AS AULAS NO CINEMA

Gabriela Mistral, educadora e poeta, segundo o filme ‘A Gabriela’ e vários documentários



Gabriela Mistral

Gabriela Mistral

A poeta Lucila Godoy Alcayaga (1889-1957), melhor conhecida por nós como Gabriela Mistral, iniciou a sua carreira literária à par da sua carreira docente. Com 21 anos de idade começou a lecionar aulas para crianças na educação básica. A sua admirável vocação não decaiu com a sua consagração poética, pois sempre expôs uma férrea defesa da educação pública e das responsabilidades estatais para melhora-la. Obteve o prémio Nobel de Literatura em 1945, e seu fervor magisterial se manteve intato. Seu pai era mestre de ensino primário e o livro que marcou a sua infância foi a Bíblia, que quase chegou a aprender de memória. Antes de examinar-se na Escola Normal de Santiago de Chile, e mais tarde obter o diploma de professora de castelhano pela universidade chilena, exerceu como mestra em muitas escolas com ordenados bastante baixos. Nunca chegou a abandonar o seu labor docente e são muito numerosas as suas obras de caráter pedagógico. Em 1922 saiu de Chile (ao qual só voltaria em contadas ocasiões), convidada pelo governo mexicano e o seu ministro da educação e cultura, o tagoreano José Vasconcelos, para colaborar no desenvolvimento dos planos da reforma educativa mexicana e na organização e fundação de bibliotecas populares, resultado da recente revolução no país. O seu labor pedagógico no México foi realmente extraordinário. Tanto como mestra, como formadora de formadores, levando para a frente o modelo educativo das Escolas Novas e da Instituição Livre do Ensino de Giner e Cossío, de que tanto gostava, e mesmo do modelo educativo de Tagore, de que era grande admiradora e leitora, e ao qual conheceu pessoalmente em 1930 em Nova Iorque. É muito significativa a carta de convite de Vasconcelos para que Gabriela Mistral vá em ajuda do ensino mexicano. Entre outras cousas lhe diz: “Se eu lhe continuasse a dizer o que México sente e tudo o que de você espera, não terminaria nunca: Você mesma vai olhar outras cousas que tal vez nós não tenhamos olhado e você não há de sentir-se coibida para comunicar-nos seu pensamento, porque por cima dos seus sentimentos, da sua cortesia, estão os seus deveres de mestra que diz a verdade conforme ao seu limpo coração”.

Em 1926 vinculou-se à Liga das Nações, onde foi nomeada secretária do Instituto de Cooperação Intelectual da Sociedade das Nações, com sede em Genebra. Em setembro deste ano, foi designada para ocupar um importante cargo no conselho administrativo do Instituto Cinematográfico Educativo, criado em Roma pela Liga. Em 1927 representou à Associação de Professores de Chile no Congresso das Escolas Novas celebrado em Locarno (Suiça). No mesmo ano, participou no Congresso de Proteção da Infância em Genebra. Em 1928 assistiu, representando o Chile e o Equador, ao Congresso da Federação Internacional Universitária de Madrid. Gabriela Mistral foi ademais pioneira na defesa dos direitos das crianças e das mulheres, e a educação de estas. Para ela os pedagogos modelo eram Decroly e Tagore, aos quais chegou a conhecer, e também Jesus e Tolstoi. Mais tarde, em 1933, iniciou a sua carreira de diplomata, como cônsul do Chile. Dirigiu os consulados de Madrid (1933), Lisboa (1935), Guatemala (1936), Niza (1938), Niterói (1940), Petrópolis (1941) esteve nos consulados de Brasil, Los Angeles, Santa Bárbara, Génova, Porto, Barcelona, Nápoles, Nova Iorque e, por último, no de Veracruz no México (1948). Destinou os direitos económicos das suas edições para os albergues e centros de acolhida das crianças na Guerra Civil espanhola. Por expresso desejo no seu testamento decidiu que os direitos económicos das suas obras publicadas na América fossem para as crianças de Montegrande no Chile.

