo sertão, em busca de melhores condições de vida. A obra pretende mostrar a tirania da terra cruel, atuando sobre o homem.
Graciliano Ramos escreve também obras autobiográficas, onde reúne acontecimentos e cenas selecionadas pela memória, revestidas de extrema subjetividade. Nessa linha destacam-se Infância (1945) e Memórias do Cárcere (1953), onde o autor retrata as experiências dolorosas de sua vida durante os nove meses em que esteve preso.
Graciliano Ramos faleceu no Rio de Janeiro, no dia 20 de março de 1953.
Para informar-se mais sobre a vida e obra de Graciliano Ramos podem consultar-se a wikipedia, a web todamateria.com, a Brasilescola, ou ainda releituras, infoescola, coaldaweb, pensador.com, na revista galileu e também no seu próprio portal graciliano.com

FICHAS DOS DOCUMENTÁRIOS

0. Graciliano Ramos: Biografia.
Duração: 19 minutos. Ano 2018.

1. Documentário sobre Graciliano Ramos.
Duração: 35 minutos. Ano 2012. Produtora: Mandala Filmes.

2. Entrevista sobre Graciliano Ramos (20-3-2013).
Duração: 6 minutos. Ano 2013. Produtora: Jornal Futura.

3. Graciliano Ramos.
Duração: 12 minutos. Ano 2017.

4. Graciliano Ramos: Angústia.
Duração: 38 minutos. Ano 2019. Guia do Estudante.

5. Graciliano Ramos: Infância.
Duração: 12 minutos. Ano 2020.

6. Angústia de Graciliano Ramos.
Duração: 17 minutos. Ano 2019. Literabrasil.

7. São Bernardo de Graciliano Ramos.
Duração: 10 minutos. Ano 2019.

8. Para Ler…Graciliano Ramos.
Duração: 4 minutos. Ano 2014.

9. Graciliano Ramos, exemplo para aula de literatura sobre Modernismo.
Duração: 6 minutos. Ano 2012.

10. Sessenta anos sem Graciliano Ramos: De Lá pra Cá.
Duração: 26 minutos. Ano 2013. Produtora: TVBrasil.

11. Graciliano Ramos: Literatura sem bijouterias.
Duração: 29 minutos. Ano 2011. TVEscola.

12. Únicas imagens em vídeo de Graciliano Ramos conhecidas.
Duração: 2 minutos. Ano 2013.

13. Vidas secas de Graciliano Ramos.
Duração: 8 minutos. Ano 2013.

14. Entrevista com Graciliano Ramos.
Duração: 7 minutos. Ano 2015. Cultura Nacional.

15. Casa Museu Graciliano Ramos.
Duração: 26 minutos. Ano 2016.

Nota: Filmes cujos roteiros estão baseados em obras de Graciliano Ramos:
1. São Bernardo: Diretor: Leon Hirzsman (Brasil, 1972, 114 min., cor).
2. Vidas Secas: Dtor.: Nelson Pereira dos Santos (Brasil, 1963, 103 min., preto e branco).
3. Memórias do Cárcere: Dtor.: N. Pereira dos Santos (Brasil, 1984, 185 min., cor).
4. Alexandre e Outros Heróis: Dtor.: Luiz F. Carvalho (Brasil, 2013, 50 min., cor).

A OBRA LITERÁRIA DE GRACILIANO RAMOS

Graciliano Ramos tem uma interessante obra literária em língua portuguesa. Com muitas traduções dos seus livros realizadas para outros idiomas do mundo.
Narrativa
-Caetés (1933), com edição especial 80 anos em 2013.
-São Bernardo (1934).graciliano-ramos-capa-livro-memorias-do-carcere
-Angústia (1936), com edição especial 75 anos em 2011.
-Vidas Secas (1938), com edição especial 70 anos em 2008.
-Vidas Secas, em quadrinhos (2015).
-Infância (1945).
-Insônia (1947).
-Memórias do cárcere (1953).
-Viagem (1954).
-Linhas tortas (1962).
-Viventes das Alagoas (1962).
-Garranchos (2012).
-Cangaços (2014).
-Conversas (2014).
-Brandão entre o Mar e o Amor (1942). Romance produzido coletivamente.

