X. R. Freixeiro Mato: “O auxílio do português pode ser útil para a melhoria da qualidade do galego e para a superação de preconceitos”



Em 2021 figerom-se 40 anos desde que o galego passou a ser considerada língua oficial na Galiza, passando a ter um status legal que lhe permitiria sair dos espaços informais e íntimos aos que fora relegada pola ditadura franquista. Para analisarmos este período, estivemos a realizar ao longo de todo 2021 umha série de entrevistas a diferentes agentes. Agora, entrado 2022 queremos continuar reflexionando sobre isto, mas focando num ámbito em particular, de importáncia estratégica: o ensino.
Para isto, o PGL oferecerá o debate online “Novo ensino para o galego” com três expertos, um evento que anunciaremos para o próximo dia 3 de maio. Um dos participantes será é o nosso atual entrevistado: o catedrático Xosé Ramón Freixeiro Mato, estudoso de literatura e língua galega.

foto-freixeiro-2021Que avaliaçom fás dos resultados do ensino do galego após 40 anos como matéria troncal?
De acordo com os estudos demolinguísticos que se levam publicado nos últimos anos, não há dúvida de que os resultados são negativos e muito preocupantes para o futuro do galego. Ora, disto não se pode deduzir que a situação da língua no âmbito escolar e na sociedade em geral teria sido melhor sem a sua presença no ensino. Com certeza que hoje seria ainda muito pior. Mas é evidente que a escola não desempenhou a função gelguizadora que dela se esperava. No Mapa sociolingüístico escolar de Ames (RAG, 2021) reconhece-se “a extrema relevancia das etapas de Educación Infantil e de Primaria nos procesos de desgaleguización”, já assinalada em outros trabalhos, e, mais em concreto, põe-se em relevo “a intensidade do proceso de desgaleguización nos escolares de Ames”. Eis os dados destes: 32,4% entra no primeiro ciclo de Infantil falando galego, que se reduz a 21.1% no segundo; com o passo a Primária já fica em 15.6% e na Secundária acaba em 11.4% de galego-falantes. Se o Concelho de Ames pode ser representativo do que acontece nos centros educativos da Galiza, como dizem as pessoas expertas do Seminário de Sociolinguística da RAG, os números cantam e os resultados após esses 40 anos ficam bem à vista. De cada três crianças galego-falantes que entram no sistema educativo não universitário, perdem-se duas pelo caminho. Como para as autoridades educativas e a SXPL se sentirem orgulhosas!

De cada três crianças galego-falantes que entram no sistema educativo não universitário, perdem-se duas pelo caminho. Como para as autoridades educativas e a SXPL se sentirem orgulhosas!

Claro que estas autoridades tentam opor à catástrofe dos dados de uso do galego (que é o que primeiramente importa) por parte do alunado a melhoria da sua competência linguística. Bem estranho seria que, após quatro décadas, isso não acontecesse! De todas as formas, outro estudo, Avaliación da competencia bilingüe nos idiomas galego e castelán do alumnado de 4º da ESO (RAG, 2020), após qualificar de “aceptable” a competência nas duas línguas oficiais, afirma que esta é pelo geral “máis alta en castelán ca en galego”, que o equilíbrio entre elas se dá no alunado galego-falante e no de origem rural, e que há desequilíbrio a favor do espanhol no alunado que fala esta lingua, no que é de origem urbana e no que assiste a centros privados. E bem sabemos, também com dados dos trabalhos demoscópicos, que há uma alta percentagem de gente nova que tem dificuldades para falar em galego; em concreto, no último inquérito do IGE (2018) 23,90% de pessoas menores de 15 anos declara a sua incapacidade para se exprimir na língua própria da Galiza.

