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Carlos Barros: “Os 50 anos da SCD do Condado som o pretexto perfeito para pôr em valor umha experiência asociativa única”

Carlos Barros (Mondariz, 1981) é jornalista, membro da SCD do Condado e tem-se envolvido em diversas iniciativas populares, nomeadamente no jornal Novas da Galiza, do que foi director. É o coordenador da obra 50 anos de resistência cultural. SCD O Condado. 1973-2023, que sairá do prelo a finais de verao, para comemorar as cinco décadas de vida dum dos colectivos mais veteranos e prestigiosos do movimento galego. Com ele falamos dumha dinámica colectiva que ergueu umha referência nacional desde umha pequena comarca do suroeste do País.

Agora que se comemoram os 50 anos da Sociedade Cultural e Desportiva do Condado, que queredes pôr em destaque de tantos anos de caminhada?

Os 50 anos parecêrom-nos o pretexto perfeito para acometer um trabalho que deveria ser feito, o de resgatar o passado em todo o seu detalhe. Demos com a efeméride que nos vai permitir reconstruir umha história e pô-la em valor. A SCD foi umha iniciativa pioneira polos anos que que nasceu, muito valiosa polas achegas qualitativas que recebeu, e polos efeitos que causou na comunidade à que se dirige. Para nós, activistas da SCD do presente, era um dever para com as pessoas que nos precedêrom, e umha ocasiom bem boa para recuperarmos fôlegos para o trabalho futuro. Oferecemos entom neste livro umha história bonita, e completa, com muitos ángulos e perspectivas desde os que apreender. Estamos a ultimar a ediçom e lançamos umha campanha de micromecenádego para fazer possível a ediçom.

Como se estrutura o livro?

Trata-se dumha obra colectiva na que contamos com as vozes de pessoas representativas, ligadas dum modo ou outro ao festival: Gustavo Luca, Manuel Rivas, Marga do Val, Viale Moutinho… a parte central da obra é umha reconstruçom histórica, e nela, para além de textos, há umha completa crónica fotográfica. O livro continua com 50 poemas senlheiros que foram recitados ao longo das distintas ediçons do Festival da Poesia, e umha listagem de todas as autoras e autores participantes. Como elemento inédito, incluímos um relato infantil de Manuel Soto, dirigente da SCD, que escreveu enquanto estava encarcerado a finais dos 80, acusado de colaboraçom com o EGPGC. É interessante, pois nom sabíamos desta sua fasquia. Para concluir, Xurxo Souto escreve um epílogo. Trabalhamos muito intensamente na obra, quase a contrarrelógio, mas era um trabalho que devia ser feito.

A SCD foi umha iniciativa pioneira polos anos que que nasceu, muito valiosa polas achegas qualitativas que recebeu, e polos efeitos que causou na comunidade à que se dirige. Para nós, activistas da SCD do presente, era um dever para com as pessoas que nos precedêrom, e umha ocasiom bem boa para recuperarmos fôlegos.

Que achegou a SCD ao movimento associativo no conjunto do País?

A SCD é umha organizaçom comarcal, nasceu com essa vocaçom, e com ela segue, muito ligada ao concelho de Salvaterra. Ora, é possível que a sua formulaçom, que no seu dia foi novidosa, a convertesse em referente para as pessoas, galegas ou nom galegas, que defendem a cultura popular, as artes e a criaçom; e nomeadamente para aquelas que vinculam a criaçom com as reivindicaçons populares, sem nenhum complexo. Lembremos aqui também que o Festival da Poesia é um altofalante da liberdade de expressom.

Aqui existia um grupo juvenil muito ousado, muito vanguardista, que desde um primeiro momento estám conectados com o sindicalismo nacionalista nas suas origens, como tecido vizinhal, com a defesa da cultura, e que nos momentos iniciais tem vencelhos polo desporto.

A equipa da SCD Condado com a sua equipaçom inicial no primeiro ano

Nom ajudou a participaçom internacional no Festival da Poesia a dar umha dimensom maior à cultura e à língua galegas?

Sem dúvida. Num primeiro termo com a lusofonia, pois foi um modo muito natural de reintegrar a Galiza no seu tronco lingüístico. Graças à iniciativa de Viale Moutinho, que foi o primeiro grande dinamizador que trouxo a Salvaterra poetas de Portugal, e em geral da lusofonia. Aliás, tenhem participado com grande continuidade poetas de outras naçons sem Estado, sobretodo do País Basco e a Catalunha, mas também de Astúrias ou o Saara.

