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A influência de Darwin no pensamento moderno

PGL – No passado 12 de Fevereiro completárom-se douscentos anos desde o nascimento do genial home de ciência Charles Darwin, de quem também se comemora em 2009 o sesquicentenário da publicaçom de A Origem das Espécies.

Para celebrar o Ano de Darwin, o PGL reproduz aqui o esclarecedor artigo do grande biólogo Ernst Mayr (1904-2005) que há uns anos publicou a revista Agália (n. 61, Primavera de 2000) e que glossa a plena vigência no século xxi do legado científico e intelectual do naturalista británico.

Este texto, publicado originalmente na revista de divulgaçom científica Scientific American e traduzido para galego-português, com permissom do próprio Ernst Mayr, por Carlos Garrido, veu a ser incluído na colectánea The Best American Science Writing 2001 organizada por Timothy Ferris.

 

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As grandes inteligências moldam o pensamento dos sucessivos períodos históricos. Assim, enquanto que Lutero e Calvino inspirárom a Reforma, e Locke, Leibniz, Voltaire e Rousseau o Iluminismo, o pensamento moderno acusa em grande medida a influência de Charles Darwin.

Ernst MAYR2

A nossa concepçom do mundo e do lugar que nele ocupa o ser humano é, certamente, no começo do século xxi, radicalmente diferente da vigente nos inícios do século xix, se bem que nom exista consenso quanto à causa desta mudança revolucionária. A este respeito, costuma invocar-se o nome de Karl Marx, ao passo que o de Sigmund Freud ora tem estado em voga, ora tem caído no esquecimento. Por seu turno, Abraham Pais, biógrafo de Albert Einstein, declarou, numha afirmaçom um tanto arrebatada, que as teorias deste «transformárom profundamente o modo em que os homes e mulheres modernos encaram os fenómenos da natureza inanimada». Contudo, mal dixo Pais isto, logo tivo de reconhecer o seu exagero: «Melhor seria, na verdade, dizer ‘cientistas modernos’ do que ‘homes e mulheres modernos’», escreveu, pois, sem dúvida, para se apreciarem na sua integridade as contribuiçons de Einstein é necessário ter sido instruído no modo de raciocinar de um físico e nas técnicas da matemática, limitaçom que, com certeza, afecta todas as espantosas teorias da física moderna e que determinou que estas tenham exercido pouco impacto no modo em que umha pessoa corrente apreende o mundo.

No entanto, a situaçom muda radicalmente em relaçom aos conceitos próprios da biologia. Com efeito, muitas das ideias biológicas propostas durante os últimos 150 anos colidírom frontalmente com o que todo o mundo supunha ser verdade, de modo que a sua aceitaçom requereu de umha autêntica revoluçom ideológica. E nengum biólogo tem sido responsável por tantas, e tam drásticas, mudanças na visom do mundo do cidadao médio como Charles Darwin.

Os achados de Darwin fôrom tantos e tam diversos que se revela útil distinguir os três ámbitos em que ele realizou importantes contribuiçons: a biologia evolutiva, a filosofia da ciência e a moderna mundividência3. E, ainda que aqui me vaia centrar neste último domínio, em benefício da completitude apresento a seguir umha concisa sinopse das suas contribuiçons ―especialmente enquanto enformam as suas ideias posteriores― nas duas primeiras áreas.

Umha visom secular da vida

Darwin instituiu um novo ramo das ciências da vida, a biologia evolutiva, e quatro dos seus contributos nesse ámbito revelam-se particularmente importantes, já que exercem notável influência mais além da disciplina em que fôrom feitos. O primeiro é a inconstáncia das espécies, isto é, a concepçom moderna da própria evoluçom. O segundo é a noçom de ramificaçom evolutiva, que implica a comum descendência de todas as espécies de seres vivos da Terra a partir de umha única origem simples. Até 1859 todas as teorias evolutivas propostas, como a do naturalista Jean-Baptiste Lamarck, defendiam, polo contrário, umha evoluçom de carácter linear, quer dizer, umha progressom teleológica em direcçom a umha maior perfeiçom, ideia que estivera em voga desde a enunciaçom do conceito aristotélico da Scala Naturae ou concatenaçom dos seres. Darwin, ainda, fijo notar que a evoluçom tem de ser um processo gradual, livre de rupturas ou descontinuidades importantes, e, finalmente, argumentou de modo razoado que o mecanismo da evoluçom é a selecçom natural.

