AS AULAS NO CINEMA

Os estudantes podem aprender o que é o amor, com o filme ‘O Amor do Capitão Brando’



O AMOR DO CAPITÃO BRANDO Foto 5Na maioria dos países o dia 14 de fevereiro celebra-se o Dia dos Namorados, agás no Brasil, cuja data comemorativa é 12 de junho. Ao redor da data, sem entrar no que de comercial e consumista tem, poderiam organizar-se atividades educativas nos estabelecimentos de ensino dos diferentes níveis educativos. E também para romper com o tabu que durante muitas décadas, de forma equivocada, teve este tema. Tão importante, que sem ele não existiria a vida no mundo.

Dia dos Namorados, ou em alguns países conhecido como Dia de São Valentim,é uma data especial e comemorativa na qual se celebra a união amorosa entre casais, namorados e em alguns lugares até com amigos. Sendo comum a troca de cartões e presentes com símbolo de coração, tais como as tradicionais caixas de bombons. Em Portugal, assim como em muitos outros países, tal como antes comentei, comemora-se no dia 14 de fevereiro. No Brasil, a data é comemorada no dia 12 de junho, véspera do dia de Santo António, também conhecido pela fama de “Santo Casamenteiro”. Segundo a pedagoga brasileira Jussara de Barros, o dia dos namorados é uma data especial.Seu surgimento foi em homenagem aos deuses Juno e Lupercus, conhecidos como os protetores dos casais. No dia 15 de fevereiro, faziam uma festa a estes, agradecendo a fertilidade da terra, os rapazes colocavam nomes de moças em papeizinhos para serem sorteados. O papel retirado seria o nome de sua esposa.Como muitos casais apaixonados eram impedidos por suas famílias de casarem-se, um padre de nome Valentino passou a realizar matrimônios às escondidas, quando os casais fugiam, para que não ficassem sem receber as bênçãos de Deus.Com isso, o dia 14 de fevereiro passou a ser considerado o dia de São Valentin, em homenagem ao padre, sendo comemorado nos Estados Unidos e na Europa como o dia dos namorados.A divulgação da data no Brasil foi feita pelo empresário João Dória, que havia chegado do exterior. Representantes do comércio acharam uma ótima ideia para aquecer as vendas e escolheram o dia 12 de junho para ser o dia dos namorados em nosso país. A data foi escolhida às vésperas do dia de santo Antônio, o santo casamenteiro, como antes se indicou. As pessoas apaixonadas costumam presentear seus namorados ou cônjuges, a fim de mostrar todo o amor que sentem.Nessa data, os casais saem para trocar presentes e comemorar, com um jantar romântico, a paixão que sentem um pelo outro, a afetividade e o amor, como forma de agradecer o companheirismo e a dedicação entre ambos. Mas existem várias formas de comemorar o dia dos namorados. Mandar flores, cestas de café da manhã, uma cesta de hora feliz para degustarem juntos, mensagens por telefone, serenatas, fazer uma pequena viagem, passar um dia em uma casa de relaxamento (SPA), dentre outras.O importante é usar a criatividade e o romantismo!

O namoro é uma instituição de relacionamento interpessoal não moderna, que tem como função a concretização do sentimental e/ou ato sexual entre duas pessoas em troca de conhecimentos e uma vivência com um grau de comprometimento inferior à do matrimônio. A grande maioria utiliza o namoro como pré-condição para o estabelecimento de um noivado ou casamento, definido este último ato antropologicamente como o vínculo estabelecido entre duas pessoas mediante o reconhecimento governamental, religioso e social. Namoro significa a relação afetiva mantida entre duas pessoas que se unem pelo desejo de estarem juntas e partilharem novas experiências. É uma relação em que o casal está comprometido socialmente, mas sem estabelecer um vínculo matrimonial perante a lei civil ou religiosa. Com a evolução da tecnologia, já é comum encontrar casos de pessoas cujo namoro se dá através das modernas formas de telecomunicação, como o telefoneou a internet. Assim, sendo, casais podem namorar apesar de estarem em estados, países ou continentes distintos. Entre a maioria dos grupos cristãos o namoro descompromissado e liberal, ou seja, sem ter como objetivo o casamento e onde há relações sexuais, não é bem visto e até proibido, por atentar contra suas doutrinas originais, que solicitam pureza moral e abstinência sexual antes do casamento. Antigamente, o namoro expressava o ato de cortejar a pessoa desejada sem implicar qualquer tipo de intimidade. Esse conceito ainda se aplica quando alguém cobiça algo que deseja obter.