E da presença do galego como língua veicular no ensino público?
De início é preciso dizer que a presença do galego no ensino público é bastante mais alta do que no privado, como também nos dizem os estudos existentes, que já não vou continuar a citar. Devo acrescentar igualmente que como língua veicular a presença foi escassa em geral, para além das prescrições legais, que nunca se cumpriram por falta de vontade política, como reiteradamente têm denunciado entidades como A Mesa ou a CIG-Ensino. Isto, contudo, depende bastante do habitat rural ou urbano a que pertencerem os centros. A presença foi e é maior nos rurais, mas também outros estudos nos vêm demonstrando o pouco avanço que se produz na melloria da qualidade da língua, tema que acho importante.
Torna-se evidente para mim que a presença do galego como língua veicular teria de ser maior e que haveria que fazer um seguimento a sério da legalidade para exigir o seu cumprimento. No mínimo, devería-se voltar às percentagens marcadas no PXNLG de 2004, depois coligidas no Decreto 124/2007. Portanto, a anulação do atual decreto da vergonha, mal chamado de plurilinguismo, que mesmo proíbe o uso do galego em determinadas disciplinas, e a volta ao consenso que supusera aquele plano de normalização, que não se chegou a desenvolver, deveriam ser os passos mínimos para podermos falar realmente de um ensino veicular em galego que para a maior parte do alunado nunca existiu. E avaliarmos o inexistente vira difícil. Outra cousa seria se aquele decreto de 2007 continuasse em vigor e se tivesse cumprido na realidade. Então si que poderíamos avaliar hoje os resultados de uma galeguização, embora parcial, do ensino. Acho que para que isto seja possível é necessária uma vontade e um consenso entre as forças políticas representadas no Parlamento que hoje não se observam.

No mínimo, devería-se voltar às percentagens marcadas no PXNLG de 2004, depois coligidas no Decreto 124/2007. Portanto, a anulação do atual decreto da vergonha, mal chamado de plurilinguismo, que mesmo proíbe o uso do galego em determinadas disciplinas, e a volta ao consenso que supusera aquele plano de normalização, que não se chegou a desenvolver.

Achas que esta presença guarda relaçom com a sua presença como língua ambiental nos centros educativos?
É notório que sim, como nos indicam a lógica e também os estudos que ao respeito se têm feito. Um ambiente galegófono (e galeguista) na localidade onde está o centro, no seu contorno e nele próprio, a incluir as atividades organizadas por associações de mães e pais ou do alunado ou pelo concelho, sempre vão favorecer a presença e o incremento do galego como língua veicular do ensino. E, dito às avessas, será muito mais difícil garantir uma presença significativa do galego como língua veicular se não é também a língua ambiental do centro.

Pensas que deveria mudar algumha cousa no ensino da matéria de Lingua Galega e Literatura?
Com certeza. Sempre é preciso ir-se adaptando aos novos tempos e circunstâncias. Mudam a sociedade, o alunado e o contexto sociolinguístico, e por consequência também deve mudar a maneira de ensinar esta disciplina. Algo coletivo se tinha feito já na década de 80 quando se criou a APPL e se elaboraram materiais que partiam de exercícios práticos e de textos literários para o ensino da língua e da literatura galegas. Na década seguinte a AS-PG (com a autoria de Mª Pilar Garcia Negro e Xoán Costa) publicara o volume O ensino da língua: por un cámbio de rumo, também na procura de um ensino mais eficaz. Hoje temos novas ferramentas e também novos reptos. Uma parte importante do alunado tem graves problemas para se exprimir oralmente em galego e, portanto, haverá que incidir muito nas destrezas orais, ao tempo que se procuram contextos coloquiais para o uso da língua galega, pois no âmbito de socialização das crianças, e da mocidade, já quase nem existem. E também se deve tirar mais proveito das tecnologias da informação, com uma maior incorporação às aulas da internet, e doutros instrumentos telemáticos de comunicação a que o alunado está habituado. É aqui onde o auxílio do português, tanto no uso e familiarização com o padrão linguístico, quanto nos conteúdos do âmbito lusófono (vídeos, entrevistas, filmes, diálogos, etc.), se pode tornar especialmente útil para a aprendizagem linguística, bem como para o prestígio do galego, para a melhoria da sua qualidade e para a superação de preconceitos ainda vigorantes entre a gente nova.

É aqui onde o auxílio do português, tanto no uso e familiarização com o padrão linguístico, quanto nos conteúdos do âmbito lusófono (vídeos, entrevistas, filmes, diálogos, etc.), se pode tornar especialmente útil para a aprendizagem linguística, bem como para o prestígio do galego, para a melhoria da sua qualidade e para a superação de preconceitos ainda vigorantes entre a gente nova.