Estas quatro descobertas servírom a Darwin como alicerces para o estabelecimento de um novo domínio da filosofia da ciência: a filosofia da biologia. E, apesar de que ainda tivo de transcorrer um século para que este novo ramo da filosofia se desenvolvesse plenamente, a sua configuraçom final veu a basear-se em conceitos darwinianos. Assim, foi Darwin quem introduziu a historicidade na ciência, de modo que a biologia evolutiva, em contraste com a física e a química, é umha disciplina histórica, caracterizada polas suas tentativas de explicar acontecimentos e processos que ocorrêrom no passado. Para este labor, as leis e os experimentos nom se revelam técnicas adequadas e, no seu lugar, recorre-se à formulaçom de narrativas históricas, que consistem numha reconstituiçom do quadro hipotético particular que originou os acontecimentos que se tentam explicar.

Assim, por exemplo, três quadros hipotéticos fôrom propostos em relaçom à súbita extinçom dos dinossauros no fim do Cretácico: umha epidemia devastadora, umha alteraçom catastrófica do clima e o impacto de um asteróide, hipótese conhecida como a teoria de Alvarez. Mas, enquanto que as duas primeiras narrativas vinhérom finalmente a ser refutadas à vista da sua incompatibilidade com as provas acumuladas, todos os factos conhecidos concordam com a teoria de Alvarez, que hoje goza de geral aceitaçom. Este método de formulaçom e comprovaçom de narrativas históricas demonstra que o profundo fosso que alegadamente se interpunha entre a ciência e as humanidades, e que tanto preocupava o físico Charles P. Snow, na realidade nom existe, já que, em virtude da sua metodologia e da sua aceitaçom do factor tempo, que torna possível a mudança, a biologia evolutiva fai de ponte entre esses dous ámbitos do conhecimento.

O princípio da selecçom natural foi ignorado durante os mais de 2.000 anos de história da filosofia que se estendem entre os Gregos e Hume, Kant e a era vitoriana, e o seu descobrimento por parte de Darwin e de Alfred Russel Wallace deve ser considerado em si próprio um extraordinário progresso filosófico. O conceito de selecçom natural mostrou umha notável capacidade para explicar as transformaçons direccionais e adaptativas apesar de ser pura simplicidade, pois nom se trata de umha força como as descritas nas leis da física, antes ele se baseia simplesmente num mecanismo de eliminaçom dos indivíduos inferiores. Este processo de eliminaçom nom aleatória levou o filósofo Herbert Spencer, contemporáneo de Darwin, a descrever a evoluçom com a hoje popular expressom de “a sobrevivência dos mais aptos”, caracterizaçom que foi durante longo tempo desqualificada por constituir pretensamente um razoamento circular do tipo: «―Quem som os mais aptos? ―Aqueles que sobrevivem». Mas, na realidade, umha análise atenta permite normalmente determinar por quê certos indivíduos nom conseguem prosperar sob um dado conjunto de condiçons.

A realizaçom verdadeiramente extraordinária do princípio da selecçom natural é que torna desnecessário invocar “causas finais”, isto é, quaisquer forças teleológicas a conduzirem para um determinado fim. Na realidade, nada está pré-determinado e, além disso, o objectivo da selecçom mesmo pode variar de umha geraçom para a seguinte, de harmonia com a variaçom das circunstáncias ambientais.

