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Alba Rodríguez: “O galego abriu-me um mundo novo no Twitter, ajudou-me a conhecer gente estupenda”

Um chio de Twitter às portas do Ano Novo 2018 serviu para que a Alba Rodríguez se comprometesse consigo mesma a falar galego mais a miúdo. Já lá vão quase três anos desde que decidiu ser neofalante e hoje em dia orgulha-se muito de ter feito essa mudança. Conta que as redes sociais forom as suas aliadas, como para outras muitas pessoas neofalantes digitais que encontram no Twitter, TikTok, Youtube ou Instagram comunidades amigas em que podem desatar a falar em galego sem serem mui julgadas. Em troca, na vida off-line Alba sofreu com preconceitos e questionamentos pola sua mudança, mas tranquiliza: “Tudo é passageiro. Depois de poucas semanas as perguntas e comentários acabam!”. E começa então uma nova Alba, em galego e “com muita mais confiança” em si mesma.

Alba, vão fazer já três anos que comentaste no Twitter que a tua resolução de Ano Novo era falares em galego. Como tinha sido até aquele momento a tua realidade linguística?

Toda a minha vida falara em castelhano, nunca antes tivera uma conversa em galego. Tal era a minha insegurança com relação à língua que não era capaz sequer de a falar na aula de Língua Galega na escola e no liceu. Os meus pais são galego-falantes, mas a mim sempre se dirigiram em castelhano porque queriam que o aprendesse bem antes que o galego. Todos os meus colegas do primário e do secundário também falavam em castelhano. Se bem que três ou quatro deles falavam em galego em casa, comigo não o faziam.

Os meus pais são galego-falantes, mas a mim sempre se dirigiram em castelhano porque queriam que o aprendesse bem antes que o galego. Todos os meus colegas do primário e do secundário também falavam em castelhano.

Na universidade foi quando tive o meu primeiro contacto com o galego de forma habitual. Tinha colegas galego-falantes que não provinham da minha zona e com os que falava a cotio. Além disso, houvo um ano em que um dos meus professores defendeu o uso da língua nas aulas e isso levou-me a refletir bastante. Tal professor recusou-se a trocar para o castelhano polo simples facto de haver três pessoas estrangeiras na sala de aula. Muito amavelmente, dixo-lhes que a sua disciplina iria ser ministrada em galego e que se em algum momento não percebiam podiam erguer a mão e perguntar, ou assistirem às aulas tutoriais que precisassem. Um dado ilustrativo: essas pessoas obtiverom algumas das melhores qualificações do curso. Portanto, a língua não acarretou para elas qualquer desvantagem!

Que reflexões che provocou essa situação? Por que decidiste tornar-te neofalante?

Apercebi-me da perspetiva sombria que paira sobre a nossa língua e de que, se nós não tomarmos conta dela, ninguém o fará.

Como resolução de Ano Novo no Twitter tivo um grande impacto.

Abofé. Antes de dar esse passo fizera várias tentativas que duraram apenas horas, basicamente porque, devido às minhas dificuldades e esquecimentos, muitos me diziam que voltasse ao castelhano. De modo que decidi que fosse a minha resolução de Ano Novo, para me convencer de que era a sério. Por isso publiquei o tuíte, para não poder recuar e voltar atrás. A verdade é que, passados três anos, penso nisso e acredito que foi uma ótima ideia. Obviamente, não me senti obrigada em momento nenhum a continuar a falar em galego; aliás, o apoio recebido encorajou-me a perseverar.

Como foi o processo? O que foi o mais difícil? O que continua a ser?

O processo foi complicado, não vou negá-lo. Tinha muita vergonha de falar com a gente, porque tinha constantemente que traduzir na mente do castelhano para o galego, falava muito devagar, aos tropeções e com inúmeros erros. O mais complicado para mim foi não usar tempos compostos e não trocar para o castelhano quando estava triste ou zangada, mas isso fai parte do processo de aprendizagem e as limitações acabam por ser superadas, por assim dizer. Nesta altura, quase três anos depois, não acho que tenha qualquer dificuldade. Há apenas um pequeno porém: os castelhanismos, mas acho que muito poucas pessoas falam um galego 100 % correto, se é que alguém o fai!

