Óscar Díaz Fouces: “O objetivo das políticas linguísticas destes 40 anos na Galiza foi inseri-la sorrateiramente no projeto etnocultural espanhol”



Em 2021 figerom-se 40 anos desde que o galego passou a ser considerada língua oficial na Galiza, passando a ter um status legal que lhe permitiria sair dos espaços informais e íntimos aos que fora relegada pola ditadura franquista. Para analisarmos este período, estivemos a realizar ao longo de todo 2021 umha série de entrevistas a diferentes agentes. Agora, entrado 2022 queremos continuar reflexionando sobre isto, mas focando num ámbito em particular, de importáncia estratégica: o ensino. Para isto, hoje entrevistamos o investigador e professor da Universidade de Vigo, Óscar Díaz Fouces.

Que avaliaçom fás dos resultados do ensino do galego após 40 anos como matéria troncal?
Para avaliar as políticas públicas é preciso conhecer os objetivos visados por elas. Como eu não sei qual era o propósito real dos gestores públicos quando decidiram introduzir o ensino do galego, posso apenas fazer um exercício de ficção sociolinguística.

Assumirei na minha ficção que o objetivo visado pelas pessoas que dirigiram as políticas linguísticas destes 40 anos na Galiza foi inseri-la sorrateiramente no projeto etnocultural espanhol. Na Espanha existe uma única língua oficial para todo o território, o castelhano (isso não é ficção). Para além do castelhano, na Galiza as pessoas usam uma outra língua, bastante parecida com a língua oficial de um país vizinho, Portugal (isso também não é ficção). Volto para a minha ficção: o que faria eu se estivesse pessoalmente empenhado na defesa da homogeneidade etnocultural da Espanha?

Assumirei na minha ficção que o objetivo visado pelas pessoas que dirigiram as políticas linguísticas destes 40 anos na Galiza foi inseri-la sorrateiramente no projeto etnocultural espanhol.

Acho que, em primeiro lugar, tentaria desfigurar a língua galega até fazê-la irreconhecível. Poderia, por exemplo, estimular a insegurança lexical e até inventar formas aberrantes. Poderia apoiar uma codificação ortográfica que aproximasse o galego do castelhano. Poderia tentar fazer com que essa língua reelaborada não conseguisse concorrer em nenhum âmbito com a língua oficial espanhola: poderia tolerar – ou promover – um uso esmagador do castelhano no cinema, na rádio, nos jornais, na edição… Poderia também restringir o uso do galego no ensino, como se fosse uma língua estrangeira. Poderia excluir desse ensino qualquer coincidência com a língua e a cultura do outro lado do Minho e até poderia banir do sistema académico o professorado dissidente.

Nesta operação fictícia, o sistema de ensino seria uma ferramenta eficaz para dar cabo do galego e a resposta à tua pergunta seria: “correu bastante bem”.

E da presença do galego como língua veicular no ensino público?
Na minha ficção, uma consequência previsível de estragar a estrutura e a funcionalidade de uma língua seria tirar-lhe valor comunicativo e reservar-lhe apenas um mero valor simbólico.

Vou dar algum exemplo que não tem nada de fictício: na Universidade é bastante habitual redigir em galego as atas de reuniões académicas que decorrem em castelhano. Também é perfeitamente possível frequentar todo o ano aulas em castelhano de matérias cujo programa foi publicado em galego. A língua oficial das três universidades públicas é o galego, mas parece que essa oficialidade fictícia só atinge os marcadores institucionais: os textos burocráticos, as tabuletas no campus, a publicidade…

Na minha ficção, uma consequência previsível de estragar a estrutura e a funcionalidade de uma língua seria tirar-lhe valor comunicativo e reservar-lhe apenas um mero valor simbólico.

Achas que esta presença guarda relaçom com a sua presença como língua ambiental nos centros educativos?
Acho, naturalmente. Os usos académicos refletem os usos ambientais. Os usos meramente simbólicos têm também um correlato ambiental no caso do professorado que usa sempre o galego nos atos académicos formais mas muda imediatamente para castelhano em todas as interações quotidianas, com a família, no restaurante ou nas compras. Também é preciso ser cego ou surdo para não reparar no uso crescente do castelhano nas interações dos estudantes.

img_2718Pensas que deveria mudar alguma cousa no ensino da matéria de Lingua Galega e Literatura?
Devia, claro, mas mesmo que houvesse importantes mudanças curriculares e que essa matéria fosse lecionada pelos profissionais mais empenhados, os resultados poderiam ser frustrantes, porque a realidade externa não ajuda em nada. O universo de referências que encontram fora da escola as crianças em Burgos ou em Vigo são parecidos: o castelhano é a língua do cinema, da consola, do telemóvel, da televisão (a TVG é uma ficção de televisão nacional)… Isso também devia mudar.

Qual deve ser o papel do português no ensino? Ampliar a sua presença como segunda Língua Estrangeira? Ser lecionada dentro das aulas da matéria troncal de galego? Ambas?
Quando as crianças galegas encontram no Youtube um vídeo com desenhos animados da RTP2 identificam logo “aquilo” como uma língua estrangeira. Não vale a pena nos enganarmos sobre isso. Elas quase não têm referências em galego e aprenderam que as portuguesas são estranhas. Esse foi um dos sucessos do ensino galego de ficção destes 40 anos: amputar o universo de referências formais e funcionais que cresce em liberdade do outro lado do Minho.

Portanto, parece que a introdução progressiva do português ajudaria a mudar essa situação, também nas aulas de galego. Para os novos estudantes e encarregados de educação, um resultado colateral poderia ser, talvez, começarem a perguntar-se porque é que algumas instituições levam quarenta anos a promover com entusiasmo o afastamento do português. Por isso, alinharem essas instituições com qualquer mudança não parece nada fácil, como não parece fácil alinharem todas as pessoas que já foram socializadas nesse galego reelaborado e que tentam cultivá-lo com orgulho (completamente legítimo, aliás). Ninguém esqueça que elas também existem.

Pensas que implementar linhas educativas diferenciadas (uma com imersom linguística em galego) poderia ser útil para o galego voltar aos pátios?
Talvez, mas eu sou contra esse modelo. A imersão devia ter como objetivo nivelar as competências de toda a população escolar, pelo menos no sistema público.

Que papel atribuis ao modelo educativo inaugurado polas escolas Semente?
A Semente é um espaço de contestação. As pessoas que fazem parte do projeto estabelecem objetivos e levam à prática uma (micro)política alternativa, nas margens do sistema geral. Enquanto não exista um sistema público de ensino realmente comprometido com a defesa da língua e a cultura galega, o projeto da Semente continuará a ser utilíssimo como exemplo de modelo alternativo.

Eu acho, porém, que também não seria justo pedir mais do que a Semente pode dar. Para mudar os objetivos das políticas linguísticas é preciso contar com poder político, por definição. Salvo erro, no atual sistema de partidos na Galiza não existe qualquer organização que assuma programaticamente todos os objetivos do modelo da Semente. Como eu sou otimista, quero pensar que também isso pode mudar. Idealizar novas ficções e criar novas realidades é difícil, mas não impossível. A própria Semente é um exemplo disso.


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