A palavra amor (do latim amor) presta-se a múltiplos significados na língua portuguesa. Pode significar afeiçãocompaixãomisericórdia, inclinação, atração, apetite, paixão, querer bem, satisfação, conquista, desejo, libido etc. Pode ser caracterizado como o nível ou grau de responsabilidade, utilidade e prazer com que lidamos com as coisas e pessoas conhecidas. O conceito mais popular de amor envolve, de modo geral, a formação de um vínculo emocional com alguém ou com algum objeto que seja capaz de receber este comportamento amoroso e enviar os estímulos sensoriais e psicológicos necessários para a sua manutenção e motivação. É tido por muitos como a maior de todas as conquistas do ser.

Para falar deste importante tema, e propor um plano de atividades educativo-didáticas a realizar nos estabelecimentos de ensino, escolhi um lindo filme realizado em 1974 por Jaime de Armiñán, sob o título da “O amor do capitão Brando”, que, quando foi projetado no seu dia, teve um grande sucesso entre os amantes do cinema em todo o país.

FICHA TÉCNICA DO FILME:

  • O AMOR DO CAPITÃO BRANDO Foto 3Título original: El amor del capitán Brando (O amor do capitão Brando).
  • Diretor: Jaime de Armiñán (Espanha, 1974, 93 min., a cores).
  • Roteiro: Juan Tébar e J. de Armiñán. Produtora: Incine.
  • Fotografia: Luis Cuadrado. Música: José Nieto.
  • Atores: Fernando Fernán Gómez (Fernando), Ana Belén (Aurora, a jovem mestra), Jaime Gamboa (Juan), Julieta Serrano (Mª Rosa), Antonio Ferrandis (D. Julio), Pilar Muñoz (Ino), Eduardo Calvo (D. Cristóbal), Fernando Marín (Panta), Chus Lampreave (Dª Concha), Julia Lorente (Tia Visitación), Verónica Llimera (Kety), Aurora Márquez (Alicia), Amparo Soler Leal (Amparo) e Mª Luisa Ponte (como ela mesma).
  • Prémios: Todos em 1974. Do público, ao melhor filme e ao diretor, no festival de cinema de Berlim. Primeiro prémio ao melhor filme e ao melhor diretor, pelo Sindicato Nacional do Espetáculo. Prémio à melhor música, de José Nieto, pelo Círculo de Escritores Cinematográficos.
  • Argumento: Aurora incorpora-se como mestra a uma pequena povoação castelhana chamada Trescabañas. É uma mulher jovem e atraente, e logo se converte no centro das murmurações na aldeia, devido aos modernos métodos pedagógicos que aplica, que chocam com o conservadorismo local. Um dos seus alunos apaixona-se por ela, dando lugar a maus entendidos que escandalizam a aldeia. Este aluno, de doze anos, chamado Juan, é muito inteligente, tem muita imaginação e joga a ser o capitão Brando. Gosta muito da sua mestra, sente-se apaixonado por ela, muitas vezes de forma platónica, e defende-a perante as acusações das pessoas da aldeia. Estamos nos últimos anos da ditadura franquista, e Fernando, um velho exilado republicano, regressa depois de uma longa ausência, e gostaria de ter um relacionamento amoroso com a mestra. Entre o rapaz e o adulto já de idade, estabelece-se uma peculiar rivalidade sentimental. Definitivamente, ambos os amores são impossíveis, tanto o do jovem, como o do adulto. O filme foi rodado na sua maior parte na localidade segoviana de Pedraza, uma localidade com muito encanto arquitetónico.

UM TRIÂNGULO AMOROSO INSÓLITO, NUM FILME DE GRANDE SUCESSO:

