José Paz Rodrigues – Ainda que poucos o saibam, o Reino Unido é um dos países com o sistema educativo menos flexível do mundo. Em que os docentes criativos e inovadores pouco ou nada podem fazer. É um sistema tão rígido que não há lugar para introduzir nas aulas conteúdos diferentes dos programados no desenho curricular oficial das escolas.
Tudo está focado para preparar os estudantes unicamente para que superem os exames oficiais, cujas perguntas estão também desenhadas previamente. Tudo um contrassenso pedagógico, contrário a todos os princípios da pedagogia e da didática. Por isso não deve admirar que o governo da reacionária e ultraliberal Thatcher tentasse encerrar no seu dia a escola inovadora e aberta de Summerhill, criada por A. S. Neill (1883-1973) nos anos vinte, que mantém hoje viva e aberta a filha do fundador Zoe Readhead. Cousa que também tentou, sem o conseguir, o governo laborista de Toni Blair. Paralelamente a este sistema educativo tão rígido e tão infame, pedagogicamente falando, há que reconhecer que no país britânico, além da Summerhill, objeto do presente artigo, foi onde se criaram escolas novas tão importantes e inovadoras como a escocesa Abbotsholme de Cecil Reddie, a de Bedales de Badley e a de Dartington Hall em Devon do tagoreano Leonard K. Elmhirst. E o país onde trabalhou Beatrice Ensor (1885-1974), criadora do movimento mundial da «The New Education Fellowship», a que, desde Santiniketon, também pertenceu Tagore.
Neill, o criador desta escola progressiva no ano de 1924, com o nome de Summerhill («Outeiro do Verão»), na localidade de Leiston-Suffolk, com outras experiências educativas anteriores na Alemanha e na Escócia, formou-se na universidade de Edimburgo, começando a escrever artigos sobre temas educativos na revista do movimento antes citado «The New Era». Preocupado sempre polos rapazes inadaptados e difíceis, recebeu grande influência do trabalho do educador e psicanalista norte-americano Homer Lane, que tinha criado uma escola-reformatório com o nome de «Little Commonwealth» (Pequena Comunidade), onde os próprios jovens internos, detidos por vários delitos cometidos, auto-organizavam os seus espaços e atividades. Também recebeu muita influência doutro grande psicanalista como foi Wilhelm Reich, a quem conheceu na Noruega em 1937. Dele tira a ideia educativa, que manteve sempre na teoria e na prática, de que é necessário conseguir que as crianças sejam livres no seu interior, livres do medo, da hipocrisia, do ódio e da intolerância. Coincidia com Reich em que a repressão sexual é muito funesta e repercute negativamente na vida posterior dos indivíduos na idade adulta, através de muitas neuroses.
São significativos todos os livros que escreveu, o primeiro Diário de um mestre rural, depois Corações, não só cabeças nas escolas e mais tarde Problemas dos mestres, mestres problema, Liberdade sem medo e Filhos em liberdade. Na década de sessenta dá à luz o livro Summerhill, em que recolhe amplamente a sua experiência educativa de quase 40 anos na sua inovadora escola. O livro tem um sucesso imenso em todo o mundo e é publicado ao mesmo tempo em mais de vinte idiomas. No seu prólogo Erich Fromm diz: «Na minha opinião este livro é de grande importância, porque representa o verdadeiro princípio da educação sem medo, demonstrando que a liberdade funciona». No capítulo «Plano de estudos» de um dos seus livros Neill escreve algo que eu compartilho plenamente, como no seu momento também o compartilhava Giner, «Não basta estabelecer que o culto aos exames destrói a verdadeira educação, o que é muito certo, também há que estabelecer um novo currículo para as escolas, que tenha mais em conta os sentimentos e a emotividade e menos a cultura estática e morta». O que Tagore entendia como ir mais ao coração dos estudantes que à cabeça.
Ficha Técnica do filme:
Título do Documentário: Imagine a School…Summerhill (Imagine uma escola…)
Diretor: William Tyler Smith (U.K., 2008, 67 min., a cores).
Produtor: Julian D. Hoxter. Editora: Ann Jackman.
Música: Justin Samaha.
Prémios: Jersey Shore Film Festival (2009) e Santa Fe Film Festival (2009).
Argumento: Formosa reportagem sobre a escola progressiva de Summerhill dos últimos tempos, dirigida pola filha de Neill, os estudantes, os programas, as atividades educativas e entrevistas, fazendo referência à história da escola desde a sua criação em 1924. Uma escola destinada a alunos de 5 a 16 anos, divididos em três grupos etários: 5 a 7, 8 a 10 e 11 a 15 anos.
Nota: O documentário pode ser visionado em Channel-4 documentary film.
Uma escola para ensinar a sentir mais que a saber:
Neill fundou a sua escola acreditando que «uma criança deve viver a sua própria vida, não uma vida que seus pais acreditem que ela deve viver, não uma vida decidida por um educador que supõe saber o que é melhor para a criança».
