Coral de Ruada de Ourense, um dos corais mais antigos da Galiza



coral-de-ruada-foto-antigaDentro da mini-série que estou a dedicar a pessoas coletivas lusófonas, e, em concreto a grupos musicais da Galiza e de Portugal, não podiam faltar os grupos folclóricos tanto de canto como de dança, campo em que a nossa terra sempre destacou já desde há muitas décadas. O músico, compositor, organista e diretor de orfeões, Pascual Veiga Iglésias, autor da famosa “Alvorada Galega” e da música do nosso hino, já tinha criado respetivamente em 1875, 1879, 1880 e 1882, os Orfeões Corunhês, Brigantino, Pacheco e “O Eco” da cidade herculina. Pela sua parte, Perfecto Feijóo fundou o coral “Ares da Terra” de Ponte Vedra em 1883; em 1900 nasceu no Ferrol “Airinhos da minha Terra”, cidade em que também em 1914 surgiu o importante “Real Coro Tojos e Flores” e um ano mais tarde, em 1915, a “Agrupação Artística” de Vigo. Em 1916 nasceram três corais: “Cantigas da Terra” de Corunha, “Foliadas e Cantigas” de Ponte Vedra e “Agarimos da Terra” de Mondariz. Em 1917 “Cantigas e Aturuxos” de Lugo e “Sociedade Artística” de Ponte Vedra. Em 1918 foi fundado em Ourense o “Coral de Ruada”, a que temos o prazer de dedicar-lhe o presente depoimento. Ao coro Ruada seguiram-lhe o nascimento de “Cantigas e Agarimos” de Compostela, em 1921, vai fazer cem anos, e em 1923 “Airinhos do Ulha” de A Estrada. É este o número 58 da série de artigos dedicada à Lusofonia.

PEQUENOS DADOS DO CORAL DE RUADA

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Retrato do grupo em 1954

De forma sintética apresento uns pequenos dados biográficos do Coral de Ruada ourensano. O dia 5 de outubro de 1918 um grupo de amigos amantes da música, do canto, do folclore e da cultura da Galiza, de forma cooperativa e solidária, decidem criar na “Cidade das Burgas” uma agrupação folclórica de música e canto popular, à qual baptizam com o nome de “Coral de Ruada”. O grupo de fundadores estava formado por Xavier Prado “Lameiro”, Virgílio Fernández, Júlio Prieto Nespereira, Fabriciano Iglésias Abelha e Cesáreo Eire Santalha. Por estar a fazer na África na sua altura o serviço militar um jovem chamado José Ramóm (conhecido com o pseudónimo de “Bem-Cho-Shei”), não pôde integrar-se no grupo criador. As primeiras reuniões para a criação do coral, e o berço do seu nascimento, foram na casa de Cesáreo Eire, que era secretário judicial apaixonado pela música e um dos fundadores. A casa, denominada “Vila Joaquina”, conserva-se situada na hoje chamada Avenida de Zamora, muito perto do jardim do Possio. Naquela altura era um lugar ideal, ao não existir casas perto, porque podiam fazer-se reuniões frequentes sem incomodar os vizinhos, e podia-se cantar e tocar música até altas horas da noite. Além disso, o coral teve ao longo dos tempos várias sedes, onde também celebrava os seus ensaios. A segunda sede foi no número 1 da Rua Pereira, hoje com o nome de Avenida de Pontevedra, no centro da cidade, muito perto do Liceu e da Praça Maior, onde estiveram uma dúzia de anos. A princípios dos anos trinta o coral deslocou-se para um local da Praça do Corregedor, onde muitos dias às sete da tarde realizavam os seus ensaios, durante uns vinte anos, e mesmo com a presença de muitos ourensanos, que gostavam de ouvir os seus cantos populares. Em 1958, decidiram compartir um local na céntrica rua da Paz com a Acdemia Balmes, que dirigia Luís de Dios Rodríguez. Em 1960 há uma nova mudança de local e o coral ocupa um na rua do Passeio, onde estavam também duas famosas lojas, Tobaris e Celestino. Por contar agora com a ajuda económica da Deputação, e ser um local gratuito, em 1963 passa a ocupar um andar da instituição provincial na rua Cruz Vermelha, tendo como vizinhos também à Escola de Artes e Ofícios e ao Ballet Folclórico Ourensano. De qualquer forma, o périplo do coral pela cidade ourensana não termina aqui, pois em 1970 se instala num local no canto das ruas Curros Enríquez com o Parque de S. Láçaro, regressando em 1973 de novo para o antigo local do Passeio, e no 1977 para outro na Rua do Progresso. Por fim, em 1988, depois de ser restaurado o Teatro Principal da Rua da Paz, que tinha sido salvado pelo grupo “Adepende”, e adquirido pela Deputação que presidia Victorino Núnhez, o destinado ao coral, tal como estava projetado pelo arquitecto Iago Seara, membro do grupo salvador mencionado, no ático do teatro, onde ainda hoje continua e leva realizados os seus ensaios durante os últimos 32 anos.