Qual deve ser o papel do português no ensino? Ampliar a sua presença como segunda Língua Estrangeira? Ser lecionada dentro das aulas da matéria troncal de galego?
Muito maior, com certeza. Mas para isso também se precisa vontade política e consenso. A lei Paz-Andrade, embora non esteja a ser aproveitada convenientemente, já é um ponto de partida na boa direção. Do meu ponto de vista, quanta mais presença tiver o português no sistema educativo, mais favorecido vai sair o galego. Por isso defendo ambas as medidas: generalizar a sua presença como língua estrangeira (melhor primeira, embora só fosse por razões históricas e geográficas) e, ao mesmo tempo, introduzir dentro dos conteúdos das aulas de galego as diferenças entre os dous códigos linguísticos. Desse modo caminhariamos na prática para um modelo binormativista que julgo como o mais conveniente para os próximos anos.

Pensas que implementar linhas educativas diferenciadas (umha com imersom linguística em galego) poderia ser útil para o galego voltar aos pátios?
Em qualquer caso, penso que a imersão é a linha adequada para que uma língua como o galego, que já é considerada na prática como estrangeira pela maioria do alunado urbano, possa voltar a se ouvir com alguma normalidade nos pátios dos colégios. Não é porventura a imersão o método que se utiliza para que as filhas e filhos das classes privilegiadas aprendam inglês ou outra língua estrangeira de prestígio? O País Basco e Catalunha seguem modelos de imersão, cada um adaptado à sua realidade, e os resultados melhoram muito os da Galiza ou os da comunidade valenciana. Acho que o nosso modelo se deveria parecer mais ao catalão, embora com caraterísticas próprias da realidade galega.
O modelo atual só conduz ao desaparecimento do galego como língua da gente nova (veja-se a resposta à primeira pergunta), o que é o mesmo que dizer que nos leva à substituição pelo espanhol em um prazo não muito longo. A volta a aquele Decreto 124/2007 suporia retomar uma senda própria de imersão linguística, algo tímida com certeza, mas esperançadora se concitasse o consenso político e social. Quanto fosse avançar a partir dele viria a aumentar as possibilidades de atingir o objetivo da normalização.
Acho, aliás, que uma linha de imersão em galego e outra em espanhol não é o mais desejável nestes momentos, pois significaria renunciarmos ao idioma próprio como principal símbolo da identidade galega e como fator de coesão social. Esse modelo consagraria a situação atual predominante no mundo urbano: ensino em espanhol como língua veicular e presença do galego como matéria secundária e desprestigiada; e deixaria o ensino na língua do país só para alguns centros rurais e para um reduzido número de centros urbanos aonde as minorias galeguistas mandariam as suas crianças. Abandonaríamos assim o objetivo da normalização pelo da resistência, isto é, o de evitarmos a morte da língua, o que nos colocaria mais próximos do modelo irlandês que do catalão. De todos os modos, se não mudarem as políticas linguísticas na Galiza nos anos vindoiros, não é descartável que essas duas linhas educativas diferenciadas se tornem necessárias para evitarmos um mal maior e para podermos garantir uma base mínima de falantes para o futuro.

Acho, aliás, que uma linha de imersão em galego e outra em espanhol não é o mais desejável nestes momentos, pois significaria renunciarmos ao idioma próprio como principal símbolo da identidade galega e como fator de coesão social.

Que papel atribuis ao modelo educativo inaugurado polas escolas Semente?
Como modelo surgido da base social parece-me ótimo e exemplar, de maneira que o seu papel só o posso qualificar como muito positivo. De todos os modos, e em linha com o dito na resposta anterior, acho que para uma solução mais eficaz e de futuro a primeira opção deve ser a procura de um modelo público e comum de imersão ou, pelo menos, um modelo geral em que o galego seja a língua veicular dominante. No entanto, como não se enxerga uma hipótese de avanço no curto prazo nesta direção, bem está que aquelas mães e pais que quiserem educar as suas crianças em galego se organizem e criem projetos tão prometedores como é Semente, que, de qualquer forma, sempre devem ter o seu espaço e devem ser saudados com esperança.


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