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Alexandre Peres Vigo: “O ódio castelhano ao galego, derivado do nosso poder político, virou em paródia na Idade Moderna”

Alexandre Peres Vigo é licenciado em Humanidades e professor na Faculdade de Filologia da Universidade da Corunha. Baixo a direcçom de Manuel Ferreiro, defendeu umha tese centrada no estudo dos estereótipos anti-galegos no chamado “Século de Ouro” castelhano. Agora, graças a Através Editora, o grande público pode conhecer as linhas mestras da sua pesquisa, recolhida no livro “Do ódio à paródia: o estereótipo antigalego na literatura espanhola do século XVII”. Com ele conversamos sobre a poderosa imagem que alimentou o auto-ódio em milhares de galegas e galegos, mas que também ajudou à emergência do nosso movimento nacional.

Por que te decidiche a umha pesquisa como esta?

As razons venhem de bem atrás, e se recuo no tempo podo detectar um primeiro interesse na matéria. Quando estava no liceu, recordo um professor que nos entregara textos literários castelhanos do chamado Século de Ouro onde apareciam imagens negativas do galego. Os documentos causaram certo estupor na aula, e eu perguntei-me com surpresa algo assi como “de onde saiu isto?”. Já na jeira universitária, tivem acesso ao trabalho de Xesús Caramés, que nos anos 90 fijo um primeiro repasso sistemático da questom, isto é, de como era retratado o galego na literatura castelhana. Eu continuava motivado a indagar no assunto, e como anedota, recordo também propor-lhe a um professor fazer um trabalho sobre os prejuízos antigalegos nas obras literárias, e ele respondeu-me que, se bem nom era especialista na matéria, o tema “nom dava para tanto”. Eu nom por isso abandonei a minha curiosidade, e fum afortunado, no momento de acometer a tese de doutoramento, polo feito do meu director Manuel Ferreiro encorajar-me a profundizar neste estudo.

Com que bagagem prévia, investigadora, te topache quando iniciache a pesquisa?

Realmente nom existiam muitas monografias. Dei com o trabalho citado de Xesús Caramés, que eu valorizo enormemente; Alonso Montero fixera as suas incursons na década de 70, mas o tema nom era o meu exactamente, nom se cingia aos prejuízos, era umha focagem mais geral sobre a imagem do galego. Portanto, monográficos havia muito poucos. O que si existiam eram reflexons sobre o particular, e eram numerosas, e vinham de atrás. Aparecem em capítulos de livros do século XIX, a intelectualidade galega da altura tinha plena consciência disto, e nos anos 20 do século passado, há análises sobre o prejuízo, que ao estar tam presente, chamou a atençom de muita gente. Mesmo pessoas de fora da Galiza, como Carolina Michaelis, tomam nota daquele estereótipo negativo.

Entom, o que eu fago no meu trabalho é umha abordagem monográfica, aproveitando as muitas ferramentas das que hoje dispomos para aceder à informaçom.

Podias dizer-nos em que jeira se começa a elaborar o estereótipo castelhano-espanhol sobre o galego?

Damos com as primeiras imagens no século XIII, mas som incipientes, introduzem-se passeninhamente. Som imagens alimentadas polo ódio, e som típicas em todos os contextos em que há tensom política. Falamos, claro, da tensom política entre os reinos de Galiza-Leom e Castela. Logo, afinal do século XV vemos como esta imagem começa a escorar cara a ridiculizaçom do galego, cara a paródia; temos que aguardar ao século XVII para vermos a eclossom dum estereótipo paródico massivo contra o galego e a galega, coincidente com duas cousas: umha proliferaçom literária castelhana tremenda, e umha emigraçom muito alta de galegos e galegas a Castela.

Damos com as primeiras imagens no século XIII, mas som incipientes, introduzem-se passeninhamente. Som imagens alimentadas polo ódio, e som típicas em todos os contextos em que há tensom política.

Como sintetizarias a imagem do galego e a galega em Espanha, naquela altura?

É umha imagem muito desvirtuada, quase nom aparece nada positivo. O galego e a galega parodiada constituem a antítese dos valores sociais do momento. Os louvores quase nom existem, e há tachas por toda parte. O galego é pouco fiável, é sujo, é feio, tem tendência ao roubo, e é umha pessoa dominada pola cobiça, que fala umha língua tosca e záfia, e que carece aliás de moral religiosa. É um discurso muito clássico quando grupos dominantes elaboram umha imagem dos grupos migratórios que desempenham os trabalhos menos considerados. O galego já nom é um rival político, senom que é o criado, o lacaio, é a ama de cria, a pousadeira…e a imagem que se elabora vai destinada a este sector.

O galego é pouco fiável, é sujo, é feio, tem tendência ao roubo, e é umha pessoa dominada pola cobiça, que fala umha língua tosca e záfia, e que carece aliás de moral religiosa.

Agudiza-se o prejuízo no caso da mulher galega?

Certamente. Ser mulher naquele momento era complexo, e as pessoas que retratam as mulheres, os literatos, som todos homens. Logo, da mesma maneira que a Galiza é a antítese de Castela, as damas galegas passam a ser a antítese do que se pressupunha devia ser a dama castelhana: grotescas fisicamente, traidoras no amor, desvergonhadas, sem muito pudor, e tendentes a praticarem a prostituiçom.

