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Do silêncio à palavra – a força dos clubes de leitura em tempos de retração

O Brasil vive uma das fases mais contraditórias da sua história literária. 

De um lado, os dados da 6ª edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil – 2024 revelam um cenário alarmante: nos últimos quatro anos, o país perdeu 6,7 milhões de leitores, e, pela primeira vez na série histórica, a proporção de não-leitores ultrapassou a de leitores. 

Atualmente, 53% dos brasileiros não leram nem parte de um livro — impresso ou digital — nos três meses anteriores à pesquisa.

Em contrapartida, enquanto as estatísticas apontam para o empobrecimento do hábito de leitura, clubes de livros e projetos literários têm ganhado força, reunindo centenas de pessoas em torno da palavra escrita. 

Em Belo Horizonte e São Paulo, duas experiências singulares confirmam essa tendência: o Clube de Leitura Quixote Falante, mediado pela professora e analista literária Cleide Simões, e o Clube de Leitura Mãe Leva Outra, coordenado pela escritora e pesquisadora Fabiana Grieco.

Ambas compartilham uma mesma vocação: transformar a leitura — esse ato íntimo e solitário — num gesto coletivo, comunitário e afetivo. 

Fabiana e Cleide falaram com profundidade e afeto para o Portal Galego da Língua, para explicar para os leitores galegos e de toda a lusofonia o que move esse novo sopro de vitalidade literária, num tempo marcado pelo retrocesso..

Belo Horizonte: onde o grilo fala e o leitor participa

A história do Quixote Falante nasceu de um convite sutil, mas decisivo. O diretor do Colégio Santo Antônio, em Belo Horizonte, sugeriu à então professora Cleide Simões que ampliasse os horizontes de seu projeto de leitura voltado a alunos do ensino médio. “Por que você não expande isso para um público maior?”, perguntou Frei Vicente. 

A semente germinou na forma de um perfil literário no Instagram, o Grilo Falante, e logo cresceu para o mundo físico: surgiu então o clube de leitura em parceria com a Livraria Quixote, espaço cultural icônico da capital mineira.

O nome “Grilo Falante” carrega mais que afeto — evoca a consciência crítica que a literatura inspira. Para Cleide, a mediação literária é um gesto de escuta e provocação: “O momento de provocar uma discussão, sempre pautada na obra, respeitando as diversas visões, é algo muito, muito gratificante.”

“A arte é um ato de resistência à estagnação do pensamento, nisso a literatura tem muito a contribuir”.
Cleide Simões

O Quixote Falante une o presencial e o digital. Os encontros acontecem fisicamente na livraria — com espaço limitado a cerca de 25 pessoas —, mas também são transmitidos ao vivo pelo Instagram, ampliando o alcance. 

“Já houve pedidos para irmos para um espaço maior, mas não abrimos mão do calor da livraria”, conta Cleide. 

Mais do que uma escolha prática, trata-se de um manifesto: o ambiente entre livros é também um ritual de pertencimento.

A curadoria das obras é compartilhada entre os organizadores — Cleide e os livreiros Cláudia e Alencar — e, em breve, será aberta a sugestões dos participantes. 

Entre os títulos já debatidos, autores locais e nacionais dialogam com clássicos e contemporâneos. Sempre que possível, os autores são convidados a participar dos encontros.

“A leitura é um ato solitário, íntimo, mas a abertura para o diálogo sobre o lido é algo incrivelmente enriquecedor”, afirma Cleide. 

Em tempos de algoritmos e polarizações, reunir pessoas para pensar coletivamente — e esteticamente — é também um ato de resistência.

São Paulo: maternidade, poesia e política literária

Na capital paulista, outro clube tem se destacado por sua potência simbólica e política. 

Trata-se do Mãe Leva Outra, ligado à Editora Urutau e à coleção homônima, dedicada à literatura escrita por mulheres, com foco em temas como maternidade, cuidado e identidade. 

A escritora e professora Fabiana Grieco, uma das autoras selecionadas para a coleção, integra o núcleo que coordena o clube.

