Manuel Meixide, apresenta o poemário ‘Foi em Fisterra’ publicado com data de 29 de novembro em Amazon, pola editora Edições da Terra.
Apresentamos hoje, no PGL, uma seleção de dez poemas, dous por cada cada uma da suas cinco partes.
Podes ler no fim do texto ou Descarregar como pdf (foi-em-fisterra-1)
Foi em Fisterra, na primavera de 2015, quando este livro nasceu, no silêncio da espuma e da terra, na teimosia das vagas sobre a areia, uma longa noite de insónia. Era a primeira vez que estava ali, na Praia Langosteira. E as vagas começaram a falar… Ali nasceu o primeiro poema e o título do poemário, mas elas continuaram a falar durante dous anos, teimosas, como um eco longínquo em redor do oceano e das ervas. E assim foi medrando este livro, as suas cinco partes foram surdindo: Paisagens, Numa pátria certa chamada Chantada, Voltando a Compostela, Cantigas dos Carreiros Livres, e Dias e Noites no Fim da Terra. A bússola nesta viagem misteriosa e sem retorno, foi a energia húmida daquelas ondas, a voz do oceano tremendo com força, abraçando o corpo inteiro do País. Essa voz ainda dizia que se podia evitar a única derrota: deixar de lutar.
O livro Poemas do Fim da Terra está disponível em Amazon desde o 29 de novembro, e foi publicado pola editora Edições da Terra. Pode ser achado e impresso sob demanda na ligação a seguir:
https://www.amazon.es/dp/1979330387
SELEÇÃO DE POEMAS
PAISAGENS
Atrás dela
Quiçá na flor do tojo
foi-se pousar a borboleta.
E o branco e o amarelo
deram-se um abraço eterno.
O abraço eterno do verão.
Quiçá um dia o carvalho
alouminhou cos seus braços
as velhas polas da cerdeira,
um dia de cinza gris
caindo docemente do céu.
Quiçá foi uma velha lareira,
a pedra queimada co fume,
naquela casa de Nandulfe,
naquela pequena corte,
a corte das velhas matanças.
Quiçá foi o torrisco no lume,
o amor eterno da avó
pingando passeninhamente nas lapas.
Quiçá foi a janela do corredor,
o canto agónico do velho carro de bois,
achegando-se lentamente até ao palhar,
mostrando a imensa carrada d´ouro seco.
Quiçá foram as asas da andorinha,
a neve e a noite juntas,
beijando-se abertas e livres
diante dos olhos dum neno.
Quiçá foi a aira de Pousada,
o amplo paraíso da sombra
na cúpula azul do céu.
Quiçá na flor do tojo
foi-se pousar a borboleta,
e o branco e o amarelo
deram-se um abraço eterno.
O abraço eterno do verão.
Quiçá…
Só sei que a Galiza
anda atrás de mim,
e eu atrás dela.
O carvalho
A Susi Arca
Guerreiro silente,
raízes imóveis no lume da terra,
sustendo nas polas o peso do céu.
Lombo ergueito
que olha a estrela,
âncora banhada no quente
poço da lentura.
Guerreiro silente,
não mexe o valente
granito feito de musgo.
Coa mão molhada no silêncio
colhe a estrela e aumenta-a
na vaga profunda da luz,
por baixo do ouro das pedras.
Desfaz-se o templo do medo,
tombam as ruínas de palha
diante dos húmidos raios
do valente granito.
Raízes húmidas
no lume da terra,
sustendo nas polas
o peso do céu.
Guerreiro silente,
não mexe o valente
granito feito de musgo.
NUMA PÁTRIA CERTA
CHAMADA CHANTADA
Coro dos paxaros
Aos meus avós maternos,
o Guilherme e a Jesusa de Pousada
Fazias rir às pedras,
levavas paxaros à escola.
Um dia naquela pola
viste vagando dous olhos.
Eram os olhos dela
dentro já dos teus olhos.
E andando aos paxaros fostes
pelos carreiros secretos.
Sob o céu da primavera,
fostes procurar os ninhos.
A tua mão já na mão dela,
chegaram os primeiros bicos.
Namoram as nuvens co sol,
namoram as flores coa borboleta.
Vós também namorastes,
entre o rumor dos paxaros.
Longe da terra
À minha terra,
a comarca de Chantada
Traço-te na alma,
debuxando a água azul que te banha,
molhando-te num silêncio profundo.
Traço a altura da montanha
desde as romarias da infância,
onde o ar mágico fala.
Traço-te virgem, calada e majestosa,
reinando silenciosa em cada carvalheira.
Traço aquela barca afundida
na entranha do Minho,
sombra perdida na sombra do rio,
sem muras e sem ribeira.
Traço-te num paraíso verde,
rodeado de vacas e de regatos,
onde os carreiros docemente caminham,
onde os valados docemente se pousam.
