Clarice Lispector, excelente escritora do brasil



clarice-lispector-foto-3As datas comemorativas que se celebram ao longo do ano, dedicadas à natureza, às crianças, à língua materna, aos direitos humanos, ao ambiente, à poesia, ao teatro, à Europa, à África, aos povos indígenas, ao povo trabalhador, à lusofonia, à paz e à não-violência, à educação, à alfabetização ou à mulher trabalhadora, como é o caso da do 8 de março, têm uma virtude, que é a de sensibilizar os cidadãos de todo o planeta sobre o tema que se comemora, para refletir sobre ele e promover ações positivas. O caso da comemoração dedicada à defesa da mulher e a consecução da sua igualdade total de direitos com o homem em todo o mundo, que se está a promover nesta altura, coincidindo com a data comemorativa, ajuda-nos também a que dentro da nossa série dediquemos vários depoimentos àquelas mulheres que no mundo lusófono destacaram em alguns campos da cultura, da ciência e do ensino. Por isto, dentro da série que estou a dedicar às mais importantes personalidades da Lusofonia, onde a nossa língua internacional tem uma presença destacada, e, por sorte, está presente em mais de doze países, sendo oficial em oito, dedico o presente depoimento, que faz o número 140 da série geral que iniciei com Sócrates, a uma excelente escritora do Brasil, conhecida como Clarice Lispector, que, embora tenha nascido na Ucrânia, desenvolveu todo o seu labor nesse grande país americano que é o Brasil, escrevendo na nossa língua uma muito importante obra literária, reconhecida por todos. Com este depoimento, a ela dedicado, completo o número vinte e oito da série lusófona.

PEQUENA BIOGRAFIA

clarice-lispector-foto-7Dilva Frazão, autora brasileira de diferentes biografias de destacadas personalidades, publicou no seu dia uma dedicada a Clarice Lispector, que, pelo seu interesse, tenho por bem resenhar a seguir.
Clarice Lispector (1920-1977) foi uma escritora e jornalista brasileira, de origem judaica, que foi reconhecida como uma das mais importantes escritoras do século XX. Fez parte do Terceiro Tempo Modernista, que com seu romance inovador e com sua linguagem altamente poética, põe em cheque os modelos narrativos tradicionais. A Hora da Estrela foi seu último romance, publicado em vida.

De nome completo Chaya Pinkhasovna Lispector, nasceu em Tchetchelnik, na Ucrânia, no dia 10 de dezembro de 1920. Filha de Pinkouss e Mania, de origem judaica, que chegaram ao Brasil em março de 1926, fugindo do antissemitismo disseminado na Rússia durante a Guerra Civil Russa. Fixaram residência em Maceió, Alagoas, onde morava Zaina, irmã de sua mãe. Clarice tinha apenas dous meses de idade. Por iniciativa de seu pai, todos mudaram o nome. Nascida Haia Lispector, passa a se chamar Clarice. Em 1929, mudou-se com a família para a cidade do Recife onde passou sua infância no Bairro da Boa Vista. Fez o primário no grupo escolar João Barbalho. Aprendeu a ler e escrever muito nova e logo começou a escrever pequenos contos. Estudou inglês e francês e cresceu ouvindo o idioma dos seus pais o iídiche. Com 9 anos ficou órfã de mãe. Terminou o primário e ingressou no Ginásio Pernambucano, o melhor colégio público da cidade. Com 12 anos, Clarice mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, indo morar no Bairro da Tijuca. Ingressou no Colégio Sílvio Leite, onde era frequentadora assídua da biblioteca.
clarice-lispector-capa-livro-4Em 1941, terminado o segundo grau, Clarice ingressa na Faculdade Nacional de Direito, e emprega-se como redatora da Agência Nacional. Depois passa para o jornal A Noite. Em 1943 casa-se com o amigo de turma Maury Gurgel Valente. Nesse mesmo ano, termina o romance Perto do Coração Selvagem, que retrata uma visão interiorizada do mundo da adolescência. Em 1944 publica o livro que teve calorosa acolhida da crítica, recebendo o Prêmio Graça Aranha. Ainda em 1944, Clarice Lispector acompanha seu marido, diplomata de carreira, em viagens fora do Brasil. Sua primeira viagem foi para Nápoles, na Itália. Com a Europa em guerra, Clarice trabalha como voluntária de assistente de enfermagem no hospital da Força Expedicionária Brasileira. Continuou escrevendo, e em 1946 publicou O Lustre. Nesse mesmo ano, passa a residir em Berna, na Suíça. Em 1949 publica A Cidade Sitiada. Nesse mesmo ano, nasce seu primeiro filho, Pedro. Dedica-se a escrever contos e em 1952 publica Alguns Contos. Passa seis meses na Inglaterra e em seguida vai para os Estados Unidos, onde nasce seu segundo filho, Paulo, em 1953. Em 1954, Perto do Coração é publicado em francês.
clarice-lispector-capa-livro-5Em 1959, Clarice se separa do marido e retorna ao Rio de Janeiro, acompanhada de seus filhos. Logo começa a trabalhar no Jornal Correio da Manhã, assumindo a coluna “Correio Feminino”. Trabalha no Diário da Noite com a coluna “Só Para Mulheres” e nesse mesmo ano lança Laços de Família, livro de contos que recebeu o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro. Em 1961 publica A Maçã no Escuro pelo qual recebe o prêmio de melhor livro do ano em 1962. Em 1967 publica O Mistério do Coelhinho Pensante. Nesse mesmo ano, Clarice Lispector sofre várias queimaduras no corpo e na mão direita enquanto dormia com um cigarro aceso. Passou por várias cirurgias e viveu isolada, sempre escrevendo. No ano seguinte publica crônicas no Jornal do Brasil. Passa a integrar o Conselho Consultivo do Instituto Nacional do Livro. Era considerada uma “pessoa difícil”. Em 1976, pelo conjunto de sua obra, Clarice ganhou o primeiro prêmio do X Concurso Literário Nacional de Brasília. Em 1977 Clarice Lispector escreveu Hora da Estrela, sua última obra publicada em vida, onde conta a história de Macabea, uma moça do interior em busca de sobreviver na cidade grande. A versão cinematográfica desse romance, dirigida por Suzana Amaral em 1985, conquistou os maiores prêmios do festival de cinema de Brasília e deu à atriz Marcélia Cartaxo, que fez o papel principal, o troféu Urso de Prata em Berlim em 1986. Clarice Lispector faleceu no Rio de Janeiro, no dia 9 de dezembro de 1977, um dia antes de seu aniversário. Seu corpo foi sepultado no cemitério Israelita do Caju.

