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Fuco López: “O futuro do galego na Galiza, se existir, vai passar polos neofalantes”

Fuco foi educado em castelhano e sensibilizou-se com o galego na escola. Adepto do baile tradicional, toca a gaita e está a aprender a tocar a pandeireta e a dançar. Do ramo da economia e a empresa, a sua tese está focada na reutilizaçom como estratégia de sustentabilidade. Para pescar a ideia reintegracionista foi importante uma estadia Erasmus na… Eslováquia. Estudante na EOI, acha que o português oferece umha oportunidade para descobrirmos ambientes onde o castelhano nom é a língua dominante.

Fuco nasceu em Luou, embora a família proceda da Marinha. Como era a fotografia linguística da tua infância?
Na minha casa aconteceu como em muitas outras, cortou-se a transmissom intergeneracional. Os meus avós falavam o galego, mas os meus pais, por mor dos preconceitos, do sistema educativo e dum contexto social e institucional hostil ao galego falavam como primeira língua o castelhano. Em consequência, a minha língua materna e a que usei nos primeiros anos de vida foi o castelhano. Contudo, na minha casa existiu sempre umha enorme sensibilidade com a língua e cultura galegas. Sempre se escutou música em galego e sempre houve literatura em língua galega.

Na minha escola, inserida num contexto rural, também havia muitos galegofalantes, apesar de que acho que nom representavam umha maioria. Curiosamente, foi na escola onde me sensibilizei sobre a importância de falar galego.

Em Teo fazes parte do movimento associativo.Que lugar ocupa em ti a música tradicional e o baile comunal?
A música e o baile tradicional som, sem dúvida algumha, a minha principal fonte de ócio. Toco a gaita e estou a aprender a tocar a pandeireta e a dançar. Na Galiza acontece algo excecional: a nossa música de raiz possui umha vitalidade impensável em qualquer outro lugar, é um caso único no mundo. Há milheiros de pessoas que dançam, tocam, compram discos, escutam a música, vam aos concertos e acodem regularmente a foliadas, ruadas e seráns. Em definitiva, há umha massa crítica na Galiza que faz com que possas sair qualquer fim de semana só nesse ambiente.

Adicionalmente, a música tradicional uniu-me à minha comunidade local, aos meus vizinhos e a muitas pessoas com que partilho interesses e com que aprendo muito sobre todos os âmbitos da vida. Acho que um problema fundamental das sociedades ocidentais é que as comunidades históricas fôrom fragmentadas, o que nos isolou e nos deixou orfos, dalgum jeito. Hoje é mui fácil saberes o que acontece no outro lado do mundo, podes usar a Internet, mas para saberes o que acontece na tua aldeia ou no teu bairro tens de te relacionar com os vizinhos, falar com a gente e compreender os seus problemas. O associativismo cultural contribui para reverter o processo de fragmentaçom ao criar comunidade, o que mesmo fortalece a democracia.

Também direi que o reintegracionismo nunca supôs um problema para me desenvolver no âmbito trádi!

Fuco é neofalante. Aos 11 anos toma um decisom importante…
Com 11 anos, na escola de Calo, houve umha charla em que se falou da situaçom da língua galega, a perda de falantes, a rutura da transmissom intergeracional… naquela altura os sintomas já eram muito evidentes. Lembro esse momento como um ponto de inflexom. Daquela comecei a falar galego assiduamente e nunca dei volta. Porém, nom me tornei reintegracionista automaticamente, foi só há uns anos que decidim dar o passo.

Com 11 anos, na escola de Calo, houve umha charla em que se falou da situaçom da língua galega, a perda de falantes, a rutura da transmissom intergeracional… naquela altura os sintomas já eram muito evidentes. Lembro esse momento como um ponto de inflexom. Daquela comecei a falar galego assiduamente e nunca dei volta. Porém, nom me tornei reintegracionista automaticamente, foi só há uns anos que decidim dar o passo.

Vendo qual é a situaçom de uso do galego, especialmente entre as crianças, acho que devemos ser mui cientes de que o futuro do galego na Galiza, se existir, vai passar polos neofalantes.

Na atualidade, estás ligado à USC onde cursas um doutoramento no Programa de Economia e Empresa. O foco da tua tese é a reutilizaçom como estratégia de sustentabilidade. O que nos gostarias de contar a este respeito?
Na verdade, trabalho com umha premissa muito simples, e é que os impactos ambientais podiam minorar-se se reutilizarmos mais e consumirmos menos objetos de nova produçom. Reutilizaçom, neste contexto, refere o conjunto de práticas que vam da reutilizaçom sem transformaçom, à reparaçom ou ao reacondicionamento.

Investigo sobre as características económicas das atividades de reutilizaçom, assim como sobre as mudanças progressivas que se devem dar em todos os âmbitos da economia para facilitar a transiçom para padrons de consumo orientados à reutilizaçom.

Investigo sobre as características económicas das atividades de reutilizaçom, assim como sobre as mudanças progressivas que se devem dar em todos os âmbitos da economia para facilitar a transiçom para padrons de consumo orientados à reutilizaçom.

O problema surge quando percebemos que o sistema nom pom facilidades a esta mudança. O próprio capitalismo é que se nutre do fluxo contínuo de produçom que asinha se torna resíduos.