No nosso País som frequentes as intermitências organizativas e o esmorecimento de projectos. Como explicas o longo alento da SCD? Há algumha singularidade no Condado que explique esta força?

Nom tenho um conhecimento pleno disto, e resulta-me aventurado fazer juízos; de facto, com a elaboraçom do livro até estamos a descobrir cousas da nossa associaçom que desconhecíamos. Mas certamente, há factores que se dérom no Condado que chamam a atençom. Aqui existia um grupo juvenil muito ousado, muito vanguardista, que desde um primeiro momento estám conectados com o sindicalismo nacionalista nas suas origens, como tecido vizinhal, com a defesa da cultura, e que nos momentos iniciais tem vencelhos polo desporto. Cobre tantos ámbitos que é impressionante, pensa que a finais dos 70 ponhem também a andar um Cineclube em Salvaterra. Eles vivem o seu projecto como umha missom, assim o transmitem. A qualidade humana dos activistas, os laços que os unem, o arraigo na terra que pisam, isso fai da SCD umha entidade especial que produziu algo mágico, sem dúvida.

Chama a atençom o peso do desporto nas origens, algo nom muito habitual no nacionalismo…

Certo. A iniciativa partiu do futebol, que como desporto maioritário que era, permitia o contacto de pessoas moças num mesmo espaço. Ora bem, a medida em que a SCD se diversifica, e cobre tantas frentes, nom há tempo para tanto, na atitude tam decidida destes moços nom havia opçom para cobri-lo tudo. Entom, ainda que hoje mantemos o vínculo com o desporto, como se vê no nome, ou no feito de que demos espaço a iniciativas como o futebol gaélico no Festival da Poesia, os esforços fôrom mais dedicados ao activismo social e cultural. Mas como anedota ilustrativa, já que falas do peso do desporto, ao trabalhar nos arquivos descobrimos que o “fútbol sala”, futebol de salom em Portugal, era desconhecido na Galiza antes dos 80; se lemos a notícia do Faro de Vigo sobre o primeiro campionato que organiza a SCD damo-nos de conta, primeiro, que a associaçom o introduziu nesta área do País, e segundo, que os jornalistas que redigem a notícia nom tinham ideia desta modalidade.

Após cinco décadas de actividade tam intensa, pensas que umha dinámica como esta deixou um pouso político?

No livro omitem-se deliberadamente as siglas políticas que podem estar por trás do activismo de algum dos membros da SCD, dado que no colectivo havia pessoas com vínculos diversos, independentistas, nacionalistas, também anarquistas, e pessoas sem referencialidade política clara, esse amálgama é o que conforma a SCD. Sobre os efeitos que pode ter na comarca, há distintas ópticas para abordá-lo. Nas primeiras eleiçons municipais, em 1979, dirigentes da SCD conseguem dous concelhais na candidatura Independentes por Galicia, mas a posteriori abandonam o jogo eleitoral e a lógica da representatividade, mas isto tem a ver com desavinças entre formaçons políticas que sobardam com muito a SCD.

Logo, numha panorámica mais ampla, eu estou certo que a actividade da SCD está por trás de muitos votos nacionalistas no Condado, e também do achegamento de muita gente ao amor pola nossa Terra. Nom esqueçamos que esta associaçom supujo um choque forte no seu dia, abriu muitos horizontes, e envolveu muita gente. Entre os anos 70 e finais dos 80, temos registado por volta de 500 sócios e sócias.

Zeca Afonso, Vitorino e Fausto actuando em Ponte Areias no Festival Luso-Galaico de 1978. Fotografia de Mundo Cal

Cinco décadas de história suponhem mudanças muito fundas. Que se ganhou e que se perdeu ao longo de médio século na vossa dinámica associativa?

Si, mudárom as formas de trabalho e a própria composiçom da SCD. Hoje a actividade é mais profissionalizada, quiçá ganhamos experiência na gestom e temos umha maior eficiência, neste ponto quiçá podamos falar de melhora. Mas por outra parte, e se somos realistas, temos que confessar que é muito diferente a SCD de hoje da das suas origens, quer por arraigo, quer por níveis de participaçom. Os tempos som outros, e obviamente nom podemos reproduzir o que se fijo. Mas o que si podemos é caminhar numha direcçom que nos leve a recuperar valores e formas de trabalho que fixérom tam especial a SCD, aquilo que a fijo brilhar.

[Esta entrevista foi publicada originariamente no galizalivre.com]

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