No México Gabriela Mistral incorporou-se às Missões Pedagógicas rurais, que dirigia a educadora Elena Torres, similares às criadas durante a República em Espanha, sob a direção de Cossío. As atividades das mesmas iniciaram-se em La Sierra mexicana, e foram de grande transcendência para o progresso e desenvolvimento da educação nas áreas rurais do país asteca. Ajudou ademais a que as Normais do México incorporassem os modelos educativos das Escolas Novas e os métodos da Escola Ativa. Também colaborou na criação de escolas noturnas para os trabalhadores, e de escolas ambulantes, que levavam de aldeia em aldeia a cultura e a educação. As suas reflexões sobre a educação assinalam a necessidade de fortalecer a trilogia educativa de mestres, alunos e pais de família, numa escola aberta e comprometida com o seu contexto social. O seu labor pedagógico, especialmente no México, a sua defesa das crianças, das mulheres e dos trabalhadores, tiveram uma grande repercussão na América Latina e também na Europa.

FICHAS TÉCNICAS DO FILME E DOS DOCUMENTÁRIOS: (Título Original = T.O.)

1.-T.O.: La Gabriela (A Gabriela). Longa-metragem, que foi também um telefilme para a TVN do Chile.

  • Gabriela filme foto01Diretor: Rodrigo Moreno del Campo (Chile, 2009, 90 min., a cores).
  • Nota: O filme pode ver-se na sua íntegra em Youtube
  • Atores: Ximena Rivas (Gabriela Mistral / Lucila Godoy), Tamara Acosta (Palma Guillén), Carolina Varleta (Laura Rodig), Iván Inzunza (Yin Yin), Hugo Vásquez (Manuel Magallanes Moure), Carmen Disa Gutiérrez (Petronila Alcayaga), Mireya Moreno (a avó de Gabriela), Eduardo Paxeco (Romelio Ureta), Mariana Muñoz (Emilina), Catherine Mazoyer (Victoria Ocampo), Carolina Soltmann (Doris Danna), Fernando Olivares (homem que fala mal de Gabriela), Margarita Llanos (Professora de Lucila), Elvis Fuentes (Carlos), Isidora Cabezón (noiva de Yin Yin) e Teresa Hales (jornalista brasileira).
  • Argumento: O filme conta a história da poeta, escritora e educadora Gabriela Mistral, pseudónimo de Lucila Godoy. Baseado na sua vida, reconstrói-se a mesma, as suas viagens como diplomata, o relacionamento com o seu filho adotivo Yin Yin, até chegar a receber o Prémio Nobel de Literatura. O filme é muito realista e sem rodeios, que retrata a vida de uma mulher igual de franca e valente, uma chilena que não foi profeta na sua terra e que sofreu mais perdas das necessárias, que obteve o Nobel de Literatura, a primeira da América Latina, e que recebeu de impecável luto aveludado, porque assim deve ter sido o seu sofrimento suave e silencioso como passos sobre um macio tapete feito de poesia desconsolada, uma dor calada pelo costume da expressão escrita e a boca fechada. Um mal-estar de anjo terrível que nem a si mesmo se suportava, mas que dava a luta por pura coragem e sobretudo por teimosia, sim, sobretudo isso, uma insondável obstinação por continuar incomodando à vida.

2.-T.O.: Mi Valle del Elqui (Gabriela Mistral) (O meu Vale do Elqui (Gabriela Mistral)). Documentário.

  • Diretor: Rafael Sánchez (Chile, 1971, 29 min., a cores).
  • Roteiro: Rafael Sánchez. Produtora: Escola de Artes da Comunicação da Univ. Católica de Chile.
  • Fotografia: Andrés Martorell de Llanza, René Kocher e Sergio Allendes. Música: R. Sánchez.
  • Som: Graciela Bresciani e Mª Eugenia Rodríguez.
  • Voz em “off”: Alicia Quiroga, Paz Irarrázabal e Marcelo Fortín.
  • Argumento: Documentário de homenagem a Gabriela Mistral através de alguns poemas e os lugares em que ela morou. Tratam-se aspetos profundos e íntimos da sua vida que significaram a manifestação da forte expressividade na sua poesia.

3.-T.O.: Adiós a Gabriela Mistral (1957) (Adeus a Gabriela Mistral (1957)). Documentário.

  • Diretor: Boris Hardy (Chile, 1975, 17 min., Preto e Branco).
  • Produtora: Emelco Chilena.
  • Fotografia: Luis Bernal, Mario Ferrer, Jorge e Óscar Gómez, Sergio Mihovilovic e Jorge Rodríguez.
  • Argumento: Falecida em Nova Iorque em 1957, chegam ao Chile os restos de Gabriela Mistral a 18 de janeiro, sendo expostos durante 39 horas na Universidade do Chile. Podem ver-se imagens da sua vida. A cerimónia fúnebre está a cargo do cardeal José Mª Caro na Catedral Metropolitana, e depois efetuam-se os funerais no Cemitério Geral, depois de ser homenageada por 200 mil pessoas.

