Língua materna?



Qual será a minha língua materna, a língua da minha mãe ou a língua que me falava quando menino? E isto aconteceu por que? Por que me dava o leite das suas mamas enquanto me negava a língua da sua boca?

A língua apreendeu-na na escola, antes não sabia nenhuma.

Então, a que por sua vez lhe tinha ensinado sua mãe não era uma língua?

Não, não era. Era apenas a fala das velhas…

Mas a gente falou por milénios essa língua… E se a gente não conhecer a língua das velhas, como se comunicará com elas?

Não te preocupes com isso. Já quase não restam dessas velhas.

Mas… elas são o nosso passado vivo! São as nossas raízes, são as fontes do nosso sangue! São o húmus da Terra!

Aqui ninguém se vira para olhar o passado, nem venera as suas raízes nem respeita as fontes. Quanto ao húmus, apenas produz ervas, e estas somente dão trabalho!

Então a gente foge das velhas e do passado porque representam as penalidades do trabalho?

Isso é. Representam os tempos do trabalho escravo.

Compreendo agora melhor. A minha mãe não me falava galego quando menino porque pretendia salvar-me da escravidão. A minha mãe ama-me, e isso não é algo que eu tenha que perdoar.

 

Alfredo Ferreiro

Alfredo Ferreiro

Alfredo Ferreiro nasceu em 1969 na Corunha, onde estudou Filologia Hispânica. É membro da Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega, da Associaçom Galega da Língua e do Grupo Surrealista Galego. Tem publicado vários livros de poesia, individuais e coletivos. Desde a décadada de '90 colabora como poeta e crítico em revistas galegas e portuguesas. Dirige a revista digital de artes e letras Palavra Comum, orientada para o âmbito lusófono. Atualmente é coordenador do Certame de Narracións Breves Manuel Murguía de Arteijo.
Alfredo Ferreiro

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  • Ernesto V. Souza

    Obrigado Alfredo, eu nunca falo em língua materna, sempre falo de Língua de cultura. Para mim o galego e o português são códigos cultos. O meu latim.

    • Alfredo Ferreiro

      Para mim o galego é um retorno sonoro à família em que ouço o sussurro dos ancestrais e o mais prezado passado faz sentido. O português é a minha língua de cultura, como quer que se escreva, à espanhola ou à portuguesa, com seus -em ocasiões- díspares valores científicos e sociais. É uma daninha falácia nacionalista entendermos que pode haver outras hipóteses gráficas, mas esta libertária e ineludível afirmação de Calero é uma pataca para [email protected] difícil de engolir. Há quem não pode sair do círculo e do seu triângulo inscrito: 1nação=1estado=1lingua.

  • Heitor Rodal

    Muito bom.

    Acho que para não poucos, antes que língua materna, o galego tem sido principalmente já língua “avoerna”, mesmo depois de ter deixado de ser “língua materna/paterna” entre avó ou avô e mãe ou pai.