Uma Porta para o Exterior

'Porta para o Exterior' é uma colagem audiovisual, que hesita entre uma tese de teses reintegracionistas e um brainstorming



Um comboio a atravessar a ponte internacional sobre o Minho, um comboio que simbolicamente principia um roteiro, que recupera umas relações linguístico-culturais (e não só!) entre a Galiza e mais de 250 milhões de falantes em todo o mundo. Este é o percurso a que nos convidam Sabela Fernández e José Ramom Pichel num documentário carregado de «reintegratas», mas também com passageiros de Portugal, Brasil, Angola e Moçambique. Viajantes num comboio ou trem galego-português-brasileiro-africano onde se nos abre uma Porta para o Exterior.

Porta para o Exterior reúne gentes diversas a refletir, a cismar, sobre o presente e o futuro do idioma próprio da Galiza, um idioma que, infelizmente, muitos começam a ver, neste que foi o seu berço norte, apenas como passado.

Porta para o Exterior dá voz ao reintegracionismo, um movimento excluído há décadas da opinião maioritária televisada e publicada, um movimento plural que, apesar dos intentos de marginalização por parte do poder e da “oficialidade” e ainda apesar dos seus próprios erros, continua a crescer e consolidar-se como um referente cultural para o país. Um movimento que, lembremos, consegue, em 2014, atingir a adesão unânime do Parlamento Galego à Iniciativa Legislativa Popular “Valentim Paz Andrade”. Um movimento de sonhadores… Lusistas sim, mas não ilusos.

Porta para o Exterior é ópera prima, que reflete uma certa inexperiência técnica, superada com frescura, ritmo e espontaneidade. Colagem audiovisual, que hesita entre uma tese de teses reintegracionistas e um brainstorming. Tempestade de ideias e imagens muito variadas, onde impera o conteúdo sobre o continente. Habituados aos padrões audiovisuais pré-fabricados, que os meios de comunicação de massa e as redes sociais disseminam, Porta para o Exterior pode chocar. Mas quantas vezes o valor superestimado do continente ofusca a pobreza do conteúdo? Não é o caso. Em Porta para o Exterior prefere-se recuperar o respeito pola mensagem.

Parafraseando um dos entrevistados, neste comboio destino Lusofonia «há caos, há vida, há movimento, há sociedade, há projetos»… há esperança.

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João Aveledo

João Aveledo

João José Varela Aveledo é "bichólogo", "boticário sem botica" e professor de Laboratório Clínico e Biomédico. Membro da Associaçom Galega da Língua (AGAL), na década de '90 da centúria passada foi um dos mais destacados membros da Assembleia Reintegracionista Bonaval. Daquela época procede a sua alcunha, João de Bonaval, anos mais tarde levada para o âmbito audiovisual no projeto coletivo Documentários de Bonaval, sob cuja autoria se publicaram obras como Entre Línguas ou Em Companhia da Morte. Na sua faceta literária, João Aveledo reuniu no poemário Arceia um fruto madurado durante duas décadas.
João Aveledo

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