4.-T.O.: Gabriela del Elqui, Mistral del mundo (Gabriela do Elqui, Mistral do mundo), com o subtítulo: El misterio de una cigarra. La poeta. La madre. La maestra. La amante. La luchadora. La pensadora. Lo que nunca se ha visto, lo que nunca se ha dicho. Documentário.

  • Diretor: Luis R. Vera (Chile, 2005, 89 min., a cores).
  • Roteiro e produção: Luis R. Vera. Montagem: Mario Solís e Luis R. Vera.
  • Fotografia: Raquel Baeza. Música: Esrnesto Calderón. Som: Jaime Molina.
  • Argumento: No documentário foca-se a figura de Gabriela Mistral. A reconstrução da sua biografia tem dous grandes acertos: primeiro, conseguir entrevistar Doris Dana, testamentária da poeta falecida em 2006, a qual dá pistas da sua personalidade mistura de tímida e extravagante; e, segundo, não cede à tentação de enveredar pela batida e algo desnecessária hipótese de lesbianismo da Mistral, embora tampouco sacuda a água do capote. Vera recolhe testemunhos no México, Brasil, Noruega, Itália e EUA, e no relato da sua biografia não deixa de surpreender-se com a constatação do “apoucamento” que se faz no Chile à sua atitude contestatária, e como contrasta isso com o carinho e a lembrança que têm de ela em todos esses países. Embora Vera não consiga livrar-se dos mesmos molestos planos de desfocados dos seus anteriores filmes. No entanto, este filme está construído com grande seriedade, não oculta o seu afeto pela poesia que apresenta e, embora se trate dum documentário bastante convencional nas formas, é tão intensa a personalidade da retratada que isso eleva este trabalho muito por cima dos antes realizados.

5.-T.O.: Grandes chilenos: Gabriela Mistral. Documentário.

  • Realização e produção: TV Nacionalde Chile (Chile, 2008, 58 min., a cores e P. e Branco).
  • URL do Filme
  • Argumento: Com uma marcada consciência social e de opinião politicamente incorreta para a época, Gabriela Mistral foi uma comprometida educadora de escolas rurais e falou abertamente sobre o indigno papel da mulher e as desigualdades sociais. A mulher que medrou em Vicuña, transformou-se numa das maiores poetas do Chile e do mundo. A 10 de dezembro de 1945, viajou à Suécia para ser a primeira representante da literatura latino-americana em ganhar o Prémio Nobel de Literatura. Faleceu a 10 de janeiro de 1957 em Nova Iorque, uma grande chilena que abriu as portas da literatura do país andino ao resto do mundo.

6.-T.O.: Locas mujeres (Loucas mulheres). Documentário.

  • Diretora: Mª Elena Wood (Chile, 2010, 72 min., a cores).
  • Roteiro: Mª Elena Wood e Rosario López. Montagem: Sophie França.
  • Produtora: Wood Producciones, S.A. Produtor executivo: Patrício Pereira.
  • Fotografia: Gabriel Díaz. Música: Camilo Salinas. Sóm: Miguel Hormazábal.
  • Argumento: Estamos perante uma longa-metragem documentário que explora o mundo interior da educadora e poeta chilena Gabriela Mistral e o seu relacionamento amoroso com a norte-americana Doris Dana, à qual conhece quando acredita que já o único que lhe fica é morrer. A escritora ganhou o Nobel, mas não se sobrepõe à grande tragédia da sua vida: o suicídio do seu único filho adotivo Yin Yin. Em Doris, Gabriela encontra o que sempre lhe foi esquivo, amar e sentir-se amada. Com ela forma uma família e um lar em Roslyn, Long Island. Consciente de que a sua companheira em breve já não vai estar, Doris regista as conversações com Gabriela e os amigos que chegam a casa. Essas gravações são a nossa chave de acesso ao universo afetivo de uma mulher que vive em permanente tensão com os seus diabos internos e cuja sensibilidade e ambição a convertem em protagonista da sua época.

