Borxa Mejuto: “Para 2050, Hegemonia social do galego”



borxa-mejutoBorxa é luguês mas morou em muitos lugares até o seu sotaque se tornar líquido. Aos 14 anos já era reintegracionista pouco depois de se assentar no galego. Trabalhou na deputaçom onde o seu discurso reintegracionista permitiu que algumhas pessoas deixassem sair o galego das suas bocas, nem que fosse para contrariar. Fai parte da  CSC o Quilombo, em Ponte Vedra que precisa de ser reaberto para oferecer espaços em galego a juventude.  Os debates académicos sobre a norma devem ficar fora do grande público

Borxa nasceu em Lugo mas cresceu em Vilalonga, no Salnês. O ensino secundário foi em Ponte Vedra, a universidade em Lugo e reside em Ponte Vedra na atualidade. Esta rica biografia quanto a localizações, em que se traduziu do ponto de vista linguístico?
A minha família é galego-falante mas, como tantas outras, em boa medida falava-nos às crianças em espanhol, maioritariamente nos primeiros anos, isto era habitual em todas as famílias de Vilalonga de todos os estratos sociais e ao crescer e caminhar para a adolescência assentava o uso dominante do galego. Algumha curiosidade é o confronto entre traços dialetais: as colegas da escola surpreendiam-se com os irmão, madialeva ou mãe e na casa nom gostavam nada das terminações irregulares quando nom tocava como parim, acabim ou flipim.

De qualquer jeito o maior contraste deu-se ao ir viver na cidade, onde o sotaque próprio em grande medida desaparecera e só existia com grande pressom social  nas paróquias e vilas próximas como Marim, ademais o uso do galego na faixa de idade millenial era tendente a zero quanto mais próximo do centro da cidade estivesse o liceu. Neste momento, após passar dum bilinguismo castrapeiro a usar maioritariamente o espanhol (fora da casa) durante um ano, é que decido junto doutros dous amigos, com ascendência de fora da cidade como eu, falarmos só galego. Já de adulto em Lugo pode que recuperasse algo desse sotaque mas acho que devido às sucessivas deslocalizações (também morei em Ourense e na Marinha) e sobretodo a pressom abafante do estândar espanhol, tenho um sotaque que poderíamos catalogar de brando e neutro, exemplificado nas varias vezes que pessoal de Lugo indicou que tenho sotaque das rias baixas e os das rias baixas de Lugo.

Como foi o teu processo de mudança para a estratégia reintegracionista, amizades, umha música, um livro…?

Em 3º da ESO mentres falo mais espanhol, leio o Sempre em Galiza e outros clássicos e interesso-me pelas afirmações de unidade linguística. Em 4º, no mesmo momento em que estou assentando o monolinguismo, conheço, através dumha colega, militantes independentistas enquadrados no Movimento em Defesa da Língua, começo a ler de cotio o galizalivre.com e no seguinte curso tenho um professor de galego reintegracionista; com 14 anos já sou um reintegracionista convencido.

Em 4º, no mesmo momento em que estou assentando o monolinguismo, conheço, através dumha colega, militantes independentistas enquadrados no Movimento em Defesa da Língua, começo a ler de cotio o galizalivre.com e no seguinte curso tenho um professor de galego reintegracionista; com 14 anos já sou um reintegracionista convencido.

Como se vive em galego, no teu trabalho, numha cidade como Ponte Vedra?
Mudei há pouco de trabalho para Vila Garcia de Arouça e, por desgraça, parece que a situaçom é pouco melhor do que a de Ponte Vedra, ainda que a situaçom do galego piorou em todo o Salnês, o espírito vilego nota-se sempre, já sejam nestas, Sárria ou Viveiro.

