O Centro Social Xebra, de Burela (na Marinha), celebrou conjuntamente o Dia do Livro e o Dia da Liberdade. O motivo central: o lançamento da terceira ediçom do Diário comboio da Raquel Miragaia. No encontro, a escritora de Vilalva estivo acompanhada pola cantora Ugia Pedreira e pola estudante de Filologia Carla da Paz. Como ponto final do encontro, o artista cabo-verdiano Adilson interpretou o célebre “Sodade” da Cesária Évora. Entre o público estava o mago Áris Villarino, participante habitual dos eventos organizados no Centro Social, e nós aproveitamos a oportunidade para agendar esta entrevista para falarmos com ele de magia, de língua, de literatura e mesmo da sua experiencia laboral em Portugal.
Aris Villarino formou-se em Artes Plásticas no Instituto Monte Castelo em Burela. Lembra-nos, por favor, essa etapa dos estudos.
Estudei no Instituto Monte Castelo. Acho que comecei com muita vontade; imagino que foi o resultado da boa acolhida daqueles professores e colegas com mais empatia. Para alén dos estudos de bacharel em Artes, naqueles dous anos marcou-me a Antropologia, matéria optativa que nom sabias se seria “das de estudar” ou das que se superariam com o trabalho nas aulas ordinárias. Quando entrou pola porta o professor, dixem aquilo de “merda, onde me fun meter?”. Um temor infundado. O professor Marcelino Luna levantou-me a curiosidade sobre as reações humanas, sobre os gestos e sobre as palavras. Depois, ao longo dos anos, fum consciente de que, com 5 cartas de baralha ou umha moeda, as pessoas podem ficar tam chocadas -ou mesmo mais- do que ficam ao verem alguém cortado ao meio num palco.
Finalizada etapa do Ensino Secundário, qual foi a seguinte?
Depois de terminar o bacharelato em Artes, iniciei o grau em Desenho Gráfico na Corunha. Fum o típico estudante que andava à deriva num rio de inércia. Como estava a dizer, o meu caminho no ramo artístico começou quando gostava de desenhar para os colegas as camisolas das festas e eles diziam que era bom nisso. A longo prazo, esse desenho intuitivo nom foi para mim um caminho certo. Estava confundido: considerava trabalho o que era um simples passatempo.
Após a formaçom académica, entrache no mundo laboral através do empreendimento como autónomo.
Sim, mas deixa-me retomar por um momento a resposta anterior: parte da minha minha experiência geral andava de mãos dadas com a confusom entre passatempo e trabalho. Como gosto de correr e das montanhas e som um apaixonado polo ciclismo, deixei-me levar. Criei um projeto para a gestom de eventos desportivos deste tipo: merchandising, publicidade de eventos, cronometragem, fotografia, redes sociais… Repetim o erro: coloquei o trabalho na mesma mala que usava para treinar. Os clientes eram também colegas em campeonatos e nom era agradável sair correr ao monte para desligar da rotina diária e encontrar um cliente a perguntar “oi, e o meu para quando?”. Nom estava eu preparado para isso e o ambiente superou-me. Concentrei todo o esforço nas provas. Agora penso naquilo e vejo que foi um absurdo. Queria ser bom, correr melhor do que os outros para obter resultados que dessem mais visibilidade ao negócio… até que a minha cabeça mandou parar.
A mudança de rumo levou-te a Lisboa. Inicialmente era por dous ou três meses…
Procurei emprego longe e Lisboa apareceu por acaso. Liguei para a gestoria para me dispensar do registro de autónomos e na semana seguinte estava na capital de Portugal para conhecer a cidade durante um mês, desconectar, gastar o dinheiro ganhado numha escapadela cosmopolita e regressar novo. Voltei quase 4 anos depois, porque depois da pandemia a empresa fechou.
Foi só umha mudança de lugar… ou mais profunda?
Foi mais profunda. Isto demonstra o quanto foi necessário ir embora: até hoje nom voltei a competir.
Conta-nos a história de dous livros especiais que chegaram às tuas mãos em Lisboa.
Foi no típico amigo invisível da empresa, quase nada mais chegar. Os colegas sabiam que eu lia sempre à hora do almoço, e um rapaz de Granada presenteou-me A Fundação de Asimov e o Fausto de Göethe em português. Mais tarde soubem que os livros eram do apartamento em que ele vivia. Sorte que o inquilino anterior nom lia tratados de física quântica.
Imagino que essa foi a tua primeira experiência de leitura na norma internacional e superache a prova sem grandes dificuldades.
Quando cheguei a Lisboa, nom acreditavam que eu nom morasse em Portugal desde bastante antes. Embora tenhamos muitas vantagens, Göethe e Asimov nom som duas obras para começar a ler noutra norma. Contodo, poucas vezes precisei de usar o dicionário; nom encontrei muita dificuldade. Em Lisboa também conhecim um extremenho de San Martín de Trevejo. O rapaz falava aquele galego que eles falam e quando o ouvim resultou-me gratificante.
Conhecias a existência da Através editora?
Nom. Como che dixem ao telefone, excepto clássicos e cousas contadas quase nom lim em galego até há relativamente pouco tempo.
Nom tinhas nengum livro da Raquel Miragaia?
Tinha pesquisado um bocadinho sobre o seu trabalho quando ouvim falar do evento da Xebra. Mais nada.

