Drummond de Andrade, o grande poeta do Brasil



drummond-de-andrade-foto-o-beneditoEntre as e os excelentes poetas que deu o mundo lusófono temos a galega Rosália de Castro, a brasileira Cecília Meireles (de origem açoriana), o grande Camões, com antepassados em Camos-Nigrão, Gil Vicente, Fernando Pessoa, Teixeira de Pascoais, Cesário Verde, Antero de Quental, Torga, Sá-Carneiro, António Nobre, e os galegos Cabanilhas, Anhão Paz, Manuel Maria, Ferreiro, Curros, Pondal, Lopez Abente, Noriega, Marinhas e Novoneira. Os brasileiros Machado de Assis, Vinícius de Moraes, Murilo Mendes, Manuel Bandeira e Drummond de Andrade, entre outros muitos. A Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), que também merecia o Prémio Nobel de Literatura, dedico o presente depoimento, que faz o número 49 da série que estou a dedicar aos grandes vultos da Lusofonia. Entre as muitas crónicas e depoimentos por ele publicados no Correio da Manhã do Rio de Janeiro, com o título de “Tagore” publica um muito interessante dedicado ao grande vulto indiano. Convém assinalar também que o seu poema “No meio do caminho tinha uma pedra” inspirou ao nosso Celso Emílio Ferreiro o poema “Longa noite de pedra”.

Alguns dados biográficos e literários

drummond-de-andrade-foto-de-jovem-1A brasileira Dilva Frazão escreveu no seu dia uma pequena e interessante biografia do escritor brasileiro, que coloco a seguir.
Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira de Mato Dentro, interior de Minas Gerais, no dia 31 de outubro de 1902. Filho dos proprietários rurais, Carlos de Paula Andrade e Julieta Augusta Drummond de Andrade. Em 1916, ingressou num colégio interno em Belo Horizonte. Doente, regressou para Itabira, onde passou a ter aulas particulares. Em 1918, foi estudar em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, também em colégio interno.
Em 1921, começou a publicar artigos no Diário de Minas. Em 1922, ganhou um prêmio de 50 mil réis, no “Concurso da Novela Mineira”, com o conto Joaquim do Telhado. Em 1923 matriculou-se no curso de Farmácia da Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte. Em 1925 concluiu o curso. Nesse mesmo ano, fundou A Revista, que se tornou um veículo do Modernismo Mineiro. Drummond lecionou português e Geografia em Itabira, mas a vida no interior não lhe agradava. Voltou para Belo Horizonte e empregou-se como redator no Diário de Minas.
Em 1928, Drummond publicou o poema No Meio do Caminho, na Revista de Antropofagia de São Paulo, provocando um escândalo, com a crítica da imprensa. Diziam que aquilo não era poesia e sim uma provocação, pela repetição do poema. Como também pelo uso de “tinha uma pedra” em lugar de “havia uma pedra”. Ainda nesse ano, ingressa no serviço público como auxiliar de gabinete da Secretaria do Interior. Em 1930, já era auxiliar de gabinete da Secretaria do Interior de Minas Gerais. Ainda em 1930 publica o volume Alguma Poesia, abrindo o livro com o “Poema de Sete Faces”.
Faz parte do livro também os poemas: No Meio do Caminho, Cidadezinha Qualquer e Quadrilha. Em 1934, Drummond muda-se para o Rio de Janeiro e assume a chefia de gabinete do Ministério da Educação e Saúde, do ministro Gustavo Capanema. Em 1942 publica seu primeiro livro de prosa, Confissões de Minas.

Drummond de Andrade com a sua filha Julieta

Drummond de Andrade com a sua filha Julieta

Em 1945, Drummond deixa o gabinete do Ministério. Nesse mesmo ano, publica o livro de poemas, A Rosa do Povo onde condena a vida mecanizada e desumana de nossos dias e espelha uma carência de um mundo certo, pautado na justiça, que venha substituir a falta de solidariedade de seu momento. A poesia de caráter social assume nova dimensão, e seus temas preferidos são: a angústia dos seres escravos do progresso, o medo, o tédio e a solidão do homem moderno. O livro é ao mesmo tempo um misto de condenação e exaltação, porque existe a esperança de um mundo melhor.
Entre os anos de 1945 e 1962, foi funcionário do Serviço Histórico e Artístico Nacional. Em 1946, foi premiado pela Sociedade Felipe de Oliveira, pelo conjunto da sua obra. Poeta da Segunda Geração Modernista, a maior figura da “Geração de 30”, embora tenha escrito ótimos contos e crônicas, Carlos Drummond se destacou como poeta. Drummond produziu uma poesia de questionamento em torno da existência humana, do sentimento de estar no mundo, da inquietação social, religiosa, filosófica e amorosa. Seu estilo poético é permeado por traços de ironia, observações do cotidiano, de pessimismo diante da vida e de humor. Drummond fazia verdadeiros “retratos existenciais” e os transformava em poemas com incrível maestria. Foi também tradutor de autores como Balzac, Federico Garcia Lorca e Molière.