Literatura para crianças
-A Terra dos Meninos Pelados (1939).
-Histórias de Alexandre (1944).
-Alexandre e Outros Heróis (1962).
-O Estribo de Prata (1984).
-Minsk (2013).

Coletâneas de Contos
-Dois Dedos (1945).
-Histórias Incompletas (1946).

Correspondência
-Cartas (1980).
-Cartas de Amor a Heloísa (1992).

Traduções realizadas
-Memórias de um negro (1940), de Booker T. Washington.
-A Peste (1950), de Albert Camus.

A PALAVRA DE GRACILIANO RAMOS

Apresento a seguir uma antologia das suas mais lindas frases e pensamentos:
-“A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso. A palavra foi feita para dizer.” (Em entrevista a Joel Silveira, 1948).
-“A arte é a antítese da sociedade.” (Vidas secas).graciliano-ramos-capa-livro-para-criancas
-“Escolher marido por dinheiro. Que miséria! Não há pior espécie de prostituição.” (Angústia).
-“Se a única coisa que de o homem terá certeza é a morte; a única certeza do brasileiro é o carnaval no próximo ano.” (Angústia).
-“A água lava tudo, as feridas mais graves cicatrizam.” (Angústia).
-“Se a igualdade entre os homens, que busco e desejo, for o desrespeito ao ser humano, fugirei dela.” (Angústia).
-“É fácil se livrar das responsabilidades. Difícil é escapar das consequências por ter se livrado delas.” (Angústia).
-“A primeira coisa que nos diz uma obra de arte é que o mundo da liberdade é possível, e isso nos dá força para lutar contra o mundo da opressão.” (Vidas secas).
-“As mulheres não são de ninguém, não têm dono.” (Angústia).
-“Quando se quer bem a uma pessoa a presença dela conforta. Só a presença, não é necessário mais nada”.
-“Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões”.
-“Queria endurecer o coração, eliminar o passado, fazer com ele o que faço quando emendo um período, riscar, engrossar os riscos e transformá-los em borrões, suprimir todas as letras, não deixar vestígio de ideias obliteradas”.
-“Dizes que brevemente serás a metade de minha alma. A metade? Brevemente? Não: já agora és, não a metade, mas toda. Dou-te a minha alma inteira, deixe-me apenas uma pequena parte para que eu possa existir por algum tempo e adorar-te”.
-“Mas é bom um cidadão pensar que tem influência no governo, embora não tenha nenhuma. Lá na fazenda o trabalhador mais desgraçado está convencido de que, se deixar a peroba, o serviço emperra. Eu cultivo a ilusão”.
-“É o processo que adoto: extraio dos acontecimentos algumas parcelas; o resto é bagaço”.
-“Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício”.
-“Mas no tempo não havia horas”.
-“Só posso escrever o que sou. E se os personagens se comportam de modos diferentes, é porque não sou um só”.
-“Não há talento que resista à ignorância da língua”.
-“Só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida”.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um cinema-fórum, para analisar o fundo (mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.
Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Graciliano Ramos, grande escritor brasileiro. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.
Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino um Livro-fórum, em que intervenham alunos e docentes. Da listagem de obras de Graciliano Ramos podemos escolher para ler uma dentre as seguintes: Angústia (1936), Vidas Secas (1938), Infância (1945) ou Memórias do Cárcere (1953).

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.


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  • Paulo Soriano

    Ótimo artigo. Parabéns!
    Uma pequena observação, se me permitem. A escritora Dilva Fazão, fonte da pesquisa realizada pelo articulista, incidiu num pequeno equívoco no que tange ao nome da cidade onde Graciliano Ramos Nasceu. Ela não se chama “Quebrângulo” (com acento cincunflexo na letra “e”), mas “Quebrangulo”.