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Diálogo com o escritor João Alves das Neves

José C. da Silva – O Portal Galego da Língua conversou com o Escritor e Professor João Alves das Neves, um produtivo ensaísta, com cerca de 30 obras publicadas e profundo estudioso da poesia de Fernando Pessoa e criador de dois importantes blogues para a discussão da Lusofonia.

O entrevistador agradece a gentileza do Professor João Alves das Neves e a Fabíola Nese, que tornou este diálogo possível. Vamos à entrevista:

Portal Galego da Língua – Professor, conte-nos sobre sua trajetória profissional e literária.

JAN – Vivo em São Paulo há 51 anos, mas nasci em Portugal, na aldeia de Pisão de Coja (Arganil, Coimbra), não muito longe das alturas da Serra da Estrela. A minha região é pobre, porém os beirões resistem a tudo, até mesmo à ditadura. E assim se explica que muitos deles enveredem pelo caminho da emigração, como fizeram os escritores Ferreira de Castro e Miguel Torga  – e tantos outros milhares de jovens portugueses, que por volta dos 15 anos navegaram para  o Brasil, acerca do qual talvez soubessem menos que o Pedro Álvares Cabral em 1500… Comeram o pão que o diabo amassou, mas ficaram amando para sempre a doce Terra de Vera Cruz que, de mau, só tem os ladrões, com relevo para alguns políticos.

Quanto à minha formação acadêmica passou pelo curso comercial (m (não gostei) e pelo teatro (de que muito gosto) – e não o  segui porque nunca seria um bom ator nem um dramaturgo, até que descobri o jornalismo e, como tantos,  misturei-o com a literatura. Não sei  se valeu a pena, a exemplo de Eça de Queiroz, que nunca foi um autêntico jornalista, porque a  obra maior que nos deixou  é de ficção.

Andei por vários órgãos da imprensa lusa, desde o amadorismo ao profissionalismo, até que em 1958 vim para o Brasil e comecei a trabalhar no jornal  O Estado de S. Paulo, onde fiquei durante 31 anos, até me aposentar. E neste longo período fui professor e pesquisador da Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero (por 24 anos). E hoje coordeno dois blogs na Internet e colaboro nalguns jornais, ao mesmo que faço livros, principalmente de ensaios: já publiquei cerca de 30 – os dois últimos foram Dicionário de Autores da Beira-Serra (ed. Dinalivro, Lisboa, 2008) e Fernando Pessoa. Salazar e o Estado Novo (ed. Fabricando Idéias. 2009).

PGL – Quando foi fundada e quais os objetivos ds Revista “Lusofonia”?

JAN – Estamos na Internet desde o início de 2009 com os blogs www.joaoalvesdasneves.blogspot.com e www.revistalusofonia.wordpress.com assinalando que este último tem a colaboração de brasileiros e portugueses que comentam os mais diversos temas, desde as artes & letras à economia, política, etc. E a nossa pretensão  é dar notícias e comentários corretos aos internautas de Portugal e do Brasil, Angola e Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé-e-Príncipe. Timor e  outros núcleos que falem e escrevam o idioma português.

PGL – Com relação ao Acordo Ortográfico, já vigorando no Brasil, mas ainda sofrendo grande resistência, principalmente  em Portugal. Em sua opinião, o que é  necessário para que todos os paises adotem o Acordo?

JAN – Nada mais do que cumprir as propostas dos lingüistas e assinadas pelos respectivos Governos! Por que é que os discordantes de hoje não protestaram antes?

PGL – Quais são os pontos positivos e negativos do Acordo Ortográfico?

JAN – Quantos estudiosos do nosso idioma serão contra? Ninguém sabe! Mas sabe-se que, por mais idôneos possam ser alguns dos contestatários, a maioria dos manifestantes não é capaz de explicar as suas discordâncias.

PGL – Caetano Veloso tem uma canção que diz: A língua é minha pátria e eu não tenho pátria. E quero frátria (Língua –  Editora Gapa). Em sua opinião, o Acordo Ortográfico conseguirá transformar o universo lusófono em uma grande frátria (pelo menos no sentido lingüístico?)

JAN – Creio que Luís de Camões e Fernando Pessoa preferiram a “Pátria” à “Frátria” agora sugerida por Caetano Veloso, mas também há quem recorra à “Mátria” – é uma questão de bom gosto desde que se prestigie a Língua Portuguesa!

PGL – Com relação à Galiza, região historicamente ligada à lusofonia, como é que ela pode ter maior participação na CPLP?

JAN – Na primeira reunião em torno da primeira versão do Acordo Ortográfico, realizada anos na Academia Brasileira de Letras (Rio de Janeiro) estiveram presentes alguns intelectuais galegos que propuseram a inclusão da Galiza, mas a sugestão não foi considerada porque todos os participantes representavam países – e não regiões. Admito que a mesma dificuldade ocorra no caso da CPLP, ainda que o problema mereça ser tratado sob o prisma cultural.

PGL – Como o Brasil pode auxiliar nesta inserção da  Galiza na CPLP?

JAN – Confesso que não sei, mas entendo que o caso pode ser debatido na Imprensa, e por mim estou ao dispor para divulgar o que estiver ao meu alcance.

PGL – Estudioso de Fernando Pessoa, pediria que explicasse para os leitores, especialmente para os estudantes, dos primeiros ciclos, a importância de conhecer a obra do grande poeta.

JAN – A poesia, a ficção e os estudos pessoanos não são impenetráveis. Os professores podem explicar facilmente o espírito dessa obra; portanto, que a leiam, em primeiro lugar, assim como as interpretações de João Gaspar Simões, Adolfo Casais Monteiro, António Quadros, Jorge de Sena e outros ensaístas portugueses, brasileiros, espanhóis e franceses. Porém, tudo pode compreender-se, mas a leitura é indispensável.

PGL – Tendo lançado recentemente o livro Fernando Pessoa, Salazar e o Estado Novo, como definiu o pensamento político do poeta da Mensagem?

JAN – O meu  propósito foi o de esclarecer, antes de mais nada, que o nacionalismo de Fernando Pessoa nada tem a ver com o “nacionalismo” de Antonio de Oliveira Salazar, que foi semelhante  ao de Mussolini, Hitler e Stalin (cada um a seu modo). Confundiu-se o prêmio que o poeta recebeu do governo salazarista com o regime. Deveria recusá-lo? Agiu muito bem o Poeta – e o tempo deu-lhe razão, porque chegou-se à conclusão de que a Mensagem nada tinha a ver com o regime. E pelos textos que juntei e comentei no livro Pessoa X Salazar  conclui-se  que Fernando Pessoa não poderia publicar, na época, o que pensava do ditador – a Censura não o permitiria. Os 5 poemas e os 17 textos em prosa são inequivocamente contra Salazar e tanto assim que o escritor foi ao ponto de declarar publicamente que não era possível escrever e publicar o que pensava.

 

Nota: O livro Fernando Pessoa, Salazar e o Estado Novo, da autoria de João Alves das Neves, pode ser adquirido através da Livraria Alpharrábio alpharrabio [arroba] alpharrabio.com – telefone: (+11) 4438 4358 e custa R$20,00 (além das despesas do correio).

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