Do «rajo» à «lubina»

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Em agosto, viajei várias vezes para Ferrol, onde eu nasci. Ferrol não é uma terra especialmente galego-falante, de facto, eu cresci num ambiente castelhano. Mas, havia coisas, palavras, termos e expressões galegas, que para nós eram, digamos, naturais, das que não perguntávamos se eram galegas ou castelhanas, porque simplesmente eram as nossas. Não havia prejuízos em torno delas, eram tão só usadas.

Nos dias em que estive em Ferrol tive de fazer alguns assuntos familiares e não tive muito tempo de lazer e tratar muitas pessoas. Mas um dos dias fui jantar a um pequeno restaurante perto da casa da família, juntamente com um dos meus filhos. Entre outras coisas deliciosas, pedi «raxo», pronunciado como sempre o fiz, ou seja, à galega, com essa /x/ que não se ouve fora da Galiza. Embora viva em Madrid, na minha casa todos lhe chamamos «raxo» e, para mim, é a forma mais natural de o pronunciar.

Pois bem, quando o funcionário estava a deixar a ração na nossa mesa, disse: «Y aquí está el rajo». «Rajo», disse, com uma “j” castelhana que me partiu o ouvido antes de me partir o coração.

Já tinha eu o coração linguístico em mau estado quando o derradeiro dia da nossa estadia alguém o rematou.

Depois dum dia de trabalho duro na casa, o meu filho e eu fomos dar um passeio ao longo do porto. Ainda não era de noite, havia muita gente a passear e a tomar algo nas esplanadas dos bares. No miradouro atrás de “La Cortina” havia também três ou quatro pescadores, mais amadores que profissionais. Cada um tinha a sua cana de pesca e até um deles levantou un pequeno peixe. Como é próprio da Galiza, brincavam entre eles, mas um homem de trinta e poucos anos, com sotaque local, falando espanhol, disse ao que levantou o peixe: «No era una lubina, ¿eh?¿Esperabas que fuera una lubina?»

Sim, ouvi «lubina» duas vezes. «Lubina» foi unha palavra que eu aprendi quando tinha pouco menos de vinte anos, e fora dos restaurantes, ninguém a usava. Para nós, que pescávamos na ria de Ares com um dos meus tios, esse peixe era uma «robaliza», e se fosse maior, então «robalo», como lhe chamam em Portugal. Na zona de Ferrol e Ares «robaliza» tinha duas pronúncias, como fricativa dental surda (como a “z” espanhola) ou outra mais similar à cedilha portuguesa, um /s/ surdo onde a “a” final quase desaparecia. A primeira era a normal entre os castelhano-falantes e a segunda, entre os galego-falantes.

Os sociolinguistas sabem que as palavras das coisas do quotidiano, como os animais e os produtos de jantar, tendem a não mudar apesar de conviver com uma língua dominante. Ainda conheço pessoas idosas muito espanholiçadas que não deixam de usar palavras como «meiga» ou «pescada», mesmo que saibam o equivalente em castelhano.

O diabo está nos detalhes, costuma dizer-se. E o pormenor aqui está na possível perda do galego ainda nesse substrato quotidiano, que é a última resistência contra uma língua dominante.

O diabo está nos detalhes, costuma dizer-se. E o pormenor aqui está na possível perda do galego ainda nesse substrato quotidiano, que é a última resistência contra uma língua dominante.

A mistura de línguas é natural. É precisamente isto que faz que as línguas tenham variedades e que evoluem. O erro é pensar que há uma variedade correcta e uma variedade incorrecta quando as duas são variedades (espanhol da Galiza e espanhol de Castela, por exemplo), e no caso da relação do galego com o castelhano não se trata de defendermos o «castrapo», senão de não renunciarmos na fala castelhana aos termos próprios da cultura galega, pela mesma razão que «faneca» refere-se a dois peixes distintos nas Rías Altas e nas Rías Baixas: essa diferença faz parte da cultura local, seja expressada em galego ou em castelhano.

O fundo de tudo este assunto acho que não é o emprego de palavras galegas quando se fala castelhano senão que é, de novo, esse medo ou complexo de inferioridade que habita no inconsciente galego se usarem elementos galegos e não castelhanos, seja com o léxico («lubina») ou com a pronúncia («rajo», só na pronúncia, porque lembremos que em castelhano «rajo» só existe na primeira pessoa do presente do verbo «rajar»).

Este inconsciente revela-se então como um apelo a uma suposta norma ou correção. Ainda mais, a um apelo a que o castelhano de Castela é mais correto que um castelhano «contaminado» pelo galego. Mas em linguística o facto de falar de correção é como entrar num campo minado. Incorretas são, como muito, aquelas expressões que no seio duma comunidade linguística impedem a comunicação ou produzem anfibologias (o terror do linguista!), ou seja, ambiguidades de sentido. Para além destes casos, é muito difícil falar de incorrecções.

Mas em linguística o facto de falar de correção é como entrar num campo minado. Incorretas são, como muito, aquelas expressões que no seio duma comunidade linguística impedem a comunicação ou produzem anfibologias (o terror do linguista!), ou seja, ambiguidades de sentido. Para além destes casos, é muito difícil falar de incorrecções.

O castelhano não é mais correto que o galego, o mesmo que o galego RAG não é mais correto que o galego-português. Tudo depende do jogo de emoções e preconceitos que subjazem por detrás, porque não há razões linguísticas (científicas ou como queiramos chamar-lhes) para as considerar corretas ou incorretas.

Então, é errado dizer «lubina» ou pronunciar «rajo» à castelhana quando se fala castelhano na Galiza? Não, claro que não. Mas, para mim, é só um síntoma mais de que não só a língua galega está a retroceder na Galiza, mas também um substrato da cultura galega mais tradicional ainda que seja expressada em castelhano. A minha suspeita é que isto não é feito para favorecer a comunicação, senão pela fictícia razão de que uma maneira de falar é a correta e a outra, a própria, não.

Acaso não é esta a causa primeira da nossa diglossia?