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Mariola Mourelo, analista de mercados, activista feminista e viageira

PGL – Mariola Mourelo é umha rapariga nascida na Corunha que após um périplo laboral por países como Escócia, Inglaterra ou Brasil regressou à Galiza com o sentimento da unidade lingüística galego-portuguesa reforçado. Do PGL pugémo-nos em contacto com ela para falar de língua e diversos projectos nos que anda envolvida.

PGL – Mariola Mourelo, para conhecermos-te melhor, podes falar-nos um pouco de ti?

Mariola Mourelo – Sou nada na Corunha, no bairro da Agra, e lá morei a maior parte da minha infância e adolescência, ainda que de coração sou do Vale de Lôuçara, nas montanhas do concelho de Samos, como toda a minha família. Tenho por ele esse sentimento que é, como dizia Manuel Maria, ‘uma espinha que se che crava no coração’.

Depois morei no estrangeiro durante bastantes anos, na Escócia, em Gales e na Inglaterra, onde estudei fotografia documentária e educação, e onde trabalhei quase de tudo. Também fiz estágios e voluntariado em Rochester, nos Estados Unidos da América e no Brasil. E ultimamente estive a trabalhar como analista de mercados para uma agência de Londres.

Regressei à Galiza há dois anos, onde conclui Português na Escola de Idiomas.


PGL – Estamos a falar com toda umha aventureira. Na tua experiência como galega polo mundo adiante, o galego tivo algumha utilidade para ti?

Mariola Mourelo – Pois sim, porque o galego como língua política, social e cultural permitiu-me manter uma relação muito aberta e receptiva para com outras línguas e culturas.  Eu nunca  tive um sentimento de confrontamento ou mesmo continua competitividade entre a minha língua e as outras. Eu acho que a situação política do galego na Galiza com respeito ao espanhol faz-te mais sensível à diversidade linguística noutras partes do mundo. Disso tirei muito proveito e poupei muito tempo no processo de ‘reafirmação’ do ‘eu’ que muitas pessoas que vão pela primeira vez ao estrangeiro experimentam. Esse processo eu já o tinha vivido na Galiza com o espanhol.

No Brasil senti pela primeira vez que o português era a minha língua e isso foi surpreendente, porque como reintegracionista na Galiza sempre estás a alimentar a ideia de que o galego e o português são a mesma coisa, mas começas a estudar português, no meu caso, e tens de reconhecer que existe uma distância crescente entre as duas línguas, não tanto por causa do português como por causa do galego cada dia mais espanholizado. Ora bem, uma vez experimentei na prática, uma vez me situei num contexto linguístico exclusivamente português, então essa distância encurta-se progressivamente e até um ponto que não consegui com outras línguas nem em tão curto prazo. Sim, o galego teve e continua a ter utilidade para mim.


PGL – Adrián Solovio, aquele protagonista da novela “Arredor de si”, de Otero Pedrayo, descubria-se galego viajando polo mundo adiante. Há algum paralelismo contigo?

Mariola Mourelo – Não acho que esse fosse o meu caso, ainda que é normal, porque viajar desloca-te do teu contexto habitual, dos teus costumes e rotina, e tens de reformular como é que te relacionas com os demais e contigo mesma. Semelha natural que descubras cousas de ti que não sabias. Eu descubri-me galega na Crunha, mas faz sentido porque sempre fui uma ‘estrangeira’ na minha cidade.  Talvez viajar para mim fosse ver-me reflectida e reconhecida noutras culturas, noutras formas de fazer e pensar, e com certeza contribuiu e ainda está a contribuir para a minha identidade como galega.


PGL – Na tua apresentaçom, citavas Manuel Maria, o grande poeta da Terra Chá. Poeta que deixou obra na norma galego-portuguesa, embora isto seja omitido. Crês que há um silenciamento público do movimento reintegracionista? Como chega-che tu ao universo lusófono?

Mariola Mourelo – Não tenho profundizado muito sobre este tema, mas em linhas gerais, sim, penso que há um silenciamento público do movimento reintegracionista, tanto pelos sectores espanholistas como galeguistas, isso é um facto. Também não é algo que nos deveria preocupar excessivamente, nem condicionar a nossa actividade e estratégias. Simplesmente não contar com o apoio de certos sectores e procurar outros que sejam afins ao movimento, como acho que se esteve a fazer nos últimos tempos. Eu gostei do termo que Valentim Fagim utilizou numa das primeiras entrevistas após a sua eleição como presidente da AGAL, “sociabilizar o reintegracionismo”. Do meu ponto de vista essa é uma estratégia a seguir, ainda que não a única, nos próximos anos. Temos essa tendência a pensar que nada pode ser mudado desde as bases e focamos os nossos objetivos em atingir esse poder piramidal que no entanto nunca conseguiríamos ou teria efetividade sem o apoio das bases.