Traço-te nas silvas,
livre e soberana, comendo nas amoras.
Traço-te na pedra das igrejas,
na humilde pia dum peto de ânimas.
Traço-te grandiosa e fértil,
cantando fecunda polos vales,
grávida de milho,
malhando no trigo,
mãe de castanhas e de nozes.
Traço-te na cepa retorta,
pequena fonte sagrada
donde mana o vinho.
Traço-te na rua que baixa ao Asma,
por uma escada de pedra
lavrada em milhares de pedras.
Traço-te nas rosas de Pousada,
nas nuvens brancas de Belesar.
Traço-te nos prados de Viana,
no horizonte de Quintela,
nas encostas de Requeixo,
nos ciprestes do Convento,
nos telhados de Nogueira.
Traço-te na alma, Chantada,
debuxando a água azul que te banha,
molhando-te num silêncio profundo.
VOLTANDO A COMPOSTELA
Banho com anjos
Numa ruela escura caminhava, meus pés pisavam as sombras, as pedras perseguiam os meus passos. E o eco do templo abriu-se na noite, as portas pechadas dos santuários abriram-se em silêncio. Então escutei de novo a voz virgem e ténue que manava do rio pétreo, essa corrente do empedrado chegando até às meixelas das fontes, subindo até aos cabelos dos arcos. Numa ruela escura caminhava, e vi de novo a banharem-se os anjos, e banhei-me de novo com eles.
Na abóbada
As telhas molhadas e o silêncio,
na saída do templo, perto do húmido arco,
o pó das estrelas cai no espaço,
iluminado pelo lume das línguas,
desce voando como neve virgem,
cola-se na erva das pedras,
beija o corpo quente e nu,
o cálido ventre do tempo.
Pássaros de ar e de vento
tocam meus cabelos,
piam versos despidos,
versos dos séculos nos meus ouvidos.
As velas dalgum navio
erguem suas folhas no horizonte,
tocam coas suas polas a praia branca do luar.
Peixes de luz nadam nas janelas,
bebendo as gotas de pó
que as estrelas deitam das suas ânforas.
O deus do silêncio e do tempo,
alada criatura das nuvens,
suspende o seu voo entre as ruas,
olhando os meus olhos na chuva.
Membros nus sustêm as ruas,
músculos divinos entre a madeira das pedras.
Nas suas asas me esconde,
abóbada de seda e de orvalho.
Sou como as telhas molhadas,
tenho pó que as estrelas
enviam das suas ânforas.
CANTIGAS DOS CARREIROS LIVRES
Música na corredoira
Entre carvalhos e silvas,
as vacas passavam,
um neno afalava.
Vaca bê…!
No orvalho da tarde,
entre gotas e paxaros,
caminho da casa,
um neno assobiava.
Vaca bê…!
Na cinza celeste,
entre o fume da névoa,
some-se a vara do neno,
somem-se os cornos das vacas.
Vaca bê…!
Só fica o assobio,
livre entre as sombras,
borboleta no lusco e fusco,
Ela
A Ana Arca
No escuro torrão estava a fame,
rabunhando as trevas do estômago.
No porto estavam as lágrimas,
molhando quentes o corpo das malas.
Mas alguém ficava,
alguém ficava
para secar as lágrimas.
A velha avó ficava na casa.
Ela secou as lágrimas,
ela beijou as pálpebras.
Ela abriu o céu
para mostrar as estrelas.
Alguém ficava
para assinalar a volta.
Alguém ficava
para impedir a derrota,
alguém ficava para lutar
e para ensinar a luta.
Alguém ficava na casa
para erguer o futuro.
Ela secou as lágrimas.
Ela beijou as pálpebras.
Ela abriu o céu
para mostrar as estrelas.
DIAS E NOITES NO FIM DA TERRA
Tumba no bosque
Cena final
do filme Dersú Uzalá
O bosque calava
e Dersú também.
O capitão cravou
o cajato na terra.
Tumba sem nome
para o homem da taiga.
Na taiga não há lápidas,
só o espírito do bosque.
Cumprem muitas tumbas
para encontrar um homem.
Saudades
Saudade não é palavra,
saudade é a Terra.
Sussurro do Oceano,
sombra da carvalheira.
O neno na lareira,
água no pandeiro das telhas.
Saudade não é palavra,
saudade é o lar.
Voz perdida dos avós,
cheiro profundo da erva;
as estrelas e o luar.
Saudade não é palavra,
saudade é a liberdade.
Fazer coas horas grinaldas,
contas de flores formosas,
na mesma pátria de irmãos.
Saudade não é palavra,
saudade é agarimo.
Cantiga das sílabas molhadas,
regato claro da ternura,
risos e bágoas esparegidos no vento.
Saudade não é palavra,
saudade é canto de Deus.
Alma que reza ajoelhada,
mistério da sua própria voz.
Saudade não é palavra,
mas a palavra é saudade.

