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Pelo decrescimento

Carlos Taibo – A visão dominante nas sociedades opulentas afirma que o crescimento económico é a uma bênção de Deus. Ao seu amparo –di-se-nos– a coesão social assenta-se, os serviços públicos não recuam, e o desemprego e a desigualdade não ganham terreno. Sobram as razões para receiar, porém, de tudo o anterior.

O crescimento económico não gera –ou não gera necessariamente– coesão social, provoca agressões meioambientais em muitos casos irreversíveis, facilita o esgotamento de recursos que não estarão a disposicão das próximas gerações e, em fim, permite o triunfo de um modo de vida escravo que invita a pensar que seremos mais felices quantas mais horas trabalhemos, mais dinheiro ganhemos e mais bens acertemos a consumir.

Assim as cousas, nos países ricos devem reduzir-se a produção e o consumo porque vivimos por cima das nossas possibilidades, porque é urgente cortar emissões que danam perigosamente o meio e porque empeçam a faltar matérias primas vitais. Por detrás desses imperativos agroma um problema central: o dos límites meioambientais e de recursos do planeta. Para avaliar o relevo do problema, o melhor indicador é a pegada ecológica, que estima a superfície, terrestre como marítima, precisa para manter as actividades económicas. Se em 2004 essa pegada era de 1,25 Terras, segundo muitos prognósticos alcançará duas Terras –se isso é imaginável– em 2050.

Com certeza não é suficiente com assumir reduções nos níveis de producão e de consumo. Devem reorganizar-se as nossas sociedades sobre a base de outros valores que reclamem o triunfo da vida social, do altruísmo e da redistribução dos recursos frente à propriedade e ao consumo ilimitado. Cúmpre reivindicar, em paralelo, o ócio frente ao trabalho obsessivo, como cúmpre postular a repartição do trabalho, outrora uma prática sindical comum. Outras exigências ineludíveis falam da necessidade de reduzir as dimensões das infraestruturas produtivas, administrativas e de transporte, e de privilegiar o local frente ao global em um cenário marcado, em suma, pela sobriedade e a simplicidade voluntária.

O primeiro que as sociedades opulentas devem fazer é fechar –ou  reduzir sensivelmente a actividade correspondente– muitos dos complexos industriais hoje existentes. Estamos a pensar, naturalmente, na indústria militar, na do automóvel, na da aviacão e em boa parte da da construção. Os milhões de operários que, de resultas, perderiam os seus empregos deveriam encontrar trabalho a través de dous caminhos. Se um é o desenvolvimento de actividades nos ámbitos relacionados com a satisfação das necessidades sociais e meioambientais, o outro chegaria da mão da repartição do trabalho nos sectores económicos tradicionais que sobreviviriam. Importa sublinhar que neste caso a diminuicão da jornada laboral bem poderia supor reduções salariais, sempre que estas, claro, não fossem em proveito dos benefícios empresariais. Ao cabo, à melhora de nível de vida que se derivaria de trabalhar menos, e de disfrutar de melhores serviços sociais e de um meio más limpo e menos agressivo, sumaria-se a  derivada da assuncão plena da conveniência de consumir, também, menos, com a conseguinte redução de necessidades no que a salários se refire. Não é preciso agregar –parece– que as reduções salariais que nos ocupam não afectariam, naturalmente, àqueles que menos têm.

O decrescimento não carretaria, para a maioria dos habitantes, um deterioro das suas condições de vida. Antes bem, deve implicar melhoras substanciais como as vinculadas com a redistribução dos recursos, a criacão de novos sectores, a preservação do meio, o benestar das gerações futuras, a saúde, as condições do trabalho asalariado ou o crescimento relacional em sociedades nas que o tempo de trabalho recuará notavelmente. Para além do anterior, sublinhar-se-há que no mundo rico se fazem valer elementos –assim, a presença de infraestruturas em muitos âmbitos, a satisfação de necessidades elementais ou o próprio decrescimento da populacão– que facilitariam o trânsito a uma sociedade distinta. E é que cúmpre partir da certeza de que, se não decrescemos com vontade e razão, teremos que fazé-lo obrigados de resultas da quebra, antes ou depois, da loucura económica e social que padecemos.

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