7h Coop: “Precisamos dum estado de mobilizaçom social permanente que mude o sentido comum sobre o quê e o para quê do galego”



Neste ano 2021 cumprem-se 40 anos desde que o galego passou a ser considerada língua co-oficial na Galiza, passando a ter um status legal que lhe permitiria sair dos espaços informais e íntimos aos que fora relegada pola ditadura franquista. Para analisarmos este período, iremos realizar ao longo de todo o ano umha série de entrevistas a diferentes agentes sociais para nos darem a sua avaliaçom a respeito do processo, e também abrir possíveis novas vias de intervençom para o futuro.
Desta volta entrevistamos a equipa da cooperativa cultural de Compostela, 7h coop.

Qual foi a melhor iniciativa nestes quarenta anos para melhorar o status do galego?

De esquerda a direita: Sara, Clara, Sonia, Eva e Diego, ao pé do mural de Medianeras Murales, realizado dentro do projeto "Elas tamén Pintan"

De esquerda a direita: Sara, Clara, Sonia, Eva e Diego, ao pé do mural de Medianeras Murales, realizado dentro do projeto “Elas tamén Pintan”

Baseando-nos na nossa própria experiência relacional com o idioma, cremos que nas últimas décadas os maiores avanços produzírom-se da mao da produçom cultural. Por um lado, colocando o foco nas iniciativas promovidas desde a institucionalidade governamental após a aprovaçom da cooficiliadade, cremos que, ainda que o início da escolarizaçom em galego é um acontecimento histórico de obrigada mençom, o poder do discurso mediático foi mais eficaz como produtor de sentido compartilhado e, portanto, como construtor de sentimentos de pertença desde a identificaçom positiva com a nossa língua. Nesse sentido, a criaçom da CRTVG e, dentro da sua programaçom, a emissom do Xabarín Club, parecem-nos fitos mui relevantes para a popularizaçom do idioma. No relativo à fundaçom do ente público, porque aproximou o galego de geraçons privadas de qualquer tipo de socializaçom de prestígio na nossa língua, ensanchando os limiares do até entom considerado como pensável e dizível nela, e no caso do programa infantil, porque gerou vínculos emocionais de apego com o idioma entre a populaçom mais nova, deixando um pouso de orgulho e autoestima para o galego que muitas de nós ainda identificamos vivo.
Nessa linha, na actualidade parece-nos chave que grupos musicais, produtos audiovisuais, youtubers ou deportistas que empregam o galego como língua de expressom ou de criaçons sejam considerados referentes e exemplos em cadanseu campo, dentro e fora das nossas fronteiras. O uso do galego para fazer trap, para emitir streaming dumha partida de videojogo em Twitch ou como língua das protagonistas dumha série que triunfa em Netflix gera subjectividades novas, afastadas de estereótipos e preconceitos, que, à vez, permitem prescindir tanto de argumentaçons utilitaristas como de discursos que apelam o sentimental para seduzir no uso do galego (duas estratégias que parecem menos eficazes frente a naturalizaçom do seu uso através de práticas de socializaçom quotidianas, como o consumo mediático). Como em qualquer luta, precisamos de ícones e símbolos plurais, que permitam identificar-nos, reconhecer-nos e celebrar-nos como parte dumha comunidade, porque aquilo que nom se apresenta isolado, mas como integrante dum conjunto, ressulta sempre mais atrativo e motivador.

Parece-nos chave que grupos musicais, produtos audiovisuais, youtubers ou deportistas que empregam o galego como língua de expressom ou de criaçons sejam considerados referentes e exemplos em cadanseu eido, dentro e fora das nossas fronteiras.

Por isso, se respondemos a questom centrando a atençom no coletivo, parece-nos fundamental destacar e reivindicar o trabalho diário das entidades e pessoas que conformam a sociedade civil organizada, tanto no ativismo pola língua como noutras lutas, sem esquecer o papel do tecido empresarial e comercial que aposta por rachar a inércia de usar o castelhano como língua de prestígio no âmbito socioeconómico. A presença transversal do idioma em todos os eidos da vida social é imprescindível para  dizer-nos umhas às outras que existimos, resistimos e construímos.

Se pudessedes recuar no tempo, que mudaríades para que a situaçom na atualidade fosse melhor?

Nom queremos aventurar-nos a fazer umha análise das engrenagens que sustentam a atual situaçom de subalternizaçom do nosso idioma, pois sentimos que a tarefa é grande demais para nós. Contudo, partindo de que este status é resultado dum processo multicausal, histórico e estrutural, de tudo o acontecido nos últimos quarenta anos, provavelmente começaríamos por desconstruir as estruturas de poder, materiais e simbólicas, que permitírom reproduzir e mesmo aprofundar a posiçom de desigualdade do galego a respeito do castelhano após quatro décadas de ditadura.

Este status é resultado dum processo multicausal, histórico e estrutural, de tudo o acontecido nos últimos quarenta anos, provavelmente começaríamos por desconstruir as estruturas de poder, materiais e simbólicas, que permitírom reproduzir e mesmo aprofundar a posiçom de desigualdade do galego a respeito do castelhano após quatro décadas de ditadura.

Que haveria que mudar a partir de agora para tentar minimizar e reverter a perda de falantes?

De esq. a direita, Eva, Sara, Sonia, Clara e Diego, integrantes de 7H, durante umha intervençom mural.

De esq. a direita, Eva, Sara, Sonia, Clara e Diego, integrantes de 7H, durante umha intervençom mural.

