GROTESCO & ARABESCO: UNIVERSO FANTÁSTICO

Coincidências: Rafael Dieste e Scott Fitzgerald



Passear pelas ruas da Corunha é sempre um exercício muito agradável, especialmente quando em companha de bons amigos.  E o passeio se torna ainda mais prazeroso quando visitamos pequenas e acolhedoras livrarias como “O Mocho” da rua da Amargura.

Foi lá que meu amigo Joseph Ghanime me presenteou com “Dos Arquivos do Trasno”, primeiro livro de contos do escritor galego Rafael Dieste (1899 – 1981).

Também me parece muito aprazível quando, ao ligar o televisor e, por obra de puro acaso, brindo-me com um filme de enredo interessante, mesmo quando a fita já está a meio caminho.

Quando assisti, ainda que parcialmente, à película “O Estranho Caso de Benjamin Button”, cerca de oito ou nove anos após o seu lançamento, lembrei-me, imediatamente, do presente que ganhara do amigo Ghanime. Ali estava – pensei – uma homenagem de Hollywood a uma pequena obra-prima do escritor corunhês: o conto “O Neno Suicida”. Uma breve pesquisa na internet me mostrou que eu estava enganado. O filme era baseado não na obra de Dieste, mas numa narrativa fantástica, “The Curious Case of Benjamin Button”, do renomado escritor estadunidense F. Scott Fitzgerald (1896 – 1940).  Cuida esta narrativa – como bem sintetiza o redator do sítio “El Espejo Gótico” –   da vida de um homem cujo relógio biológico anda para trás. Ao nascer, o protagonista possui a aparência de um homem de setenta anos; mas o seu corpo, à medida que lhe transcorre a vida, paulatinamente rejuvenesce.

Este é, exatamente, o mote do conto de Dieste.

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Mas há uma diferença fundamental entre os contos cotejados: enquanto que, na história de Fitzgerald, o protagonista, no fim de sua vida, “se funde na obscuridade mental de uma criança recém-nascida”, na de Dieste os pensamentos do homem nascido velho não se diluem em vapores de consciência, que fluem em direção ao nada, mas o impelem, como antecipa o próprio título do pequeno e precioso conto, a abreviar o seu encontro com a não-existência. Há, na narrativa de Dieste, apesar do clima trágico, um quê de humor cáustico.

Não temos a mínima razão para duvidar, sobretudo se levarmos em conta o distinto propósito subjacente a cada uma das obras, que a notável semelhança de seus enredos se trata de mera coincidência, malgrado o conto de Fitzgerald tenha aparecido em maio de 1922, quatro anos antes da publicação de “Dos Arquivos do Trasno”.  (Apesar dos esforços, não pude verificar se, como soía acontecer aos contos de Dieste, “O Neno Suicida” foi publicado, anteriormente, em algum periódico galego.)

Estou convicto de que, de forma independente, e quase coetaneamente, ambos os autores tiveram o mesmo insight.

Não contemplo mera casualidade, todavia, quando comparo um extraordinário conto de ficção científica, escrito por um autor brasileiro nos anos 30, a um filme produzido nos Estados Unidos em 1963.

Quando muito jovem, assisti a um filme de horror e ficção científica que me marcou profundamente: “O Homem dos Olhos de Raio-X”, estrelado por Ray Milland, sob a direção de Roger Corman. Nele, um cientista desenvolve uma substância que lhe permite enxergar para além da superfície das coisas, e esta capacidade, adquirida artificialmente, o conduz a um trágico desenlace.

Foi, portanto, com grande surpresa que li, cerca de trinta anos depois, o maravilhoso conto “Os Olhos que Comiam Carne”, de Humberto de Campos (1886 – 1934) – leia-o aqui.  Nesse conto, que integrou a coletânea “Mestres do Terror” (Edizer, Santiago de Compostela, 2011), um escritor subitamente acometido de cegueira se submete a um procedimento – constituído por uma aplicação da lei de Roentgen, de que resultou o raio-X – e passa a enxergar através da carne das pessoas (esta aptidão somente se inseriu entre os poderes do Super-Homem na década de 40).

Mas é a incrível semelhança – a rigor, quase identidade – entre os cruéis e horripilantes desfechos o que me leva a duvidar de que não é na mera coincidência que se radica o vínculo entre as duas criações.  Tenho a quase convicção de que os roteiristas hollywoodianos realmente se inspiraram na obra de Campos quando elaboraram o seu script, embora nenhuma referência a ele haja nos créditos da película. Entretanto, há um caso de semelhança entre obras que, acredito, não se trata de simples coincidência, mas, no mínimo, de forte inspiração. E digo isto não somente porque a obra originária é de autoria de um dos escritores mais lidos e traduzidos em todo mundo, mas, sobretudo, em razão da singularidade de seu enredo.

