Continuemos: “binormativismo” ou “reconhecimento oficial do português”?



Eduardo Maragoto Nós TelevisiónCaro Henrique,

Obrigado pola resposta à minha carta, em que levas o debate para qual seria a norma proposta polo reintegracionismo num eventual binormativismo.

Com efeito, é difícil ignorar a atual falta de equivalência entre as Normas Ortográficas e Morfolóxicas do Idioma Galego da Real Academia Galega (RAG) e as normas reintegracionistas, menos uniformes, de maneira que poderia ter todo o sentido escolher diretamente um dos padrões lusófonos (Portugal, Brasil) para tornar possível um hipotético binormativismo. Dizes-me que, sendo assim, ao que eu chamo “binormativismo”, tu chamarias “recoñecemento oficial do portugués”, do qual és partidário.

Começarei por dizer-che que, a meu ver, acertas ao identificar ambos os conceitos. O binormativismo poderia ser implementado de várias formas, como vou explicar, mas reconhecer oficialmente a língua portuguesa, ainda que fosse como estrangeira separada do galego, já implicaria de facto um tipo de binormativismo, pois definiria um vínculo da Galiza com a língua portuguesa parecido com o que a AGAL tem chamado “modelo luxemburguês”. O galego estaria para o português como o luxemburguês está para a língua alemã. Que as pessoas vissem ambas as abstrações como a mesma (binormativismo) ou diferentes línguas (bilinguismo) ficaria reservado ao plano pessoal.

Há múltiplos motivos que, chegado o momento, podem aconselhar este modelo. Apresentando a segunda norma simplesmente como “português”, seria mais fácil fazê-la avançar na sociedade, que em geral veria melhor o investimento num idioma internacional que noutra variante de galego, nomeadamente no ensino. Fora desse âmbito, evitaríamos problemas identitários: teríamos o galego por um lado e o português escrito por outro, ainda que este fosse o suficientemente flexível para admitir diferentes graus de galeguizaçom.

Ora bem, como tu dizes, a via do “recoñecemento do portugués” depende de governos (e outros organismos) onde a nossa influência é limitada. Para já, oficializar esta língua poderia colidir com a Constitución Española, que só se refere à cooficialidade das demais línguas “españolas”. Nesse caso, haveria que conformar-se com um status mais modesto, talvez partindo da Lei Paz Andrade e pensado simplesmente para tolerar o uso do português escrito na sociedade, mas, para isto ser possível, o seu ensino devia alcançar todos e todas as alunas, algo que nenhum partido político prometeu ainda.

Por isso, a dada altura, pode ser aconselhável ensaiar outro modelo de binormativismo: oficializar duas normas para a língua, sem tratar separadamente galego e português. Teríamos o galego atual, que nos vincula à escrita dos últimos séculos, e o internacional, convergente com o português, ensinados nas mesmas aulas obrigatórias de galego. E eis que se me afigura fundamental o papel da RAG, a entidade que pola atual Lei de Normalización Lingüística já teria “autoridade” para dar ao “galego internacional” o estatuto de segunda norma do galego. Seria o modelo binormativista norueguês. A RAG poderia estar para o galego local e o internacional como o Conselho Norueguês da Língua está para o nynorsk e o bokmål, autorizando as duas normas e dando recomendações sobre como elas devem ser administradas.

Ora bem, já existem normas a ter em conta para esse “português flexível” ou “galego internacional”, segundo qual for a via ensaiada? Existem, sim. Em 2016, precisamente prevendo que a via para resolver o nosso problema pudesse passar por algum tipo de binormativismo, a AGAL aprovou a Ortografia Galega Moderna Confluente com o Português no Mundo, de carácter marcadamente descritivo. Ao contrário de outras anteriores, esta dá cabimento ao português escrito sem restrições, mas também contempla variantes galegas, orientando as pessoas para saberem fazer as suas escolhas de forma coerente.

Em 2016, precisamente prevendo que a via para resolver o nosso problema pudesse passar por algum tipo de binormativismo, a AGAL aprovou a Ortografia Galega Moderna Confluente com o Português no Mundo, de carácter marcadamente descritivo. Ao contrário de outras anteriores, esta dá cabimento ao português escrito sem restrições, mas também contempla variantes galegas, orientando as pessoas para saberem fazer as suas escolhas de forma coerente.

Para finalizar, quero concordar contigo na conveniência de evitar debates nominais. Se o termo binormativismo dificultar os consensos, estou certo que ele acabará deixando passo a outros que melhor definam o caminho que ainda devemos percorrer.

