Manuel Casal Lodeiro, ‘Casdeiro’ – …Como matando viveu, bem é certo. Mas os mortos e outros danificados colaterais (lateral, fojo, sangrenta valeta) produzidos pola sua idolatria a Mammon eram previstos subprodutos no medre do seu organismo omnívoro, na sua corrida para o crescimento orgânico-económico, ao modo do Sem-Cara do filme de Miyazaki, devorando muitos no seu imparável medre para pagar com pepitas de falso ouro uns poucos.
Mas é agora que esta besta da mais-valia se vê ferida de morte, quando nos vai mostrar toda a sua obscena inumanidade, e qualquer máscara nom há tardar em cair na sua derradeira e brutal acometida. Nom som outra cousa que assomos impúdicos desse agachado rosto os recentes resgates governamentais dos mesmos causantes do rebentamento financeiro (só os EUA levam-lhes dado mais do que se gastou em toda a Segunda Guerra Mundial). Nom som senom fendas impossíveis de tapar essas que nascem nas pétreas faces do capital e que nos transmitem as capelas catódicas em que o adoramos a cotio (deus Mercado, Mammon, Bezerro de Ouro). Sinto arrepios ao comprovar com que facilidade fam comungar as massas com essas rodas de moinho, a cada passo maiores. E sei que só é o começo …precisamente porque é o fim. E já nom há volta atrás, nem tempo para estarmos com rodeios. Velaqui o fim do monstro, o fim da praga. Biologia, mito e economia dam-se a mão neste apocalipse: o ciclo de praga é natural em qualquer espécie que dispõe de um excesso de sustento tam à mão. Esse sustento é o petróleo e a praga tem o nome eufemístico de livre mercado.
As soluções que uns poucos conscientes propõem ao cul-de-sac energético em que o sistema industrial, produtivista e capitalista nos tem metido, e que é conhecido polo nome paradoxal de zénite do petróleo, poderiam ter alguma oportunidade de funcionar. Sim, poderiam, mas sob condicionantes que semelham avondo optimistas: da noite para a manhã os que têm o poder (de fazer algo) deveriam cair do cavalo curto-prazista do politiquice eleitoral e do lucro imediato e ver a luz da realidade que, rabuda ela, contradiz os seus dogmas económicos: o crescimento nom é sustentável, o petróleo nom pode ser substituído mediante investimento, o planeta tem uns limites… Por dizermo-lo em poucas palavras: que donde nom há, nom se dá tirado. Teriam que dar um curso acelerado de Dinâmica de Sistemas para totós e assim compreenderem que sobreconsumo, mudança climática, crise energética e alimentaçom humana estám inevitavelmente interrelacionados. Deveriam apreender que a economia nom é um sistema isolado, mas um subconjunto integrado noutro maior, a biosfera; reconhecer que nom podem fugir das leis da Termodinâmica, e abraçar arrependidos a Economia Ecológica (também chamada Bioeconomia). Admitir que com essa idolatrada e curvada cruz do seu deus, a Lei da Oferta e da Procura, se importa um pataco a Geofísica. Ah, e de gorjeta, seria preciso que abandonassem o “Ou comigo ou contra mim” e os seus interesses particulares, assumissem sem farisaísmos os princípios de justiça e equidade entre os países/pessoas de aqui (ou seja, o mundo rico ocidental) e os/as de acolá (ou seja, o mundo empobrecido polos primeiros), reconhecessem quem deve na realidade a quem, e que cada país é dono dos seus recursos. Reconhecessem que nos tiveram enganados todo este tempo, que todo o desenvolvimento capitalista foi uma descomunal vigarice (nom era que chovesse: era que mijavam por nós o tempo todo), o maior roubo da História que ainda por cima deixou um planeta estragado; que o Império das Barras e as Estrelas turrou de nós a toda a máquina por um caminho que nom tinha saída. Tudo isso com um consenso a nível mundial e para amanhã mesmo, a mais tardar… Por que será que esta hipótese de salvaçom me cheira um chisco irreal?