Em 1959, o aclamado e mundialmente conhecido escritor braseiro  – e, como eu, itabunense – Jorge Amado publicou na revista “Senhor” uma novela que se converteria num clássico da literatura em língua portuguesa: “A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água”. Nessa narrativa fúnebre-humorística, os amigos de farra de Quincas Berro d’Água, comparecendo ao seu velório, subtraem o seu cadáver e o levam consigo para uma noitada de bebedeiras e peripécias, das quais o defunto participa como se vivo estivesse.

Como arrastar o cadáver de um amigo a homéricas e mirabolantes patuscadas compõe, sem dúvida, um argumento bastante original, concluí que o filme norte-americano “Weekend at Bernie’s” (“Um Morto Muito Louco”, no Brasil; “Fim de Semana com o Morto”, em Portugal), de 1989, exibiria, em seus créditos, o célebre nome de Jorge Amado. Afinal, parecia-me evidente que o filme partia da mesma premissa emergente de “Quincas Berro D’água”. Mas, mais uma vez, para a minha decepção, crédito algum se rendia a uma alma criadora situada abaixo da linha do Equador…

Mas a maior de minhas surpresas aconteceu há bem pouco tempo.

Em 2008, inserto na antologia “Histórias Nefastas”, publiquei um brevíssimo conto fantástico:

CÍRCULO VICIOSO

1

O HOMEM QUE AMAVA A NOITE

     Quando o sol já ia alto no céu, e espraiava na atmosfera sudorosa um calor angustiante, que a luminosidade difusa tornava ainda mais intenso, os sonhos magníficos do velho Max desvaneciam, convolavam-se em vapor, e, após condensarem-se no ar como se fossem nuvem, dissolviam-se em tênues filamentos, até se perderem de todo nos escaninhos da realidade inclemente.

     Era duro ver o velho Max despertar para um novo dia de mendicância, com a mente ainda impregnada de belos sonhos, e descobrir-se miserável e infeliz. Porque, quando a noite chegava, e o velho Max se recolhia a um nicho enquadrado nos alicerces de um velho viaduto, uma bênção descia sobre o ancião – uma bênção pela qual ele ansiava a cada segundo vagaroso do dia interminável. Com a noite vinham os sonhos maravilhosos, nítidos como a luz solar, nos quais o velho esmoler simplesmente esvanecia e, da palpável substância de seus sonhos, erguia-se, qual uma fênix, um homem jovem, rico e poderoso. Max, o ancião indigente, tornava-se um ambicioso e feliz magnata.

     Sim, esta é a verdade. Quem o via à noite, em sono solto, compartilhando miseravelmente com as ratazanas os dois metros quadrados de sua caverna de concreto, não podia supor as delícias que inundavam aquela alma adormecida. Porque, interiormente, o velho Max – o velho e rancoroso esmoler – não mais existia. O que existia era o outro Max, um homem de quarenta anos, astuto e inteligente, que, de seu aparelho celular, comandava uma empresa portentosa. Um homem que possuía todo o dinheiro do mundo e muito mais. Que podia ter nos braços voluptuosos o corpo de qualquer mulher. Que degustava vinhos seculares. Que experimentava, intensamente, a cada dia, as poucas e deliciosas horas consentidas por um Deus benévolo e fiel.

     Assim, agradecido aos céus pelo negrume da noite, Max recolhia-se à aspereza úmida de sua cova de concreto e, com o coração prenhe de alegria e alucinadas expectativas, se punha a sonhar…

2

O HOMEM QUE AMAVA O DIA

     …Ele era um homem rico e poderoso. Os seus domínios eram imensuráveis e a sua influência fazia-se notar em cada canto do mundo. Vivia cada hora do dia febrilmente e parecia extremamente feliz. Mas vibrava, na superfície de seu olhar, uma sombra de tragédia. Quando o sol mergulhava nas entranhas da Terra, quando a noite impunha o seu pungente e inexorável negrume, o homem estremecia.

     Não era difícil perceber os efeitos deletérios que a noite produzia no espírito daquele homem. Os seus amigos mais íntimos viam, com compaixão, a tragédia enegrecer-lhe de vez as pupilas, enquanto dele apoderava-se uma melancolia inefável, uma angústia tão profunda que nem a riqueza e nem a influência podiam aplacar.

