Partilhar

O sítio da minha embala

Cátia Faria e Pablo Blanco – Aline Frazão e César Herranz tomaram, na passada semana, a Galiza como sua embala. Viagem louca ao ritmo de cinco concertos em quatro dias, através das terras galegas de Vigo, Corunha, Lugo e Compostela.

Nós tivemos o prazer de acompanhá-los nesta turné, realizada por inciativa da AGAL, em condição de groupies, roadies, managers, cicerones e, em definitiva, fãs. No final, um sabor amargo de boca por saber a pouco e a vontade gritante de um regresso para já.

“Embala” é uma palavra do português de Angola que vem do kimbundu “bwala”. Uma bwala é uma comunidade, uma aldeia, um bairro. A minha embala é o lugar de encontro de Aline e César, um duo inesperado de uma angolana de Luanda na voz e guitarra e um segoviano de Chañe na flauta transversal e percussão, com a música de diferentes origens e em diferentes línguas no seio da lusofonia.

Aline e César têm pois a particularidade de não serem originários da Galiza. Contudo, ambos, com diferentes sotaques, falam português (César está a começar), sendo esta a língua que utilizaram, na oralidade e na escrita, para gerir a turné, no contacto com organizações e públicos bem diversos do país.

Para quem interage habitualmente com pessoas de países com o português como língua oficial, resulta natural utilizar o galego na comunicação e perceber o português do outro como versão linda e rica do seu próprio português. Mas também é sabido que esta é uma percepção longe de ser familiar à maioria da população galega e, por isso mesmo, a minha embala surpreende. Atraindo galegos e galegas a descobrirem-se linguisticamente competentes fora das fronteiras da Galiza, a minha embala fala por nós. E fá-lo com a naturalidade e a graça necessárias a que todos entendam.

Estamos na Corunha, na Bilioteca Municipal do bairro de Sagrada Familia. Somos recebidos num alegre galego por todo o pessoal da Biblioteca. Mas interagimos com mais pessoas à volta e há quem prefira o castelhano. Aline pode falar um perfeito espanhol, mas perante os convites decide desconseguir, e antes de sair à cena diz que começa a achar piada à brincadeira.

Aline canta e encanta o público da Corunha, e fala claro: “dizem que o galego não é útil mas a mim serve-me para comunicar com vocês”, e à saída, devorados pelas artes de uma embala inesperada e próxima, muitos tiram de 3 em 1 para engraxar o seu galego e conversar com a cantora um bocadinho.

Longe do debate cansado, tudo o que é preciso é conviver. Quem tem a experiência
percebe a evidencia de que falamos a mesma língua. E, mais, conhece a estranha sensação de estar à vontade, como em casa. E essa é a matéria prima de uma comunidade, uma “embala”, que já existe e está aberta ao nós local, surpreendida e cálida, procurando-nos também.

Aline e César dão-se a este encontro e, como se não bastasse, gostam de nós; andam à procura de uma peça de família que lhes faltava e acham que pode ser cá connosco. Aqui, a Norte do Norte. Passeiam de carro pela costa da Corunha, ou pelo tal caminho, de Lugo para Arzúa e ficam algo entre surpreendidos e fantasiados, pensativos e sedados: “será que já somos um bocadinho de aqui?”

 

Capa do último trabalho da Aline
[a maquete pode ser escutada gratuitamente aqui]

Entretanto, nós ficamos a sonhar com o Sul, o nosso Sul, que pode ser Angola, Cabo Verde, Brasil. Um concerto de a minha embala é um autêntico alegato meridional. Ficamos golpeados, bloqueados, cegos pelo sol, mas também acendidos, dispostos a agarrar as malas, prestes a sair comprar tabaco. Galiza tropical sempre palpita, e não faltam vias marítimas abertas ao passaporte galego-português.

Sábado à noite, último concerto; a Gentalha do Pichel homenageia a origem angolana de Aline com a omnipresença da bandeira nacional e uma deliciosa moamba. Aline actua de oradora com o objectivo de fazer-nos aterrar nas muitas caras de Luanda. O seu olhar crítico não apaga, contudo, a sua paixão: “Gostava de levar-vos todos para lá”.

Começa o concerto; um público conquistado de antemão, mas estático pelo stand by de fim de semana compostelano, tenta acreditar que a Aline existe mesmo e que está mesmo a cantar assim. Só um instante porém, até a batida possuída do César provocar as nossas oquedades. Acedemos. Somos, de imediato, assaltados, pela nítida nudez da voz de Aline. Delicada, quente e sem vergonha. Cantamos ou a Aline canta-nos, com o sorriso sincero da descoberta. Entretanto, o César desenha na flauta transversal as mais bonitas narrativas da minha embala, marcando outras com o domínio forte do djembê. Entramos neles e não aceitamos que isto termine. Eles agradecem e levam-nos até um terceiro bis pouco ensaiado. Um presente reservado para o melhor final, uma declaração de intenções, e, porque não, um roteiro para depois do cansaço, da desorientação: “O que eu quero” de André Mingas:

Gente buscando em vão uma esperança
Um sorriso, uma flor, uma palavra amiga
Procurando agarrar hoje o tempo
Falar de amor, de carinho e de paz
Colher jasmim…
Fazer poesia com todas as letras
Contar as estrelas, saudar a vida
E ver os deuses iguais a mim.



A minha embala são uma festa para os ouvidos e um presente para o espírito, além disso são encantadores e, atenção, estão mesmo disponíveis para tocar na Galiza. Podes saber mais deles e contactá-los através de www.ositiodaminhaembala.wordpress.com

 

+ Ligações relacionadas:

Ângelo Brea apresenta Ensinamentos de Rahotep em Bertamiráns

Através Editora publica Ensinamentos de Rahotep, de Ângelo Brea, obra ganhadora do I Prémio de Criação Literária da Cátedra Carvalho Calero da USC

Lançamento de Tourists, go home? Em Ponte Vedra

Os artigos dos topónimos no novo Nomenclátor

Juan Luis Fernández apresenta o livro Futebol Gaélico em Celanova

Colóquio sobre Tourists, go home? na Semana do Livro de Compostela (SELIC)

Ângelo Brea apresenta Ensinamentos de Rahotep em Bertamiráns

Através Editora publica Ensinamentos de Rahotep, de Ângelo Brea, obra ganhadora do I Prémio de Criação Literária da Cátedra Carvalho Calero da USC

Lançamento de Tourists, go home? Em Ponte Vedra

Os artigos dos topónimos no novo Nomenclátor