Victorino Pérez Prieto: “A minha conversão linguística foi uma conversão ética”



victorino-perez-prietoAbrimos a conversa com Victorino Pérez Prieto falando de língua, porque queríamos conhecer como foi o processo da sua incorporação ao galego. A esse respeito, o nosso interlocutor comentou-nos que chegou de Leão à Galiza sendo uma criança, que foi recebido  num ambiente rural no que se falava galego, exceto na escola na que se falava em castelhano,  e que nos primeiros anos continuou com o seu idioma materno. Quando foi fazer o bacharelato em Santiago de Compostela, entrou em comunicação com novos ambientes em que predominava o galego. “Eu era o único falante de castelhano no meu grupo de amizades da adolescência”, diz. Posteriormente, conheceu a literatura galega, nomeadamente Otero, Cuevillas e Castelao, e foi aprendendo inconscientemente até chegar a um ponto em que considerou o galego como língua própria: “a minha conversão linguística foi uma conversão ética. Coincidiu com a decisão de me converter em cura para difundir a visão libertadora de Jesus. Eu queria ser cura para servir o povo galego, então tinha que falar o seu idioma. Isto era comum nos movimentos progressistas, não somente os nacionalistas”. Mas, com a mudança linguística, chegou também a aproximação ao nacionalismo galego. Nos anos 70, quando era estudante no Seminário, tinha muito relacionamento com a militância de ERGA.
O ascenso ao seguinte degrau produziu-se ao chegar às paróquias. Oficiou em galego desde o princípio. Era necessário acostumar a gente a participar na missa sem ter que mudar de idioma, o galego que falavam de cotio. Mas as comunidades estavam acostumadas ao ritual e aos cantos em castelhano. Tiveram que aprender a rezar “Nosso Pai”.
Para Victorino, o compromisso com o galego tinha um forte relacionamento com as três bases do seu pensamento e atividade: a religiosa, a social e a política. Estes três pilares permitiram que o seu trabalho pela normalização do idioma num âmbito como o religioso fosse bem acolhido por fregueses tão diversos como os da Pastoriça, Jove e Ferrol. Nesta última cidade, mesmo algum vizinho tentou convencê-lo para dar alguma missa em castelhano, mas a resposta era clara “quando na paróquia vizinha digam alguma missa em galego eu posso dizer alguma missa em castelhano. Enquanto eles não digam nenhuma missa em galego e a única em galego da cidade seja a nossa, não posso transigir”.

Para Victorino, o compromisso com o galego tinha um forte relacionamento com as três bases do seu pensamento e atividade: a religiosa, a social e a política. Estes três pilares permitiram que o seu trabalho pela normalização do idioma num âmbito como o religioso fosse bem acolhido.

Mas estes compromissos não se limitaram somente a uma faceta da vida do entrevistado. O Victorino ativista teve a sua participação na luta política, sem chegar a ser uma luta partidarista. Um bom exemplo desse labor é o seu trabalho pela construção de redes comunitárias, que culmina com a criação duma cooperativa e de Comissões Labregas na Pastoriça, que “nasceu na minha casa”. Sobre o facto de fazer tão públicas as suas tendências políticas, o cura-dinamizador resume as implicações na seguinte frase “eles [os fregueses] votavam o que votavam, mas todos sabiam o que votava o cura”.
Outra vertente de criação galeguista levada a cabo pelo Victorino foi a docente e investigadora. Doutor em Filosofia pela Universidad de Compostela e em Teologia pela Universidade Pontifícia de Salamanca, tem o relacionamento entre galeguismo e cristianismo como uma das suas linhas de investigação que, já retirado, continua a fazer. O investigador tem uma tese clara: “Galiza foi sempre cristã. Haverá quem diga que antes do que cristã foi celta, e sim, mas quando era sueva já era cristã. O galego é uma língua latina, nasceu do latim ainda que tem raízes anteriores ao cristianismo. Dizia Otero Pedraio que “Galiza se latinizou mais pela força da cruz do que pela força da espada. O império romano impôs-se militarmente, mas a gente chegou-se a latinizar por motivos religiosos. Então, Galiza é o que é primeiramente pelas suas raízes celtas, mas imediatamente depois pelas suas raízes cristãs.”

A mudança de normativa não se deveu, portanto, a uma mudança ideológica, mas à consecução de determinadas circunstâncias: a contradição entre o pensamento e a expressão escrita foi-se fazendo forte demais.

Finalmente, o compromisso de Pérez Prieto com o galego deu uma nova direção há pouco mais de um ano ao passar a fazer uso da norma internacional. O seu relacionamento com o reintegracionismo vêm de longe, mas a sua prática tardou um bocado mais: “não tomei essa decisão antes, em parte, pela dificuldade para fazê-lo nos espaços em que eu publicava”. A mudança de normativa não se deveu, portanto, a uma mudança ideológica, mas à consecução de determinadas circunstâncias: a contradição entre o pensamento e a expressão escrita foi-se fazendo forte demais e, aliás, a colaboração com o jornal Nós Diário abriu uma porta para a publicação em reintegrado: “A acolhida foi tão boa, tão boa, que não somente não me arrependo de ter dado o passo, mas sinto-me muito à vontade nele.”

Susana Basanta

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