Em Ponte Vedra trabalhava para a Deputaçom onde o espanholismo é muito maioritário e o desleixo com a língua é escandaloso. Utilizei lá durante três anos a norma reintegrada e a resistência foi a esperada e a inesperada com galego-falantes de esquerdas a solicitar que deixasse de utilizar os dias da semana por férias, por exemplo. Neste ambiente hostil, a estratégia de unidade mostrou capacidades de galeguizaçom pois muitos monolingues em espanhol viam-se na obriga de falar galego ainda que só fosse para ter algumha legitimidade à hora de criticar o português.

Em Ponte Vedra trabalhava para a Deputaçom onde o espanholismo é muito maioritário e o desleixo com a língua é escandaloso. Utilizei lá durante três anos a norma reintegrada e a resistência foi a esperada e a inesperada com galego-falantes de esquerdas a solicitar que deixasse de utilizar os dias da semana por férias, por exemplo.

Borxa fai parte do CSC o Quilombo. O que pode dar um projeto como este à sociedade pontevedresa?
img_0279Centrando na questom linguística, é fundamental re-abrirmos o centro social, Ponte Vedra precisa urgentemente espaços radicalmente monolingues onde a mocidade espanhol-falante poda dar o passo para o galego. Nom há, por exemplo, nenhum pub onde passem música em galego para além do episódico. Respeito à norma internacional, o Quilombo é o único projeto que a coloca na rua e na agenda cultural.

Já pensado em estratégias, e no reintegracionismo, que áreas seriam as mais importantes para continuarmos a avançar socialmente?
Continuar a linha social encetada desde que a geraçom spectrum tomou a direçom da AGAL. Os debates académicos sobre a norma som necessários mas devem ficar fora do grande público, continuar a focar nas vantagens da unidade linguística e ampliar o relacionamento com a lusofonia, abarcando cada vez mais espaços e plataformas e nom renunciar aos traços genuinamente galegos como o che. Parece-me importante desabilitar a crítica isolacionista, vai chegar um ponto em que isto seja imprescindível, o reintegracionismo tem de ser o máximo defensor da língua galego-portuguesa, ao mesmo tempo da unidade internacional e  das formas e sotaque galego.

Os debates académicos sobre a norma som necessários mas devem ficar fora do grande público, continuar a focar nas vantagens da unidade linguística e ampliar o relacionamento com a lusofonia, abarcando cada vez mais espaços e plataformas e nom renunciar aos traços genuinamente galegos

Porque decidiste tornar-te sócio da Agal e que esperas do trabalho da associaçom?
Desde a viragem mencionada na associaçom pensei varias vezes em associar-me mas nom figem até agora de casualidade. Acredito estarmos no momento desta estratégia espalhar-se socialmente e para isso precisam-se de organizações com peso, eu quero contribuir com um grao de areia mais.

No ano 2021 somamos 40 anos de oficialidade do galego. Como valorarias esse processo? Que foi o melhor e que foi o pior?
Se nom fosse pola oficialidade agora estaríamos numha situaçom similar a do asturiano, com menos falantes e umha língua ainda mais crioulizada. A minha perceçom do pior, sem ter vivido os anos fundamentais desse processo, foi a falta de consenso e as dificuldades (intrínsecas à escolha provavelmente) e os erros gerindo as contradições a nível social na hora de implantar o padrom culto e o alheamento que criárom estes fatores, tendo feito ademais péssimas escolhas, entre formas genuinamente galegas, diferencialistas com o português.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2050?
Hegemonia social do galego com o inglês ou o chinês de segunda língua kkkkk

 

Conhecendo Borxa Mejuto:

Um sítio web: galizalivre.com

Um invento: O vidro.

Umha música: Bateu Matou.

Um livro: As veias abertas de América Latina.

Um facto histórico: Criaçom do Exército Libertador da Galiza de 1846

Um prato na mesa: Bacalhau à Brás.

Um desporto: Bilharda.

Um filme: A batalha de Argel.

Umha maravilha: A praia de Sam Romám no Vicedo.

Além de galego/a: labrego do mundo.

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim

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