7.-Projetos de novos filmes:

A personalidade de Gabriela Mistral é tão extraordinária, a sua obra de poeta e educadora tão grandiosa, a sua vida tão rica em matizes e a sua peregrinagem pelo mundo tão prolongada, que a convertem num tema muito atrativo para o cinema e para levar às imagens fílmicas. Por isto, ademais da rica filmografia que já temos sobre ela, continua havendo projetos para realizar novos filmes a ela dedicados. E, entre eles temos os seguintes:

La Mistral (“Gabriela Mistral y los maestros de México”). A filmar em México e Chile, segundo o roteiro de Waldemar Verdugo Fuentes, com a interpretação da Angélica Aragón, no papel da educadora-poeta.

La Pasajera (A Passageira). Segundo o roteiro de Francisco Casas, e a interpretação de Claudia Celedón, a realizar em México.

SÍNTESE DAS SUAS IDEIAS EDUCATIVAS:

Gabriela Mistral

Gabriela Mistral

É muito difícil, num pequeno depoimento como o presente, desenvolver o rico e amplo pensamento pedagógico de Gabriela Mistral, com grande influência dos modelos educativos progressistas do século XX, já mencionados antes. Existe muita documentação na internet, que merece a pena consultar. De forma sintética, apresento a seguir os seus aspetos, princípios e pensamentos educativos, que levou ademais à prática nas múltiplas escolas e aulas, nas quais desenvolveu o seu labor docente, em especial no Chile, México, Porto Rico e EUA.

– O Educador deve expressar sempre a sua alegria na tarefa escolar diária. É muito difícil ser bom mestre se não se tem alegria.

– O Mestre deve ensinar sempre: no pátio, na rua, na sala de aula. E ensinar com a atitude, o gesto e a palavra, amenizando o seu ensino com a palavra formosa, a anedota oportuna e o relacionamento do conhecimento com a vida.

– O Mestre é um modelador de seus alunos, igual que o artista modela as suas obras. Os dedos do modelador devem ser ao mesmo tempo firmes, suaves e amorosos.

– O amor aos alunos é muito importante, pois ensina mais caminhos a quem ensina, que a pedagogia.

– A rotina e o estatismo são funestos no exercício pedagógico. O tédio e a monotonia devem desterrar-se das aulas dos nossos estabelecimentos de ensino. Jamais deve fazer o mestre o que a criança pode fazer por si mesma, autonomamente.

– É fundamental desenvolver entre os estudantes a paixão por ler. O mestre que não lê, nunca é bom docente, pois rebaixa a sua profissão ao mecanismo do ofício, ao não renovar-se espiritualmente. A educadora chilena teve sempre a preocupação de fomentar o amor pela leitura entre os estudantes e escreveu guias e roteiros, além de poemas sobre o tema, com conselhos para os docentes. Mesmo recomendando leituras concretas a fazer: Plutarco e Tolstoi, por serem singelos; Tagore, Reclus, Fabre e Balzac pela sua claridade; Shakespeare e Romain Rolland, por serem democráticos; Cantú, Wells e Papini pela sua amenidade e, especialmente, a Bíblia pela sua augusta naturalidade. Recomendou ademais a leitura de livros ilustrados de viagens, biografias singelas e não eruditas, obras divulgativas da cultura nacional e fazer edições económicas dos escritores nacionais, para que sejam conhecidos por mestres e educandos.

– Importância do labor do bibliotecário: deve saber contar relatos e fábulas às crianças, saber fazer a descoberta dos gostos dos leitores, sugerir e não impor, deve ser um amante dos livros, conhecer bem a literatura infantil e juvenil, para poder orientar. No México, em 1923 e 1924, publicaram-lhe dous livros: Ronda para crianças e Leituras para mulheres, dos quais se imprimiram 20 mil exemplares. Recopilou em prosa e verso 100 autores clássicos e modernos e 19 textos seus.

– Sobre a disciplina na sala, nada é mais difícil que medir na aula até onde chegam a amenidade e a alegria, e onde começa a charlatanaria e a desordem.

– É importante realizar dentro da escola a igualdade e a cultura, pois onde se hão poder exigir ambas?

– A honradez e a equidade são fundamentais, pois mais pode ensinar um analfabeto que uma pessoa sem honradez e equidade.

– Saber corrigir. Para isso não há que ter medo. O pior mestre é o mestre com medo. Mas, a correção deve fazer-se sempre com a forma devida, com suavidade, sem deprimir nem envenenar a alma da criança.

– Os vícios e os mestres: Todos os vícios e a mesquinhez dum povo são vícios dos seus mestres. Daí a importância de que o comportamento e conduta do mestre sejam dignos. Deve ser em todo o momento um modelo que possam imitar seus alunos.