Carlos Drummond se destacou como poeta. Drummond produziu uma poesia de questionamento em torno da existência humana, do sentimento de estar no mundo, da inquietação social, religiosa, filosófica e amorosa. Seu estilo poético é permeado por traços de ironia, observações do cotidiano, de pessimismo diante da vida e de humor. Drummond fazia verdadeiros “retratos existenciais” e os transformava em poemas com incrível maestria. Foi também tradutor de autores como Balzac, Federico Garcia Lorca e Molière.

Casado com Dolores Dutra de Morais, e pai de Maria Julieta Drummond de Andrade e de Carlos Flávio Drummond de Andrade, em 1950, viajou para a Argentina, para o nascimento de seu primeiro neto, filho de Julieta.
Ainda em 1950, Drummond estreia como ficcionista com a obra Contos de Aprendiz, mas é na poesia que se destaca. Em 1962 se aposenta do serviço público, mas sua produção poética não para. Escreve também crônicas para jornais do Rio de Janeiro. Em 1967, para comemorar os 40 anos do poema No Meio do Caminho, Drummond reuniu extenso material publicado sobre ele, no volume Uma Pedra no Meio do Caminho: Biografia de um Poema.
A riqueza de sua obra foi descoberta por artistas do cinema. Argumentos de filmes foram tirados de seus poemas, como O Padre e a Moça de Joaquim Pedro de Andrade. A música popular brasileira adaptou vários de seus versos para a melodia, como o poema José, gravado por Paulo Diniz. Os versos de Sonho de um Sonho foram tema-enredo de escola de samba, adaptados por Martinho da Vila.
Carlos Drummond de Andrade faleceu no Rio de Janeiro, no dia 17 de agosto de 1987, doze dias depois do falecimento de sua filha, a escritora Maria Julieta Drummond de Andrade.
Nota: Para informar-se mais sobre a vida e obra de Drummond de Andrade podem consultar-se a wikipedia, o site todamateria.com, a infoescola, releituras.com a guia do estudante ou ainda a própria web carlosdrummond.com.

FICHAS DOS DOCUMENTÁRIOS

0. Carlos Drummond de Andrade por ele mesmo.
Duração: 68 minutos. Ano 2013. Nota: O poeta recita poemas seus.

1. Carlos Drummond de Andrade.
Duração: 7 minutos. Ano 2019. Produtora: Brasil Escola. Fala: Mirelli Costa.

2. Carlos Drummond de Andrade.
Duração: 25 minutos. Ano 1998. Produtora: TV Cultura.

3. Carlos Drummond de Andrade.
Duração: 9 minutos. Ano 2012. Produtora: TV Cultura.

4. Carlos Drummond de Andrade.
Duração: 26 minutos. Ano 2012. Produtora: TV Brasil.

5. Carlos Drummond de Andrade. Documentário.
Duração: 30 minutos. Produtora: Mandala Filmes.

6. Carlos Drummond de Andrade.
Duração: 4 minutos.

7. A obra de Carlos Drummond de Andrade.
Duração: 7 minutos. Ano 2013.

8. Os melhores poemas de Carlos Drummond de Andrade.
Duração: 3 minutos. Ano 2018.

9. Trilhinha: Poema de C. Drummond de Andrade.
Duração: 1 minuto. Ano 2019. Produtora: TV Brasil.

A OBRA LITERÁRIA DE DRUMMOND DE ANDRADE

Carlos Drummond de Andrade tem uma interessante obra literária em língua portuguesa. Com muitas traduções dos seus livros realizadas para outros idiomas do mundo.