Os princípios educativos levados à prática por Neill na sua Summerhill são os seguintes, e até os podia assinar Tagore:
– A criança tem potencialidades plenas para amar a vida e interessar-se por ela. Firme convicção na bondade natural dos seres humanos.
– O fim da educação é trabalhar com alegria. A máxima aspiração deve ser a felicidade.
– Na educação não chega com o desenvolvimento intelectual. A educação deve ser intelectual e afetiva ao mesmo tempo. Cada vez nas nossas sociedades encontra-se mais a separação entre pensar e sentir. O amor e respeito são as bases da convivência.
– A educação deve estar unida às necessidades psíquicas e às capacidades das crianças. Importância da corporalidade e da sexualidade.
– A disciplina dogmaticamente imposta e os castigos provocam medo, e este leva à hostilidade.
– A liberdade não significa libertinagem. O respeito entre os indivíduos deve ser recíproco. O mestre não emprega a força com a criança, e esta não tem direito a usá-la contra o mestre.
– O mestre tem que ser sincero. Neill comentou que durante 40 anos nunca enganou uma criança.
– O desenvolvimento humano saudável faz necessário que a criança rompa os laços que o unem a seu pai e sua mãe e se faça verdadeiramente independente. Deve empregar todas as suas faculdades para encontrar a união com o mundo, não para encontrar a segurança através da submissão ou do domínio.
– A função primordial dos sentimentos de culpabilidade é vincular a criança com a autoridade. Os sentimentos de culpabilidade são um obstáculo para a independência; iniciam um ciclo que vai da rebelião, o arrependimento e a submissão, até de novo à rebelião.
– É importante praticar na escola a autorregulação, o antiautoritarismo e o autogoverno, para exercer com responsabilidade a liberdade, a confiança e a criatividade.
Para levar isto à prática estabelecem-se as seguintes estratégias didáticas:
– Organização de assembleias duas vezes por semana, nas quais todos, estudantes e docentes, são iguais. Ajudam a desenvolver de forma positiva a convivência. Nelas têm lugar a exposição de conflitos e o seu tratamento, e também podem criar-se ou revogar-se regras que ordenam a escola. A assembleia é assim um órgão de gestão educativa.
– Ausência total de exames e classificações, e não obrigatoriedade de assistência às aulas.
– Ausência de reprimendas e sermões e trato igualitário entre crianças e mestres.
– As manhãs são destinadas para as lições e as tardes são livres para atividades diversas que as crianças desejam desenvolver. Apesar de os alunos não serem obrigados a participar nas aulas, um grupo pode expulsar de uma aula um aluno faltoso que estorva o andamento dos trabalhos.
– As crianças dormem na escola durante o período letivo e são instaladas por grupos etários com uma «mãe-da-casa» para cada grupo. Os alunos não sofrem inspeção nos quartos e ninguém é responsável por pegar nos objetos pessoais deixados fora do lugar, além, é claro, do próprio dono.
– Organização de todo o tipo de atividades lúdicas e artísticas muito variadas.
O modelo da escola de Summerhill poderia resumir-se nos seguintes sete aspetos básicos:
1.- Não doutrinar nem dar instruções sobre como comportar-se.
2.- Não moldar o caráter das crianças, respeitando a sua personalidade e psicologia próprias.
3.- Não provocar medo nem usá-lo para provocar condutas morais.
4.- Permitir a autorregulação ou capacidade de dirigir-se livremente de acordo aos impulsos que provêm do próprio ego.
5.- Conseguir que os adultos sejam cálidos, francos e honrados com os seus alunos.
6.- Reconhecer que não se educa com palavras mas com atos ou incidentes educativos críticos.
7.- Os alunos decidem livremente assistir ou não às aulas. Estas são sempre uma opção, mas não uma obrigação.
Temas para realizar e refletir:
– Realizando previamente a leitura de alguns dos livros escritos por Neill, todos eles muito interessantes, organizar um livro-fórum com os docentes leitores participantes da leitura.
– Procurar na Internet informação sobre esta escola e o seu criador, e como funciona a atual Summerhill, visionando o documentário sobre a mesma.
– Organizar um debate-papo com docentes atuais das nossas escolas, analisando os seguintes textos e/ou frases:
a) «Preferiria que Summerhill produzisse um varredor de rua feliz do que um primeiro-ministro neurótico» (Zoe, filha de Neill).
b) «A paz mundial não depende nem da matemática nem da química: depende de uma atitude nova e mais ampla para a vida emotiva» (Neill).
c) «A liberdade não é a missão de um só homem, mas uma nova cosmovisão, uma grande esperança neste mundo demente» (Neill).
d) «Os docentes têm que ter uma terapia psicológica, como uma forma de compreender o seu ofício ao trabalhar com crianças, a sua vida emocional, a sua saúde sexual» (Neill).
A.S. Neill diante de Summerhill
(*) Académico da AGLP, didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.