– O progresso e desprestígio das escolas é responsabilidade de todos: professores, alunos, pais e cidadãos. Por isso, a vida dos estabelecimentos de ensino não deve ser fria e só no seu interior. Deve derramar-se para fora em forma de cooperação com as atividades locais e de comunicação das suas aspirações. Importância das instituições desportivas, intelectuais, artísticas, bibliotecas, museus… que devem conhecer os estudantes.

– O Mestre e sua crítica: Há direito à crítica, mas, depois de ter feito com sucesso o que se critica. Tudo pode dizer-se, mas há que dar com a forma devida, adequada e edificadora.

– O decoro no vestir: o mestre deve cuidar a sua higiene pessoal e o asseio no seu corpo e na sua vestimenta.

– O respeito ao horário: não alterá-lo por comodidade pessoal, pois isso ensina a desordem e a falta de seriedade.

– O Mestre e a escola: é preciso considerar a escola, não como casa só de um, mas como casa de todos.

– O Mestre e a direção escolar: deve fazer-se desnecessário o controlo do seu labor pela direção. Para isso, o docente deve gerar confiança no que faz, fazer-se necessário e tornar-se indispensável.

– Frente ao ensino tradicional está a nova educação da imagem e a palavra. Saber como incorporar os novos recursos didáticos ao ensino: o cinema, a TV, a rádio… Gabriela Mistral dá-lhes uma importância enorme, e mesmo escreveu destacados textos sobre este tema. Mas há que saber usá-los, e no momento oportuno.

– Organizar as aulas ao ar livre, quando o clima o permita. Nisto nota-se a influência que teve de Tagore com a sua Santiniketon, e de Decroly que lhe comentava que não entendia como, com um clima tão estupendo como o da América Latina, não se organizavam aulas ao ar livre.

– Organizar atividades ecológicas de hortos e coutos escolares. De forma maravilhosa conta a sua experiência pessoal e as suas impressões de quando fez a sua primeira visita a uma escola muito humilde do México, que tinha por nome Escola “Francisco I. Madero”. G. Mistral escreveu: “Mesmo ao chegar, vejo uma multidão de crianças, pobrezinhas, esfarrapadas, fazendo labores de horto e couto escolar: regavam, removiam a terra, tiravam as más ervas, entre um rumor jubiloso de colmeia de outubro. Fui aproximando-me desorientada primeiro. Uma hora depois o meu estado de alma era um respeito e um fervor religioso pelo que estava a ver. Tinha diante de mim realizada em terra mexicana a escola que sonhou Leão Tolstoi e que fez Tagore na Bengala indiana: a racional escola primária agrícola, que devera formar oitenta por cento das escolas dos nossos países, sonho meu desde que tinha quinze anos”. Por um tempo ficou nesta escola mantendo viva a sua profunda vocação de mestra e pedagoga.

O DECÁLOGO DO/A MESTRE/ A SEGUNDO GABRIELA MISTRAL:

1. AMA. Se não podes amar muito, não ensines a crianças.

2. SIMPLIFICA. Saber é simplificar sem tirar essência.

3. INSISTE. Repete como a natureza repete as espécies até alcançar a perfeição.

4. ENSINA com intenção de formosura, porque a formosura é mãe.

5. MESTRE/A, sê fervoroso/a. Para encender lâmpadas basta levar fogo no coração.

6. VIVIFICA a tua aula. Cada lição há de ser viva como um ser.

7. LEMBRA-TE de que o teu ofício não é mercadoria senão ofício sagrado.

8. LEMBRA-TE. Para dar há que ter muito.

9. ANTES de ditar a tua lição diária olha o teu coração e vê se está puro.   10. PENSA em que Deus se pôs a criar o mundo do amanhã.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

Utilizando a técnica do Cinema-fórum, podemos analisar o filme do realizador Rodrigo Moreno, do ponto de vista formal (linguagem fílmica, planos, planos-contra plano, movimentos de câmara, etc.) e de fundo (mensagem que tenta transmitir e atitudes que manifestam as diferentes personagens do mesmo). Seria interessante visionar e analisar também os diferentes documentários realizados sobre a grande educadora e poeta chilena, resenhados anteriormente.

