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A escola do Gueto de Varsóvia e seu grande mestre, no filme “Korczak”

José Paz Rodrigues (*) – O filme que hoje comento serve para lembrar o Dia Internacional para a Recordação do Holocausto judeu e o Dia Escolar da Não-Violência e da Paz, e promover entre os escolares o apreço pola paz no mundo, a solidariedade, a não-violência e a irmandade entre todos os seres humanos, povos, culturas e países.

A ONU instituiu, em data de 1 de novembro de 2005, o Dia Internacional para a Recordação do Holocausto judeu, a celebrar em todo o mundo cada 27 de janeiro. Mais de trinta anos antes, o pedagogo balear Llorenç Vidal promoveu, com grande sucesso, celebrar em todos os estabelecimentos de ensino dos diferentes níveis, em 30 de janeiro, o DENIP (Dia Escolar da Não-Violência e da Paz), e comemorar assim também a morte, às mãos dum fanático hindu, do grande pacifista Gandhi, em Nova Deli, em 30 de janeiro de 1948.

O grande educador, mestre e pediatra Henryk Goldszmit, polaco judeu, mais conhecido como Janusz Korczak, pseudónimo que utilizou a maior parte da sua vida, teve muitas ocasiões para não ser assassinado polos nazis, mas preferiu morrer acompanhando aos seus quase duzentos alunos judeus órfãos da escola que dirigia, dentro do gueto da cidade polonesa de Varsóvia. No dia 5 ou 6 de agosto de 1942 (atualmente ainda não se conhece a data exata), falecia com os seus alunos na câmara de gás do campo de extermínio nazi da localidade de Treblinka. Sabendo e intuindo o que finalmente ia acontecer, depois de que durante uns dous anos os nazis tivessem ocupado o seu país, e a persecução da sua etnia fosse infame e brutal, uns dias antes do seu assassinato no campo de concentração antes citado, em 18 de julho de 1942, decide organizar com as crianças da sua escola-lar a representação teatral da formosa obra de Robindronath Tagore «O carteiro do rei» (Dakghor, em Bangla).

Obra que considerava idónea nessa altura, especialmente porque era uma maneira de entreter os seus alunos em momentos tão graves e tristes, um pouco antes do fatal desenlace. E também porque o simbolismo que amostra esta peça tagoreana, em que o protagonista Omol espera, antes de falecer, que chegue para ele uma carta do rei, e finalmente chega, é similar ao momento que vai acontecer em pouco tempo aos seus quase 200 alunos e a ele próprio. Não haveria nessa altura uma obra dramática tão poética e modelar para refletir o momento anterior ao que ia acontecer em breve e em poucos dias. A obra representa uma metáfora destes momentos vitais, antes da morte e, curiosamente, era uma obra que era proibida polo nazismo, sistema político infame na Alemanha e países por ela ocupados naquela altura. Em tristes anos que desejamos não voltem nunca mais. O filme que analisamos foi realizado polo grande diretor polaco Wajda, do qual no Cine Clube «P. Feijóo» projetamos no seu dia muitos e lindos filmes.

 

Ficha Técnia do filme:

Título original: Korczak.

Diretor: Andrzej Wajda (Polónia-Alemanha-UK, 1990, 115 min., a preto e branco).

Roteiro: Agnieszka Holland. Editora: Ewa Smal.

Música: Wojciech Kilar. Fotografia: Robby Muller.

Atores: Wojciech Pszoniak (Janusz Korczak), Ewa Dalkowska (Stefania), Teresa Budzisz (Maryna), Marzena Trybala (Estera), Piotr Kozlowski (Heniek), Z. Zamachowski (Ichak), Jan Peszek (Max Bauer), Aleksander Bardini (Adam), W. Klata (Szloma), Michael Staszczak (Józek), Agnieszka Krukówna (Ewka) e várias crianças.

Argumento: Filme biográfico sobre a vida do pedagogo polaco Korczak. Em Varsóvia o doutor Henryk Goldszmit, mais conhecido com o pseudónimo de Janusz Korczak, está a cargo da escola-orfanato do gueto judeu, a cujo serviço se entrega em corpo e alma. Um pouco depois da invasão alemã da Polónia, a sua escola é deslocada para o gueto com os seus 200 órfãos. A situação é desesperada, polo que tem que pedir dinheiro e comida a judeus abastados. Isto há ser o início dum verdadeiro pesadelo. Quando ele e as suas crianças se vêm obrigados a deslocar-se de novo, o grande mestre não aceitará um passaporte suíço com o qual poder escapar e decide subir ao comboio, junto com os seus queridos rapazes, que os vai levar a todos a uma morte certa no campo de extermínio de Treblinka.

Nota: Além deste, que participou no festival de Cannes de 1990, existem mais dous filmes dedicados a Korczak:

1.- Sie sind frei Dr. Korczak («É você livre, Dr. Korczak»): Dtor.: Aleksander Ford (Alemanha, 1975).

2.- Uprising («Rebelião na Polónia»): Dtor.: John Avnet (EUA, 2001)

Existem também dous filmes, com roteiros baseados nos respetivos livros de literatura juvenil da autoria de Korczak:

–O rei Mateíto I: Dtora.: Wanda Jakubowska (Polónia, 1958).

–O pequeno rei Macius: Dtores: Sandor Jesse e Lutz Stutzner (Polónia, 2007, desenhos animados).

