Coincidências: Afonso Castelão e Fernando Pessoa



Já tivemos a oportunidade, em artigo publicado no ano passado, de discorrer sobre a incrível semelhança entre duas narrativas quase coetâneas, sendo uma de Rafael Dieste (1899 – 1981) e outra de Scott Fitzgerald (1896 – 1940).

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Fernando Pessoa

Com muita razão, um escritor lusitano vislumbrou mais uma surpreendente similitude entre duas obras notáveis: um conto ilustrado de Afonso Castelão (1886 – 1950) e um poema de Fernando Pessoa (1888 – 1935).

Eis o que ele nos diz:

O primeiro poeta do mundo que chamou às lágrimas pérolas era um gênio. Os outros, que reincidiram na maravilhosa comparação, não passam de imbecis. Se uma mera imagem pode entrar a circular pelo mundo fora e converter-se em propriedade de qualquer cidadão da ‘república das letras’, até com muito mais facilidade os temas ou motivos da inspiração (ou a difícil originalidade!) podem transformar-se em logradouro comum. A literatura apresenta assim esses dois sinais de mera repetição: autores que utilizam imagens, símbolos e metáforas já inventados pelos seus antecessores e autores que se inspiram nos mesmos temas. O inspirar-se, porém, num mesmo tema não quer dizer desde logo que exista mera imitação, porque a inspiração pode levar um curso diferente, um novo sentido, um relevo especial, uma autonomia própria. Imitar é plagiar, mas cuidado com este juízo. É que existe um outro fenômeno, o da coincidência. O tema é o mesmo, a sensibilidade com que é tratado é ponto por ponto semelhante e, todavia, não existe plágio, porque os autores ou se ignoravam ou não tinham mesmo conhecimento das suas criações literárias. O fenômeno da coincidência afasta de si qualquer mancha de plágio e é absolutamente honesto na sua singular polaridade. Não deixa de ser um raro fenômeno, tão raro como um cometa visível na terra.

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Afonso Daniel Castelao

Recentemente li o livro de breves contos do extraordinário escritor-pintor galego Afonso R. Castelão (1868 – 1950) intitulado ‘Cousas’ e que originariamente foram publicados nos anos 1926 e 1929 na imprensa galaica. Castelão era um sentimental com sentido das realidades que alienam o homem, o que o converteu num humorista com a máscara do riso-trágico, talvez o riso mais amargo que a Ibéria já deu. As suas rápidas estampas, dum impressionismo lacônico mas terrivelmente profundo, eram antecedidas por desenhos alusivos. Não sabemos se a prosa era um prolongamento dos seus desenhos ou caricaturas ou, pelo contrário, estas ilustravam o essencial da prosa, porque entre desenho e prosa a fusão é completa. A mesma emoção que o levava a desenhar um camponês na taberna com ar nostálgico o fazia escrever a prosa desse ambiente numa qualquer perdida taberna. Julgo que Castelão, se escrevia um texto, logo o ilustrava com um desenho e, se fazia em primeiro lugar o desenho, lhe seguiria imediatamente a prosa complementária. cousas-castelao

No livro ‘Cousas’ há um texto, já cerca do final do livro, que se chama Era um menino de manteiga. Ilustra-o uma criança em pijama, com as mãos nos bolsos e prendendo um brinquedo, um cavalito de madeira. A criança tem o farto cabelo encaracolado e uns olhos de ternura e absoluta inocência. O desenho logo cria no leitor um estado de candura. O texto é o seguinte (traduzo-o da edição castelhana de ‘Cousas’, na coleção Libro del Bosillo da Alizanza Editorial, Madrid, 1967, e não da edição primitiva em galaico):

Era um menino de manteiga, precioso como um cravo. Nenhuma senhora o podia ver sem o beijar logo de seguida.

Vestido como um príncipe de lenda, tinha um olhar entristecido como de criança que tivesse crescido entre sedas e beijos.

Os seus vestidos primorosos faziam do menino um bonequito apetecível para beijar com deleite.

O seu traje de carnaval levava dois meses de trabalho e a sua mãe morria de alegria.

Porque ao seu lado todos os demais meninos até davam pena, vestidos com os seus trajes modestos.

Mas a formosura do menino foi a sua desgraça.

Pouco a pouco, ao socairo dos mimos, o menino tornou-se jovem. Um jovem cheio de bondade. Uma bondade cheia de inocência.

O jovem entrou numa academia militar e a sua mãe chorava, se bem que no fundo de sua alma ela desejava que seu filho fosse distinto.

E quando chegou vestido de cadete, a mãe enlouqueceu de alegria. E o jovem continuava com a sua bondade limpa e branca de menino.

Um dia o jovem marchou para a guerra a cumprir as obrigações da sua profissão.

E aí caiu ferido de morte. E ao morrer não disse mais que esta frase tremenda:

Ai, minha mãezinha!’

Esta a breve e triste história que nos conta Castelão. Os valores são evidenciados pelo contraste: a bondade da mãe refletida na bondade do filho pugnando com a brutalidade da guerra; a juventude que cessa brutalmente e não estava preparada para vida tão diferente da sonhada.

Compôs Afonso Castelão este texto em 1926, 1927, 1928 ou em 1929? Foi num destes anos. Só pelos jornais se poderia estabelecer uma data e mesmo esta relativa, pois o texto não está em si datado.

Li este breve conto de Castelão e imediatamente me lembrei da famosa poesia O Menino de sua Mãe de Fernando Pessoa (1888 – 1935) e que o mundo culto conhece. O tema explorado é o mesmo: o contraste do jovem filho bem amado e mimado, ‘o menino de sua mãe’, feito de manteiga e bondade e que a bruta guerra leva num sem-sentido confrangedor.

