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Entrevista a Fernando Ernesto Baggio

José Carlos da Silva – A preservação da cultura indígena, em todas as suas manifestações, sejam elas linguísticas, poéticas ou ambientais; parecia ser um assunto esquecido pela população brasileira e pelos veículos de comunicação, ganhou voz na Internet através da Revista Digital Oca das Letras.

O sítio idealizado e editado pelo escritor e fotógrafo Fernando Ernesto Baggio Di Sopra, 28 anos, nascido em Tapera, interior do Rio Grande do Sul, clama pela inclusão das nações ameríndias, pela manutenção das línguas indígenas e em 2009 lança seu primeiro prêmio literário chamado Sepé Tiaraju de Poesia Ibero-Americana.

Sepé Tiaraju foi um índio guerreiro guarani que lutou contra o exército luso-espanhol. O guerreiro morreu na batalha de Caiboaté, na entrada da cidade de São Gabriel durante a invasão das forças inimigas às aldeias dos Sete Povos. Após sua morte pereceram aproximadamente 1.500 guaranis diante das armas luso-espanholas.

Este guerreiro é considerado um santo popular brasileiro e declarado “herói guarani missioneiro rio-grandense” pela Lei Estadual nº 12.366 (Rio Grande do Sul).

O Portal Galego da Língua agradece a Fernando Ernesto Baggio pela gentileza e entrevista concedida. Confira abaixo os melhores momentos e os trabalhos desenvolvidos pela Oca das Letras e seu autor.

PGL – Como surgiu a ideia de criar a revista digital Oca das Letras e qual a sua finalidade?

FEB – Depois de presenciar alguns indígenas Kaingang e Guarani serem covardemente agredidos pela polícia de Porto Alegre, percebi que nenhum veículo de comunicação noticiou tal fato. Tendo em vista que no Brasil os ameríndios não possuem voz ativa, decidi contatar alguns estudiosos da temática indigenista, criando, assim, no início de 2009, a revista cultural Oca das Letras. Nossa proposta é unir esforços e conhecimentos a fim de substanciar futuras políticas indigenistas. Pretendemos fomentar e divulgar as poéticas ameríndias, dando ênfase ao ambientalismo presente nas manifestações culturais. Reivindicamos, sobretudo, que as nações ameríndias sejam incluídas, pelo poder público, nos projetos de revitalização ambiental. Desejamos ver os indígenas gerindo áreas de mata ciliar interconectadas por corredores ecológicos.  Afinal, não há nada mais justo do que devolver as veias da Terra, artérias hoje entupidas de lixo pós-moderno, aos seus legítimos habitantes. Desprovidos de um local digno e saudável para viver, torna-se impossível que os povos nativos preservem seu idioma e, conseqüentemente, sua cultura.

PGL – Quem são os participantes da Revista Oca das Letras (direção, redação, colaboradores)?

FEB – A direção editorial da Oca das Letras é constituída por Bianca Bidinha Pruss, graduanda de Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e por mim. Os colunistas fixos da revista são a boliviana Paola Senseve Tejada (vencedora do Prémio Petrobras Noveles Escritores/2008), o guarani Olívio Jekupé, a paraguaya Susy Delgado, o cubano Daer Pozo Ramírez, David Galeano Olivera (diretor-presidente do Ateneo de Lengua y Cultura Guarani) e os brasileiros Liana Utinguassú e Paulo Pruss. Recebemos, também, inúmeras colaborações de leitores, através do e-mail editorial[arroba]ocadasletras.com.br

PGL – No Manifesto “El Guarani y la educación para la libertad”, clama-se pelo direito lingüístico dos falantes de Guarani. Atualmente na Galiza vive-se a mesma questão. Em sua opinião, o idioma é uma forma de libertação ou é a afirmação de um povo e sua cultura?

FEB – O idioma configura-se expressão máxima de uma cultura. É deprimente caminhar, no Brasil, pela avenida Franklin Roosevelt ou pela New York. Ninguém mais come jabuticaba nem anda de bicicleta, todos agora andam de bike e comem fast-foods. O vocabulário brasileiro encontra-se enfermo, infestado de estrangeirismos gratuitos. Para cada rua Sepé Tiaraju, existem mais de quatrocentas ruas com nomenclatura inglesa, homenageando carrascos e exploradores. É de fundamental importância que uma nação valorize e utilize seu próprio idioma a fim de preservar sua história e suas tradições culturais. O ritual Ki-Ki, por exemplo, realizado pelos Kaingang, perderá grande parte do seu encanto caso seja descrito através da língua e da cultura germânica, pois não há palavras e conceitos em tal idioma capazes de descrever fielmente o que acontece em um ritual Ki-Ki. O idioma é o mais perfeito instrumento de auto-afirmação cultural; sem ele, a liberdade nunca atingirá a plenitude, já que a vida urge ser organicamente verbalizada no exato instante em que o ineditismo salta aos olhos, deixando-nos boquiabertos, paralisados. Para isso, é indispensável o uso habitual da língua materna.

PGL – O sociólogo José de Souza Martins afirma que o Nheengatu (a língua geral) é a verdadeira língua do Brasil. Você concorda?

FEB – Nheengatu foi a língua geral instituída na América pelos jesuítas, no século XVII. Corresponde a uma codificação simplificada de algumas vertentes do Tupi antigo, acrescida de palavras portuguesas e espanholas. Atualmente, o Nheengatu constitui-se relevante instrumento de afirmação cultural, utilizado por povos indígenas que perderam sua língua. Acredito, sim, que o Tupi e suas ramificações são as verdadeiras línguas do Brasil, bem como o Kaingang, o Bororo, o Kayapó, o Panará, o Xavante e dezenas de outras línguas nativas que tanto enriquecem culturalmente o território que hoje denominamos “Brasil”.