Da mesma maneira que a Galiza é a antítese de Castela, as damas galegas passam a ser a antítese do que se pressupunha devia ser a dama castelhana: grotescas fisicamente, traidoras no amor, desvergonhadas, sem muito pudor, e tendentes a praticarem a prostituiçom.

Como explicas a aparente contradiçom de se elaborarem estas imagens num momento em que grandes aristocratas galegos ocupam papeis importantes na Corte castelhana?

Há um certo cuidado ao se tratar a imagem do galego que serve à monarquia castelhana por isto mesmo. Mas para isso temos que entender como mudou o papel do nobre galego. Se no medievo era um nobre que morava na sua terra, agora é um nobre expatriado; com responsabilidades, mas longe da sua terra. Som aristocratas adinheirados, caso do Conde de Lemos, e com um importante papel político e cultural. Recordemos que o Conde de Lemos financia a primeira ediçom do Quixote, e Cervantes tem que eliminar umha alusom negativa aos galegos, por indicaçom do conde. Quando o teu mecenas che diz que mudes algo, e o mudas, isto indica que há umha cautela com ele; umha cautela portanto com os galegos com poder.

Recordemos que o Conde de Lemos financia a primeira ediçom do Quixote, e Cervantes tem que eliminar umha alusom negativa aos galegos, por indicaçom do conde.

Mas isto nom indica que nom existisse essa xenofobia. O que acontece é que se medem ao exprimi-la em certos casos. Recordemos que a nossa nobreza, ainda que expatriada, nom estava tam desgaleguizada como se tem pensado. Pensemos na correspondência em galego do Conde de Gondomar, ou a defesa que fai dos galegos o Conde de Lemos em “El Búho Gallego”

Há paralelismos entre a denigraçom do galego e de outros povos europeus?

Há-os, muito evidentes. Os estereótipos sobre as comunidades humanas som universais e atemporais, desde as primeiras mostras da literatura aparecem; trata-se de construtos cognitivos do ser humano para classificar e orientar-se numha realidade complexa. Assim, cada grupo cria os seus estereótipos, positivos ou negativos, sempre em funçom das relaçons de poder que se estabelecem.

Um caso bem semelhante ao dos galegos é o dos irlandeses; passam de ser um povo rival de Inglaterra a terem umha nobreza ausente, e a virarem um povo errante. A partir daí, submetidos, acumulam imagens negativas, e certas coincidências merecem assinalar-se: como povo pobre, os galegos éramos “comedores de nabos”, e os irlandeses, na mesma condiçom, eram chamados “comedores de patacas”. Um outro caso merecente de mençom é o dos polacos, qualificados polos prussianos como perguiceiros e caóticos; desde que eram um povo caótico, precisavam dum povo mais civilizado que os governasse, e esse era o prussiano, assi se considerava.

Um caso bem semelhante ao dos galegos é o dos irlandeses; passam de ser um povo rival de Inglaterra a terem umha nobreza ausente, e a virarem um povo errante.

Como afectou este estereótipo ao galego, na tua opiniom?

Nalguns casos motivou umha reacçom, levou a umha pretensom de fazer-se valer. Pensemos por exemplo na peça que escreve Trillo Figueroa contra os andaluzes, que é umha resposta aos prejuízos contra nós espalhados por Luis de Góngora. Portanto, em certas classes sociais, as letradas, isto potenciou o género da apologia. Mas é evidente que o efeito vai muito além. Porque que acontece com a porçom de povo galego iletrado, que era a maioria? Sabemos por escritos como os do cura de Fruíme que a imagem negativa foi interiorizada, e nesse caso a resposta nom foi a apologia, mas a interiorizaçom do auto-ódio. As classes populares provavelmente nom padeciam os efeitos da literatura, mas si do tópico a operar socialmente, a se espalhar. O dito “antes puto que gallego” era, entre outros vários negativos, popular na época.

Que resta desse velho estereótipo na imagem actual do galego e da galega em Espanha?

Aquela velha imagem foi-se suavizando e foi mudando. Os estereótipos de grupo som muito perduráveis e a um tempo flexíveis. O que permanece tem a ver com o nosso estatus político. Éramos reino, agora somos comunidade autónoma, mas o centro continua em Madrid e as relaçons centro-periferia continuam. Logo, quando lemos na imprensa certas informaçons com tinte pejorativo sobre o galego, ou quando escuitamos expressons como “hacerse el gallego”, opinions que nos descrevem como pessoas sem critério claro…isso procede de aquela altura. O que mudou? No século XVII havia umha vaga migratória imensa de galegos e galegas, e isso foi substituído hoje por outros grupos étnicos, polo que o velho prejuízo, tam cru, virou menos duro e menos pejorativo abertamente.

Semelha haver um certo interesse social no País sobre a imagem do galego e da galega. Umha vez que o teu livro foi editado, e que já fixeche apresentaçons, qual é a acolhida que está a ter?

Si, o interesse existe e a acolhida é muito boa. A literatura castelhana do século XVII é conhecida, e soi-se suscitar essa curiosidade: por exemplo, “que dizia Lope de Vega sobre os galegos; ou que dizia Cervantes?”. Além disso, como umha certa imagem do galego segue a predominar, a gente quer traçar um certo paralelismo entre o passado e a actualidade. Por isso dizia que a obra pretende ter umha utilidade social, servir o País.

[Esta entrevista foi publicada originariamente no galizalivre.com]

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