Para o adequado funcionamento da selecçom natural é necessária umha populaçom diversa, de modo que o êxito de Darwin veu a deixar os tipologistas ―para os quais todos os membros de umha classe som essencialmente idênticos― com um argumento indefendível. Devido à importáncia da variaçom, a selecçom natural há de considerar-se um processo de duas fases: a produçom de abundante variaçom é seguida pola eliminaçom dos indivíduos inferiores. Esta segunda fase é direccional. Ao adoptar a selecçom natural, Darwin resolveu a velha disputa filosófica, de vários milhares de anos de antigüidade, entre o acaso e a necessidade. A transformaçom que se regista na Terra é o resultado de ambos, sendo dominada a primeira fase polo acaso, e pola necessidade a segunda.

Darwin foi holista, pois para ele o objecto ou alvo da selecçom era principalmente o indivíduo no seu conjunto. Os genéticos, quase já desde 1900, e com espírito bastante reducionista, preferírom considerar o gene o alvo da evoluçom. Durante os últimos 25 anos, porém, eles tenhem retornado na sua maioria à visom darwiniana de constituir o indivíduo o principal alvo da selecçom.

Depois de 1859, e durante 80 anos, registou-se umha azeda controvérsia em torno de qual das quatro teorias evolutivas existentes seria a válida: a transmutaçom advogava o aparecimento de umha nova espécie ou de um novo tipo mediante um salto ou mutaçom única; os defensores da ortogénese sustentavam que eram tendências teleológicas intrínsecas as que conduziam à transformaçom; a evoluçom lamarckiana baseava-se na herança dos caracteres adquiridos; e, finalmente, a evoluçom variacional de Darwin, que dependia da selecçom natural. A teoria de Darwin saiu claramente vitoriosa durante a síntese evolutiva do decénio de 1940, quando as novas descobertas da genética fôrom acompanhadas de observaçons taxonómicas relativas à sistemática, quer dizer, à classificaçom dos organismos segundo as suas relaçons. O darwinismo é hoje quase unanimemente aceitado polos estudiosos da evoluçom e tornou-se ainda o componente fundamental da nova filosofia da biologia.

Um dos princípios mais importantes da nova filosofia da biologia, que passou despercebido durante quase um século depois da publicaçom de A Origem das Espécies, é a dupla natureza dos processos biológicos. Estes som governados tanto polas leis universais da física e da química como por um programa genético que é resultado da selecçom natural, a qual moldou o genótipo ao longo de milhons de geraçons. O factor causal da posse de um programa genético é algo que di respeito exclusivamente aos seres vivos e está por completo ausente do mundo inanimado. Devido à escassa informaçom de que se dispunha no seu tempo sobre a composiçom molecular e genética dos organismos, Darwin nom chegou a conhecer esse factor vital.

Outro aspecto da nova filosofia da biologia tem a ver com o papel desempenhado polas leis. As leis científicas som substituídas no seio do darwinismo por conceitos. Nas ciências físicas, por via de regra, as teorias baseiam-se em leis. Assim, por exemplo, as leis relativas ao movimento levárom à formulaçom da teoria da gravitaçom. Em biologia evolutiva, porém, as teorias repousam na sua maior parte sobre conceitos como o de competiçom, selecçom, selecçom por parte das fêmeas, sucessom e domináncia. Estes conceitos biológicos, e as teorias que neles se baseiam, nom podem ser reduzidos às leis e teorias das ciências físicas. E embora o próprio Darwin nunca tivesse formulado esta ideia claramente, a minha afirmaçom da sua importáncia para o pensamento moderno surge da análise da teoria darwiniana ao longo dos últimos cem anos. Ao longo deste período produziu-se umha profunda mudança na metodologia da biologia, que, se nom tivo Darwin como único protagonista, sim foi fortemente impulsionada polos avanços produzidos na biologia evolutiva. Deste modo, a observaçom, a comparaçom e a classificaçom, bem como a comprovaçom de narrativas históricas concorrentes, vinhérom a tornar-se os métodos da biologia evolutiva, deslocando a experimentaçom.