Fabiana teve sua obra “Aquela que vejo pelo espelho” discutida em um dos encontros do clube. 

Para ela, a experiência foi reveladora: “Acredito verdadeiramente que o que toca o leitor é o que tem de mais importante na minha obra. Me interesso mais por aquilo que ele interpreta do que por aquilo que eu disse.”

O clube promove duas ações mensais: uma live no Instagram e um encontro no Google Meet. Embora digital, o espaço é caloroso, acolhedor e diverso. A programação pode ser conferida em https://editoraurutau.com/clube-mae-leva-outra 

“Temos mais de cinquenta participantes em apenas quatro meses”, celebra Fabiana, destacando o papel central da escuta ativa e do cuidado com o outro. 

“As mensagens que recebo não são simples elogios. As pessoas se abrem, compartilham experiências íntimas. Tento acolher ao máximo cada leitor.”

A proposta do clube vai além da leitura. É também um espaço de articulação política: há intenção de encaminhar reflexões para políticas públicas voltadas a mães solo e mulheres em situação de vulnerabilidade. 

A presença de influenciadoras como Yasmin Morais e Dani Arrais nas lives ajuda a dar visibilidade às pautas — mas o protagonismo continua com as autoras e leitoras que vivem os temas na pele.

Para Fabiana, os clubes de leitura formam público, criam vínculos afetivos e fortalecem redes de resistência: “Comprar um livro e saber que você está ‘lendo em conjunto’ e poderá trocar ideias com um grupo é ainda melhor.” Ela define sua posição como de “realista esperançosa” — consciente das desigualdades do mercado editorial, mas animada com o crescimento dos coletivos de mulheres escritoras em todo o Brasil.

Clube de leitura é mais do que um lugar para ouvir

Os clubes descritos por Cleide e Fabiana revelam o poder da leitura compartilhada como prática de escuta, pertencimento e elaboração simbólica do mundo. 

Em suas palavras, fica evidente que o clube não é só um espaço para ouvir sobre livros, mas para discutir e pensar junto — e pensar com profundidade.

A partir da obra de Hannah Arendt, Cleide propõe que ler e discutir literatura é um modo de aprimorar o “ato humaníssimo de pensar”. 

Fabiana, por sua vez, evoca a urgência da escuta ativa num tempo de intolerância: “Ouvir e ser ouvido é de uma riqueza ímpar em tempos de redes sociais tóxicas.”

Essas práticas desafiam a lógica do consumo apressado e da leitura instrumentalizada. Criam tempos outros, espaços outros. 

Permitem, como disse Cleide, “reavivar algo que o período pandêmico nos retirou: falar e ouvir.”

O paradoxo da leitura no Brasil

O sucesso dos clubes de leitura, no entanto, acontece num cenário estatístico desolador. 

Enquanto a mais recente pesquisa Retratos da Leitura no Brasil revela que mais da metade da população não leu sequer parte de um livro nos três meses anteriores — com uma perda de 6,7 milhões de leitores nos últimos quatro anos —, movimentos culturais e de mercado parecem ir na direção oposta, tendo como exemplo o mercado da moda de luxo.

Em 2024, a modelo Kaia Gerber tornou-se uma espécie de guru literária online, liderando um clube do livro com forte engajamento nas redes sociais. 

A grife Valentino passou a patrocinar oficialmente o Prêmio Internacional Booker, uma das maiores distinções da literatura mundial. Já a Saint Laurent inaugurou em Paris uma livraria física, apresentada como “um novo destino cultural dedicado à arte e à expressão”, segundo a própria maison.

A mais simbólica dessas ações talvez venha da Miu Miu, que elevou a literatura ao centro de sua estratégia cultural com o Miu Miu Literary Club. A segunda edição do evento, realizada em abril, durante a Semana de Design de Milão, contou com performances e leituras das obras de Simone de Beauvoir e Fumiko Enchi, em um cenário que mesclava biblioteca antiga e templo dedicado ao pensamento feminino.