O processo foi complicado, não vou negá-lo. Tinha muita vergonha de falar com a gente, porque tinha constantemente que traduzir na mente do castelhano para o galego, falava muito devagar, aos tropeções e com inúmeros erros.

Com que obstáculos te deparaste ao longo deste tempo?

Deparei-me com obstáculos sobretudo na altura em que trabalhei como empregada de loja e como teleoperadora. Houvo pessoas que acreditavam que eram superiores a mim por falarem em castelhano e que me tratavam com desrespeito. Mas, para além disso, a minha vida permaneceu a mesma, o galego não me limitou em nada. Fige o meu TFG em galego, no mestrado que realizei falei sempre em galego e as pessoas que tinha ao meu lado aí continuam.

E, na outra face da moeda, quem forom as tuas aliadas neste processo?

O Twitter é um bom aliado para dar esse passo. Afinal de contas, recebi muito apoio e fôlegos na minha conta que me ajudarom a não cair na tentação de recuar nos piores momentos. O galego abriu-me um mundo novo nesta rede social, ajudou-me a conhecer gente estupenda! Nunca me passara pola cabeça, na verdade. E a minha mudança de língua trouxo também uma mudança de certos costumes, como tentar mercar produtos da nossa nação, por exemplo o leite.

Qual é a maior satisfação que che deu a aprendizagem do galego? Que che proporciounou a nível pessoal?

Mostrou-me que, apesar de se ter um nível muitíssimo baixo de galego e um ambiente linguístico castelhano-falante, é possível conseguir mudar e falar no dia a dia 100 % em galego. E deu-me muita mais confiança em mim mesma, por ter atingido a minha meta e também por tudo o que implicou: entrevistas, falar em público… cousa que há uns anos teria visto como algo impossível por causa da minha timidez! Sinto-me melhor comigo mesma e orgulhosa de ser um grão de areia que há de contribuir para que a língua perdure.

E como reagiu o teu círculo mais próximo a esta mudança de língua? Com que tipo de discurso?

A reação geral da gente foi ao princípio de surpresa com a minha mudança e depois consistiu em perguntar o porquê de repente a minha língua era o galego. Os comentários que tive de aturar forom desde os típicos ‘Tía, habla como siempre’ ou ‘Joder, que raro se me hace que hables así’ até colocar a culpa na universidade. Diziam que quando terminasse o curso iria parar com esta tolice. Mas já há muitos meses que não escuito comentários desse género. Acho que agora é visto como normal que eu fale em galego.

Os comentários que tive de aturar forom desde os típicos ‘Tía, habla como siempre’ ou ‘Joder, que raro se me hace que hables así’ até colocar a culpa na universidade.

Quanto ao futuro da língua, que importância achas que tem o fenómeno das pessoas neofalantes?

Parecem-me essenciais as pessoas neofalantes, embora haja gente que pense que estão sobrevalorizadas. A percentagem de galego-falantes diários está em mínimos históricos, parece-me mui difícil que a língua sobreviva apenas com essas pessoas. Por isso, acho que aumentar o número das que falam decote e em todos os âmbitos da sua vida em galego pode ser um salva-vidas para a língua, uma esperança.

O que dirias às pessoas indecisas e não se atrevem a dar o primeiro passo?

Eu diria-lhes que não tenham medo nem vergonha. Qualquer mudança acarreta um processo e não devem criar a barreira do ‘que os outros vão dizer’ pola frente dos seus desejos. Se o que querem é falar em galego, avante! É importante que tenham claro que haverá comentários importunos de pessoas próximas e não tão próximas, e que terão de responder vezes sem conta à questão de ‘porque o fizeste’. Não vou enganar ninguém nem dizer que tudo é um mar de rosas, mas posso dizer, sim, que é passageiro, logo após várias semanas as perguntas e comentários acabam e depois de uns meses deixarão praticamente de falar traduzindo. Com certeza, muitas formas haverá de dar esse primeiro passo, cada pessoa é um mundo e tem a sua maneira de se sentir segura. Para mim, colocá-lo como resolução de Ano Novo foi a escolha certa, de modo que… agora que está prestes a acontecer um novo Ano Novo, porque não começar o ano numa língua maravilhosa?

[Esta entrevista foi feita por Uxía Iglesias para neofalantes.gal ]

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