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Uma resposta da sociedade civil galeguista

apartheidNa sexta passada, pelas redes sociais e em publicações digitais, apareceu o abaixo-assinado “O fim do Apartheid”, que pede a fim a discriminação contra as galegas e galegos que defendem a unidade linguística galego-portuguesa.

No momento de publicarmos esta entrevista, mais de cincocentas pessoas denunciam que «quem escreve hoje em galego reintegracionista não existe» e perguntam-se qual foi a «falta» para merecermos o «castigo desproporcionado» do apagamento.

Do PGL contatamos, através de quem nos encaminhou a informação, com o “Núcleo Irradiador” que prefere definir-se como um grupo pequeno de gente conversando no Facebook, para conhecer mais das motivações, propósitos e sentidos de um apelo à consciência que está a ter um importante impacto no mundo da cultura.

***

Quem forma o núcleo promotor e donde partiu a ideia? Como se formou? É um coletivo ou uma aliança ocasional?

Não tem maior importância de quem partiu a ideia. Um grupo pequeno de gente a falar, escrevendo, em muros do Facebook, cinco pessoas à partida. Soberanistas e algum libertário despistado. E alguém que escreve um texto. Um bom texto, achamos. Foi rápido.

Que pretendeis conseguir com este apelo?

Uma resposta da sociedade civil galeguista. Do que poderia ser a sociedade civil galeguista se houver interesse real por construí-la. Um retrato com nomes e apelidos de quem está pola discriminação do reintegracionismo e de quem, sem ser reintegracionista, quer uma sociedade galega em que todas as pessoas que querem viver em galego, também por escrito, possam viver em galego sem importar a grafia que utilizem.

Por que neste contexto atual é importante este manifesto? É mensagem pré-eleitoral ou simplesmente obedece à repetição das mesmas situações de exclusões?

A exclusão do reintegracionismo é uma constante na Galiza moderna, essa que se quer democrática mas que neste âmbito, como em tantos outros, não o é. Este manifesto é importante agora. Era importante há vinte anos. Esperamos que amanhã seja já desnecessário. A época pré-eleitoral é um acaso. Pronto, de uma forma ou outra sempre estamos em época pré-eleitoral.

A quem se dirige este apelo?

Como dizíamos antes, sobretudo a quem, estando noutro campo da cultura galega, o campo não-reintegracionista, quer seja por ação consciente ou por simples adaptação à “normalidade” ou à “oficialidade” (que é um ato de poder institucional), deve, achamos, dizer publicamente que não se pode discriminar uma ativista da língua por ser reintegracionista, um escritor por ser reintegracionista, uma lexicógrafa por ser reintegracionista… Dizer publicamente, e agir publicamente. Não são apenas palavras. São factos os que queremos. Num léxico politicamente correto, poderíamos dizer que se trata de pura higiene democrática, não é?

No manifesto insistis no Apartheid. É significativo como essa exclusão se instituiu e como se prolongou nos anos, mesmo quando outras discriminações e exclusões foram combatidas e denunciadas, e como se prolongou e manifesta com normalidade em ativistas contra todo outro tipo de discriminação.

Com efeito, a pergunta responde-se por si própria. O símile do Apartheid é, sabemo-lo bem, um símile excessivo, pura emoção apelativa. Há que apresentar de forma crua a contradição, a incoerência, em que muitas pessoas vivem: antipatriarcais, antirracistas, ativistas contra a xenofobia, contra o supremacismo cultural espanhol, ativistas da língua, amantes da poesia universal… mas que convivem naturalmente, ou ainda praticam ativamente, a discriminação contra o reintegracionismo, contra as e os reintegracionistas. Que sentido tem que uma movimentação discriminada como é o ativismo linguístico galego possa manter no seu seio uma outra discriminação durante décadas? Qual é a lógica desse facto? Não queremos analisar agora essa lógica, queremos apenas revelar esse facto.

Ainda é mui presente o anti-reintegracionismo, a exclusão como pratica em boa parte da intelectualidade e da política galega, e no ativismo o reintegracionismo é marginal… A que pensais que se deve isto?

Os fatores são numerosos. A diferença na conceção da língua está, obviamente, na base. Mas não a explica por si só. O apoio do poder institucional a uma dessas conceções está, obviamente, na base. Mas não a explica por si só. Ideologia, interesses grupais, medos a perder pequenos privilégios, distorções interesseiras do que é o reintegracionismo, personalismos fossilizados… Muito teríamos de falar. Mas uma cousa é o anti-reintegracionismo militante e visceral, que observa o reintegracionismo como um inimigo a destruir, de qualquer forma, e que achamos muito minoritário e mesmo marginal, a quem não nos dirigimos, e uma outra cousa bem diferente é o não- reintegracionismo, por concepção da língua ou do país, por estratégias contextuais, por adaptação ao status quo…, com quem queremos e devemos colaborar, fugindo da lógica de uma guerra que não deve existir. De uma guerra que, de facto, não existe. Conflito, sim. Como em toda a cultura…

Por que este silêncio a respeito, por que este colaboracionismo de tanta e tanta gente?

Falávamos antes disso: talvez haja demasiado medo a perder pequenos privilégios (pouco há a perder na atualidade), medo ao poder cultural particular de certas pessoas vinculadas ao poder institucional (RAG, Universidades), medo, sobretudo, a quebrar uma confortável inércia de décadas… Deixar passar, deixar passar, olhar para outro lado. A questão é olhar para o mesmo lado. Quebrar essa inércia é que queremos. Quebrar muros de exclusão. Quebrar medos. Há que deixar de ter medo no mundo cultural galego. Só é inimigo aquele que quer ser inimigo. Num mundo em que o neoliberalismo brutal faz e desfaz, está nas nossas mãos abrir espaços de liberdade, em que ninguém fique excluída por uma letra, por uma palavra, por olhar lá para o longe…

Citais A Mesa ou Queremos Galego? Quais seriam os passos concretos que deveriam dar? Como achais que se pode gerir a liberdade de normativas neste tipo de associações de defesa da língua? E no resto?

Com vontade de o fazer! Não estamos a falar de substituir. Estamos a falar, é evidente, de um binormativismo que opere com normalidade. Pode fazer-se. Deve fazer-se. Nas associações, nos prémios de investigação, nos prémios literários, nas editoras… Queremos uma outra normalidade mais habitável. Muito menos autoritária. Algum de nós diria que mais libertária. E mais soberana, evidentemente. Sem dependências do poder institucional espanhol. Sem dependências económicas ou simbólicas. Queremos uma normalidade cultural, também no epidermicamente ortográfico, absolutamente diferente da imposta polo poder institucional espanhol nas últimas décadas.

Citais editoriais consagradas. Desapareceram ou mitigaram-se as razões que levavam uma editora a não publicar em reintegrado?

Não sabemos. Haverá que lhes perguntar aos seus gestores. Também deveria retratar-se publicamente no que diz respeito a esta questão. Medos fora. O mundo é outro.

Surpreendeu-vos a receção, em quantidade e nalgum dos assinantes?

Acabamos de começar. A receção é magnífica entre uma parte do mundo cultural não-reintegracionista. Adoramos ver determinados nomes entre a lista de assinantes. Quebrar os muros da exclusão precisa de transversalidade. Também de transversalidade político-partidista. Parece que também estamos a conseguir isto. Mas queremos mais. Muito mais. Queremos uma cultura galega sem medos nem exclusões. Por fim, depois de tantas vidas. O estado do país e da língua já não dá para mais exclusões, nossos amigos, nossas amigas. É hora de escolher. Ou vamos todas juntas, ou acabamos todos no fosso da história… espanhola.

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