O AMOR DO CAPITÃO BRANDO Foto 2Estamos perante um filme que foi um verdadeiro mito nos anos setenta do passado século, que marcou toda uma geração de jovens, que se encontraram de repente com uma dupla mudança: de criança a homem e de súbdito a cidadão, ou ao menos, a tentar ser cidadão. O filme conectou extraordinariamente com o público da sua época porque oferecia justamente o que ansiava o povo: liberdade, reconciliação, paz e progresso. Esse foi o acerto do realizador e do roteirista, com um roteiro fílmico que se articulava sobre um triângulo insólito: uma jovem mestra rural de ideias avançadas, um adolescente hipersensível apaixonado pela sua professora e um velho republicano que volta do exílio para encontrar-se com um país que não é o da guerra civil, nem tampouco o da noite obscura de Franco, que ia falecer ao ano seguinte. Com tais elementos, o realizador desenha um formoso filme, uma obra que se reconhece no seu próprio tempo, uma fita intimamente ligada à sociedade, à gente que o criou, e, se calhar, sem sabê-lo. Menção especial merece o trio protagonista, nas maravilhosas interpretações de Ana Belén, Fernán Gómez e o rapaz Jaime Gamboa, com uma estupenda fotografia de Luis Cuadrado. Embora, ademais da leitura sociológica evidente, existe no filme uma formosa história de amor impossível, uma história que todo o jovem viveu alguma vez. O apaixonamento há passar, mas a lembrança há permanecer para além das sensações físicas. O filme é, além disso, o zénite do seu diretor, que nunca mais alcançará cotas de tal qualidade cinematográfica, nem de reconhecimento entre os amantes do cinema e a crítica.

A fita lê-se com claridade, pois o diretor não cai na tentação de estabelecer uma escala de valores, nem censura, nem elogia. Deixa que as personagens vivam por si mesmas a dificuldade de ser, porque todos, por algum motivo, devem renunciar ao que pôde ser, ou aferrar-se à tristeza da sua conduta. Com habilidade, Armiñán, rompe moderadamente alguns tabus do dizível no nosso cinema naquela altura, e com o seu filme situa-se nos limites do possibilismo, ao integrar política, história, atualidade, amor e sexo. O filme realiza-se precisamente num momento de frustração da sociedade e da dificuldade de sobrepor-se a ela. As personagens correspondem a distintas gerações, sem estabelecer por isso em função das mesmas, escalas de valores, fazendo de uns os positivos e de outros os negativos. O filme é assim muito sincero e nada pretensioso, tratando de não deformar a realidade por defeito ou por excesso. Sem deixar de ser por isso modelar, possibilista e agressivo ao mesmo tempo e em todos os aspetos. Sobre ele Armiñam no seu dia comentou: “O meu filme foi bastante martirizado pela censura. Tivemos que rodar inclusive duplas versões. O discurso do alcaide foi mutilado totalmente, porque eram mais ou menos as cousas que Franco dizia naquela altura. Mas, apesar de tudo, teve um grande atrativo e funcionou muito bem, extraordinariamente bem, diria eu”.

DIFERENTES FORMAS DE AMOR, COM AS SUAS CARATERÍSTICAS:

O AMOR DO CAPITÃO BRANDO Foto 0Fala-se de diversas formas de amor: amor físico, amor platónico, amor materno, amor à vida. As muitas dificuldades que essa diversidade de termos oferece, em conjunto à suposta unidade de significado, ocorrem não só nos idiomas modernos, mas também no grego e no latim. O grego possui várias palavras para “amor”, cada qual denotando um sentido diferente e específico. No latim, encontramos amor, dilectio, charitas, bem como Eros, quando se refere ao amor personificado numa deidade. “Amar” também tem o sentido de “gostar muito”, sendo, assim, possível amar qualquer ser vivo ou objeto.

  1. Amor Platónico:

“Amor platónico” é uma expressão usada para designar um amor ideal, alheio a interesses ou gozos. Um sentido popular, pode ser o de um amor impossível de se realizar, um amor perfeito, ideal, puro, casto. Trata-se, contudo, de uma má interpretação da filosofia de Platão, que, por exemplo, não condena o sexo, ou as cousas da vida material.

  1. Perspetiva filosófica:

Diferentemente do conceito de “amor platónico”, quando se fala do amor “em Platão” estamo-nos referindo ao pensamento deste filósofo sobre o amor. A noção de amor é central no pensamento platónico. Em seus diálogos, Sócrates dizia que o amor era a única cousa que ele podia entender e falar com conhecimento de causa. Platão compara-o a uma caçada (comparação aplicada também ao ato de conhecer) e distinguia três tipos de amor: o amor terreno, do corpo; o amor da alma, celestial (que leva ao conhecimento e o produz); e outro que é a mistura dos dous. Em todo caso o amor, em Platão, é o desejo por algo que não se possui.

  1. O Amor original:

O amor, para ocorrer, não importando os níveis: social, afetivo, paternal ou maternal, fraternal – que é o amor entre irmãos e companheiros – deve obrigatoriamente ser “permitido”. O que significa ser “amor permitido”? Bem, de fato quase nunca se pensa sobre isso porque passa tão despercebido que se atribui a um comportamento natural do ser humano ou de outros seres vivos. Mas não, a permissão aqui referida toma-se por base um sentimento de reciprocidade capaz de dar início e alargar as relações de afetividade entre duas ou mais pessoas ou seres que estão em contato e que por ventura vêm a nutrir um sentimento de afeição ou amor entre si.

