Nove perguntas a Manuela Gonzaga



João Silveira Ramos

João Silveira Ramos

Manuela Gonzaga nasceu no Porto, em Portugal, tendo vivido a adolescência e parte da juventude em Moçambique e em Angola, onde começou a carreira de jornalista. Escritora e Historiadora, é doutoranda em História Contemporânea na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e tem o grau de mestre em História da Expansão Portuguesa, na mesma universidade. Como investigadora, integra o CHAM — Centro de Humanidades unidade de investigação inter-universitária; e o Grupo de Estudos do Trabalho e dos Conflitos Sociais do Instituto de História Contemporânea. Ambas vinculada à FCSH/NOVA e à UAc. Jornalista durante cerca de 30 anos, assinou um número indeterminado de artigos na imprensa, desde os tempos em que começou como repórter em Moçambique, passando por Angola e finalmente em Portugal. Em 2000 abandonou o jornalismo para se dedicar à escrita e à investigação a tempo inteiro.

É autora de catorze livros, em géneros que vão do romance à biografia, dos contos ao ensaio e à literatura juvenil. As suas obras atingem um leque muito abrangente de leitores, algumas delas tendo-se tornado referências académicas. Prémio Femina/Matriz Portuguesa 2020 e Membro Honorário e ativo do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora, convidámo-la a responder a nove perguntas.

O mundo de hoje, assoberbado pela tecnologia e pelo ruído, ainda tem lugar para o ritmo da literatura? Porquê?

Quando não houver espaço para a literatura, não haverá mais espaço para a humanidade. Seja ela oral, ou escrita. Os suportes, como sabemos, desde há milhares de anos, com os primeiros registos conhecidos têm sido os mais diversos. Há livros gravados em pedra, em tabuinhas de barro, em folhas, em peles de animais, em papel (invenção chinesa muitos séculos antes de, no Ocidente, recorrermos à mesma tecnologia). E, agora, em suporte digital. Há livros vivos, que passam de boca em boca, os registos orais que nos acompanham desde o fundo dos tempos. Encontraremos sempre forma de preservar a literatura. Se tal não acontecer, já nada haverá para preservar. Seremos máquinas com a nossa obsolescência programada, sem sonhos, sem asas, sem nada.

Quanto ao lugar da escritora no espaço público, como é encarado por ti?

Uma escritora é uma cidadã. Tem o direito, e até, em muitos casos, o dever de usar as suas ferramentas (a palavra escrita ou falada) para defender causas ou propagá-las. Quanto à persona, dou cada vez menos ênfase aos processos egóicos… por minha vontade, cruzaria ainda menos o espaço público. Preciso de silêncio, gosto muito da minha própria companhia, e evito o mais possível os palcos desta vida. Evidentemente, quando lanço um livro, ou quando falo sobre livros (ou sobre causas que me motivam) para audiências para aí viradas, não é propriamente de palcos que falamos, mas de espaços de partilha alargados.

Como foi o teu processo de despertar para a criação literária?

Foi logo durante a aprendizagem das primeiras letras. Aí pela (antiga) segunda e terceira classes. Juntar letras e ouvir palavras tornou-se um processo mágico. Pegar em palavras e, à minha maneira, escrever pequeninas estórias, uma revelação. Fui uma criança que lia compulsivamente, e tive o privilégio de nascer numa família letrada, onde os livros tinham lugar de destaque. O meu avô paterno, Justino Gonzaga, era dono da Tipografia Porto Médico, na Praça da Batalha, no Porto, onde, por exemplo, a revista Brotéria era editada. A minha ideia é que, nesses tempos, os editores no Porto eram todos amigos e faziam clã. Nós recebíamos caixotes de livros em casa, de várias chancelas. Abri-los, tocá-los, devorar os que eram adequados à nossa idade, era um banquete de emoções e alegrias.

O meu avô paterno, Justino Gonzaga, era dono da Tipografia Porto Médico, na Praça da Batalha, no Porto, onde, por exemplo, a revista Brotéria era editada. A minha ideia é que, nesses tempos, os editores no Porto eram todos amigos e faziam clã. Nós recebíamos caixotes de livros em casa, de várias chancelas. Abri-los, tocá-los, devorar os que eram adequados à nossa idade, era um banquete de emoções e alegrias.

Fala-nos um pouco das tuas motivações criativas. O que te impele?

A minha motivação é “orgânica”. Tenho a consciência disso desde que comecei a escrever as primeiras redações. Lidar com a palavra, perceber que as letras, misturando-se de mil formas diferentes, originavam-se numa multiplicidade de narrativas, canções, poemas, provérbios, adivinhas, e que, eu própria, aprendendo a manuseá-las poderia também dar vida às minhas próprias estórias, foi um processo epifânico. Aos oito, nove anos, escrevia peças de teatro na escola. Nunca, mas nunca, tive uma dúvida de que esse era o meu destino. Apesar disso, fui muitas outras coisas. Bancária, por exemplo. Professora. Jornalista. E mãe, acima de tudo. Quatro filhos.

