Álvaro Lamas: “A chave para a língua é a mocidade, é a gente neo-falante”



235b49aa-0b8b-4960-91c3-9f174d0ad7b5Álvaro é viguês, e um acampamento Portugaliza ajudou-o a dar o passo final para o galego(internacional). É médico e acha a medicina familiar um género de ativismo. Militante do BNG e de Mar de Lumes, considera que a AGAL deve ser abragente, pedagógica e apostar na implantaçom social em todos os campos, e aspira a que em 2050 a perda de falantes entre a mocidade seja sentida como umha má lembrança.

Álvaro fai parte da galera viguesa da Agal, cresceu entre o bairro de Teis e a paróquia de Valadares. Como a maioria dos seus contemporâneos foi educado em castelhano mas no verao de 2007, com 16 anos, acendeu-se umha faísca. Como foi o processo e como a receçom da tua rede social e familiar?

Na minha família falava-se castelhano por aquele entom, eu já tentara aproveitar em anos anteriores os acampamentos de verao a que assistia para mudar de língua, mas à volta nom dava. Em 2007 fum à primeira ediçom do acampamento Portugaliza, que juntava rapaziada galega e portuguesa, em tempos do bipartido. Aí já nom houvo recuos, voltei falando galego e mantivem-me até hoje. A acolhida à mudança de língua foi muito boa na casa e acho que ajudou todos darmos o passo, é a língua que falamos entre nós na atualidade. Já o reintegracionismo no meu âmbito social… tivo mais resistências, mas já quem mais quem menos sabe o que defendo e porquê, em geral a aceitaçom é boa.

A acolhida à mudança de língua foi muito boa na casa e acho que ajudou todos darmos o passo, é a língua que falamos entre nós na atualidade. Já o reintegracionismo no meu âmbito social… tivo mais resistências, mas já quem mais quem menos sabe o que defendo e porquê, em geral a aceitaçom é boa.

Formaste-te em Medicina na USC e achas a medicina familiar um tipo de ativismo, entre os vários que praticas. Fala-nos desta tua perceçom.

Considero que umha medicina exercida de umha visom global, holística, que tenha em conta os padecimentos do indivíduo dum ponto de vista biológico mas também os seus condicionantes sociais e económicos, de género, as relaçons familiares, laborais ou de comunidade que interagem ou mesmo se encontram na base desses padecimentos é umha ferramenta útil para articular a comunidade, para identificar focos de iniquidades e atuar sobre elas. Neste sentido, é umha especialidade muito completa e complexa. Só se se dotar dos recursos económicos e humanos necessários…poderia sandar, aliviar e acompanhar mais e melhor.

Aliás, é umha posiçom, para bem ou para mal por motivos histórico, muito aproveitável para a normalizaçom da língua galega. O tratamento da língua no SERGAS dá para outro capítulo…

Como nasceu a tua consciência de que o galego nom estava limitado ao Reino de Espanha?

img_20210102_165429Foi nesse mesmo acampamento de verao que mencionava no início. Tinha estado muitas vezes em Portugal previamente, como qualquer rapaz viguês da minha idade, mas nunca antes atendera realmente ao que ouvia. Foi precisamente esse contacto, essa vivência conjunta, essa atençom adequada nas conversas e perceber que sem nunca estudar essa língua, compreendia-a perfeitamente através da minha.

Como viveste esse processo de descoberta?

De súbito, falando galego, língua que começava a fazer minha de uso diário, podia fazer amizades da outra beira do Minho. Só isso já era espetacular com 16 anos. Ajudou-me a consolidar o uso diário e constante da língua e a descobrir culturalmente os países da lusofonia. Abriu-me a porta a ouvir músicas, ler escritoras, ler jornais digitais…que doutro jeito nom teria conhecido.

Participas em política da esteira do BNG, no espaço Ruptura bem como no internacionalismo com Mar de Lumes. Como sentes a vigência do isolacionismo e do reintegracionismo nesses espaços?

Som espaços em que o reintegracionismo é aceite como umha visom perfeitamente legítima e segundo percebo, cada vez mais respeitada. Em Mar de Lumes ou Ruptura nom é umha percentagem menor da militância e som numerosos os exemplos de comunicados públicos com escrita reintegrada. No BNG, também, percebo que a atitude de respeito e apoio à unidade da língua é crescente ou mesmo maioritária, o que se manifesta nos textos aprovados pola militância, no apoio a iniciativas como a incorporaçom da Galiza à CPLP, etc.

No BNG, também, percebo que a atitude de respeito e apoio à unidade da língua é crescente ou mesmo maioritária, o que se manifesta nos textos aprovados pola militância, no apoio a iniciativas como a incorporaçom da Galiza à CPLP, etc.

Por onde julgas que deveria transitar o reintegracionismo para avançar mais socialmente e quais seriam as áreas ou os grupos sociais para serem abordados?

Penso que se está a fazer um bom trabalho, especialmente em redes sociais mas nom só. A chave para a língua é a mocidade, é a gente neo-falante e para o reintegracionismo também.

Porque te tornaste sócio da Agal e o que esperas do trabalho da associaçom?

ezrcl7hwsaewxl7Conhecim a associaçom pesquisando um pouco na Rede nesse verao de 2007, pouco depois cursei aulas de português e umha das companheiras de aulas era Margarida Martins, antiga vogal da associaçom, depois assistim a um ato no Verbum de Vigo e daí para adiante. Considero que o caminho é continuar a ser abragentes, pedagógicos e apostar na implantaçom social em todos os campos, evitando confiar em excesso numhas instituiçons autonómicas que, se por algo se caracterizam, é por pôs paus nas rodas da defesa do galego sempre que tenhem a oportunidade.

Em 2021 somamos 40 anos de oficialidade do galego. Como valorarias esse processo? Que foi o melhor e que foi o pior?

Houvo avanços até certo ponto no grau de consideraçom social e de maneira limitada no referido à presença do idioma em espaços previamente vedados. Mas a realidade do uso fala-nos dumha perda continuada e considerável de falantes, as políticas empregadas nom servem e é precisa umha reflexom política e social ao respeito para dar-lhe a volta. Som fundamentais poderes públicos que tenham vontade, o que considero que nom existe, mas também é chave é o trabalho nos coletivos sociais.

As políticas empregadas nom servem e é precisa umha reflexom política e social ao respeito para dar-lhe a volta. Som fundamentais poderes públicos que tenham vontade, o que considero que nom existe, mas também é chave é o trabalho nos coletivos sociais.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2050?

Gostaria dum país em que a tendência seja à recuperaçom de usos sociais da língua, umha consolidaçom como língua de prestígio e em que a perda de falantes entre a mocidade seja umha má recordaçom do passado. A relaçom com o resto de variantes da língua será vista como a potencialidade que é.

Conhecendo Álvaro Lamas Banhos:

Um sítio web: Dicionário Estraviz

Um invento: O desumidificador, é mesmo importante morando na beira do Minho

Umha música: Perfidia, das Tanxugueiras

Um livro: A República das Palavras, do Séchu Sende

Um facto histórico: A erradicaçom da varíola

Um prato na mesa: Caldeirada de peixe

Um desporto: Futebol gaélico para praticar, qualquer jogo do Celta para ver.

Um filme: Novecento

Umha maravilha: A serra de Queixa

Além de galego/a: Trabalhador

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim

Latest posts by Valentim Fagim (see all)


PUBLICIDADE

  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Outra bem boa entrevista. Adorei