Carlos Segade: “O galego é ensinado como uma língua para ser analisada, mas não para ser falada”



A enciclopédia familiar da família de Carlos Segade foi a Encyclopaedia Britannica. Nas aulas de galego falavam-lhe do sacho e ele estava nos videojogos. O contacto com o reintegracionismo foi graças a um companheiro de apartamento, o Xaime. Professor de língua, inglesa e castelhana, no âmbito universitário, o seu labor investigador é outro. Julga que a nossa história deve servir aos galegos como história crítica e ainda que reduzir a nossa língua a um código local, é um suicídio cultural.

Carlos nasceu e cresceu em Ferrol, numa família castelhano-falante. Qual foi a fotografia linguística da tua infância?

Muito peculiar. O meu pai era dos poucos da sua geração que falava o inglês. A nossa enciclopédia familiar era a Encyclopaedia Britannica. Podem imaginar a situação, as minhas línguas de referência eram o castelhano e o inglês, e a cultura anglo-saxónica era o nosso objetivo na vida. O galego era o que ouvia à gente do mar quando passávamos o verão na ria de Ares e naquele primeiro informativo regional de trinta minutos da TVE. No entanto, vivim sempre uma forte identidade galega, cultural mas não política, que sentíamos como muito diferente daquela da gente de Madrid que vinha de férias.

Fizeste parte da primeira geração, anos 80, que cursou galego no ensino obrigatório. Que lembras daquela época?

Lembro ter sentimentos opostos. Lembro a forte oposição do meu pai e, pela minha parte, uma mistura de indiferença e curiosidade. Ao começo, foi tudo muito experimental. Usávamos uns livros sem sentido pedagógico em que aos jovens da cidade nos ensinavam o nome das ferramentas antigas do rural. Não era uma língua nem para a nossa geração nem para o nosso futuro. Falavam-nos do sacho e das partes do arado quando nós já começávamos a ter os primeiros videojogos. Aquilo parecia mais o latim que também estávamos a aprender. Por isso, acho que muitos pais viam assim reforçados os seus argumentos contra o seu ensino e contra a língua como uso social. Parecia-lhes, não sem certa razão, que íamos para atrás. Depois, as cousas mudaram. Tivemos um professor galego-falante e sábio que nos ajudou a ler Castelao, Risco, Pondal, e, aliás, escolheu a famosa «Gramática elemental» do Carvalho Calero como livro de texto. Em BUP estudávamos o Carvalho! Ainda conservo todos aqueles livros e guardo lembranças muito boas de todos eles.

Carlos Segade formou-se em Filologia Inglesa pela USC. É nessa altura quando tens as primeiras conversas sobre reintegracionismo.

Sim, o meu ambiente em Compostela era castelhano-falante, mas compartia apartamento com o Xaime, que era galego-falante, culto, e também o que daquela chamávamos «lusista». Falávamos de tudo e também do galego. Eu mantinha distância com o uso da língua, e às vezes ainda era hostil, fiel à herança da minha família. Mas do ponto de vista filológico, eu estava, sim, interessado no que o Xaime me contava. Foi a partir de uma conversa sobre etimologia que começamos a falar da origem do galego. Então foi quando por primeira vez ouvim razões de peso a favor do reintegracionismo. Podo dizer que o Xaime me convenceu com as suas razões linguísticas e etimológicas de que a opção lusista era a mais consistente. Não mudei a minha opinião desde então, finais dos 80, ainda que não falara o galego. Os estudos filológicos posteriores não figérom mais que reforçar esse primeiro posicionamento. Na verdade, penso que não há muitos argumentos puramente filológicos em contra do facto de que a nossa língua é uma variedade mais de isso que chamamos português. Precisamente, por ser uma variedade tem os seus próprios «enxebrismos», mas isso não justifica a (auto-)segregação da lusofonia.

Na verdade, penso que não há muitos argumentos puramente filológicos em contra do facto de que a nossa língua é uma variedade mais de isso que chamamos português. Precisamente, por ser uma variedade tem os seus próprios «enxebrismos», mas isso não justifica a (auto-)segregação da lusofonia.

És professor na Universidade em Madrid, onde vives há 30 anos e dás aulas de lingüística aplicada (inglesa) e de língua espanhola no grau de Magistério e no mestrado de formação do professorado de secundária. No entanto, quais som os teus interesses académicos?

A linguística aplicada dá pé a trabalhar o pensamento crítico. Também exploro a educação personalizada no ensino linguístico e o bilinguismo crítico. Mas, o meu labor investigador principal está centrado na filosofia contemporânea, os estudos culturais e antropológicos, especialmente na mística, as religiões e a relação com Oriente. A Galiza e Portugal partilham o conceito de saudade que, neste sentido antropológico, filosófico e cultural, é muito relevante.