     É que, à noite, minavam de seu cérebro entorpecido aqueles tétricos sonhos. Sonhos cuja nitidez e coerência sobrepujavam a lógica inflexível da própria realidade. E o rico homem, ao adormecer, cumpria a sua pena. Porque, em seus terríveis sonhos de pedra, Max era um ancião andrajoso, enrijecido pela artrite e carcomido pela fadiga, cuja triste figura assomava dos alicerces fuliginosos de um antigo viaduto para, sob um sol impiedoso, ansiar o advento da noite e esmolar o pão de cada dia.

No início deste ano, contudo, em pesquisa para a produção da segunda edição de “Horror Oriental”, coletânea publicada pela Editora BuruRu, da qual sou um dos cotradutores, deparei-me com um conto tradicional chinês que, evidentemente, me deixou boquiaberto, e cuja versão em português, de minha lavra, segue abaixo:

SONHOS

O patriarca do clã Yin, no estado de Chou, possuía uma grande fazenda e os seus servos trabalhavam sem descanso de sol a sol. Dentre estes, havia um homem já velho, cujos músculos estavam exauridos de tanto esforço, mas o líder do clã continuava a lhe impor as mais duras tarefas. O ancião se queixava enquanto enfrentava diariamente os seus árduos misteres. À noite, dormia como um tronco, insensibilizado pela fadiga e pelo espírito sobremodo abatido. E todas as noites sonhava que era o rei daquelas terras, que comandava todo aquele povo e que se encarregava de todos os assuntos de Estado. No palácio, pulava de festa em festa, sem preocupação alguma, e todos os seus desejas eram realizados. Não havia limite para os seus prazeres. Mas, pela manhã, acordava e voltava ao trabalho.

O ancião dizia àqueles que queriam consolá-lo:

– O homem vive cem anos, dos quais uma metade são dias e a outra são noites. De dia, sou um mero servo, e as atribulações de minha vida são como são. Mas, de noite, eu sou senhor de homens e não há satisfação maior que esta.  De que hei de me queixar?

A seu turno, o espirito do patriarca estava ocupado em assuntos mundanos e toda a sua atenção se voltava para as suas propriedades. Com o corpo e intelecto esgotados, também tombava insensibilizado, em razão do cansaço, quando se recolhia para dormir.

Mas de noite sonhava que era um servo que não parava de trabalhar. Se trabalhava mal, era humilhado, recebia bordoadas e aguentava tudo o quanto lhe caía sobre o lombo. Enquanto sonhava, estava sempre resmungando e a se queixar, e somente se sentia alívio com o advento da manhã.

O líder do clã expôs o seu problema a um amigo, que lhe respondeu:

– Tua situação econômica te rende mais riquezas e honrarias que a qualquer outro homem. O sonho em que és um servo nada mais é que o ciclo da comodidade e da atribulação. Assim tem sido, sempre, a lei da fortuna humana. Como poderiam ser iguais os teus sonhos e os teus estados de vigília?

O patriarca meditou sobre a observação do amigo e atenuou a faina dos seus servos. Reduziu, também, as próprias preocupações e, deste modo, obteve um pouco de consolo em seus sonhos.

É notável a semelhança do conto que escrevi há 11 anos e o centenário – quiçá milenar – conto chinês, malgrado em minha narrativa o angustiado sonhador se concentre numa mesma pessoa, conquanto polarizada em duas entidades antagônicas, nas quais, num movimento cíclico, o sonho de uma é a realidade da outra.

Coincidências… Talvez você não acredite nelas. Mas que elas existem, existem.  Ex cathedra, digo isto.

Paulo Soriano

Paulo Soriano

Natural de Itabuna, Estado da Bahia, Brasil, é tradutor e contista amador. Reside em Salvador/BA, onde exerce a advocacia pública. Na Galiza, organizou as seguintes antologias: Mestres do Terror (Santiago de Compostela, 2010) e A Voz dos Mundos (Compostela, 2015), esta última em colaboração com o ensaísta Valentim Fagim.Mantém na internet o sítio Contos de Terror (http://www.contosdeterror.site) e Litteratus (https://www.litteratus.site/). É editor de Edições Virtuais TRUMVITATUS (http://triumviratus.weebly.com/).
Paulo Soriano

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  • https://pgl.gal Valentim R. Fagim

    Muito obrigado, Paulo, por tantas dicas de leitura,

    • Paulo Soriano

      Para mim, é um imenso prazer – e uma grande honra – estar nestas páginas! Muito grato, Valentim.