Naturalmente, nom estou a dizer que Darwin fosse o único responsável por todos os progressos intelectuais registados nesse período, dado que, de facto, muitos deles, como a refutaçom do determinismo do matemático e físico francês Pierre-Simon Laplace, já “andavam no ar”. Mas, em muitos casos, foi Darwin o primeiro proponente ou o mais ardente defensor dos novos conceitos.

A mundividência darwiniana

O ser humano do século xxi olha para o mundo de um modo totalmente diferente a como o fazia um cidadao da era vitoriana. Esta mudança ficou a dever-se a múltiplas causas, especialmente aos incríveis avanços da tecnologia, mas o que nom costuma reconhecer-se é em quam grande medida esta transformaçom no pensamento tivo origem nas ideias de Darwin.

Tenha-se em conta que em 1850 praticamente todos os cientistas e filósofos de renome eram cristaos. O mundo em que eles viviam fora criado por Deus e, como proclamavam as autoridades da teologia natural, foi Ele que instaurou as sábias leis que propiciárom a perfeita adaptaçom de todos os organismos entre si e ao seu ambiente. Ao mesmo tempo, os arquitectos da revoluçom científica construiram umha visom do mundo baseada no fisicalismo (reduçom a objectos ou acontecimentos espaço-temporais ou às suas propriedades), na teleologia, no determinismo e noutros princípios fundamentais. Tal era o pensamento em Ocidente antes da publicaçom em 1859 de A Origem das Espécies, de modo que os conceitos propostos por Darwin viriam a colidir frontalmente com as ideias imperantes na altura.

Em primeiro lugar, o darwinismo rejeita todos os fenómenos e causas sobrenaturais. A teoria da evoluçom mediante selecçom natural explica a adaptaçom e diversidade do mundo de modo exclusivamente materialista, de modo que Deus já nom se torna necessário como criador ou delineador ―embora, ainda aceitando a evoluçom, se poda, com certeza, continuar a crer em Deus. Darwin assinalou que a criaçom, tal como é narrada na Bíblia e nos livros das origens doutras culturas, se vê desmentida por quase todos os aspectos da natureza. Todos os pormenores do “maravilhoso delineamento” tam admirado polas autoridades da teologia natural podiam ser explicados mediante a selecçom natural. A eliminaçom de Deus da ciência cedeu o passo a explicaçons estritamente racionais de todos os fenómenos naturais, originou o positivismo e suscitou umha poderosa revoluçom intelectual e espiritual cujos efeitos perduram no momento presente.

Em segundo lugar, o darwinismo refuta a tipologia. Desde os tempos dos pitagóricos e Platom, o conceito geral da diversidade do mundo realçava a sua invariáncia e estabilidade, ponto de vista denominado tipologia ou essencialismo. Para esta corrente, a variaçom aparente consiste num número limitado de classes naturais (essências ou tipos), e em cada classe os membros som idênticos, constantes e aparecem claramente separados dos membros de outras essências. Polo contrário, a variaçom é acidental e nom essencial. Um triángulo ilustra o essencialismo: todos os triángulos compartilham as características fundamentais e estám claramente delimitados dos quadrángulos ou de quaisquer outras figuras geométricas. Nom cabe pensar numha figura intermédia entre um triángulo e um quadrángulo. Portanto, o pensamento tipológico é incapaz de conceber a variaçom e dá lugar a umha concepçom enganadora das raças humanas. Assim, para o tipologista, os Caucásicos, os Africanos, os Asiáticos e os Esquimós Americanos representam tipos que diferem marcadamente de outros grupos étnicos humanos. Se a torpe e errónea aplicaçom da teoria evolutiva conhecida como “darwinismo social” tem sido freqüentemente acusada de justificar o racismo, a doutrina essencialista, totalmente refutada, levou de facto na época anterior a Darwin a pontos de vista racistas.