O dia 5 de outubro de 1918 um grupo de amigos amantes da música, do canto, do folclore e da cultura da Galiza, de forma cooperativa e solidária, decidem criar na “Cidade das Burgas” uma agrupação folclórica de música e canto popular, à qual baptizam com o nome de “Coral de Ruada”

Daniel González, primeiro diretor da Coral, entre 1919 e 1955.

Daniel González, primeiro diretor da Coral, entre 1919 e 1955.

De 1919 a 1955, durante 36 anos, o diretor do coral foi um importante músico recompilador de cantos chamado Daniel González Rodríguez, autor da interessante monografia Así canta Galiza, um cancioneiro musical. Com ele o coral gravou o seu primeiro disco com a editora Columbia, e dirigiu o coral no seu importante roteiro de quase que três meses por Argentina, Montevideo (Uruguai) e Brasil, em 1931, sendo Camilo Diaz Balinho o autor do cartaz e o cenógrafo. Por um tempo foi também diretor Isolino Casal. E em 1955, António Jaunsarás, durante um ano, ocupou o cargo de diretor substituindo a D. González.

O segundo grande diretor do coral, que eu tratei e conheci, por tê-lo como companheiro de professor no Instituto do Jardim (hoje com o nome de Otero Pedraio), no ano académico 1970-71, foi Manuel de Dios Martínez, grande compositor e profissional. Esteve dirigindo o coral durante 35 anos, de 1955 a 1990, que deixou com grande tristeza ao falecer as suas duas filhas num desgraçado acidente de viação. Escreveu e compôs, entre outras, para o coral as formosas cantigas “Ourense ao longe” e “A virgem de Portovelho”, que estão recolhidas no seu livro publicado pela Deputação Cantos de trazer e levar. Além disso, devemos destacar que houve entre 1965 e 1969 uma etapa com diretores provisórios, que foram Álvaro de Dios, José Dacal, José Pascual e Bruno Fuentes.

Manuel de Dios, segundo diretor da Coral, de 1955 a 1990.

Manuel de Dios, segundo diretor da Coral, de 1955 a 1990.

Em 1990, quando Manuel de Dios deixou definitivamente a direção do coral, entrou de diretor Javier Luís Jurado Luque (de 1991 a 1993), ao que seguiram José Maria Santos González Álvarez (de 1993 a 2000), Juan José Rumbao Requejo (de 2000 a 2008) e finalmente, em 2009, passa a ser diretor o grande músico e compositor ourensano Xoán Antón Vázquez Casas, autor da letra e música de numerosas cantigas (mais de 200), e professor desde 1997 de Fundamentos da Composição no Conservatório de Ourense. A dia de hoje continua de diretor do coral, tendo como vice-diretor a Álvaro Iglésias Montes.

Como presidentes da diretiva passaram pelo coral importantes personalidades ourensanas. Para nós o mais importante foi Manuel Rego Nieto, que presidiu o coral durante uns dez anos, de 1991 a 2002. Época na que se realizaram roteiros a várias localidades de Portugal, e se organizaram as reuniões anuais dos amigos do coral na carvalheira de Usseira. A Rego substitui-o como presidente Eládio Quevedo Almoina, e na atualidade o presidente é o ex-professor de secundária e inspector de ensino, Samuel Lago Fernández. Em 1972 fora presidente José González Borrajo, e até ocupou por um tempo o cargo o controverso professor Ogando Vázquez. Graças a Rego Nieto, o coral participou nalgumas das edições das Jornadas do Ensino da Galiza e Portugal celebradas na cidade de Ourense.
A diretiva atual é composta pelos seguintes membros: Samuel Lago (presidente), Emílio R. Portabales (vice-presidente), Fátima Mª Malingre (secretária geral), Alfonso Rapela (tesoureiro), Carmelo Jesus Hernández (arquivista-bibliotecário), Xoán A. Vázquez Casas (diretor artístico), Álvaro Iglésias (subdiretor), e como vogais: Ana Mª Herrero, Mª Belén Vázquez e Mª Elena González.

Concerto da coral de Ruada na catedral de Ourense em 2015. Foto: Xesús Fariñas

Concerto da coral de Ruada na catedral de Ourense em 2015.
Foto: Xesús Fariñas

Entre os prémios, condecorações e reconhecimentos, o coral recebeu os seguintes: Medalha de bronze da Galiza, Pedrão de Ouro, Medalha Castelão, em 2018 o Prémio Trasalva, e em 2019 o Prémio Rebulir da Cultura Galega na categoria de “Homenagem”, ao se fazerem os cem anos da sua criação. Há que destacar também que o próprio coral organiza, em colaboração com o Concelho de Ourense, um prémio anual sob o nome de “Prémio Xavier Prado Lameiro”, que se convocou por primeira vez em 2010.

Nota: Um amplo depoimento sobre a história do grupo e outros importantes dados pode ser consultado entrando aqui, que é a página oficial do coral.