PGL – Outros estudiosos consideram ano de 1758, como o ano da morte do tupi no Brasil, quando o Marquês de Pombal, em nome do rei Dom José I, proibiu o ensino e o uso do tupi em todo o território nacional, instituindo o português como única língua do Brasil. O Tupi, o Guarani e outras línguas indígenas estão mortas na América do Sul?

FEB – De modo algum! As línguas ameríndias estão vivas e retomando, cada vez mais, as rédeas do contexto histórico sul-americano. Recentemente, o Guarani, que é a língua mais difundida no Paraguay, foi instituído como idioma oficial do MERCOSUL. O Estado Boliviano considera co-oficial o Quéchua e o Aymara. No Brasil, há o belo exemplo de São Gabriel da Cachoeira, município amazônico onde as línguas Nheengatu, Tukano e Baniwa são consideradas co-oficiais desde 2002. A partir de 2006, todas as publicações oficiais do município passaram a ser redigidas nas três línguas indígenas, além da portuguesa. No Rio Grande do Sul, há diversas escolas onde o Guarani é ensinado. Apesar de a grande mídia ignorar completamente a realidade indígena, em todo o continente americano é perceptível o fortalecimento das culturas nativas através do ensino das línguas ameríndias nas escolas.

PGL – Qual o objetivo principal do 1º Prêmio Sepé Tiaraju de Poesia Ibero-Americana/2009 ? Os escritores galegos poderão participar? Haverá publicação das poesias?

FEB – Desejamos, fundamentalmente, com a realização do Prêmio Sepé Tiaraju, promover a divulgar a produção literária, por meio da publicação de um livro com poesias do autor vencedor. Os escritores galegos podem, sim, participar. As inscrições são gratuitas e podem ser efetuadas através do sítio eletrônico da Oca das Letras.

PGL – Falando em livros, sua novela “Delírios de um Plagiador” (2006) estreou ganhando prêmios e agora você está com um novo trabalho por uma editora portuguesa, o romance “Fragmentar e Reconstruir Contextos”. Como é o seu processo de criação?

FEB – Embora seja uma atitude vergonhosamente passiva, eu escrevo para intervir na realidade. Amontôo as antíteses que se exclamam dentro de mim e despejo-as na face de alguma paisagem honesta. Para escrever “Delírios de um Plagiador”, viajei, de carona e barraca, por toda a costa uruguaya, acompanhando o movimento das nuvens. Pesquisei, então, a história e a geografia dos Pampas, e despejei meu amontoado de antíteses viscerais dentro delas. Bebi alguns goles de vinho e escrevi uma página do livro por dia. É um livro modesto, escrito através de uma arrogante e simplória meta-literatura. Já o processo de criação de “Fragmentar e Reconstruir Contextos” foi diferente: passei alguns dias na Amazônia e na Chapada dos Guimarães e, na volta, apaixonei-me pela cultura fenícia. Descobri, então, vários indicativos de que os fenícios possivelmente vieram à América há mais de dois milênios atrás. Escrevi “Fragmentar e Reconstruir Contextos” para contribuir com a desconstrução histórica do mito de que “Pedro Alvarez Cabral descobriu o Brasil” e de que “Cristóvão Colombo descobriu a América”. Eis o texto de sua contracapa:

“Uma surreal jornada ao âmago da América Latina, por entre rios amazônicos, cachoeiras, grutas encantadas e pirâmides antiqüíssimas, reescrevendo a história americana através de uma possível perspectiva fenícia. Aromatizado com meta-literatura e poesia concreta de viés ambientalista, Fragmentar e Reconstruir Contextos apresenta o estandarte das demandas indígenas e expõe os absurdos reflexos da tecnocracia no Brasil. Em meio a inúmeros destinos viáveis, necessários e fascinantes, nossos sonhos dançam descalços acariciando a realidade, beijam a face do cotidiano e afagam nossas bússolas existenciais.”

PGL – Porque lançar um romance primeiro em Portugal? É uma edição cooperada ou foi convite do editor?

FEB – “Fragmentar e Reconstruir Contextos” tem a pretensa ambição de questionar alguns equívocos históricos, abordando temas relevantes tanto às nações européias, quanto às americanas. Como a grande maioria das editoras brasileiras somente avalia originais impressos em papel (e isto implica alto custo financeiro e ambiental), decidi então enviar, via correio eletrônico, uma cópia de “Fragmentar e Reconstruir Contextos” para algumas editoras portuguesas. Prontamente fui convidado pelo diretor da Corpos Editora, Ex-Ricardo dePinho Teixeira, a publicar meu romance em Portugal. É uma grande honra perceber que, nestes tempos de crise generalizada, ainda existem editores dispostos a investir na criação literária.

PGL – E o seu trabalho como fotógrafo? A fotografia é a poesia em retratos ou sua foto busca mais a realidade dos fatos, no fotojornalismo?

FEB – Prefiro esculpir mentalmente a imagem, antes de fotografá-la, sobrepondo duas ou três realidades distintas. Não nego que capturar a magia de um ínfimo instante seja uma atividade digna, tampouco desprezo o ambiente e o contexto histórico retratados: a paisagem é deveras necessária, pois excita os sentidos e incita o desejo de fotografá-la. Há beleza, sim, em capturar o instante e eternizar o momento. Eu, à parte, busco entortar o instante, ludibriar as perspectivas.

 

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