Darwin rejeitou por completo a concepçom tipológica e, no seu lugar, introduziu o conceito, radicalmente diferente, do que hoje se chama “pensamento populacional”. Todos os agrupamentos de seres vivos, incluindo os humanos, som populaçons que constam de indivíduos diferenciados e únicos em si próprios. Nom há dous seres humanos, dos seis mil milhons existentes, que sejam idênticos. As populaçons variam, nom em virtude das suas essências, mas de harmonia com as diferenças registadas nos valores estatísticos médios de certos parámetros. Ao descartar a constáncia das populaçons, Darwin contribuiu para introduzir a perspectiva histórica no pensamento científico e promoveu umha nova estratégia de interpretaçom causal na ciência.

Em terceiro lugar, a teoria darwiniana da selecçom natural tornou desnecessária qualquer invocaçom à teleologia. A partir dos Gregos, existia umha crença universal na actuaçom de umha força teleológica no mundo que conduzia cada vez para umha maior perfeiçom, sendo esta “causa final” umha das causaçons enunciadas por Aristóteles. O próprio Kant, depois de ter tentado infrutuosamente descrever os fenómenos biológicos na Crítica do Juízo com o auxílio de umha interpretaçom newtoniana de tipo fisicalista, acabou por invocar forças teleológicas. Inclusive com posterioridade a 1859, as explicaçons teleológicas (ortogénese) continuárom a gozar de bastante popularidade em biologia evolutiva, popularidade de que também dam provas a aceitaçom da Scala Naturae e as explicaçons da teologia natural. Mas, afinal, o darwinismo fijo desaparecer todas estas consideraçons.

(O termo “teleológico” na realidade era aplicado a fenómenos diversos. Muitos processos que decorrem na natureza inorgánica e que aparentemente som dirigidos para um fim som simples conseqüência de leis naturais, como acontece quando cai umha pedra ou quando um pedaço de metal aquecido arrefece, fenómenos que devem ser atribuídos às leis da física. Por seu turno, os processos que decorrem nos seres vivos devem a sua aparente direccionalidade à actuaçom de um programa inato de carácter genético ou adquirido. Os sistemas adaptados, como o coraçom ou os rins, realizam actividades que podem parecer encaminhadas para a consecuçom de um objectivo, mas os próprios sistemas fôrom adquiridos durante a evoluçom e som ajustados com precisom mediante a selecçom natural. Por último, também era corrente acreditar-se na teleologia cósmica, em virtude da qual a todo o objecto natural era adscrito um propósito e um objectivo pré determinado. A ciência moderna, porém, é incapaz de fundamentar a existência de tal teleologia cósmica).

Em quarto lugar, Darwin acaba com o determinismo. Laplace figera-se célebre ao proclamar que, se lhe fosse dado conhecer por completo o mundo actual e todos os seus processos, poderia predizer o futuro até ao infinito. Em contraste, Darwin aceitou a intervençom universal do acaso no processo da selecçom natural ―carácter aleatório que fijo com que o astrónomo e filósofo John Herschel se referisse desprezativamente à selecçom natural como “a lei do rebúmbio e da balbúrdia”4. Que o acaso desempenhe um papel importante nos processos naturais revelou-se algo dificilmente aceitável para muitos físicos e, de facto, Einstein exprimiu a sua incomodidade ao respeito na famosa sentença “Deus nom joga aos dados”. Contudo, como se dixo antes, é claro que só o primeiro passo da selecçom natural, a produçom de variaçom, está sujeito ao acaso; o segundo passo, a própria selecçom, é direccional.

Apesar da resistência inicial oposta por físicos e filósofos, o papel da contingência e do acaso nos processos naturais é na actualidade reconhecido por quase todo o mundo. Muitos biólogos e filósofos negam a existência de leis universais em biologia e proponhem que todas as regularidades se estabeleçam em termos probabilísticos, visto que quase todas as chamadas leis biológicas conhecem excepçons. Deste modo, a célebre prova da refutaçom do filósofo da ciência Karl Popper nom pode ser aplicada nestes casos.