No momento que se consiga que diferentes sectores da sociedade galega vejam o reintegracionismo como um factor de desenvolvimento positivo para a sua vida diária, quer seja profissional ou pessoal, as mudanças não só serão efetivas como também imparáveis. Deveríamos aprender dos nossos erros como dos demais, e ver o fracasso da institucionalização e processo de “normalização linguística” do galego-espanhol, e fazer exatamente o contrário. Dizia Mary Wolstonecraft que “enquanto a sociedade não mude, pouco se pode esperar da educação” o que bem se pode aplicar às instituições.

Eu cheguei ao reintegracionismo através do meu processo de galeguismo. Procurando as raízes do conflito e também as soluções.


PGL – E por que devemos apostar polo reintegracionismo linguístico?

Mariola Mourelo – Para mim o reintegracionismo/lusismo é uma porta aberta ao conhecimento, a compartilhar experiências, ideias e pensamentos, uma porta aberta à diversidade, à aventura, à humanidade, a um espaço infinito para onde sempre se contribui com qualquer coisa e se aprende mais; é o passado, o presente e, sobretudo, o futuro.

É onde me sinto à vontade, onde posso ser EU com toda a minha complexidade individual e fazer parte duma coletividade sem limites ideológicos, sociais e/ou políticos. É a liberdade.

As opções que temos para não desaparecer como coletivo são cada vez menos,  e se o reintegracionismo a nível individual pode funcionar como ferramenta de potencialização das capacidades e habilidades, imagina o que pode fazer em prol da construção duma identidade coletiva e social. Não deveríamos deixar passar esta oportunidade


PGL – Mariola, o teu nome é já muito conhecido na Galiza mercê ao teu trabalho como activista feminista.

Mariola Mourelo – Não, eu sou apenas uma recém-chegada ao ativismo feminista. O que acontece é que cheguei num momento em que na Marcha Mundial das Mulheres, a plataforma em que estou a participar mais ativamente,  o dinamismo era muito forte, com a organização do VII Encontro Internacional que teve lugar em Vigo, e a passada campanha do aborto, pelo direito a decidir das mulheres. E tudo isto coincidiu com o meu regresso à Galiza, com muitas energias e ilusão por fazer coisas.

Na Galiza estão agora a surgir novas iniciativas muito interessantes, como por exemplo o Foro Feminista de Galiza, ou os Cafés Feministas na Crunha, entre muitas outras, em que o movimento feminista do nosso país está a criar espaços de intercâmbio de conhecimentos, de ações conjuntas, o que é formidável, e que sem dúvida nos vai beneficiar a todas.  Era evidente a necessidade de nos juntarmos e falar,  e parecem ser estas as iniciativas com maior resposta neste momento, o que é  muito significativo.

O feminismo é uma oportunidade para transformar a sociedade de forma radical, que é a única forma de a transformar, e um espaço onde coletivamente, e também individualmente, posso encontrar as ferramentas para entender melhor a sociedade, a minha relação com ela e para ser muito mais feliz, que afinal é o que a maioria queremos.

A prática do feminismo é muito importante para mim neste momento. Além dos discursos teóricos sobre o feminismo histórico e os novos feminismos, eu penso que nada faz sentido se essa teoria não se materializa em coisas concretas. Se a mulher de bairro da Crunha, por exemplo,  ou a rapariga do liceu, não percebe o feminismo como algo positivo para ela,  depois de tantos anos de luita, então toda a teoria e argumento perdem para mim o seu valor.

Como o reintegracionismo, o feminismo também tem de ser socialibizado.


PGL – Actualmente, também participas num projecto de cooperativa de consumo responsável. Fala-nos disto.

Mariola Mourelo – Bom, é um projeto cooperativista com o objetivo de criar espaços de relação direta entre produtoras e consumidoras, de potencializar a produção ecológica, a economia local e a consciencialização da consumidora como parte importante deste processo. Uma atividade tão básica como a de fazer a compra tem umas consequências na comunidade e no mundo inteiro imensuráveis. Essa maçã que compramos no grande supermercado francês,  foi talvez produzida num país a milhares de kms, numa granja propriedade duma empresa dos Estados Unidos, e com uma perigosa carga de pesticidas. Uma maçã de duvidosa salubridade e procedência. As labregas e a população em geral do país produtor raramente se vê  beneficiada com a exploração maciça do seu território, tanto a nível económico como social e ambiental. E as labregas de aqui encontram-se com um mercado inacessível para os seus produtos. O consumo responsável é a tomada de responsabilidade por parte da consumidora do impacto que tem localmente e globalmente o consumo de alimentos, e também do seu poder como ferramenta de pressão para mudar a sociedade.

