Miguel Carnota: “No meu estudo recolho ataques de todo tipo contra alunado galego-falante em instituições educativas”



Em 2021 figerom-se 40 anos desde que o galego passou a ser considerada língua oficial na Galiza, passando a ter um status legal que lhe permitiria sair dos espaços informais e íntimos aos que fora relegada pola ditadura franquista. Para analisarmos este período, estivemos a realizar ao longo de todo 2021 umha série de entrevistas a diferentes agentes. Agora, entrado 2022 queremos continuar reflexionando sobre isto, mas focando num ámbito em particular, de importáncia estratégica: o ensino.
Hoje entrevistamos o professor e autor do livro Lingua, poder e adolescencia (Xerais 2022), Miguel R. Carnota.

Que avaliaçom fás dos resultados do ensino do galego após 40 anos como matéria troncal?
Resultados desiguais, contraditórios. A presença do galego no ensino era imprescindível, mais isso não serviu, como sabemos, para deter o processo de substituição nem a sangria de falantes.

E da presença do galego como língua veicular no ensino público?
Poderia-se dizer o mesmo. De momento segue mandando a aleatoriedade no seguimento da normativa. Sabemos que, ao fim de contas, em muitos casos é o ensinante quem decide em que língua vai ministrar as suas aulas. Os testemunhos de incumprimentos em favor do castelhano são esmagadores nas pesquisas que se fazem ao respeito! Duvido de que, no campo do ensino, se poida falar com propriedade de uma política linguística que mereça tal nome.

Em muitos casos é o ensinante quem decide em que língua vai ministrar as suas aulas. Os testemunhos de incumprimentos em favor do castelhano são esmagadores nas pesquisas que se fazem ao respeito!

Achas que esta presença guarda relaçom com a sua presença como língua ambiental nos centros educativos?
Não. Incluso diria que nada tem que ver. São dous mundos diferentes. No meu estudo (Lingua, poder e adolescencia. Xerais, 2022) recolho ataques de todo tipo contra alunado galego-falante em instituições educativas onde quase tudo o que se vê polas paredes está escrito em galego. É um dado muito contraditório, difícil de interpretar, mas está aí: para além dos usos rituais (o Dia das Letras, a representação teatral, a aula de galego) e devido á pressão social contrária, alunos e alunas galego-falantes veem-se impedidos de utilizarem a língua galega com normalidade nesses espaços oficialmente concebidos como lugares para a sua aprendizagem. Há que estudar isto com lupa.
Os sucessivos estudos vão perfilando um panorama no que o galego como língua ambiental, dentro e fora desses centros do ensino, vai enfraquecendo. O fracasso histórico do chamado bilinguismo harmónico é evidente, se o que se pretendia realmente era uma recuperação efetiva da língua. O mau do assunto é que o bilinguismo harmónico está morto, mas não enterrado. Segue a andar por aí, zombie, no discurso dos políticos.

Para além dos usos rituais (o Dia das Letras, a representação teatral, a aula de galego) e devido á pressão social contrária, alunos e alunas galego-falantes veem-se impedidos de utilizarem a língua galega com normalidade nesses espaços oficialmente concebidos como lugares para a sua aprendizagem. Há que estudar isto com lupa.

Pensas que deveria mudar alguma cousa no ensino da matéria de Lingua Galega e Literatura?
Não sou professor de galego e as minhas opiniões devem ser tomadas com cautela. Não gosto muito de pôr o pé em terrenos que não são o meu, mas eu gostaria de ver um pouco menos de gramática e um algo mais de criatividade. Priorizar, ante todo, o amor pola língua e o prazer de utilizá-la.

Qual deve ser o papel do português no ensino? Ampliar a sua presença como segunda Língua Estrangeira? Ser lecionada dentro das aulas da matéria troncal de galego? Ambas?
Partamos do feito de que o português não é uma língua estrangeira, senão uma variedade da nossa própria língua. Nenhum aluno e nenhuma aluna galega deveriam sair do ensino obrigatório sem saberem ler um texto em português padrão e sem conhecerem essas quatro regras que diferenciam a nossa língua da língua portuguesa de alem Minho. Isto, que objetivamente é uma meta pedagógica doada de conseguir, politicamente representa uma revolução entendida como perigosíssima polos garantes da unidade espanhola. Por isso não se fez até agora, por isso nunca se fará sem que mediem terramotos de polémica. Em princípio, parece-me mais ajeitado aprender a variante portuguesa dentro das aulas de galego. Tem mais sentido.

Conhecerem essas quatro regras que diferenciam a nossa língua da língua portuguesa de alem Minho objetivamente é uma meta pedagógica doada de conseguir, mas politicamente representa uma revolução entendida como perigosíssima polos garantes da unidade espanhola.

Pensas que implementar linhas educativas diferenciadas (uma com imersom linguística em galego) poderia ser útil para o galego voltar aos pátios?

Uma imersão linguística é necessária e urgente. Não estou tão seguro de que com isso o nosso idioma voltasse aos pátios assim, de repente, em qualquer lugar. Devemos olhar para a Catalunha, conhecer melhor o que ali está a suceder depois de anos de imersão. Devemos também olhar para outros casos, menos distantes do que parece, e tomar nota. Venho da Islândia, onde a língua veicular do ensino é o islandês, mas os professores queixam-se de que os miúdos começam a se comunicar entre eles em inglês no pátio de recreio…

Que papel atribuis ao modelo educativo inaugurado polas escolas Semente?

Apoio cem por cento. Defendo o ensino público, no que trabalhei durante trinta e sete cursos escolares. Mas nas ocasiões em que o ensino público não está em condições de garantir um mínimo respeito para qualquer aluno ou aluna galego-falante normal (e já nem falemos de apoiar a sua opção linguística ou de procurar que serva de exemplo para outros), a iniciativa privada torna-se necessária. Aos responsáveis das Sementes, desejo-lhes sentidinho, e adiante.

 


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