 

 

A grande humanidade de um educador único:

O labor excelente de Korczak em pedagogia infantil, a sua atitude heroica perante os nazis e as suas pioneiras manifestações de direitos para as crianças são aspetos claves da sua transcendência pessoal e profissional. O seu caráter altruísta manifestou-se em quantidade de orfanatos que dirigiu desde 1904, e em algum chegou a criar um autogoverno com as próprias crianças, que também escreviam o seu próprio jornal escolar. Ademais de um grande pediatra que foi, escreveu formosos livros de literatura infantil e juvenil, promovendo também revistas periódicas infantis. Os seus muitos artigos educativos são enormemente interessantes e avançados para a época, revelando uma grande paixão pola educação e as crianças, com notáveis influências de pedagogos da Escola Nova como Decroly, Montessori e Dewey, e dos precursores Tolstoi, Spencer, Froebel e, especialmente Pestalozzi, a quem admirava.

De Korczak, o grande psicopedagogo suíço Jean Piaget, que visitou o seu «Lar de Órfãos» (Dom Sierot), chegou a dizer: «Korczak foi um homem maravilhoso que era capaz de confiar nas crianças e nos jovens dos quais cuidava, até o ponto de deixar nas suas mãos as questões de disciplina e encomendar a alguns deles as tarefas mais difíceis, com grande carga de responsabilidade». É muito agradável ler a profunda e riquíssima biografia do pedagogo polonês. Entre os muitos valores humanos que adornam a sua vida e prática eu quero destacar a sua decidida defesa para conseguir a conciliação de toda a humanidade por cima de barreiras religiosas, procurando sempre a verdade, mantendo sempre o respeito entre os homens. Também o seu profundo amor pola infância, especialmente a desvalida, e o acreditar que não se pode mudar o mundo sem uma educação adequada dos cidadãos, com total respeito pola pessoa dos estudantes.

Exponho a seguir de forma sintética as ideias e princípios educativos que levou à prática Korczak nas suas instituições educativas, até a última sua escola-lar do gueto de Varsóvia:

1.- É muito importante dialogar com as crianças, favorecer a sua autonomia e emancipação e respeitar os seus direitos. Uma boa estratégia é promover o autogoverno em aulas e escolas.

2.- Há que praticar na escola os princípios democráticos. A democracia tem que ser igual para as crianças como para os docentes. Ao respeito Korczak escreveu: «A criança razoa e entende do mesmo modo que um adulto, tão só carece da sua bagagem de experiências».

3.- A socialização dos escolares é de enorme importância. Não sem problemas, praticou a integração de crianças de famílias judias ortodoxas e de famílias economicamente débeis ou mesmo órfãos. A ressocialização que pôs em prática era mais fácil atingi-la nas crianças em contato com os seus iguais que nas famílias. Tentou sempre uma infância livre de preocupações, mas não de obrigações. Para ele as crianças eram verdadeiras pessoas. Para atingir isto publicou uma revista escolar por e para as crianças, que era um verdadeiro foro e uma canteira de talentos, socializando e desenvolvendo a criatividade.

4.- Oposição total a qualquer tipo de violência, seja física ou verbal, baseada na superioridade por idade ou na hierarquia do poder. Nada de castigos, que impedem a necessária interação entre estudantes e mestres.

5.- A criança é um ser humano na mesma medida que um adulto. É necessário ter muito em conta a sua individualidade. O desenvolvimento evolutivo da criança é uma tarefa complexa e difícil.

6.- As crianças são quem melhor conhecem as suas necessidades, desejos e emoções, polo que as suas opiniões devem ser respeitadas e tomadas em conta polos docentes.

7.- Direito das crianças a equivocar-se, a ter insucesso, ter privacidade, liberdade de opinião e propriedade privada. Os docentes têm que respeitar isto.

Para desenvolver tudo isto, nas suas escolas fomentavam-se muito as diferentes expressões: verbal (leituras criativas, redações e jornal escolar), plástica (atividades artísticas variadas), corporal (grande importância do teatro escolar) e musical (canto e aprendizagem instrumental). Procurava também, com o exemplo, a formação moral dos escolares, para a paz e o respeito entre todos. Ele mesmo, imolando-se junto com seus alunos, foi todo um exemplo e um modelo de pedagogo, de pessoa singular e única. O governo da Polónia, com o apoio do de Israel, declarou o ano 2012 como «Ano Janusz Korczak».

 

 

Temas para reaizar, refletir e debater:

– Procurar na Internet, onde há muita informação sobre Korczak, dados biográficos, pensamentos, frases, ideias educativas e sociais, experiências e práticas educativas suas. Fazer a seguir uma síntese das mesmas e organizar um debate-papo entre docentes.

– Visionar o filme e organizar também um cinema-fórum sobre o mesmo.

– Organizar uma tertúlia educativa para comentar, docentes e alunos juntos, os seguintes pensamentos de Korczak:

a) «Cem crianças, cem indivíduos que já são pessoas, não que hão de ser pessoas, não pessoas do amanhã, são pessoas agora, agora mesmo, hoje».

b) «Não tentes converter-te em mestre com livros de psicologia no teu coração e teoria educativa na tua cabeça».

c) «As vidas dos grandes vultos são como as lendas, difíceis, mas maravilhosas».

– Depois de ler algum dos seus formosos livros, organizar um livro-fórum com todos os leitores do livro escolhido.

 

(*) Académico da AGLP, didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.

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