Por Ernesto Vázquez Souza
O dia 15 de agosto de 1957 comezaron en Bos Aires as clases do curso organizado por AGUEA (Asociación Galega de Universitarios, Escritores y Artistas). O profesor de Xeografia Ramon Valenzuela, na compaña do enxeñeiro arxentino Diego Diaz –talento, vontade, desinterese e herdado sentimento galego- foi procura-lo mapa de Fontán, traído de Galicia por Rodolfo Prada e pendurado na mostra que com debuxos de Castelao, porcelanas de Díaz Pardo e libros galegos editados na Arxentina, estivera aberta em Garth e Chaves, organizada polo Centro Lucense.
Co gran mapa ben envolto, Valenzuela e Diaz foron, mentres percorrían nun taxi mestas ruas do centro de Bos Aires, debullando loanzas para o seu autor, Don Domingo Fontan, sabio galego, Director do Observatorio Astronómico de Madrid, que em 1835 editou por conta propia esse gran monumento que é a Carta Xeomética de Galicia, na que persoal e amorosamente traballou durante 20 anos, percorrendo camiños, subindo montes, atravesando paraños…
Cando se baixaron do auto e se dispuxeron a pagar o que marcaba o contador, o chofer com emocionada sinxeleza díxolles:
– Perdoen, no auto que eu conduzo non paga o mapa da miña Terra nin os que o tratan con tanto amor.
Xosé Núñez Búa, Revoeira, “Lección para ricos”
Uma das questões mais evidentes no construto histórico e dramático da nacionalidade, da história, da literatura e da língua galega é como nele se espelha o conflito subjacente de classes que no projeto de nação e de transmissão da idéia desta concorrem.
Se James Joyce era direito e brutal na alegoria quando assegurava ser a literatura e crítica irlandesa – tal como a nossa – o espelho esnaquiçado de uma criada (dos ingleses), não é menos certo que Castelao, não menos brutal e alegórico, caricaturizou outrora a Universidade galega como essa ama de cria do caciquismo que continua a ser.
Enceto com estas duras duas imagens, e com a luta de classes desenhando o conflito no nosso projeto nacional a empapar a narrativa e os feitos dos galegos, para endereçar a José Manuel Barbosa a admirada consideração polo seu trabalho e a explicação que devo.
No boletim número 2 da Academia Galega da Língua Portuguesa, correspondente a 2009, vai (p. 273-279) na seção Publicações, uma crítica intitulada homônima ao trabalho do Acadêmico Professor: Atlas histórico da Galiza e do seu contorno geográfico cultural, Edições da Galiza, 2008.
Nesta crítica, no jogo de uma alegoria balizada por dous marcos simbólicos – que encetava com a cena do mapa de Fontam em hora da morte do tio-padrinho e herança como chave a partir da qual há que ler e entender uma parte do significado de Arredor de Si (e portanto do conjunto da magna obra Histórico Geográfica de Otero Pedrayo) e terminava com o destaque do labor continuado e humilde que levou a fazer a Carta ao Domingos Fontam mesmo – com que pretendia pôr em destaque uma série de carências que afeavam, na minha pessoal opinião e talvez teima, um trabalho, não apenas fulcral e rompedor de horizontes quanto simbólico e patriótico desafio, como também continuador na linha popular nacional dos patriotas que tomam o lugar e espaço que a outros – mais ocupados em encher o bandulho e vender o país – lhes corresponderia.
Pois se há algo que destaca no Atlas da Galiza do bom Barbosa é o patriotismo do gesto e a lição de erudição histórica. Lição, se me permitirem, dada polo gesto ousado de botar ao mundo este volume, que vai além do imenso trabalho sistêmico e documental na linha anterior a 1936 de construção e recuperação de uma História Antiga nossa. Volume tecido como desafio à historiografia ad usum delphini (nunca melhor dito, pois para herdeiros do rei da França e não para galegos parece feita), que se corta e ensaia nos laboratórios, departamentos e anexos da universidade espanhola na Galiza.
Por vezes semelha que, mais atentos a tecnicismos de escola acadêmica (esses mesmos tecnicismos que carecem de valor quando o que impugnamos é a totalidade dos conteúdos e linhas posteriores ao apagamento franquista), desconsideramos as achegas que têm a virtude profunda de trazer à tona temas, linhas, motivos abandonados ou desconsiderados como menores, mas que recuperam ou iluminam sentidos, períodos, zonas obscuras e apagadas.
Do mesmo jeito que passarão anos antes de sermos capazes de medir o carácter pioneiro de trabalhos questionadores como os de António Gil, Antón Capelán, Fernando Corredoira, Luís Lamela, Dionísio Pereira, López Carreira, Celso Cáccamo, André Pena Graña, Mário Herrero ou Pepe Orjais, entre outros que agora me vêm à mente e a par de outros talvez mais consagrados, na evidenciação da Mátrix feixista em que fomos educados e vivemos, não há duvida que tardaremos a perceber a intensidade do impacto que tem provocado no imaginário visual e no alicerçar da mesma construção do discurso histórico a seguir, nessa esperança que são os moços do futuro, o conjunto de mapas agora editados.
Incapaz eu, por premência de tempo e também por falta de capacidade de exprimir no decurso de uma análise em que o meticuloso do erro apontado assombra mais do que devera isto que agora exponho; e tendo sido pouco acertado na minha crítica – que entenda-se é apenas (ou deveria ser) diálogo entre iguais (eu sendo menos evidentemente dado que o trabalho foi feito com labor e fadiga por uma pessoa)- no momento de destacar estes aspetos que agora enuncio; consciente agora que a procura obsessiva minha de umas linhas de construção que fizeram destacar a força e significado que -para mim- tinham os mapas, podem ser entendidas a contrário quereria agora enviar com um abraço nesta nota a minha profunda admiração ao trabalho e contexto em que foi feito e sai este Atlas.
E quisera deixar disto testemunho claro: do trabalho, patriotismo, mensagem de renovação e refundação nacional, já não espelho de senhores, que traz o Atlas e que está a se evidenciar neste presente dentro do reintegracionismo, pois na releitura – já impresso e publicado o meu trabalho – fica-me como um mau gosto de quem se excede em pessimista a criticar aquilo que não tem direito e que gostaria apagar.
Mas como não posso apagar os meus feitos, desculpo-me por cá e saibam pois, quantos esta carta virem de qualquer jeito, que é impossível que seja criticado a mal, por quem apenas tinha como missão transportar a outros olhos o trabalho, quem desenha os mapas da história da minha terra e quem os cuida com tanto amor.
Valladolid, 3 de novembro de 2009.