Em quinto lugar, Darwin desenvolveu umha nova visom da humanidade e, a seguir, um novo antropocentrismo. De todas as propostas de Darwin, a de a teoria da comum descendência se aplicar ao ser humano foi a que os seus contemporáneos achárom mais difícil de aceitar. Com efeito, tanto para os teólogos como para os filósofos, o homem era umha criatura situada por cima e à parte dos outros seres vivos, e neste sentimento concordavam Aristóteles, Descartes e Kant, com independência de quam divergentes fossem as suas opinions em relaçom a outros assuntos. Mas os biólogos Thomas Huxley e Ernst Haeckel revelárom mediante rigorosos estudos de anatomia comparada que, sem dúvida, os seres humanos e os símios actuais possuem antepassados comuns, apreciaçom que nunca mais tem sido seriamente questionada no campo da ciência. A aplicaçom da teoria da comum descendência ao ser humano, portanto, destituiu este da sua anterior posiçom de privilégio.

Mas, ironicamente, estes acontecimentos nom representárom o final do antropocentrismo, pois o estudo do ser humano demonstrou que, apesar da sua ascendência, ele é com certeza único entre todos os organismos. Assim, a inteligência humana nom é igualada pola de nengumha outra criatura, o homem é o único animal que dispom de umha verdadeira linguagem dotada de gramática e sintaxe e somente a humanidade, como Darwin destacou, veu a desenvolver genuínos sistemas éticos. Além disso, e graças à inteligência, à linguagem e ao longo cuidado parental dispensado aos filhos, os seres humanos som as únicas criaturas que dérom origem a umha rica cultura, o que os tem levado, para bem ou para mal, a atingir um domínio sem precedentes sobre a totalidade do planeta.

Em sexto lugar, Darwin forneceu fundamentaçom científica para a ética. A este respeito, costuma colocar-se ―e também rejeitar-se― a questom de se a evoluçom poderá explicar de modo satisfatório a existência de umha sá ética humana. Visto que a selecçom recompensa o indivíduo unicamente na medida em que o seu comportamento favorece a sua própria sobrevivência e êxito reprodutivo, muitas pessoas perguntam-se como este puro egoísmo poderá conduzir à emergência de umha ética sólida. A conhecida tese do darwinismo social, proposta nos fins do século xix por Spencer, é que as interpretaçons evolutivas nom podem compatibilizar-se com o desenvolvimento da ética.

No entanto, hoje sabemos que nas espécies sociais nom deve considerar-se unicamente o indivíduo como objecto da selecçom, como também a totalidade do grupo social. O próprio Darwin aplicou este argumento à espécie humana em 1871 na sua obra A Descendência Humana. A sobrevivência e prosperidade de um grupo social depende em grande medida da cooperaçom harmoniosa dos seus membros, e este comportamento tem de basear-se no altruísmo. Este, ao aumentar a sobrevivência e prosperidade do grupo, também potencia indirectamente a aptidom dos indivíduos do grupo, o que acarreta que a selecçom favoreça o comportamento altruísta.

Em particular, a selecçom de parentesco e a assistência recíproca verám-se grandemente favorecidas num grupo social. Nos últimos anos demonstrou-se esta selecçom favorecedora do altruísmo achar-se muito estendida entre muitos outros animais sociais. Portanto, poderia sintetizar-se a relaçom entre ética e evoluçom dizendo que, com certeza, a selecçom natural favorece umha tendência para o altruísmo e a cooperaçom harmoniosa no seio dos grupos sociais. A velha tese do darwinismo social, a do egoísmo estrito, baseava-se num conhecimento insuficiente dos animais, em especial das espécies sociais.

A influência dos novos conceitos

Tentemos entom recapitular os argumentos principais acima expostos. Nengumha pessoa instruída pom já em questom a validade da denominada teoria da evoluçom, que hoje consideramos ser um facto. Assim mesmo, a maioria das particulares teses de Darwin tenhem sido plenamente confirmadas, como a comum descendência, o gradualismo da evoluçom e a sua teoria explicativa da selecçom natural.