O meu labor investigador principal está centrado na filosofia contemporânea, os estudos culturais e antropológicos, especialmente na mística, as religiões e a relação com Oriente. A Galiza e Portugal partilham o conceito de saudade que, neste sentido antropológico, filosófico e cultural, é muito relevante.

Em que momento decides assentar-te no galego e quais as tuas motivações?

Assentar-se no galego em Madrid não é cousa muito doada. Na pandemia decidi pôr ordem na minha relação com a minha identidade galega, onde logicamente a língua ocupa uma parte importante, mas faz muito que a minha atitude frente o galego mudara. Houvo muitos fatores para a mudança. Por exemplo, por dizer um, graças a cousas que investigava, lim história da Galiza. Neles descobri cousas que nem remotamente pensava que ocorreram como eram contadas. Cousas que não estão na historiografia oficial castelhana. Isto provocou em mim um estudo e uma leitura crítica da história e da cultura. Acho que a história galega, e também a história da sua literatura, deve servir aos galegos como história crítica (uma espécie de segunda opinião) frente ao tecido ideológico herdado de quem decidiu, no seu próprio benefício, que os galegos não temos história, nem direito a ela. Por isso, escolhi a verdade sobre a falsidade, a própria identidade sobre a identidade alheia. E falo (ou escrevo) galego quando quero e podo porque sim, porque é uma decisão ética. E nada tenho de me escusar.

Acho que a história galega, e também a história da sua literatura, deve servir aos galegos como história crítica (uma espécie de segunda opinião) frente ao tecido ideológico herdado de quem decidiu, no seu próprio benefício, que os galegos não temos história, nem direito a ela.

E em que momento julgas que a forma da tua língua deve ser a galego-portuguesa e não a galego-castelhana?

Ao princípio pensei que, apesar de ser «lusista teórico», seria mais prático seguir a norma oficial. Mas foi no momento de me mergulhar na rica cultura portuguesa, e especialmente no tema da saudade, quando me apercebim de que era precisamente o contrário. O prático, o normal para nós, é não ter de traduzir e estar a mudar a ortografia. Com umas poucas mudanças trabalharia comodamente numa única variedade convergente com o resto do mundo. E assim o fago (ou polo menos tento).

Morar fora da Galiza pode ter a vantagem duma perspetiva diferente. A teu ver, por onde deveria transitar o reintegracionismo para avançar socialmente? Quais seriam as áreas mais importantes?

O povo galego não é completamente consciente de que a diglossia castelhano/inglês avança muito rápido. O castelhano já não tem o papel de referência única que tinha para os nossos avós e bisavós e, no entanto, qualquer diria que sim. As classes «gentrificadas» de Madrid medem o seu prestígio social e profissional polo seu nível de inglês. O castelhano não é, ou apenas numa medida mínima, a língua dos negócios, nem da ciência, nem da tecnologia. Goste-se, ou não, essa é a realidade. É certo que as variedades americanas de castelhano (algumas já bastante afastadas do padrão) chegam muito longe porque som faladas por muita gente. Não obstante, há já mais de 800 centros educativos bilingues em Madrid e a pressão sobre o castelhano é muito forte. Portanto, um rapaz ou uma rapariga galegos, para ter um espaço no mundo competitivo, já não precisa do castelhano no mesmo sentido do que antes, mas precisa de ser capaz de se comunicar em várias línguas de comunicação internacionais. Os galegos temos a sorte de ter ao nosso alcance duas destas línguas. Isto tem muitas implicações, entre elas, que é uma autêntica oportunidade para quem o quer ver. E o contrário, reduzir a nossa língua a um código local, é um suicídio cultural.

O labor do reintegracionismo acho que vai por vários frentes. Um é o que já fai, e é muito amplo: informar, romper mitos e, sobretudo, construir ainda mais pontes com Portugal para que lá saibam que, connosco não há conflito linguístico possível e que a ponte cultural sobre o Minho já está construída. Dous, também acho que é necessário fazer propostas didáticas comunicativas para o ensino da língua. Em geral, no sistema, o galego é ensinado como uma língua para ser analisada, mas não para ser falada a cotio. Acho que a meta da matéria de galego (como no inglês) é aprovar os exames, não concluir o ano letivo falando e escrevendo para se comunicar. Deveria haver uma revolução didática através da qual a língua galega seja aprendida nestes termos, para comunicar, para dizer cousas, para escrever outras, para jogar e seduzir com ela, para falar com gente real. Só assim a gente nova verá que de verdade é útil, é atual, abre portas para o seu futuro, e poderá ver a necessidade duma convergência linguística.