O projeto levá já bastante tempo em marcha e eu aderi-me há aproximadamente um ano. Neste momento estamos já a finalizar o processo legal e com toda a probabilidade poderemos começar a atividade da cooperativa em janeiro do próximo ano. O mais chamativo é a diversidade das sócias, e o grande sucesso que está a representar na Crunha, uma cidade com pouca atividade social, embora isso esteja a mudar muito nos últimos tempos.

O consumo de produtos será a atividade principal mas também vai ser muito importante o labor de formação e divulgação que se prentende fazer. Não se quer ser simplesmente um ponto de venda de produtos ecológicos, como também ser parte dum processo de transformação dos hábitos alimentares da população da cidade.


PGL – Como foi o teu primeiro contacto com o galego? Vem de sempre ou és neo-falante?

Mariola Mourelo – Toda a minha família é galego-falante, mas como é habitual na Galiza, sobretudo nas cidades, ainda que cada vez mais também no rural, fui educada em espanhol, e não  foi até o final da minha adolescência que me passei ao monolinguismo em galego. Foi uma decisão inicial de sentido comum. Um dia  reparei em que os meus pais falavam em galego entre eles, e quando se dirigiam a mim falavam-me em espanhol, o meu irmão já se passara ao monolinguismo em galego, senti-me como uma estrangeira na minha própria família. Pareceu-me uma situação absurda e uma bobagem e comecei a falar em galego. Depois tornou-se uma questão política e já nunca voltei a falar em espanhol na Galiza.

Verdadeiramente o processo foi mais complexo e longo, mas basicamente iniciou-se assim. Não deixei de falar em espanhol, mas na Galiza utilizo o espanhol da mesma forma que posso utilizar o inglês; com pessoas estrangeiras, e/ou que levam só uns dias a morar na Galiza.


PGL – O que dirias a umha pessoa que tenha dúvidas para passar-se ao monolingüísmo em galego?

Mariola Mourelo – Pois que é importante viver com uma certa coerência, não sei se ajuda a viver melhor, mas sim mais feliz. Os benefícios de falar galego a nível pessoal e de fortalecimento da personalidade são muito grandes, e nesta vida antes do que fazer com que os demais gostem de nós, temos é de gostar de nós mesmas.


PGL – Nos dias de hoje é realmente tam difícil viver em galego nas cidades galegas, ou as sensibilidades som outras?

Mariola Mourelo – Não é dificil, é impossível. O que se normalizou não foi o galego, mas o espanhol, e mesmo em contextos onde antes era mais habitual o uso do galego hoje em dia está a ser mais difícil. Por outro lado, o impacto do uso de galego em contextos tradicionalmetne espanhol-falantes semelha ser mínimo. Mas o pior, do meu ponto de vista, foi a incapacidade do movimento nacionalista/galeguista, das mães e pais, supostamente conscientizados na problemática da língua, e que estão a ver no dia a dia como as suas crianças abandonam o galego para se passarem ao espanhol… em se involucrar em iniciativas para uma educação plurilingue desde galego, como foi a iniciativa das Galescolas da VOGAL, e de tomar ação individual e coletiva para parar o processo de espanholização das suas crianças. Antes de transformar a sociedade teremo-nos que transformar a nós mesmas, e para isso há que tomar responsabilidades e atuar.

 

 

Conhecendo Mariola Mourelo:

  • Um sítio web: ‘Afterimage: The journal of media arts and cultural criticism’ revista de vanguarda na crítica da cultura e arte visual http://www.vsw.org/ai/
  • Um invento: A Internet (apesar de tudo…)
  • Uma música: Feelings cantada por Nina Simone no Festival de Jazz de Montreal em 1975, absolutamente emocionante.
  • Um livro: O segundo sexo de Simone de Beauvoir, uma leitura imprescindível, ainda hoje, para mulheres e homens (particularmente o segundo livro).
  • Um facto histórico: O discurso antiglobalização de Salvador Allende na ONU em 1972!!!
  • Um prato na mesa: Cozido de Carnaval
  • Um desporto: hem… talvez na próxima vida.
  • Um filme: Léolo de Jean-Claude Lauzon (1992)
  • Uma maravilha: Acordar às 5 da manhã em Pirambú, no Brasil, dar um passeio na praia quando ainda não amanheceu e ver as tartaruguinhas recém-nascidas lutar contra tudo para chegar ao mar.
  • Além de galega: Internacionalista, das que tiram proveito da construção de identidade mais específica para aprender e desfrutar das multi-identidades humanas do planeta Terra, considerando-as todas senão interessantes, pelo menos respeitáveis.

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