No fundo, achamos que umha ideia bem simples pode acabar por se tornar um verdadeiro desafio ao sistema económico. Tudo isto tem fortes ressonâncias com outras achegas críticas ao modelo económico, particularmente o decrescimento.

Na economia como ciência existe muita pressom para evitar valoraçons de tipo político (valoraçons normativas), mas o mundo é político! E acho que como cientistas sociais também é a nossa responsabilidade contribuir à justiça social e ambiental por meio da criaçom de conhecimento.

A Universidade, por meio duma estadia Erasmus, foi uma aliada para a tua passagem à estratégia reintegracionista. Mas o Erasmus nom foi em Portugal.
Fui de Erasmus à Eslováquia por um ano. Lá convivi com portugueses, com o qual nom só dei melhorado o meu inglês, também aprendi a falar o português! Do ponto de vista linguístico a experiência foi incrível, após o primeiro choque inicial -praticamente nunca interagira antes com um falante de português- reparei em que estávamos a falar a mesma língua. Às vezes conto, a modo de anedota, que fiquei surpreendido quando vi que os portugueses falavam o galego melhor do que nós! Falavam sem castelhanismos e algumhas expressons eram idênticas às que poderia ouvir a um velhote em qualquer aldeia galega.

Fuco estudou português LE, língua estrangeira, na Universidade, no Centro de Línguas Modernas e na escola de idiomas de Compostela. O que tem a ganhar uma pessoa galega, fale a língua que falar, estudando português?
Comecei a estudar o português quando voltei do Erasmus. Sabia falá-lo, mas nom escrevê-lo. O primeiro que achei foi que o meu galego melhorou em várias ordens de magnitude. O português oferece umha oportunidade para descobrires ambientes onde o castelhano nom é a língua dominante e onde podemos treinar a usar as nossas expressons próprias. Além disso, poder desenvolver-se em português é extremamente útil para nós que estamos a carom de Portugal e temos fortíssimos laços comerciais, económicos e culturais.

Comecei a estudar o português quando voltei do Erasmus. Sabia falá-lo, mas nom escrevê-lo. O primeiro que achei foi que o meu galego melhorou em várias ordens de magnitude.

Por onde julgas que deveria transitar o reintegracionismo para avançar socialmente? Quais seriam as áreas mais importantes em tua opiniom?

Acho que o reintegracionismo já está a viver hoje um momento mui positivo, pois sinto que nunca foi tam popular como é hoje. Acho que o futuro deve passar pola sua naturalizaçom. Creio que devemos introduzir o reintegracionismo, sempre de forma cordial, nos ambientes diários -mensagens que escrevemos a amigxs e familiares ou consultas que fazemos a lojas e vendedores. Acredito que devemos fazer ver que o reintegracionismo é umha opçom tam natural e prática como a outra e que nom há nada escuro nem alheo nele.

Acho que o reintegracionismo já está a viver hoje um momento mui positivo, pois sinto que nunca foi tam popular como é hoje. Acho que o futuro deve passar pola sua naturalizaçom.

Porque decidiste tornar-te sócio da Agal e que esperas do trabalho da associaçom?

Tenho colegas dentro que me animárom e também porque acho que é necessário agruparmo-nos. O que espero é poder participar nas atividades de difusom na base, como nas iniciativas “Fai um match com a língua” ou nas leituras continuadas que se organizarem.

Em 2021 somamos 40 anos de oficialidade do galego. Como valorarias esse processo? Que foi o melhor e que foi o pior?

Bom, tenho 26 anos e nom experimentei, polo menos de jeito ciente, a maior parte destes 40 anos, com o qual nom podo julgá-lo tal como alguém que sim os viveu. Contudo, a minha perceçom é bastante pessimista. Vistos os dados de uso e de competências em língua galega é difícil fazer umha valoraçom positiva. Acho que a nível educativo a situaçom tornou-se dramática após o decreto linguístico da Xunta e a rotura do consenso respeito do galego como língua veicular.

Hoje, por outra parte, dispomos de ferramentas que nos permitem dispor de conteúdo em galego com facilidade e infraestruturas de comunicaçom que nos permitem aceder instantaneamente ao universo da lusofonia, porém, estes canais funcionam nos dous sentidos e também estám a contribuir à substituiçom e a uniformizaçom linguística na Galiza

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2050?

Simples, maioritariamente galegofalante e binormativista.

Conhecendo o Fuco

Um sítio web: Os instrumentos musicais na tradición galega

Um invento: um bocado a brincar, o vinho!

Uma música: difícil, mas vou dizer qualquer do disco 1904, de Aires da Terra, a reediçom das primeiras gravaçons de música galega da história!

Um livro: Ogniem i mieczem, muito épica, mas é do século XIX e há aspetos que não envelhecem bem

Um facto histórico: o estatuto galego do 1936

Um prato na mesa: bacalhau com molho de tomate

Um desporto: bilharda, na minha casa chama-se-lhe canho

Um filme: vou dizer umha série, Star Trek, porque presenta um futuro carregado de otimismo (e onde nom existe a economia!)

Uma maravilha: a irmandade

Além de galego/a: gaiteiro

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