Qual foi a tua impressom do encontro? Saes com força para te adentrares na sua literatura?
Normalmente, acumulamos uma série de livros que ficam muito tempo em lista de espera antes de serem lidos, porque outros chegam, porque ler algum esperta a vontade de reler aquele outro que nos faz lembrar… etc. A apresentaçom deixou-me com as expectativas muito altas e já comecei a leitura. Normalmente nom vou a apresentações literárias porque as considero desconfortáveis, mesmo forçado a comprar por obriga e, muitas vezes, até por compaixom. Neste caso foi umha palestra muito agradável sobre uns livros ou, melhor, sobre um tema muito geral, mais do que uma apresentaçom. Saí dela com intriga sobre os livros que foram apresentados. Acho que tem de ser assim. Gostei também das músicas da Ugia e do Adilson e da opiniom da Carla.
Normalmente nom vou a apresentações literárias porque as considero desconfortáveis, mesmo forçado a comprar por obriga e, muitas vezes, até por compaixom. Neste caso foi umha palestra muito agradável sobre uns livros ou, melhor, sobre um tema muito geral, mais do que uma apresentaçom. Saí dela com intriga sobre os livros que foram apresentados.
Por que livro vas começar?
Devido à acumulaçom de obras de leitura em lista de espera, levei só um: o Tempo Tardade. Quero lê-lo com calma e, depois, se for necessário, investigar os lugares e as referências reais. Agradeço que se tenha falado pouco dele na apresentaçom. Se os spoilers som ruins nos filmes, som ainda piores nos livros!
Nom podemos finalizar a entrevista sem falarmos de magia. Como foi a tua entrada no mundo do ilusionismo?
Acho que se nom fosse por aquela curiosidade sobre os motivos de sermos como somos -curiosidade que espertou em mim o estudo da Antropologia-, nom teria dado atençom aos mágicos. Na verdade, agora olho mais para o espectador. O mágico raramente faz algo para o qual nom esteja preparado de uma forma quase doentia. Por isso procuramos o que surpreende e impressiona o espectador. Pode um escrever para si mesmo, até gravar um filme para sua própria diversom, mas fazer desaparecer umha moeda para si mesmo… isso nom é possível.
À falta de uma escola de magia… a escola através da internet?
Agora que penso nisso, passei muito mais tempo a ver vídeos de espectadores a reagir à magia do que de mágicos a fazer apresentações. E a partir disso… fum aos poucos: o típico jogo que sai automaticamente, umha coisa fácil com naipes, depois um livro de magia de 1956 que andava sempre por casa dos meus bisavós, mas ao que eu nunca tinha prestado atençom porque era muito muito denso -à primeira vista tinha mais bricolagem do que magia, e acabou por ser pura glória-; e muitos vídeos e muitas horas com os naipes nas mãos aproveitando que nessa altura, em Lisboa, o meu trabalho de vendedor sentado ao telefone me permitia ensaiar durante muitas horas enquanto trabalhava. Fago magia há relativamente pouco tempo.

Por onde tens levado a tua arte?
Vas-me permitir que termine esta entrevista agradecendo esta conversa. Em caso de que algum Áris adolescente leia isto, enfatizo a importância de ter cuidado com mesturar os passatempos com o trabalho.
Isso fica bem claro! Mas…
“Apresentei-me” pola primeira vez perante a Miriam Díaz Aroca, a Belinda Washington e vários actores e celebridades espanhóis cujos nomes nom recordo. Foi num restaurante, porque o proprietário me telefonou. Precisava de um mágico para aquela noite. Era magia de perto, a centímetros de distância, tudo numa mesa. O evento correu bem e divertimo-nos. Na semana seguinte apresentei-me num palco e nom me divertim e, por consequência, o público também nom.
Melhor em primeiro plano…
Sim. Desde entom, o baralho vai sempre no bolso, mas só o tiro no caso que haja uma hipótese de todos nos divertirmos. É uma forma muito egoísta de encarar a magia, mas o palco envolve muitas coisas que som alheias para um: o som, a luz, o facto de estares muito longe, de nom conseguires ver, de que se muitas pessoas se juntam, o que uma pessoa gosta pode incomodar a pessoa que está ao lado… Desde entom, tenho recusado comunhões, casamentos, eventos… e, salvo contados casos em que podo fazer a magia que me faz sentir confortável -magia de bar, magia de perto, cara a cara…- nom participo. Um evento que nom perdo é a Semana Mágica em Mondonhedo. Fazemos magia improvisada nos bares e restaurantes. Mesa a mesa, sem aditivos. Fago esse tipo de magia da qual ninguém consegue viver, mas nom conseguim transformar a paixom em rotina e ensaio. Isso que falaba do rio…
Em que consiste agora mesmo o teu repertório?
Gosto de qualquer tipo de magia: mentalismo, magia de palco, magia com naipes… Podo passar horas a ver magia como uma criança, distraído e sem me lembrar de que possivelmente saiba qual é o “truque”. No entanto, tento que tudo seja possível, -como no caso de Mondonhedo- com o baralho de cartas do bar com que os velhos jogam à brisca, com a moeda com que pagam o vinho ou com o guardanapo em que anotam as pontuações.
Queres embaralhar?
Embaralho, sim!