Com que outros artistas – desde escritores, pintores, músicos, cineastas, etc. – procuras dialogar nas tuas obras, quais as tuas grandes referências?

A minha mãe era pianista, o meu pai, de outra área, foi sempre um grande melómano. Cresci até aos 12 anos, no meio de música erudita, e das primeiras biografias que li destaco as de Beethoven e Mozart – que continuo a ouvir apaixonadamente. Em casa, não nos facultavam a música popular. O rádio estava sempre nos ‘violinos’ o que, confesso, nos enjoava bastante. Exceção – Amália Rodrigues. Em casa das amigas ouvia Marisol e Joselito. Mas essa formatação alargou muito os meus horizontes. Costumo dizer que trago a música para a literatura porque encaro as palavras como notas numa pauta. O som tem de convencer e seduzir. Fui casada com um pintor, o José Ralha, mas antes já me movia muito no meio de artistas plásticos, desde África. Quando falo de ‘Clássicos’ vêm-me logo à cabeça Dostoievski, Jack Kerouac, Emily Brontë, Vladimir Nabokov, Eça de Queiroz, Aquilino Ribeiro e tantos, tantas mais. Mas também os Irmãos Grimm e a Condessa de Ségur. Não somos ilhas. O melhor de nós nasce de partilhas e do quanto aprendemos uns com os outros. E, neste caso, com os Artistas e sua arte. A morte não tem poder sobre estas nossas ligações, estas luzes de presença, estes faróis que cruzam os tempos e são eternos. Não adianto mais, porque a lista é imensa, e contempla também as pessoas com quem me cruzo, algumas das quais são poços de sabedoria ancestral e de generosidade com quem sempre que posso, aprendo o que posso.

O teu último livro é uma reedição pela Bertrand da biografia António Variações – Entre Braga e Nova Iorque. O que gostarias de partilhar sobre ele connosco?

O que mais me surpreendeu e deslumbrou neste ser, foi a autenticidade e a tenacidade com que perseguiu o seu sonho. Desde muito criança. Alguns irmãos contaram-me que, aí pelos cinco, seis anos, ele já dizia “vou ser cantor”. Saía de casa (vivia numa aldeia no distrito de Braga, que, nesse tempo, era um “fim do mundo”) e punha-se no alto de um penedo a cantar. A sua voz ouvia-se em muitas léguas ao redor. Era um menino inteligentíssimo (palavras da irmã Lurdes Ribeiro), simultaneamente tímido, voluntarioso, determinado e secreto. Todos os passos que deu, desde vir para Lisboa quando já tinha emprego perto de casa, uma fabriqueta de brinquedos em Caldelas, tinham esse objectivo, vir a tornar-se cantor das suas próprias canções. As viagens que fez, as opções que tomou, tudo aponta para a vontade, apetece dizer feroz, de concretizar o seu sonho. Sabemo-lo através de quem o conheceu, amigos, familiares, gente com quem trabalhou, jornalistas, músicos e cantores. Mas também o confirmámos em palavas suas, nas muitas entrevistas que deu ao longo da sua breve e fulgurante estrada da glória. Abreviando: quando subiu aos palcos conseguiu, em três anos de vida, deixar uma marca, um legado, impressionante, que ainda hoje permanece.

Como escritora que escreve em português, consideras importante manter o diálogo com autores de outros países e regiões de língua portuguesa? Porquê?

Eu não sei dizer se é importante ou não. Para mim, acima de tudo, é inevitável. Vivi em África dos 12 aos 24 anos, primeiro em Moçambique, depois em Angola, e ainda hoje encontro amigos e amigas desses tempos, tão incrivelmente longos, apesar de tão breves. Alguns, vieram a tornar-se escritores e isso aproxima-nos, talvez, um pouco mais. Por outro lado, o circuito alarga-se com gente muito mais jovem, que se aproxima de mim, ou de quem me aproximo, através da palavra escrita. As redes sociais possibilitam esses encontros de forma quase imediata. O facto é que, das minhas vivencias africanas, ficou um cariz que perpassa, mesmo que de forma indefectível, nos meus livros. Moçambique Para a Mãe se Lembrar como Foi (já traduzido e editado também em francês), é um registo biográfico, que tem a minha mãe e África como pivots, sobretudo Moçambique onde vivemos desde o Niassa até Lourenço Marques/Maputo, passando por Tete, Beira etc. Esse livro tem viajado muitíssimo pelo mundo todo. E continua… Ora, tudo isso leva a aprofundar relações, nomeadamente a integrar círculos onde a lusofonia é um pilar de referência. Desde há uns anos, e a convite do meu querido amigo, o poeta e escritor Delmar Maia Gonçalves, sou Membro Honorário do Círculo de Escritores Moçambicanos da Diáspora (CEMD), que ele fundou e a que preside. Esse Círculo mágico agrega gente da palavra, mas também da música, do teatro, do cinema e tem um dinamismo muito poderoso e sem fronteiras.