Deveria haver uma revolução didática através da qual a língua galega seja aprendida nestes termos, para comunicar, para dizer cousas, para escrever outras, para jogar e seduzir com ela, para falar com gente real. Só assim a gente nova verá que de verdade é útil, é atual, abre portas para o seu futuro, e poderá ver a necessidade duma convergência linguística.

Quais as tuas motivações para te associares à AGAL e que esperas do trabalho da associação?

O primeiro, espero aprender, que para mim é também uma motivação. Uma língua não para de ser aprendida nunca e penso que na AGAL há muita gente de que se pode aprender muito. Por outra parte, creio na ação das associações quando se tenhem objetivos comuns. Partilhar interesses, e ainda debater sobre eles, é uma forma de crescer interiormente. Morar fora da Galiza e defender o galego e a nossa identidade linguística desde a distância é difícil, por isso, saber que tenho contato con mais gente comprometida com os mesmos alvos ajuda evitar essa solidão, e se, aliás, eu podo ajudar algo, muito melhor.

Em 2021 somamos 40 anos de oficialidade do galego. Como valorarias esse processo? Que foi o melhor e que foi o pior?

Temos que ter em conta que nós estamos a viver o sonho de Castelao e de muitos galeguistas de antes e durante os anos escuros. Temos tudo o que eles sonharam: língua co-oficial, rádio, televisão, a língua no ensino, nas administrações públicas, uma quantidade notável de livros e editoriais em galego, etc. Um sonho! E tampouco há que desvalorar o esforço normativo da RAG. O problema é que não parece que saibamos que fazer com tudo isso. O pior som duas cousas: a falta de desenvolvimento do decreto Paz Andrade, que é vital; e que a opção linguística fosse transformada num debate político. A grande vitória ideológica do nacionalismo castelhano sobre outros territórios foi convencer a gente de que há, e deve haver, um conflito linguístico que, ademais, deve ser resolvido a favor do castelhano em prol duma uniformidade, que eles chamam unidade. De facto, acho que a oposição entre o galego oficial e a convergência lusófona nasceu duma visão castelhana da questão da língua em geral e a galega em particular. O imaginário castelhano não admite nem sequer a existência de variedades, que são percebidas como versões defeituosas do padrão peninsular. Isso mesmo pensam muitos galegos da sua própria língua. É impensável para eles que o galego seja «só» uma variedade da lusofonia. Não sei se para eles é como uma humilhação, ou como uma perda de identidade e soberania. Mas não há nada humilhante na realidade histórica e linguística. É ao contrário. Acho que a Galiza superará o debate linguístico quando seja consciente de que o suposto conflito é só uma ideia importada por quem quer se impor. Contudo, no reintegracionismo se pode encontrar gente com uma visão mais realista das línguas, longe do “absolutismo” castelhano, como sucede na lusofonia, onde a existência de variedades não é um problema em si mesmo.

O imaginário castelhano não admite nem sequer a existência de variedades, que são percebidas como versões defeituosas do padrão peninsular. Isso mesmo pensam muitos galegos da sua própria língua. É impensável para eles que o galego seja «só» uma variedade da lusofonia. Não sei se para eles é como uma humilhação, ou como uma perda de identidade e soberania. Mas não há nada humilhante na realidade histórica e linguística. É ao contrário.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2050?

Os linguistas sabemos que no período duma geração pode passar uma cousa ou a sua contrária. Mas não há razão para pensar que no futuro um rapaz galego, uma rapariga galega, as pessoas em geral, não pudessem ter uma identidade linguística galego-portuguesa, no sentido de ter superado o conflito da diglossia, e que, aliás, para andar pela nossa Europa tivesse um bom conhecimento do inglês ou francês, ou qualquer outra língua europeia, ademais do castelhano.

Conhecendo Carlos Segade

Um sítio web: Youtube, e os sítios que ajudam a aprender línguas.

Um invento: O que tornou possível todo o demais: a escrita.

Uma música: Escuto quase de tudo, muita música clássica, clássica contemporânea e… fado.

Um livro: Guerra e Paz, do Tolstoi.

Um facto histórico: A vitória aliada de 1945.

Um prato na mesa: O nosso caldinho.

Um desporto: não sou muito de desporto, mas desfruto dos Jogos Olímpicos.

Um filme: La grande belezza, de Paolo Sorrentino.

Uma maravilha: O mar.

Além de galego/a: europeu até à medula.

Valentim Fagim

 


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