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Joám Guitiám, professor de inglês, adepto do Desportivo e novo sócio da Agal

PGL – Joám Guitiám  é professor de inglês, no sector privado, na Corunha, a cidade onde nasceu. É adepto do Desportivo, está  ligado emocionalmente à Irlanda e acha que há umha visom estereotipada da Corunha quanto às práticas linguísticas.

PGL – Estás a trabalhar dando aulas de inglês. Achas que a tua visom da língua ou o contacto com o português podem revelar-se benéficos para a tua profissom?

JG – Hei de admitir que nom tenho trabalhado muito, praticamente nada, com materiais portugueses à hora de dar aulas de inglês. Mas acho que o conhecimento duma outra língua como é o português, embora muito imperfeito, sempre implica um enriquecimento na base de comparaçom de línguas de que pode tirar proveito um docente. Acho altamente produtivo o trabalho que se pode realizar em fonética aplicada com falantes galegos e estudantes de padrom, por todos os pontos coincidentes com certos sons ingleses.

PGL – Como é a vida de um galego-falante na Corunha? É umha cidade tam hostil à língua como dizem? Qual foi o teu percurso nesse sentido?

JG – De certo a Corunha, como outras cidades na Galiza, pode resultar num ambiente hostil à  língua. Mas existe umha outra realidade para além do estereótipo que confirma múltiplos ámbitos de resistência activa e mais passiva à pressom do espanhol. É possível viver numa Corunha dos bairros num monolinguismo galego. A cidade também oferece um campo de interacçom entre as distintas variantes dialetais do galego muito enriquecedor e que nom se têm explorado satisfatoriamente.

Quanto ao meu percurso como falante da língua, confirmo a passagem duma militança mais visceral, produto da adopçom do galego como única língua veicular, a um uso mais sossegado em que a normalidade venha mesmo a marcar a norma de intercámbio com os utentes das duas línguas na Corunha.

PGL – Há  quanto tempo tés contacto com o reintegracionismo? O que achas mais e menos atraente nesse movimento?

JG – É já um contacto de longa data, embora só neste último ano tenha decidido dar o salto cara o uso normal da norma padrom. Diria que os meus primeiros contactos à sério venhem da época de caloiro no monte da Sapateira. (Universidade da Corunha)

O que mais valorizo das possibilidades do reintegracionismo é a via tam enriquecedora que oferece à língua galega. Se calhar o que nom vejo tam positivamente é a repetida incapacidade de alguns reintegracionistas para viver e actuar conforme a realidade do país.

PGL – Que visom tinhas da AGAL? O que te motivou para te inscreveres? O que esperas da associaçom?

JG – Durante muito tempo a figura da AGAL foi a duma organizaçom fortemente intelectualizada e mesmo politizada. Acho nom apresentava umha alternativa à deriva do galego cara posturas oficiais de achegamento ao castelhano.

Umha das principais razons que me animam a me inscrever foi a de perceber um troco generacional nos seus quadros, que caminham por umha via de normalidade impossível de atingir no funcionamento anterior.

O que espero da AGAL num plano social é fornecer ferramentas de trabalho cara a adopçom duma norma galega realmente independente do mundo castelhano. No pessoal gosto duma plataforma que facilita as relaçons entre pessoas galego falantes e com iniciativas conducentes ao fortalecimento duma sociedade normalizada em galego.

PGL – Há  muitos anos que és sócio do Desportivo da Corunha. O que poderia fazer a AGAL no âmbito dos desportos?

JG – No âmbito do léxico existe um grande campo de acçom para grupos do tipo AGAL. A realidade é que mesmo pessoas com a vontade de falar e escrever em galego tenhem de usar um léxico espanholizado quando estám a falar de futebol.

Outro ponto onde se poderia trabalhar é na criaçom de ligaçons entre grupos de siareiros galegos e portugueses e a questom da língua poderia virar ao direito de seu.

PGL – Tés umha relaçom mui estreita com a Irlanda, tanto por teres morado ali como por conheceres muitos irlandeses na Galiza. Como foi evoluindo a tua visom desse país ao longo dos anos?

JG – Possivelmente a minha visom foi mudando desde posturas mais românticas cara um achegamento mais realista ou pragmática. Continua a ser um lugar com o que tenho umha forte ligaçom emocional  quanto a amizades e experiências, mas também é umha conexom com o mundo profissional do inglês. Gostava mesmo de assinalar que umha das minhas lembranças mais positivas é a do meu convívio com portugueses em Dublin. Curioso quadro para a normalizaçom da língua.

PGL – Como percebem os irlandeses e anglo-saxons que tu conheces a questom da língua na Galiza? Tés falado com eles de reintegracionismo? O que achárom?