O que conheces da cultura galega, tens alguma referência que gostasses de destacar?

Para além de que adoro a Galiza e que ali me sinto em casa? Estive em Vigo, recentemente, a convite do Instituto Camões, precisamente para falar de António Variações. Um ou dois anos antes, com a Maria Adelaide Coelho da Cunha: “Doida não e não!”. Fomos sempre maravilhosamente recebidos, com muita gente na audiência. Viagens curtas, que deixam sempre vontade de voltar. Adoro a energia daquela cidade, a vitalidade das suas gentes. A forma como as pessoas ocupam o espaço público, com tanta alegria, música e muitas palavras no ar. Há uma espontaneidade que, por cá, ainda nos falta. E isto, para não referir os grandes nomes da Cultura que todos conhecemos.

Para além de que adoro a Galiza e que ali me sinto em casa? Estive em Vigo, recentemente, a convite do Instituto Camões, precisamente para falar de António Variações (…) Adoro a energia daquela cidade, a vitalidade das suas gentes. A forma como as pessoas ocupam o espaço público, com tanta alegria, música e muitas palavras no ar. Há uma espontaneidade que, por cá, ainda nos falta.

Por fim, como encaras a relação entre a Galiza e Portugal e como pensas que poderia evoluir?

Acho que todos nós sentimos a Galiza como casa, e do que conheço, os galegos sentem o mesmo quando cá estão. Na raia, essa fronteira só existe no papel e ainda não foi completamente interiorizada. Nunca será, acho. As fronteiras são marcos impostos a que a própria paisagem é alheia. Por outro lado, Lisboa deve-lhes muitíssimo, embora essa memória se esteja a perder. Mas quando voltei de África, ainda em 1974, toda a gente sabia que algumas das principais tasquinhas da Baixa e Bairro Alto eram de galegos que nos anos 30, 40, aqui se instalaram e por cá ficaram. Comia-se maravilhosamente ali!

Nasci no Porto, e as minhas referências e vivências, até aos 12 anos são, sobretudo, do Norte. Ali, estamos a dois passos da Galiza. Hoje, essa distância é muito mais curta. Além disso, a nossa memória ancestral é comum em muitos aspectos. A começar pela língua que era a mesma. Nas origens, a nossa poesia é Galaico-Portuguesa!

Na minha opinião, mais do que esperar dos governos a construção dessas pontes de diálogo, convívio e parcerias, que existem e sempre existiram de forma natural, cabe-nos a nós – poetas, pensadores, artistas de forma geral – cruzar e reforçar as pontes que existem desde a longa duração. Dou um exemplo. Com o meu amigo Ricardo Bernardes, musicólogo e maestro (muito ligado à Casa de Mateus), levámos a cabo um concerto na Igreja de São Roque [Lisboa], que integrava o programa comemorativo dos 25 anos da Santa Casa da Misericórdia. O programa, em princípio, limitava-se apenas à música. Mas ele entregou-me a responsabilidade da curadoria poética e literária do evento. Assim, ao Requiem de Mozart (versão eborense) que ele conduziu com a sua orquestra de câmara cujos músicos somavam cinco nacionalidades diferentes, intercalámos poesia. Connosco, estiveram o poeta Delmar Maia Gonçalves (luso-moçambicano), e a poeta, actriz e pianista Conchi da Silva, que é galega. Eu também apresentei pela primeira vez dois poemas meus. Os textos selecionados incluíram, entre outras, obras de Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz, pela voz da Conchi e do Delmar, a que se somaram os belíssimos poemas de cada um deles. Foi sublime. Estávamos no mesmo púlpito de onde o Padre António Vieira pregava, com a orquestra diante do altar-mor. Esse concerto está em streaming.

Samuel F. Pimenta

Samuel F. Pimenta

Samuel F. Pimenta é poeta e escritor, nascido em Alcanhões, Santarém, em 1990. Licenciou-se em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa. São vários os prémios que lhe têm sido atribuídos, como o Prémio Jovens Criadores (2012), o Prémio Literário Glória de Sant'Anna (2016) e o Prémio Literário Cidade de Almada (2019). Além da literatura, dedica-se ao estudo da espiritualidade e à promoção dos direitos LGBTI+, dos direitos humanos e dos direitos da Terra. Mais em https://samuelfpimenta.com/
Samuel F. Pimenta

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