Abraços galeguistas e fraternos

[Este artigo foi publicado originariamente no Nós Diario]

Eduardo S. Maragoto

Eduardo S. Maragoto

(Barqueiro, Galiza, 1976) Estudou Filologia Portuguesa em Santiago de Compostela, cidade onde participou no sindicalismo estudantil e na fundaçom do Movimento de Defesa da Língua (MDL) através da Assembleia Reintegracionista Bonaval. Entre 2001 e 2006 trabalhou na Escola Oficial de Idiomas (EOI) de Valência, onde participou na constituição de Veu Pròpria (associaçom de novos e novas falantes de catalám) e da plataforma Nunca Mais. Na atualidade trabalha como professor de português na EOI de Compostela. Desde 2006 até 2010 pertenceu ao conselho de redaçom do jornal Novas da Galiza, jornal onde coordenou os trabalhos de correçom e a secçom de Além Minho. Também pertence à Gentalha do Pichel e à AGAL, associaçom que preside na atualidade. É autor do livro Como Ser Reintegracionista sem que a Familia Saiba e co-autor do Manual Galego de Língua e Estilo e dos documentários Entre Línguas, Em Companhia da Morte e A Fronteira Será Escrita.
Eduardo S. Maragoto


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  • Arturo Novo

    O que sobram são fórmulas e propostas para melhorar a situação do galego. Bem seguro, todas elas bem razoadas. Quem falha é o interlocutor elegido. A RAG apenas tem capacidade de decisão, nem intenção alguma de mover os atuais marcos estabelecidos para o galego. A RAG é o parvo útil do poder junteiro-madrileno. Se a RAG tivesse essa capacidade, no seu dia não seria criado o ILGA. O ILGA nasceu como um instrumento com o que poder ignorar a RAG. Só agora que a RAG está bem domesticada, volve a ter certo protagonismo. A RAG não é um organismo autónomo, a RAG é um organismo que depende economicamente da Junta de Galiza. Portanto, nunca vai contrariar a quem lhe paga as faturas. Nunca o fez nem nunva o vai fazer. Nestas circuntâncias, o único interlocutor válido seria o poder. E o poder, como diria Constantino Garcia, não necessita dialogar com ninguém, pois por algo é o poder. Se o poder quisser normalizar o galego, intentaria exprimir a legalidade vigente com essa finalidade. Mas não quere! Não quere nem o seu próprio modelo de língua e muito menos vai querer o doutros. A Junta de Galiza, comandada polo PP, o único que quere e a desaparição total do galego. Se a estas alturas todos somos cientes disto, e o somos, que sentido tem dialogar com quem nada pode embora quisesse? Estamos cegos, parvos ou que?
    Por que achais que que a Lei Valentim Paz Andrade ainda não foi o suficientemente implementada? Enquanto na Junta de Galiza governe o PP, nunca tal cousa acontecerá! Tal cousa só será possível quando o galego desapareça por completo da nossa sociedade. Dado que galego e português, como todos sabemos, são duas variantes da mesma língua, enquanto existam falantes de galego, sempre existirá também o risco de os galegos reconhecermo-nos no português. Compreendeis o que isso significa para o poder colonial castelhano-espanhol? Este perigo não existe na Estremadura, por isso o português é apoiado pola Junta Estremenha.
    Em definitiva, entendo que o atual Conselho da Agal atua de boa fé, mas também entendo que está a perder o tempo. Que ninguém se faça ilusões.

    • Alhobugalho

      Concordo.

    • Saleta Gil

      Opinando sem pertencer à AGAL, acho que não é ser parvos, é fazer lobby. E que AGAL continue com os seus outros trabalhos em paralelo!

      • Arturo Novo

        Fazer “lobby” com quem? Com o colaborador de quem nos quer fazer desaparecer? E para que? Essa suposta colaboração para o único que nos pode servir è para perder efetivos ou incorporar outros novos.

        • Saleta Gil

          (Desculpa pelo uso de teclado ingles)

          Do meu ponto de vista, e muito breve, penso que a conversa publica ajuda a:

          a) “normalizar” o reintegracionismo como opcao viavel para os galegos. O galego nao se pode normalizar sem um movimento reintegracionista amplo e integrado na sociedade galega;

          b) evidenciar em ‘publico’ que a formula mais coerente e legitima e a reintegracionista, o qual contribue netamente para a).

          Acho, ademais, que e importante e determinante para o sucesso do reintegracionismo que haja diversidade de opinioes e que todas sejam benvindas.

          • Arturo Novo

            Como efeito progaganda, não serei eu quem diga que esse diálogo não possa ser proveitoso. E quiças até para atingir alguma subvenção que outra para a Agal. Ora bem, pensar que desse diálogo vai sair algum outro tipo de avanço para as nossas pretenções binormativistas vai um mundo.

  • Miro Moman

    A ver uma coisinha:

    A Constituição Espanhola delega a determinação de quais viriam sendo as línguas regionais espanholas cooficiais nos Estatutos de Autonomia das Nacionalidades Históricas.

    Por sua vez, o Estatuto de Autonomia da Galiza delega tal competência na RAG (se calhar também no ILG?).

    Isto quer dizer que a RAG poderia unilateralmente declarar o português língua regional espanhola cooficial, já for como variante do galego ou como língua (galega e, portanto, regional espanhola) separada do galego.

    Daí é precisamente de onde se deriva o poder da RAG. A RAG recebe financiamento diretamente do Governo da Espanha. Malício que a finalidade disto seja precisamente a de conter o “perigo português”.