Essas movimentações sinalizam uma tentativa de reposicionar o luxo como aliado da intelectualidade, do tempo e da reflexão crítica — bens escassos numa era de hiperconexão. O contraste com o apagamento do hábito de leitura entre as classes populares é gritante. 

É como se a literatura estivesse se tornando, ao mesmo tempo, resíduo e relíquia: esquecida por muitos, fetichizada por poucos.

Como explicar esse paradoxo? Talvez porque os livros estejam mais acessíveis, mas o tempo e o silêncio necessários à leitura podem ter se tornado artigos de luxo.

Ou porque o sistema educacional, pressionado por metas e avaliações, pouco fomenta o prazer estético da leitura — prazer esse que clubes como o Quixote Falante e o Mãe Leva Outra procuram reabilitar.

Atravessar o espelho, levantar a palavra

A pandemia exigiu a criação de clubes virtuais que, ao contrário do que muita gente imaginou, foi um atenuante do distanciamento social.

A travessia da solidão para o encontro, do silêncio para a palavra, é uma imagem que serve tanto para a literatura quanto para o ato de se reunir em torno dela. 

Como disse Cleide Simões, “ler e promover oportunidades de compartilhamento é um gesto de encantamento.” e reforçado Fabiana Grieco, “os clubes de leitura criam experiências que vão além do livro — são encontros, escutas, partilhas.”

O que une Belo Horizonte e São Paulo, Cleide e Fabiana, leitores e leitoras, é o desejo de fazer da leitura um lugar de resistência e de reexistência. 

Um lugar onde pensar é também sentir, onde dizer é também escutar.

Que os leitores e leitoras galegos se inspirem nesses gestos. Que acendam suas luzes nos coretos, nos parques, nas livrarias, nas redes. 

Que leiam juntos. Porque, como dizia António Cândido, “a literatura é um direito” — e, como afirmam esses clubes, é também um caminho.

Conheça Fabiana Grieco e Cleide Simões

Fabiana Grieco(1983) nasceu em São Paulo. É escritora e professora universitária. Graduada em Jornalismo, mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e doutora em Ciências da Comunicação pela USP.Autora dos livros de poesia “Bom amar” (no prelo, Editora Urutau, 2025), “Aquela que vejo pelo espelho” (Editora Urutau, 2024) e “Uma mãe melhor do que eu”(Caravana Grupo Editorial, 2023). E dos livros acadêmicos “Linguagens e formatos jornalísticos” (Editora Senac, 2025) e “Comunicação na sociedade contemporânea conectada” (Editora Senac, 2022). Publicou cinco livros para a infância, entre os quais “Colar de Contas” (Editora Jaguatirica, 2019) que foi selecionadopela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo para o acervo de escolas e bibliotecas da Rede Municipal de Ensino para 2023.

Instagram: https://www.instagram.com/mosaicoafetivo

Cleide Simões é formada em Letras e com pós-graduação em História da Arte, a professora de Português e Literatura, educadora e analista literária já trabalhou com jornalismo cultural e como colaboradora do Suplemento Literário de Minas. São mais de 20 anos de dedicação ao magistério, no 3º grau e Ensino Médio Durante alguns anos, lecionou Literatura Brasileira em pré-vestibulares em Belo Horizonte. Junto ao cargo de professora de Redação no CSA, orientou projetos de pesquisa e redação de monografias, uma vez que esta conceituada escola oferta como disciplinas optativas pesquisas nas várias áreas do conhecimento. Realiza trabalho autônomo como revisora e redatora. Com diversas publicações em jornais e revistas, atua, também como crítica literária. Como bookstagrammer onde mantém o perfil Grilo Falante no Instagram @grilofalante0 e um canal no Youtube @grilofalante0, ambos sobre literatura. Também está à frente do Clube de Leitura Quixote Falante, numa parceria com a livraria Quixote.

Instagram: https://www.instagram.com/grilofalante0

Leia as entrevistas completas com Cleide Simões e Fabiana Grieco no e-book “Clubes de Leitura no Brasil: Vozes e Experiências”.

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