Xocas Lopes: “Ter uma cultura tão próxima e não saber dela é uma oportunidade perdida”



Xocas Lopes, do ponto de vista de infância linguística, tem uma natureza híbrida. Não sentiu a necessidade de se reautoafirmar e ser considerado como falante de galego. Formou parte do grupo musical The Homens. É, na atualidade, diretor-gerente do auditório da Galiza. Deve muito às aulas do professor Albert Bastardas. Pai de uma criancinha, julga o afeto e a cidade de Compostela bons aliados para ela conservar a língua familiar.

Uma das perguntas que costumam iniciar estas entrevistas a novos sócios e sócias é a sua condição de paleo ou neofalante. O que nem sempre é fácil de discernir…

A minha condição acho que é híbrida, fui criado em galego no âmbito familiar, uma variedade popular, a escola era maioritariamente em castelhano, mas a variedade estândar do galego diferia de aquilo que eu ouvia em casa. Sou da primeira geração escolarizada com “norma”. Portanto, embora ter sido galego falante considero que em certo modo, em contextos como o meu (vila industrial pequena e bairro periférico de cidade) fomos criando uma variedade que pretendia ser “culta” e que, ao mesmo tempo, se afastava daquilo que falavam as nossas avós. É um lugar híbrido onde se perdem referentes, por vezes demasiado confrontado com o espaço de referência e conforto familiar.

Xocas formou-se em Filologia Galego-Portuguesa e foi leitor na Catalunha e moraste em Faro. Em que medida estas estadias influenciaram na tua forma de ver, e viver, a nossa língua?

Conviver em outros contextos e culturas sempre é positivo. Eu não tinha a necessidade de me reautoafirmar e ser considerado como falante de galego, que é algo que acontece muito nestes contextos, mas sim que é muito enriquecedor no desenvolvimento pessoal e cultural.

Entre 2004 e 2011 fizeste parte duma banda musical, The Homens, que foi pioneira num género que não se cultivava muito por grupos galegos como é o powerpop, fala-nos desta experiência, alguma referência lusófona neste género?

Foi uma experiência muito intensa, fomos capazes de poder fazer um grande número de concertos, de conhecer muita gente boa. Os nossos referentes eram principalmente anglófonos, mas naquele tempo lembro ouvir os Peste e sida, Mão morta, Cachorro grande, Peixe Avião e a Los Hermanos, de estilos próximos. Tocámos e viajámos a Portugal com contactos com a cena local nortenha, mas acho que todas as bandas faziam as músicas em inglês.

Trabalhaste muito ligado ao mundo da cultura e do teatro. Atualmente és o diretor-gerente do auditório da Galiza. Em que medida as parcerias com a cultura portuguesa fazem parte da agenda galega? Em que medida é importante?

Infelizmente são poucas. Ter uma cultura tão próxima e não saber dela é uma oportunidade perdida em termos de enriquecimento pessoal e coletivo. Mas também em termos de possível ampliação de mercados para os produtos culturais galegos.

Um livro que foi marcante na tua visão sociolinguística foi Ecologia de les llengües. Medi, contacte i dinàmica sociolingüística, de Albert Bastardas i Boada. Que te ofereceu a sua leitura? Que nos ofereceria?

O que me marcou foram as aulas do professor Bastardas. Acho que o livro, que reflete o seu pensamento na altura, é um instrumento que me permitiu superar a visão autonomista do conflito linguístico cara a uma visão muito mais holística. Mas, o que realmente consegui com o Albert e o seu livro foi conhecer um bom número de referências de investigadores/as na área das Ciências Sociais que teve muito valor para mim no futuro.

20 anos depois analisar o conflito linguístico sob a perspetiva ecológica acho que está vigente e é útil para ser utilizado por comunidades subalternas.

Tens uma miúda de um ano e meio. Será um desafio que seja galegofalante? Uma cidade como Santiago é uma aliada?

É um desafio que afrontamos com muita incerteza e medo, mas acho que o afeto se vai impor. Ganhará o amor!

Compostela é certamente aliada. Deve-se valorar o trabalho que para a primeira infância levam feito coletivos auto-organizados como Raiola ou Semente, que são um instrumento fundamental à hora de galeguizar os primeiros espaços de socialização fora do âmbito familiar. Santiago também é das poucas câmaras municipais do país que planificaram as suas políticas linguísticas e, independentemente da configuração demográfica, económica e cultural da sua população, acho que os dados refletem que houve um impacto positivo.

Deve-se valorar o trabalho que para a primeira infância levam feito coletivos auto-organizados como Raiola ou Semente, que são um instrumento fundamental à hora de galeguizar os primeiros espaços de socialização fora do âmbito familiar.

De forma a difundir a estratégia reintegracionista, a que as pessoas vivam o galego como uma língua partilhada, que áreas, que ações é que consideras mais prioritárias?

Só uma: ensino obrigatório de português.

Porque decidiste fazer parte da tripulação agálica? Que rotas espera que siga o navio?

Por pressão de um bom colega. Aguardo que continue com a travessia com boa atitude, análise crítica, vontade construtiva e fomentando espaço para o debate e encontro.

Em 2021 somamos 40 anos de oficialidade do galego. Como valorarias esse processo? Que foi o melhor e que foi o pior?

Eu sinto-o como um grande fracasso. E falo do meu ponto de vista pessoal, de sentimentos que me surgem como falante e utente da língua galega a respeito da manutenção das variedades linguísticas mais populares. É possível que houvesse outro maneira de construir esse processo, ou quero imaginar que o há. Mas o processo é análogo à construção da cultura da autonomia -CT galega-, onde as elites de “inspiração castelhana” fazem próprias determinadas manifestações culturais e simbólicas que ajudam a consolidar o poder político e económico no pais.

Estamos no ano 2050. Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza nessa altura?

Uma fotografia diversa e livre.

Conhecendo Xocas Lopes

Um sítio web: a wikipédia

Um invento: a anestesia para o dentista

Uma música: impossível uma

Um livro: tenho diante: a Ontoloxía Poética de Carlos Santiago, Escuela de Aprendices de Marina Garcès e O cervo e a sombra de Diego Ameixeiras.

Um facto histórico: o encerramento de Filologia (19 dias)

Um prato na mesa: qualquer um da minha avó

Um desporto: o basquetebol

Uma maravilha: acordar cada dia

Além de galego/a: careca

Valentim Fagim

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