FICHAS DOS DOCUMENTÁRIOS

0.-Coral de Ruada de Ourense.
Duração: 29 minutos. Ano 2012.

1.-Alalá nº 140 de Coral de Ruada.
Duração: 41 minutos. Ano 2016. Produtora: TVG.

2.-Negra sombra, por Coral de Ruada.
Duração: 5 minutos. Ano 2010.

3.-Ourense ao longe, por Coral de Ruada.
Duração: 6 minutos. Ano 2011.

4.-”Maitia nun zira”, por Coral de Ruada.
Duração: 3 minutos. Ano 2010.

5.-Panjolinhas na Catedral (2008), por Coral de Ruada.
Duração: 13 minutos. Ano 2013.

6.-Mugia, por Coral de Ruada.
Duração: 4 minutos. Ano 2010.

7.-Foliada de Luintra, por Coral de Ruada.
Duração: 5 minutos. Ano 2009. Produtora: TVG.

8.-Concerto de Natal (2011), por Coral de Ruada.
Duração: 2 minutos. Ano 2011.

9.-Os 100 anos de história do Coral de Ruada.
Duração: 1 minuto. Ano 2019.

FILMES E DOCUMENTÁRIOS EM QUE PASSAM CANTIGAS DO CORAL

a.-A Virgem do Cristal (Diretores Manuel e Satúrio Lois Pinheiro, e José Buchs, 1925, rodado em Alhariz, Vila Nova das Infantas e Gustei, baseado no célebre poema de Curros).

b.-O carro e o homem (Diretores António Román e Carlos serrano de osma, 1940, 12 minutos, rodado em Facós-Lobeira).

c.-Polizón a bordo (Diretor Florián Rey, 1941, longa-metragem, o coral interpreta “Negra sombra”).

d.-Mar abierto (Diretor Ramón Torrado, 1946, 85 minutos, longa-metragem).

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Cartaz desenhado em 1931 para a Coral por Camilo Diaz Balinho.

e.-Sabela de Cambados (Diretor Ramón Torrado, 1948, 95 minutos, longa-metragem).

f.-Ruta de Ourense (Diretor Amador del Villar, 1956, 11 min., documentário rodado em Usseira).

g.-A terra dos nossos maiores (Diretor Manuel Arís, 1960, 87 minutos).

h.-Alma Galega (Diretor Armando Hermida Luaces, 1966, 126 minutos, documentário).

i.-O Himno Galego (Diretor Carlos Soro, 2001, 52 minutos, documentário).

Existem outros dous trabalhos fílmicos com referências ao coral:

1.-Vídeo comemorativo: “80º Aniversário (1919-1989) do Coral de Ruada”, patrocinado pela Deputação de Ourense e produzido por TV7 SL.

2.-Um filme sobre “Tacholas”, um ator que fora no seu dia membro do Coral de Ruada, sob o título de Tacholas: um actor galaico-portenho (Diretor José Santiso, 2004, 54 minutos, documentário rodado na Argentina).

LETRA DA CANTIGA “OURENSE AO LONGE” DA AUTORIA DE MANUEL DE DIOS, E INTERPRETADA PELO CORAL DE RUADA

Galiza tem uma porta
a portinha do abrente
e os caminhos que dão nela
passam todos por Ourense.

De Ourense sou e ali deixei
nas Burgas sonhos da infânciacoral-de-ruada-capa-disco-antigo-8
no Santo Cristo a devoção
na Ponte o meu coração.

Quando o Minho chega a Ourense
rouba à Ponte um beijinho
e ao passar pelo Ribeiro
canta ledo e bebe vinho.

Os que nascem em Ourense
levam no peito um luceiro
com a roda pelos caminhos
percorrem o mundo inteiro.

Quando o Minho chega a Ourense
diz-lhe a Ponte mui baixinho
se não fosse por Ourense
não serias Rio Minho.

De Ourense sou e ali deixei
nas Burgas sonhos da infância
no Santo Cristo a devoção
na Ponte o meu coração.

DISCOGRAFIA BÁSICA DO CORAL DE RUADA

A lista de discos que chegou a editar o coral, tanto próprios, como de editoras privadas, pode ser consultada aqui.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Visualizamos os documentários anteriormente referidos, e depois desenvolvemos um cinemafórum, para analisar o fundo (mensagem) deles, assim como os seus conteúdos.
Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada ao Coral de Ruada de Ourense (Galiza). Nela, alem de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros, discos, CDs e monografias.
Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino uma Audição Musical das mais famosas peças do grupo coral, em que participem alunos e docentes. A escolha das peças musicais e de cantares da audição podemos fazê-la dos seguintes discos do grupo: Canções de Ourense (1959), Assim canta Galiza (1970), Agarimos da Nossa Terra (1959), Coro de Ruada: Escena Coral Galega (Ouvirmos, 2006)  e Quando o Minho chega a Ourense (1989).

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.


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