Partilhar

Maria José Queizám: «A Galiza, a mãe do idioma, deve reclamar um posto de relevância na comunidade internacional da sua língua»

Margarida Martins – A viguesa Maria José Queizám, catedrática de língua e literatura galega, é umha mulher pioneira na Galiza em campos como o da luita feminista, compromisso que reflecte bem claramente na sua alargada obra literária, o que lhe tem valido um reconhecimento geral. Quigemos conversar com ela, para isso pedimos para ter um encontro e aceitou. E falamos de língua, mas nem só.

Margarida Martins — Como foram os teus começos no mundo da literatura?

Maria José Queizám — Ler e escrever som actividades ligadas. Lia muito de nena. Tinha a biblioteca do meu pai e o meu avô à minha disposiçom. Comecei a escrever aos 12 anos uns textos de escárnio (que cantávamos com a música de canções conhecidas) contra as professoras de Falange que nos davam as “marias” e os “princípios do espírito nacional”.

No Instituto de Cáceres, onde estudei dous cursos de Bacharelato, seguírom cantando muitos anos depois de eu tê-lo abandonado.

As minhas primeiras publicações foram entrevistas no El Pueblo Gallego quando tinha 17 ou 18 anos. Depois escrevim a novela objectalista, iniciada em Paris aos 22 anos, A Orella no Buraco, e publicada mais tarde no ano 1965. Estivem 10 anos sem escrever. Depois reiniciei umha actividade mui intensa até hoje.

MM — Como valoras as mudanças que se têm produzido tanto no campo das nossas letras como no campo social da percepçom da língua?

MJQ — Mui positivamente. Na infância da minha filha e filho, ao falar-lhes galego, por exemplo num comércio para lhes mercar sapatos e roupa, como nom nos viam aspecto de aldeia, perguntavam: “a nena é portuguesa?” e assim. Tenho muitas anedotas sobre a estranheza que causava falando galego em Vigo.

Hoje, quando me dirijo em galego em qualquer ambiente da cidade, o habitual é que me respondam na mesma língua. O facto de ser o galego matéria de ensino contribuiu muito à mudança. Ainda que nom usem o galego acotio, a juventude é competente na língua e medrou o seu prestígio.

Quanto à literatura, ampliou-se o número de escritoras (mormente) e escritores e de leitoras/es. Igualmente os géneros ou a temática. Há anos éramos poucas/os os que tocávamos umha temática urbana. Também se intensificou a traduçom.

MM — Para o nacionalismo galego a declaraçom de português e galego ser uma mesma língua era umha tautologia. Isso nos anos sessenta começava a mudar, nom achas?

MJQ — Paradoxalmente, a introduçom da língua nos ambientes universitários e profissionais restou-lhe altor e rebaixou-na a níveis funcionariais. Organismos, em principio positivos, como o Instituto da Língua (1971), dirigido polo asturiano Constantino García, afastárom-se do universal para centrarem-se no particular: a Dialectologia (especialidade do director), a Lexicografía, a Fonética, ou seja, a ressaltar e conservar o galego rural, popular, que nos arredava do original e universal. Centrárom-se no estudo sincrónico da língua com umha postura populista e relegárom o diacrónico.

No extremo oposto está a figura de Carvalho Calero, que contribuía através das aulas na Universidade a propagar entre as turmas a certeza de umha língua comum com o tronco português. Esta linha tivo menos influência e apoio político. E nom só por parte do sector pinheirista. Os representantes da esquerda nacionalista também se situavam maioritariamente no populismo lingüístico.

Eu, que som urbana, que nom mamei o galego, que adoptei a língua voluntariamente e conscientemente, era mal considerada pola minha deficiência fonética.

MM — Tu sempre foche reintegracionista nos gestos mas nos anos 80 acreditache na prática “oficial”. Pensas que isso foi um erro?

MJQ — Continuo a ser defensora da incorporaçom da Galiza ao tronco lingüístico comum. Os meus textos, como A Falácia do Galego Português, provam o que digo. Mas nom me sentia com gosto discutindo com amizades e enfrentando-me com gente mais afim que a que defendia o espanhol, por exemplo.

As guerras fratricidas indignam-me. A desuniom dá poder ao inimigo. Quanto à língua literária, já é umha limitaçom escrever em galego para, ainda, escrever num galego nom oficial, com dificuldades de publicaçom e leitura.

A minha ideia é política. Acredito que é o Governo quem tem que acometer esta empresa. Neste sentido escrevim ao Bipartido, sem êxito. Nom se arriscárom. Estavam ocupados no quotidiano, no particular, na sua ‘tendinha’. Para acometer esta empresa é necessário ter um ponto de vista amplo e um conceito da Galiza de maior altura.

MM — És também umha mulher comprometida com a causa do feminismo, campo em que levas desenvolvido umha grande actividade. Encontras algumha semelhança entre a problemática da discriminaçom das mulheres e a situaçom da nossa língua?

MJQ — No meu primeiro livro de ensaio já publiquei um texto: A Lingua Galega e a Muller, análise de duas opressões. As opressões e marginações adoptam atitudes paralelas. Aludo à ideia de valor, de prestígio… Configuro da ordem hierárquica, o status de poder. Comparo os preconceitos, as idealizações, o reducionismo, os tópicos como engano psicológico. Também em que consiste a normalizaçom.

MM — A nossa língua é internacional; para a Lusofonia nós pouco significamos, mas achas que a Lusofonia é um espaço para os nossos interesses culturais e de todo o tipo?

MJQ — Antes de pedir aos demais para nos reconhecerem é preciso reconhecermo-nos e valorar-nos bem.

A Galiza, a mãe do idioma, deve reclamar um posto de relevância na comunidade internacional da sua língua.

A globalizaçom e a consciência democrática facilitam-no.

Pessoas preocupadas por este país, polo seu progresso (as autoridades em primeiro lugar), polo seu bem-estar, devem compreender que só integrando-nos na comunidade lingüística internacional conseguiremos segurança, auto-estima e a altura cultural e económica que tanto precisamos.

Falar da morte do galego, desta perspectiva, é umha insensatez.

 

 

 

 

 

+ Anteriores entrevistas para Lusofonia é Vantagem:

Lançamento de Begonha Caamanho, uma das nossas, em Lugo

Ângelo Brea apresenta Ensinamentos de Rahotep em Bertamiráns

Através Editora publica Ensinamentos de Rahotep, de Ângelo Brea, obra ganhadora do I Prémio de Criação Literária da Cátedra Carvalho Calero da USC

Lançamento de Tourists, go home? Em Ponte Vedra

Os artigos dos topónimos no novo Nomenclátor

Juan Luis Fernández apresenta o livro Futebol Gaélico em Celanova

Lançamento de Begonha Caamanho, uma das nossas, em Lugo

Ângelo Brea apresenta Ensinamentos de Rahotep em Bertamiráns

Através Editora publica Ensinamentos de Rahotep, de Ângelo Brea, obra ganhadora do I Prémio de Criação Literária da Cátedra Carvalho Calero da USC

Lançamento de Tourists, go home? Em Ponte Vedra