Vale a pena reproduzir o poema de Fernando Pessoa para mostrar e provar tão sensacional coincidência de sensibilidade perante um mesmo tema. O conto de Castelão não deixa de ser um poema em prosa, pelo que devemos falar, num caso e noutro, em sensibilidade poética de dois autores perante o mesmo tema. O efeito desejado, o contraste entre bondade e maldade, entre sonho e realidade, entre vida e destino, é o mesmo em Pessoa e em Castelão e igualmente intenso. Eis o poema de Pessoa:

No plaino abandonado

Que a morna brisa aquece,

De balas traspassado

Duas, de lado a lado —,

Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.

De braços estendidos,

Alvo, louro, exangue,

Fita com olhar langue

E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!

(Agora que idade tem?)

Filho único, a mãe lhe dera

Um nome e o mantivera:

O menino da sua mãe’.

Caiu-lhe da algibeira

A cigarreira breve.

Dera-lha a mãe. Está inteira

E boa a cigarreira.

Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada

Ponta a roçar o solo,

A brancura embainhada

De um lenço… Deu-lho a criada

Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:

«Que volte cedo, e bem!»

(Malhas que o Império tece!)

Jaz morto, e apodrece,

O menino da sua mãe.’

Fernando Pessoa nem sempre datava os seus poemas. O Menino de sua Mãe não está datado, mas foi publicado por vez primeira na revista Contemporânea, 3ª. Série, nº 1, em 1926. Não andam longe um do outro, Pessoa e Castelão ao versarem o mesmo tema. Além de coincidirem no tema, coincidiram no tempo.

O leitor poderá agora estabelecer um paralelo e verificar até que ponto é exata a sensibilidade coincidente com que Pessoa e Castelão trataram o mesmo tema. A mesma emoção e o mesmo espanto. O mesmo absurdo e o mesmo tremendismo. O mesmo sentido metafísico (‘agora que idade tem?) perante a morte. E a mesma terrível verdade.”

O autor desse interessante artigo, publicado no suplemento literário do jornal O Estado de São Paulo, edição de 30 de agosto de 1969, é o brilhante escritor português Joaquim de Montezuma de Carvalho (1928 – 2008)1. Sobre a controvérsia em torno da nacionalidade do filósofo e matemático Francisco Sanches (provavelmente Tui 1550 — Toulouse, 16 de novembro de 1622), Montezuma de Carvalho, revelando extraordinária sensibilidade à histórica identidade luso-galega, escreveu:

A discussão reiterada se Francisco Sanches é português ou castelhano é a meu ver uma falsa polêmica. Mesmo que tenha nascido em Tui, na Galiza, no também incerto ano de 1550, a hegemonia política sobre o território e povo galaico não chega as índoles ao prussianismo cultural da Castela e dos reis Fernando e Isabel. Galiza está na Espanha mas não é Espanha, e se Sanches nasceu em Tui seria galego, mas nunca castelhano. A Galiza é um povo autônomo, mesmo que sem autonomia política. A Galiza é Rosália de Castro e Afonso Castelão. Hoje em dia mais do que nunca. Deixe a política de escravizar a autenticidade dos povos originais e multas falsas questões se esboroarão. O que direi antes é que Sanches é duas vezes português: uma porque talvez tenha nascido em Tui, outra porque desde criança se fixou com a família em Portugal (em Braga foi batizado, aos 25 de julho de 1551). Há um povo de comunidade galaico-portuguesa, mas não esta abstração de galaico-castelhana. É tempo de acabar com a ficção legalista dos reis católicos. (Letras da Província, Limeira/SP-Brasil, edição nº 107, de dezembro de 1979.)

É possível dizer melhor?

Porque algo distinto não se pode inferir da leitura cotejada e harmônica de ambos os textos de Montezuma de Carvalho, é certo dizer que os contemporâneos Pessoa e Castelão não deixavam de ser, também, conterrâneos. E que eram, bem assim, irmãos no poder sobrenatural de induzir a atrocidade a exsudar o lirismo.

1 Montezuma de Carvalho publicou este artigo na Grial – Revista Galega de Cultura, de Vigo, edição de nº 25, de julho, agosto e setembro de 1969, adaptando-o à ortografia vigente na Galiza.

Paulo Soriano

Paulo Soriano

Natural de Itabuna, Estado da Bahia, Brasil, é tradutor e contista amador. Reside em Salvador/BA, onde exerce a advocacia pública. Na Galiza, organizou as seguintes antologias: Mestres do Terror (Santiago de Compostela, 2010) e A Voz dos Mundos (Compostela, 2015), esta última em colaboração com o ensaísta Valentim Fagim. Mantém na internet o sítio Contos de Terror (http://www.contosdeterror.site) e Litteratus (https://www.litteratus.site/). É editor de Edições Virtuais TRUMVITATUS (http://triumviratus.weebly.com/).
Paulo Soriano

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  • Venâncio

    Fernando Pessoa escreveu em 1931, quatro anos antes da sua morte:

    «Ninguém, que seja verdadeiramente português, quer a Galiza para nada. Não queremos a Galiza parte de Portugal, ou a Galiza e Portugal um só país».

    E ainda:

    Portugal e Galiza «são dois países, com línguas diferentes, tradições diferentes, vidas diferentes. Se eu fosse rei de Portugal, com poder absoluto, e me oferecessem os galegos a Galiza, recusá-la-ia. Seria um corpo estranho a perturbar por excesso a grande virtude portuguesa, que é a formidável unidade da nossa nação».

    Fernando Pessoa, Ibéria. Introdução a um imperialismo futuro, Lisboa, Ática, 2012

    O resto é… lirismo.