A SUA OBRA LITERÁRIA

Romance
Perto do Coração Selvagem(1943)
O Lustre (1946)
A Cidade Sitiada (1949)
A Maçã no Escuro (1961)
A Paixão segundo G.H.(1964)
Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969)
Água Viva (1973)
Um Sopro de Vida (1978)

Novela
A Hora da Estrela (1977)

Contos
Laços de Família (1960)
A Legião Estrangeira (1964)
Felicidade Clandestina (1971)
Onde Estivestes de Noite (1974)
A Via Crucis do Corpo (1974)
O Ovo e a Galinha (1977)
A Bela e a Fera (1979)

Literatura infantil
O Mistério do Coelho Pensante (1967)
A Mulher que Matou os Peixes (1968)
A Vida Íntima de Laura (1974)
Quase de Verdade (1978)
Como Nasceram as Estrelas (1987)

Crônicas
Para Não Esquecer (1978)
A Descoberta do Mundo (1984)

Correspondências
Correspondências (2002)
Minhas Queridas (2007)

Entrevistas
Entrevistas (2007)

Artigos de jornais
Outros Escritos (2005)
Correio Feminino (2006)
Só para Mulheres (2006)

Nota importante: Pode ver-se e ler uma ampla biografia entrando na ligação seguinte:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Clarice_Lispector

FICHAS DOS DOCUMENTÁRIOS

1. Panorama com Clarice Lispector.
Duração: 29 minutos. Ano 2012.

2. Entrevista completa com Clarice Lispector (1977).
Duração: 29 minutos. Ano 2015.

3. Clarice Lispector. 100 anos. Especial.
Duração: 38 minutos. Ano 2019.

4. Curiosidades de Clarice Lispector.
Duração: 4 minutos. Ano 2017.

5. Biografia de Clarice Lispector.
Duração: 8 minutos. Ano 2013.

6. Clarice Lispector: A vida é um soco no estômago.
Duração: 10 minutos. Ano 2018.


7. Profissão Repórter: Clarice Lispector.
Duração: 4 minutos. Ano 2012.

Em 1985 foi realizado por Suzana Amaral um filme longa-metragem baseado no romance de Clarice Lispector, sob o título de A Hora da Estrela. Podem ver-se dados sobre o mesmo entrando aqui e aqui. Também pode ver-se na sua íntegra (100 minutos) entrando aqui.

Poemas de Clarice Lispector

Embora sua poesia não utilize a forma em versos, Clarice se destacou com seus poemas repletos de lirismo. Coloco a seguir três:

Mas há Vida
Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida, há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.

Estrela Perigosa
Estrela perigosa
Rosto ao vento
Marulho e silêncio
leve porcelana
templo submerso
trigo e vinho
tristeza de coisa vivida
árvores já floresceram
o sal trazido pelo vento
conhecimento por encantação
esqueleto de idEias
ora pro nobis
Decompor a luz
mistério de estrelas
paixão pela exatidão
caça aos vagalumes.
Vagalume é como orvalho
Diálogos que disfarçam conflitos
por explodir
Ela pode ser venenosa como às vezes o cogumelo é.
No obscuro erotismo de vida cheia
nodosas raízes.
Missa negra, feiticeiros.
Na proximidade de fontes,
lagos e cachoeiras
braços e pernas e olhos,
todos mortos se misturam e clamam por vida.
Sinto a falta dele
como se me faltasse um dente na frente:
excrucitante.
Que medo alegre,
o de te esperar.

Precisão
O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um cinema-fórum, para analisar o fundo (mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.
Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Clarice Lispector, uma excelente escritora do Brasil. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.
Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino um Livro-fórum, em que participem escolares e docentes. Podemos escolher para ler alguma das obras escritas por Clarice Lispector. As mais interessantes são A Maçã no Escuro (1961), Água Viva (1973) ou A Hora da Estrela (1977).

 

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Uma gtande escritora do Brasil e do mundoooo. Ela é bem grande

    A entrevista colocada é muito boa, e além disso é de pouco antes de morrer, e ela já sabia que estava para morrer