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Novidade: ‘O meu Portugal: Crônicas de um desterro [de] Guilherme de Almeida’

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Da vida tantas vezes tumultuada de Guilherme de Almeida, o chamado Príncipe dos Poetas Brasileiros, faz parte um ano de exílio ou desterro em Portugal (de 1932 a 1933), devido à sua defesa da causa constitucionalista, que o levou a se alistar como soldado raso na Revolução de 1932, contra a presidência de Getúlio Vargas. Dirigiu o Jornal das trincheiras, distribuído até no próprio campo de batalha. Foi preso no dia 10 de outubro do citado ano e enviado para a Casa de Detenção do Rio de Janeiro, saindo daí para Recife e continuando, posteriormente, por via marítima, para a Europa, junto com dezenas de paulistas que também tinham apoiado aquele movimento.

O autor foi recebido em Portugal com honras de herói e como um dos maiores poetas da língua, tal como ele próprio reconhece no discurso de receção na Academia das Ciências de Lisboa. Na verdade, perante qualquer comentário acerca da estada de Guilherme de Almeida em Portugal, torna-se imprescindível lembrar, com mais ou menos pormenores, a campanha de relacionamento empreendida por intelectuais de ambos os lados do Oceano que já se vinha levando a cabo havia alguns anos (ou mesmo algumas décadas.

Precisamente foi durante esse tempo que Guilherme de Almeida escreveu um conjunto de vinte crônicas para a imprensa brasileira, as quais foram depois recolhidas no volume O meu Portugal. Crônicas de um desterro, que agora os professores Maria Isabel Morán Cabanas, da Universidade de Santiago de Compostela, e Ulisses Infante, da UNESP-Universidade Estadual Paulista (campus de São José de Rio Preto), editam e comentam. Da sua autoria é um amplo estudo introdutório dedicado aos percurso biográficos e bibliográficos do polifacetado escritor brasileiro, com informações e explicações de circunstâncias e trabalhos empreendidos por Guilherme de Almeida nos âmbitos sociais, literários e jornalísticos.

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Ulisses Infante

Os dous investigadores, para além de nos introduzir como espectadores e cúmplices das viagens de Guilherme de Almeida por cidades e vilas portuguesas (especialmente pelas ruas mais emblemáticas de Lisboa, à qual chama “Lis…ÓTIMA”), ilustram-nos sobre as relações deste paulista com a Galiza, terra que conheceu pessoalmente durante o exílio em Portugal (mais concretamente nos finais de março de 1933) e que o marcou moi intensamente. Morán Cabanas e Infante lembram a estreita e assídua colaboração do brasileiro com o polifacetado viguês Valentim Paz Andrade, remetendo-nos, entre outros textos, para o prefácio que aquele redigiu para a Sementeira ao Vento (Salnés, Vigo, 1968). Também sublinham os seus contatos com Castelao e com Laxeiro ou Colmeiro, as suas recriações da lírica medieval galego-portuguesa através do neotrovadorismo, as suas investigações sobre a origem genealógica do apelido Andrade em Pontedeume, as suas importantes conferências em homenagem e apoio aos emigrantes galegos no estado de São Paulo e, enfim, as suas constantes referencias à Galiza como “terra matricial”. Com efeito, até no seu discurso de entrada na Academia Brasileira das Letras se lembrou da Galiza e das origens literárias comuns.

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Maria Isabel Morán Cabanas

Quanto à edição das crônicas que constituem o livro, deparamos com notas, contextualizações e comentários explicativos dos textos de Guilherme de Almeida por Morán Cabanas e Infante, redigidos num tom ameno e cordial que busca o equilíbrio entre o rigor e a divulgação. Tais textos convidam-nos a viajar à Lisboa dos inícios da década de trinta em Portugal, com os seus cafés emblemáticos e os tipos humanos mais pitorescos; a um Estoril cosmopolita; a uma nobre Sintra; a uma Odivelas com recordações de um passado mitico; a diversos espetáculos de teatro, fado e representações de Carnaval; aos diferentes sabores de doçarias, licores e cafés tradicionais de vários lugares portugueses; a vilas que fabricam tapeçarias e lavores de renda; etc. Num determinado momento, acompanhamos Guilherme de Almeida de comboio até ao Porto, continuando depois de carro até à Galiza. E, entre as ilustrações a cores que aparecem nalgumas páginas, sobressai a que fecha o volume: a ponte de ferro entre Valença do Minho e Tui que o brasileiro atravessou com uma pergunta em mente: “Acabou-se Portugal (…) Ter-se-á mesmo acabado Portugal?” (eis a expressão com que se encerra o livro).

Autores (estudo introdutório, edição e notas): Maria Isabel Morán Cabanas e Ulisses Infante

Título: O meu Portugal. Crônicas de um desterro [de] Guilherme de Almeida.

Editora: Annablume / Casa Guilherme de Almeida – Centro de Estudos de Tradução Literária / Poiesis- Instituto de Apoio à Cultura, à Língua e à Literatura

Lugar e ano de edição: São Paulo, 2016

O livro no site da: Annablume literária.

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