Em primeiro lugar, e como condiçom de possibilidade iniludível, cremos que precisamos dum quadro legislativo que garanta, de facto, os direitos das pessoas galegofalantes no dia a dia, permanentemente vulnerados. No plano do concreto, por exemplo, entendemos urgente uma mudança absoluta de rumo nas políticas linguísticas para um modelo de imersom monolíngue, especialmente no eido educativo, dadas as reiteradas evidências de que a escola está a resultar um agente castelhanizador que, longe de reverter a contínua perda de falantes e compensar a ruptura da transmissom familiar, acelera o processo de desarraigo para o nosso idioma.
Para lográ-lo, precisamos de um estado de mobilizaçom social permanente que mude o sentido comum sobre o quê e o para quê do galego. É necessário desmontar a legitimaçom ideológica que sustém um sistema que ameaça permanentemente o conquistado e que nos mantém em eterna retaguarda, destinando recursos e energias a frear regressons e violências simbólicas em lugar de investir estes esforços na imaginaçom de novas estratégias de fortalecimento do nosso idioma.

Tendo umha cooperativa que desenvolve projetos de criaçom, comunicaçom cultural e educaçom artística, qual é o peso da escolha linguística no vosso trabalho?

Desde a nossa constituiçom como cooperativa de trabalho associado em 2015 usamos a nossa língua tanto na nossa comunicaçom interna como na nossa relaçom com as entidades, instituiçons e coletivos com os que trabalhamos ou aos que prestamos os nossos serviços. Este compromisso, que entendemos como umha escolha que posiciona num contexto como o empresarial, nom se deriva dumha decisom instrumental orientada à adaptaçom às exigências da administraçom ou de clientes privados à hora de encontrar oportunidades de negócio nem tampouco a umha estratégia que procure rendibilidade como marca de diferenciaçom, como sucede habitualmente, muito mais do que se di, no campo cultural.
Ao contrário, é primeiramente reflexo da presença do galego nas nossas vidas, nalguns casos como língua materna e noutros como resultado dum processo de neofalantismo motivado por diferentes fatores. Sendo o idioma em que falamos, sentimos e amamos, nom se explicaria que nom fosse também a língua em que trabalhamos. É, ademais, resultado lógico da nossa filosofia, baseada nos princípios da economia social e, portanto, fortemente arraigada ao território e à sua identidade.
Finalmente, é também fruto de umha reflexom coletiva arredor da responsabilidade social que temos como empresa, entendendo como estratégica a utilizaçom do galego em muitos dos eidos nos quais nos desenvolvemos profissionalmente. Cremos que incorporar o idioma a campos tam castelhanizados como emergentes, como o da cultura urbana, por colocar um exemplo, é umha oportunidade de normalizar a nossa língua em espaços tradicionalmente afastados do galego, aproximando-o das faixas etárias mais novas através da sua vinculaçom com expressons culturais inovadoras e atrativas.

Incorporar o idioma a campos tam castelhanizados como emergentes, como o da cultura urbana, por colocar um exemplo, é umha oportunidade de normalizar a nossa língua em espaços tradicionalmente afastados do galego, aproximando-o das faixas etárias mais novas através da sua vinculaçom com expressons culturais inovadoras e atrativas.

 

Achades que seria possível que a nossa língua tivesse duas normas oficiais, umha similar à atual e outra ligada com as suas variedades internacionais?

Como possibilidade, sem dúvida, pois já somos parte de umha comunidade galegofalante em que, de facto, convivem duas normas de jeito quotidiano. Agora bem, o cenário da sua legitimaçom, isto é, da sua instauraçom de iure com mecanismos institucionais oficiais, vemo-lo pouco factível a curto ou meio prazo. Em parte, porque como horizonte estratégico sentimo-lo afastado das demandas sociais maioritárias em relaçom à normalizaçom linguística.
Nesse sentido, ainda que para algumhas de nós o binormativismo resultaria um passo lógico no caminho para umha unificaçom ortográfica que aproxime o padrom oficial das variedades internacionais, do seu tronco comum, temos algumhas dúvidas sobre a sua pertinência como estratégia a priorizar na actual realidade sociolinguística (e sociopolítica). É possível abordar um debate acerca dos significantes do galego quando o seu significado carrega ainda o peso da diglósia e a discriminaçom? É, precisamente, a adoçom de duas normas umha via para abordar os problemas que a actual normativa nom logrou remediar? Nesse caso, contamos com as ferramentas precisas para socializar o debate, agora mesmo limitado a círculos mui concretos, e realizar o exercício de pedagogia e discussom coletiva pertinente?

É possível abordar um debate acerca dos significantes do galego quando o seu significado carrega ainda o peso da diglósia e a discriminaçom? É, precisamente, a adoçom de duas normas umha via para abordar os problemas que a actual normativa nom logrou remediar? Nesse caso, contamos com as ferramentas precisas para socializar o debate, agora mesmo limitado a círculos mui concretos, e realizar o exercício de pedagogia e discussom coletiva pertinente?

Som questons sobre as que, provavelmente, nom tenhamos reflexionado o suficiente mas sobre as que, sem dúvida, cremos preciso que exista debate. Em todo caso, nesse namentres em que vaiamos construindo as condiçons de possibilidade para essa abordagem na agenda pública, cremos fundamental apostar nas estratégias que destacam o papel e potencialidades do galego no âmbito da Lusofonia.


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