Espero ter ilustrado de maneira satisfatória o largo alcance das ideias de Darwin. Ele com certeza fundou a filosofia da biologia ao introduzir o factor temporal, ao assinalar a importáncia do acaso e da contingência e ao mostrar que as teorias da biologia evolutiva se baseiam em conceitos antes do que em leis. Mas, para além de todo isto, a contribuiçom talvez mais importante de Darwin seja a de ter enunciado umha série de novos princípios que influenciam o pensamento de todos os seres humanos, a saber: a natureza viva, mediante a evoluçom, pode ser explicada sem recorrer ao sobrenatural; o essencialismo ou tipologia revela-se inválido e deve adoptar-se no seu lugar o pensamento populacional, em que cada indivíduo é único, argumento que, aliás, se reveste de vital importáncia no ámbito educativo para combater o racismo; a selecçom natural, aplicada aos grupos sociais, é suficiente para explicar a origem e preservaçom dos sistemas éticos altruístas; a teleologia cósmica, como processo intrínseco que conduz a vida automaticamente em direcçom a umha progressiva perfeiçom, é falaciosa, e os fenómenos de aparência teleológica podem demonstrar-se como sendo resultado de processos puramente materiais; deste modo, o determinismo é repudiado, o que, literalmente, deixa o nosso destino nas nossas próprias ―e evoluídas― maos.

Tomando emprestada a frase de Darwin, poderíamos dizer que há grandeza nesta visom da vida, e que novos modos de pensar evoluírom no passado e estám a evoluir na actualidade. E é que, como vimos, quase todos os componentes do sistema de crenças do homem contemporáneo se veem afectados de algum modo polos princípios darwinianos.

Bibliografia

Browne, Janet. 1996. Charles Darwin: Voyaging: A Biography. Princeton University Press.

Darwin, Charles R. 1:18592005. A Origem das Espécies. Publicações Europa-América. Mem Martins. Trad. de On the Origin of Species por Dora Batista.

Darwin, Charles R. 1:18711997. The Descent of Man. Prometheus Books.

Gruber, Howard E. 21981. Darwin on Man: A Psychological Study of Scientific Creativity. University of Chicago Press.

Mayr, Ernst. 1993. One Long Argument: Charles Darwin and the Genesis of Modern Evolutionary Thought. Harvard University Press.

Mayr, Ernst. 1998. Historia do Pensamento Biolóxico. Diversidade, Evolución, Herdanza. Serviço de Publicaçons da Universidade de Santiago de Compostela. Trad. de The Growth of Biological Thought. Diversity, Evolution and Inheritance por Emilio Valadé del Río.

 

Notas:

1 Por gentileza do Professor Ernst Mayr, oferecemos a versom galega, realizada por Carlos Garrido, do artigo “Darwin’s influence on modern thought” (Scientific American, 283-1: 66-71), que se baseia na conferência proferida por Mayr em Estocolmo no 23 de Setembro de 1999, por ocasiom da recepçom do Prémio Crafoord atribuído pola Real Academia Sueca das Ciências. (N. da R.)

2 Ernst Mayr é um dos vultos mais importantes da história da biologia evolutiva. Nascido em 1904 em Kempten (Alemanha), depois de obter em 1926 o grau de licenciado na Universidade de Berlim empreendeu umha série de expediçons ornitológicas à Nova Guiné que alimentárom o seu interesse pola biologia evolutiva teórica. Em 1931 Mayr emigrou aos Estados Unidos e em 1953 incorporou-se à Universidade de Harvard, onde hoje rege a cátedra Alexander Agassiz de Zoologia como professor emérito. A sua concepçom da especiaçom rápida das populaçons isoladas constituiu os alicerces do célebre conceito neoevolucionista do equilíbrio pontuado (ou interrompido). Autor de algumhas das mais influentes obras do século xx sobre evoluçom, Mayr recebeu numerosos galardons, entre os quais se encontra a estado-unidense National Medal of Science. (N. do T.)

3 Zeitgeist no original (N. do T.)

4 “The law of the higgledy-piggledy” no original (N. do T.)

 

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