A alternativa bastante mais provável (por simples lógica deduzida da nossa organizaçom geopolítica) é uma luta sem quartel polos recursos que ficarem. Um Lebensraum que na realidade já principiou no Iraque, no Afeganistám, no Cáucaso, no Sudám, na Bolívia… Atentos, pois, porque eis que nos estám a passar o trailer do filme mais provável que nos vai tocar viver nos próximos anos, com uns toques adicionais de terror pós-petrolífero (zombis ao assalto dos supermercados em cidades em decomposiçom, racismo desbocado, pelejas nas bombas de gasolina …homo consumens homini lupus), e com uma cacofónica banda sonora de derrubamento do Estado do Bem-estar e das conquistas sociais e das liberdades individuais e colectivas, com contraponto de redobres neofascistas in crescendo. Fukuyama tinha razom: chega o Fim de História, mas nom por termos chegado à cima mas ao escangalhamento total (Sampedro dixit).
A única maneira que terá o capitalismo de sobreviver será mediante a rapina e a destruiçom desenfreada (o devir histórico está a tornar o Relatório Lugano em realidade). Mas já nom poderá ser um capitalismo industrial baseado no petróleo, e menos ainda globalizado: para sobreviver deverá mudar, encolher-se, dividir-se, involuir. O que ficar dele será mais parecido com um modelo feudal high-tech, onde umas minorias em cada pequeno território controlarám todos os recursos (energéticos e alimentares principalmente) por meio das armas e dos restos da tecnologia que dêem açambarcado. A exploraçom dará passo à dominaçom, onde os excluídos se tornam elimináveis. Uma Nova Idade Média, uma nova era de barbárie e crueldade, com Hitler como precursor (escutai Carl Amery). Isso se antes, no fragor do seu delírio final e da sua decomposiçom corpórea, uma gadoupa do monstro nom lançar um ataque nuclear contra as fauces, numa auto-agressom suicida e ecocida que acabe contudo de vez. Ou se a aceleraçom exponencial da mudança climática nom disparar antes o chamado fuzil de clatratos (descomunais depósitos de metano baixo um permafrost já a descongelar) na boca da nossa espécie. A evidência já está aí, para quem quiser vê-la: o capitalismo há-se devorar a si mesmo. O único que podemos fazer é tentarmos que nom nos leve a nós e o planeta por diante no processo, escolhermos o nosso próprio caminho pela inevitável costa abaixo económica e demográfica.
Mas quem está a espevitar-se mais para influir nesse caminho? Nos grupinhos de activistas locais que surgem polos países um chisco mais espilidos que o nosso, nessas vilas em transiçom que tentam preparar as suas comunidades para enfrentarem com menor sofrimento a que vai cair, já se detectaram elementos neofascistas infiltrados. Estám a se preparar para uns tempos de oportunidades onde caiam as barreiras dos direitos e do bem-estar, da lei e do estado burgueses parlamentares, para tomarem o poder, oferecendo as suas velhas receitas baseadas no medo: “O zénite do petróleo marcará o começo de uma era de escassez na qual um partido nacionalista (sic) bem organizado pode realmente produzir um impacto. (..) É uma oportunidade que se dá cada 200 anos. (…) Os partidos de extrema-direita devem preparar-se para este momento de crise” (Nick Griffin, do British National Party).