    Se oficializarem o português se calhar ficam sem subsídios. Eis o problema.

    Mas honestamente acho que temos chegado a um momento histórico no que já não temos nada a perder.

    • Arturo Novo

      Assim como a Constituição Espanhola a conheço o suficientemente bem como para atrever-me a opinar sobre alguns dos seus aspectos mais relevantes, reconheço que sobre o Estatuto não tanto. Ignoro com exatitude quais são as competências que delega o Estatuto na RAG, mas fico muito surprendido polo que dizes ao respeito. De qualquer jeito, tanto dá. A RAG nunca vai ir abertamente em contra dos interesses junteiros do PP. E o PP já todos sabemos bem o que quere, ou melhor dito o que não quere: o galego!
      E sempre há algo que perder: o tempo e com ele a dignidade! O tempo dá-o Deus de balde; ai, mas a dignidade…! Olha que algum companheiro já abandonou a AGAL por discordar com esta estratégia. E somos mui poucos, hóstia! Somos mui poucos e não entendo por que, havendo como há tanto reintegrata solto polo mundo adiante. Será que tudo o compromisso se nos vai pola boca e daí não somos quem de passar. Alguns devem pensar que as cousas se arranjam soas. Enfim…

      • Miro Moman

        O mundo não é branco e preto, Arturo.

        No PPdG e na RAG existem “sensibilidades” e interesses distintos.

        Eu acho que conviria que os galegos voltássemos ao nosso natural e víssemos as cousas de forma menos dogmática e mais estratégica.

        A mim a estratégia binormativista parece-me bem. Está bem tentar. Embora eu já tenho feito uma outra proposta que, ao final, é a que vai funcionar.

        • Arturo Novo

          Sei bem que o mundo é algo mais que branco ou negro, como também sei que não todxs xs académicos da RAG têm a mesma sensibilidade. Mas por acima de tudo a RAG é um órgão coletivo e como tal há que valorá-lo. E a função da RAG a estas alturas já todos sabemos qual é.
          Miro, embora o pareça eu não sou dogmático, só intento ser realista. Eu partilho a estratégia binormativista. Mas não só por estratégia, senão por pura necessidade. Depois de quarenta anos de práticas isolacionistas não podemos pretender passar por arte de mágia a um reintegracionismo total. Isso é algo inpensável! Quem não é binormativista é a RAG. Nem o é, nem acho que o seja nunca. Eis o problema! Insisto, a RAG tem pouca capacidade de decisão sobre sim mesma e muito menos sobre a ação do governo junteiro do PP. A primeira e principal preocupação da RAG é sobreviver no conforto do seu oásis e só depois se vai preocupar pola língua. A RAG nunca se vai enfrentar a quem lhe dá de comer. Puro sentido comum.

      • Miro Moman

        A razão pela que não estou na AGAL nem em nenhuma outra organização galega está explicada cá:

        http://agal-gz.org/blogues/index.php/ddooler09/2009/06/04/elogio-da-traicom

        A verdade é que sou um tipo repunantíssimo, mas não o suficientemente maquiavélico para passar-me ao inimigo. Assim que fico nas margens para não lixar a boa imagem de ninguém.

        • Arturo Novo

          KKK…! Muito engraçado! Grande o Quico Cadaval! Mas é claramente um exagero. Quando realizei o comentário sobre a possibilidade de fazer-se sócio da Agal não estava a pensar em ninguém em particular. E no caso de estar informado de que ti não o és, possivelmente poupá-lo-ía. Mas já que o fizem, repetirei a mesma mensagem de sempre: sem sócios não há Agal, e sem Agal dificilmente o reintegracionismo resistiria.

  • Ernesto Vazquez Souza

    Um discurso e uma AGAL que não me interessam. Passo. Qualquer dia que me levante de mal pé ou com ressaca encaminho a baixa.

    Saúde.

    • conavirus

      Nom hai que dramatizar. Entendo que se trata dumha operaçom de propaganda, de trazer à tona um debate, o da questom da língua, que é irrelevante prò 99% da populaçom. O uso deste narcissista como idiota útil no papel de interlocutor é a mais ajeitada, pois quem mais no galego institucional vai ousar um (pretendido) debate cos lusistas?

      Mas isto nom vai dar mais. A única estratégia possível acho é irdes por vias extraoficiais, ações e petições como a que deu essa lei Paz-Andrade, cooptaçom pedagógica de docentes de galego pra introduzirem o trelo nos estudantes, escolas semente, etc.

      E despois a via dos direitos humanos, coma os dos homosexuais, etc: reclamar o direito humano de qualquer indivíduo a considerar o português como forma culta do galego, a mesmo considerar-se português, como apontou o Miro. Mas pra isso hai que estar disposto a ir aos tribunais …

  • conavirus

    Are you serious about this?

    Daquela deixade-vos de monicreques narcissistas. George Soros, Open Fundation. Plenty of money and help. Ask the Catalans. Break up Spain and modern nation-states to make way for the New World Order (under the mirage of the European Union).

    Proponho o Alexandre Banhos como diplomata pra esta mefistofélica missom …