Organizar nos estabelecimentos de ensino, depois de consultar livros, revistas e a internet, uma magna amostra sobre Gabriela Mistral, tendo em conta as suas facetas de educadora, de poeta (merecedora do Nobel em 1945), de promotora da leitura entre os cidadãos, de peregrina por muitas partes do mundo e de defensora dos trabalhadores, das crianças e da mulher. Tal amostra pode e deve incluir fotos, desenhos, frases, poemas (há muitos traduzidos para o português), legendas, aforismos, mensagens, textos dos alunos e retalhos da imprensa. Com toda a documentação recolhida, pode editar-se também uma monografia sobre a sua grande figura de dimensão universal.

Organizar debates-papo, com estudantes e docentes, ao redor de dous dos seus importantes textos, que aparecem ao final em anexo, e que levam por título: “O prazer de servir” e “A oração da Mestra”.

Nota: Com este depoimento dou início a uma nova série, a terceira dentro de “As Aulas no Cinema”, dedicada a grandes educadores do mundo. A continuação de Gabriela Mistral serão publicados sucessivamente depoimentos sobre: Cecília Meireles, A.S. Makarenko, Matthew Lipman, Andrés Manjón, Emília Ferreiro, Robert Owen, Helena Antipoff e Leão Tólstoi. Numa 4ª série será o turno para: J.H. Pestalozzi, Maria Montessori, Paulo Freire, Álvaro Vieira Pinto, Darcy Ribeiro, J.A. Comênio e Francesc Ferrer i Guàrdia. Infelizmente, não encontrei filmes ou documentários sobre outros grandes educadores como: Agustín Nieto Caballero, Adolphe Ferrière, Beatrice Ensor, Roger Cousinet, Jorge Kerschensteiner, Rosa e Carolina Agazzi, Paul Geheeb e John Bremer.

ANEXO: Dous textos-poemas de Gabriela Mistral:

O PRAZER DE SERVIR, por Gabriela Mistral

“Toda a natureza é um anelo de servir.
Serve a nuvem, serve o vento, serve a chuva.
Onde haja uma árvore para plantar, planta-a tu;
onde haja um erro para corrigir, corrige-o tu;
onde haja um trabalho e todos se esquivem, aceita-o tu.
Sê o que remove a pedra do caminho, o ódio entre
os corações e as dificuldades do problema.
Há a alegria de ser puro e a de ser justo;
mas há, sobretudo, a maravilhosa,
a imensa alegria de servir.
Que triste seria o mundo se tudo se encontrasse feito,
se não existisse uma roseira para plantar, uma obra para se iniciar!
Não te chamem unicamente os trabalhos fáceis.
É muito mais belo fazer aquilo que os outros recusam.
Mas não caias no erro de que somente há méritos
nos grandes trabalhos; há pequenos serviços
que são bons serviços;
adornar uma mesa arrumar teus livros,
pentear uma criança.
Aquele é o que critica;
este é o que destrói:
sê tu o que serve.
O servir não é faina de seres inferiores.
Deus que dá os frutos e a luz, serve.
Seu nome é : “Aquele que serve”.
Ele tem os olhos fixos em nossas mãos e
nos pergunta a cada dia: Serviste hoje?
A quem? À árvore? A teu irmão? A tua Mãe?”

A Oração da Mestra, por Gabriela Mistral

“Senhor! Tu que ensinaste, perdoa que eu ensine; que leve o nome de mestra, que Tu levaste pela Terra.
Dá-me o amor único de minha escola; que nem a queimadura da beleza seja capaz de roubar-lhe minha ternura de todos os instantes.
Mestre, faz-me perdurável o fervor e passageiro o desencanto. Arranca de mim este impuro desejo de justiça que ainda me perturba, a mesquinha insinuação de protesto que sobe de mim quando me ferem. Não me doa a incompreensão nem me entristeça o esquecimento das que ensine.
Dá-me o ser mais mãe que as mães, para poder amar e defender como elas o que não é carne de minha carne. Dá-me que alcance a fazer de uma de minhas crianças meu verso perfeito e a deixar-lhe cravada minha mais penetrante melodia, para quando meus lábios não cantem mais.
Mostra-me possível teu Evangelho em meu tempo, para que não renuncie à batalha de cada dia e de cada hora por ele.
Põe em minha escola democrática o resplendor que se discernia sobre tua roda de meninos descalços.
Faz-me forte, ainda em meu desvalimento de mulher, e de mulher pobre; faz-me desprezadora de todo poder que não seja puro, de toda pressão que não seja a de tua vontade ardente sobre minha vida”.

 

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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