No entanto, a esquerda espreguiça-se do seu sopor e pergunta: Que se passou? Onde estou? Que foi da minha televisom de plasma? Encontra-se de repente na encruzilhada histórica de morrer dormindo ou acordar a tempo para deitar fora o tardo que lhe esmaga o peito no seu sono. E a esquerda transformadora pode e deve reagir numa catarse mais soberanista e ao tempo mais internacionalista que nunca: porque as soluções, se ainda estamos a tempo de as tomarmos, estám no local e no mundial. No local porque as comunidades devem-se preparar para resistir tempos muito duros, tempos como nom lembram nem os nossos avós, tempos de escassez, de altíssima conflituosidade social, de assovalhamento e de fome. É o nosso dever histórico irmos construindo, com urgência adequada a estes tempos excepcionais, uma estrutura paralela sustentável de apoio mútuo, que rache amarras dependentes deste Estado ancorado na mitologia suicida de um capitalismo que afunda. Construindo a resistência, a resiliência, a auto-suficiência e a independência desde abaixo, em mão comum. E ao tempo há que combater no plano mundial, na luta drástica internacional contra a mudança climática, a paz e o desarmamento nuclear, o multilateralismo e a desmundializaçom (ou relocalizaçom) económica… rachando com quem houver que rachar (NATO, UE… Espanha) se continuam a gangrenar com os mitos cornucopiães do crescimento ilimitado, e continuam a estragar, desmantelar, deslocalizar, contaminar, proibir, desincentivar, coutar… o que deu mantença durante séculos ao nosso país. E devemos contar com que continuarám teimudos nesse caminho genocida. Daquela haverá que defender com mais azos que nunca o nosso (futuro): os nossos recursos, o nosso rural, a nossa energia, o nosso ar, a nossa água, as nossas sementes e espécies autóctones, o nosso saber e costumes tradicionais …única cultura sustentável. E rejeitar radicalmente os venenos do sistema: o consumo, a publicidade, o sistema financeiro, o transporte hipertrofiado, a agricultura intensiva, a alimentaçom industrializada …o crescimento. Devemos abrir a nossa consciência no ponto histórico económico e cultural que começa, e aos dolorosos sacrifícios que há requerer e que devemos assumir e defender sem duvidarmos. E já que logo, focarmos a mente e as mãos na questom política de fundo do nosso tempo: deixaremos as sociedades ocidentais derivarem para um novo nazismo antes que renunciarem ao seu sobreconsumo? (Jorge Riechmann). Abraçando a causa do decremento sustentável (a estas alturas necessariamente radical) e a soberania alimentar-energética, e armando-se com estratégias de comunicaçom de guerrilha que furem o muro hipnomediático, que sabotem o imaginário capitalista, é a maneira em que modelo como o socialista, o libertário, o soberanista… ham dispor da melhor ocasiom que nunca tiveram para oferecer as suas respostas diversas, criativas, mutuamente férteis à Humanidade no seu conjunto e a cada um dos povos que a formamos. Vamos perder essa oportunidade? O renascimento da utopia torna-se imprescindível. Porque nom vos deixeis enganar: nom é viável construirmos uma sociedade eco-sustentável, uma sociedade que tenha alguma oportunidade de sobreviver nas próximas décadas, sem trocarmos radicalmente as estruturas do poder e da propriedade. O futuro só será menos, em comum e local. Ou nom será em absoluto.
Coda informativa: Na actualizaçom que fizeram os Meadows 30 anos depois do seu famoso relatório para o Clube de Roma “Limits to Growth”, advertem: os limites do planeta já foram ultrapassados; estamos numa fase de translimitaçom e contra 2014 as suas consequências começarám a ser claramente observáveis. A catástrofe climática já está em marcha: o Instituto Nacional do Gelo dos EUA situou o dia 16 de Setembro de 2007 como o ponto de nom-retorno do Árctico. O que tentava evitar Kyoto já o estamos a presenciar. A Agência Internacional da Energia advertiu no seu relatório de Novembro de 2008 de uma provável crise petroleira pola escassez de petróleo a partir de 2010. ASPO, a maior organizaçom científica que estuda o zénite do petróleo e o gás natural, tem calculado que este facto geológico se dará em 2010. As revisões que estám a fazer na sequência do começo da recessom económica mundial, apontam a que graças à diminuiçom da procura, o pico se poderia converter numa pequena meseta que se prolongasse uns 5 anos mais. Porém, é comummente aceite que um pico prolongado nom é desejável porque depois dele, o declive da produçom e o conseguinte medre dos preços, seriam mais abruptos, e as medidas paliativas do colapso socioeconómico tardariam mais em se pôr em marcha e teriam um efeito muito menor.

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