  1. Eros:

Eros representa a parte consciente do amor que uma pessoa sente por outra. É o amor que se liga de forma mais clara à atração física, e frequentemente compele as pessoas a manterem um relacionamento amoroso continuado. Nesse sentido também é sinônimo sensualidade que leva a atração física e depois às relações sexuais. Ao contrário, vem a Psique, que representa o sentimento mais espiritual e profundo.

  1. Pragma:

Pragma (do grego, significando “prática”, “negócio”) seria uma forma de amor que prioriza o lado prático das cousas. O indivíduo avalia todas as possíveis implicações antes de embarcar num romance. Se o namoro aparente tiver futuro, ele investe. Se não, desiste. Procura um bom pai ou uma boa mãe para os filhos e leva em conta o conforto material. Está sempre cheio de perguntas. O que será que a minha família vai achar? Se eu me casar, como estarei daqui a cinco anos? Como minha vida vai mudar se eu me casar? Amor interessado em fazer bem a si mesmo, Amor que espera algo em troca.

  1. Philia:

Em grego, Philia significa “altruísmo”, “generosidade”. A dedicação ao outro vem sempre antes do próprio interesse. Quem pratica esse estilo de amor entrega-se totalmente à relação e não se importa em abrir mão de certas vontades para a satisfação do ser amado. Investe constantemente no relacionamento, mesmo sem ser correspondido. Sente-se bem quando o outro demonstra alegria. No limite, é capaz até mesmo de renunciar ao parceiro se acreditar que ele pode ser mais feliz com outra pessoa. É visto por muitos, como uma forma incondicional de amar.

  1. Storge:

O nome da divindade grega da amizade é Storge. Por isso, quem tende a ter esse estilo de amor valoriza a confiança mútua e os projetos compartilhados. O romance começa de maneira tão gradual que os parceiros nem sabem dizer quando exatamente. A atração física não é o principal. Os namorados-amigos não tendem a ter relacionamentos calorosos, mas sim tranquilos e afetuosos. Preferem cativar a seduzir. E, em geral, mantêm ligações bastante duradouras e estáveis. O que conta é a confiança mútua e os valores compartilhados. Os amantes do tipo storge revelam satisfação com a vida afetiva. Acontece geralmente entre grandes amigos. Normalmente, os casais com este tipo de amor conhecem muito bem um ao outro.

  1. Sexo:

A palavra amor pode ser entendida também como sexo, quando usada em expressões como “fazer amor”, “make love” (em inglês), “hacer el amor” (em castelhano), “faire l’amour” (em francês). Os hispanófonos, por exemplo, encontram a palavra “amor” sendo, em geral, substituída por variações de “querer”, como em “yo te quiero”, em detrimento do possível “te amo” em castelhano.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

Utilizando a técnica do Cinema-fórum, podemos analisar o filme de Jaime de Armiñán, do ponto de vista formal (linguagem fílmica, planos, planos-contra plano, movimentos de câmara, etc.) e de fundo (mensagem que intenta transmitir e atitudes que manifestam as diferentes personagens do mesmo).

Elaborar uma monografia, ao estilo das BT de Freinet, sobre o tema do amor. Terá que incluir fotos, textos, poemas, desenhos, aforismos, mensagens e histórias. A maioria de elaboração própria dos estudantes. Para redigi-la podem consultar-se livros, revistas e a internet. É importante que, de forma esquemática, apareça o tema do amor contemplado nas diferentes culturas e religiões: chinesa, japonesa, grega, latina, e as religiões judaica, cristã, islâmica, budista e hindu. Com o material recolhido também se podem organizar amostras nos estabelecimentos de ensino.

Organização dum recital poético sobre o amor nos estabelecimentos de ensino. Com poemas escritos pelos estudantes e também de destacados poetas da nossa cultura e idioma. No anexo aparecem alguns dos poemas escolhidos, que podem ser recitados.

ANEXO:

Poemas sobre o Amor:

Pablo Neruda:

Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.

 

Carlos Drummond de Andrade:

As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

 

Fernando Pessoa:

Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já me não dói
A antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

 

Luís de Camões:

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

 

Fernando Pessoa:

 O Amor

O AMOR, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p’ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P’ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…

 

Florbela espanca:

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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