JG – Os irlandeses que eu conhecim adoitam reagir dum jeito positivo à realidade linguística do país. Já for pola existência na sua terra duma situaçom de imposiçom linguística, ou por umha sensibilidade pessoal face as minorias. Acho que o pessoal que nom partilhar estes postulados nom estám a descriminar simplesmente o galego, mas recusam-se a falar espanhol sem mais.

Tenho observado mais resistência à língua por parte de súbditos británicos. Nestes casos alguns manifestam umha maior abertura ao explicar que o galego fai parte do ámbito da lusofonia. Mas cumpre lembrar que estamos a falar de gente que numa grande percentagem ignora ou dispõe de escassa competência na língua veicular dos nativos, for esta espanhol ou galego.

PGL – Viajaste a algum país com o português como língua oficial? Mudou a tua visom da língua depois de teres estado ali?

JG – Nesta altura tenho visitado o norte do Portugal continental mais a ilha de São Miguel nos Açores.

O facto de ter estado nesses lugares tem-me alicerçado nos meus posicionamentos reintegracionistas. Torna-se difícil explicar no espaço duma entrevista, agora o certo é que por múltiplas razons que nom têm apenas que ver com a língua, mas com a história, cultura, filosofia, etc…

PGL – Que linha de atuaçom achas que deve privilegiar a AGAL: académica, difusom social do reintegracionismo ou as duas?

JG – Com certeza o melhor caminho em que a AGAL pode pegar é o do sentido comum. Já  priorize o trabalho académico, já o social, os resultados ham de ser sempre melhores com posturas realistas, integradoras e sem o som a certos sermons que no passado tanto bem fizeram ao reintegracionismo.
Se bem entendo que ao existir umha Academia da Língua de recente criaçom, se calhar a AGAL deveria encetar umha outra linha de actuaçom mais virada para o divulgativo e social. Neste ponto nom sou muito optimista pois a deriva académica acho resulta muito forte num grupo humano como o da AGAL.

PGL – És umha pessoa de raigame fundamente sebastianista e psique torturada pola vinda do Quinto Império. Achas que a Agal é um movimento de tipo milenarista? Em que sentido?

JG – A escolha da vinda do Quinto Império para falar da AGAL acho muito acertada. Neste cantinho da lusofonia há homens como aqueles velhinhos que o Raul Brandão atopou na ilha de Flores, aguardando a vinda do reino da canícula e dos justos. Agora bem, como já disse, o AGAL pode e deve mudar se é que quer exercer como agente transformador. Alguns dirám: é que se pode transformar qualquer coisa?… Eu nom acredito em respostas muito afirmativas a esta incerteza. Meu contributo há de ser fazer calar esse surdo bruar do nevoeiro.

 

Conhecendo o Joám Guitiám:



  • Um sítio web: Ainda fica por conhecer. Qualquer um que nos tire da ilusom do movimento. Algum quem como aquela taberna duma ruela corunhesa nom mudou o menu em 30 anos.
  • Um invento: Até que alguém me mostre o meu grande erro, a imprensa. Nengum dos modernos e imprescindíveis inventos pode fazer-me feliz da mesma maneira.
  • Umha música: Polo seu poder evocador “O Nevoeiro” de Amélia Muge e letra do Pessoa. Depois é mister ouvir um cantar ao desafio de qualquer beira do Minho.
  • Um livro: Gosto da prosa do Ribeiro, da poesia do Pessoa e espero ter tempo para aprofundar na história da língua.
  • Um facto histórico: A trazida da batata da América, ou o intre em que o primeiro faminto pega num polvo para o comer. Acho o resto serem historiazinhas para as crianças se entreterem e sonhar a serem homens.
  • Um prato na mesa: Churrasco ou atum grelhados.
  • Um desporto: Futebol sempre… com algo de remo.
  • Um filme: Shawshank Redemption. Feita por um tal Darabont no ano 1994. Umha história muito bem contada sobre homens a viver numa prisom e do sentido que eles dam às suas vidas. Umha dessas obras singelas que nom deve ser tam singelo escrever, à vista de tanta insuportável obra complexa da fábrica autonómica.
  • Umha maravilha: Que tanto desimportado da vida insista em ter crianças.
  • Além de galego: Nom percebo o sentido desta pergunta, mas se o que quer dizer é se me interesso por algo além das nossas fronteiras, a resposta é sim. Gosto de ler todo o que poda na língua original, nomeadamente em espanhol e inglês. Tenho de reparar a dívida com o francês e fazer justiça algum dia com o irlandês que falam algumas das minhas amizades.

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