Poesia

-Alguma Poesia (1930)
-Brejo das Almas (1934)
-Sentimento do mundo (1940)
-José (1942)
-A Rosa do Povo (1945)
-Claro Enigma (1951)drummond-de-andrade-capa-livro-2
-Fazendeiro do ar (1954)
-Quadrilha (1954)
-Viola de Bolso (1955)
-Lição de Coisas (1964)
-Boitempo (1968)
-A falta que ama (1968)
-Nudez (1968)
-As Impurezas do Branco (1973)
-Menino Antigo (Boitempo II) (1973)
-A Visita (1977)
-Discurso de Primavera e Algumas Sombras (1977)
-O marginal Clorindo Gato (1978)
-Esquecer para Lembrar (Boitempo III) (1979)
-A Paixão Medida (1980)
-Caso do Vestido (1983)
-Corpo (1984)
-Eu, etiqueta (1984)
-Amar se aprende amando (1985)
-Poesia Errante (1988)
-O Amor Natural (1992)
-Farewell (1996)
-Os ombros suportam o mundo (1935)
-Futebol a arte (1970)
-Naróta do Coxordão (1971)
-Da utilidade dos animais (1975)

Antologias Poéticas
-A última pedra no meu caminho (1950)drummond-de-andrade-capa-livro-conversa-de-morango
-50 poemas escolhidos pelo autor (1956)
-Antologia Poética (1962)
-Antologia Poética (1965)
-Seleta em Prosa e Verso (1971)
-Amor, Amores (1975)
-Carmina drummondiana (1982)
-Boitempo I e Boitempo II (1987)
-Minha morte (1987)

Literatura para crianças
-O Elefante (1983)
-História de dois amores (1985)
-O pintinho (1988)
-Rick e a Girafa (2001)

Narrativa
-Confissões de Minas (1944)
-Contos de Aprendiz (1951)
-Passeios na Ilha (1952)
-Fala, amendoeira (1957)
-A bolsa & a vida (1962)
-A minha Voda (1964)
-Cadeira de balanço (1966)
-Caminhos de João Brandão (1970)
-O poder ultrajovem e mais 79 textos em prosa e verso (1972)
-De notícias & não-notícias faz-se a crônica (1974)
-Os dias lindos (1977)
-70 historinhas (1978)
-Contos plausíveis (1981)
-Boca de luar (1984)
-O observador no escritório (1985)
-Tempo vida poesia (1986)
-Moça deitada na grama (1987)
-O avesso das coisas (1988)
-Auto-retrato e outras crônicas (1989)
-As histórias das muralhas (1989)

A PALAVRA DE DRUMMOND DE ANDRADE

drummond-de-andrade-estatua-em-rio-2

Estatua de Drummond de Andrade em Rio de Janeiro


Apresento a seguir uma antologia das suas mais lindas frases e pensamentos

-“Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade”.
-“O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar”.
-“A minha vontade é forte, porém minha disposição de obedecer-lhe é fraca”.
-“Perder tempo em aprender coisas que não interessam, priva-nos de descobrir coisas interessantes”.
-“A amizade é um meio de nos isolarmos da humanidade cultivando algumas pessoas”.
-“Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar”.
-“Só é lutador quem sabe lutar consigo mesmo”.
-“Há certo gosto em pensar sozinho. É ato individual, como nascer e morrer”.
-“Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons”.
-“Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”.
-“Há muitas razões para duvidar e uma só para crer”.
-“Como as plantas, a amizade não deve ser muito nem pouco regada”.
-“A confiança é ato de fé, e esta dispensa raciocínio”.

Alguns de seus poemas

drummond-de-andrade-poema-manuscrito

Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esqueci desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Poema de sete fazes
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus porque me abandonaste,
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo,
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia dizer,
mas essa luta
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

A rosa do povo
Uma flor nasce na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um cinema-fórum, para analisar o fundo (mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.
Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Carlos Drummond de Andrade, grande poeta brasileiro. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.
Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino um Livro-fórum, em que intervenham alunos e docentes. Da listagem de obras de Drummond de Andrade podemos escolher para ler uma dentre as seguintes: Antologia Poética (1965), O Amor Natural (1992), Os dias lindos (1977) ou Tempo vida poesia (1986).

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.


PUBLICIDADE

  • Paulo Soriano

    Se há, neste vasto mundo, um poeta de todo merecedor de um Prêmio Nobel de Literatura, este se chama Carlos Drummond de Andrade, porque eterno. Mas não nos olvidemos do extraordinário poeta catarinense Cruz e Souza, que, de humilde filho de escravos alforriados, e vítima dos mais acintosos preconceitos, tornou-se uma verdadeira glória da literatura lusófona e orgulho de todos nós brasileiros.