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Fernando Pinto Coelho: “Preconizo o estudo e a investigação para melhor servir a comunidade. A razão e a sabedoria, com muita humildade e amor fazem milagres”

Trabalhou desde muito cedo em gabinetes de arquitectura e fez parte de um grupo de intervenção artística. Foi reconhecido como artista plástico e, por causa do seu currículo (pintor, designer, performer, cantor, bailarino, actor e arquitecto), entrou para dar aulas na Escola Superior de Belas Artes, precedente da Faculdade de Belas Artes do Porto. Agora está reformado, embora -como ele mesmo diz- “esteja sempre disponível para fazer qualquer trabalho”.

Com Fernando Emanuel de Lemos Pinto Coelho (Cumeada – Coimbra, 1951), participante do grupo de comunicação “O Mundo Fala Galego“, conversamos demoradamente a respeito do passado, do presente e do futuro.

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Diga-nos, Fernando, quando e como tomou conhecimento da existência da Galiza? Gostaríamos de saber quando tomou consciência de que na Galiza está o berço do nosso idioma.

Desde sempre soube que Portugal foi parte da Galiza e que dela se apartou em 1143 para não ficar dependente de Leão e depois de Castela. Também desde muito cedo soube que o nome Callaecia está ligado ao nome do povo “os Calaicos”, ou “Kalós” que habitavam as duas margens do Rio Douro controlando o seu seu Porto de abrigo por onde exportavam o ouro das explorações mineiras a montante. O nome de Portugal é exactamente a junção das palavras porto + KALOS.

Outro tanto ocorre com a língua?

A língua galega tem como origem o latim usado pelo povo mais ocidental da Europa. Essa língua usada por povos que se dizem de origem celta, mas que sabemos tiveram contactos com muitos outros povos porque faziam a mediação e comércio entre os povos de Mediterrâneo e os do Mar do Norte.

Quer dizer que temos outros substractos, além do de origem céltica?

Encontraram-se muitos vestígios dos fenícios (há quem diga mesmo que eles eram originários daqui), gregos, cartagineses, romanos, assim com uma multitude de povos do Norte e centro da Europa.

Com a força moral deste conhecimento da história, começou a participar activamente na sequência da aproximação dos nossos povos. Como foi o processo?

Quando há anos correu o boato que a ligação ferroviária entre o Porto e a Corunha ia terminar, abri um grupo na interrede para debater questões de poder, soberania e da língua. Esse grupo chamava-se GALAICOFONIA. Na altura procurei na internet se haveria alguém que usasse esse nome e não tive notícia de ninguém.

Que temas se tratavam nesse grupo?

Limitei-me a discutir questões relacionadas com a língua galega em uso em Portugal e a língua que impropriamente na Galiza dão a um castrapo preconizado pela RAG para impôr ao povo galego como a sua língua.

Com essa filosofia de fundo… com certeza que houve divisão de opiniões!

De início fui muito mal tratado por todos os galegos agora vejo que há mais gente a pensar como eu.

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Depois apareceram os grupos Porto-Galaicofonia e o Mundo Fala Galego. Como foi a sua criação?

Não sei como foram criados esses nomes e esses grupos. Sei só que fui o primeiro em Portugal a lutar contra o uso do nome ” lusofonia” e a preconizar em troca o nome de GALAICOFONIA. Mesmo muitos galegos que concordavam comigo continuavam a falar da língua galaica de Portugal como se fosse uma língua de variação “lusa”.

A questão terminológica é importante. Não é o mesmo falar em Lusofonia do que falar em Galaicofonia.

A minha preocupação não é a de aproximar povos é antes sim de repôr a verdade. Existe uma cultura galaica e uma língua galega que cedo começou a ser preterida pela língua castelhana. Hoje em dia, além de muitos a continuarem a minimizar confundindo-a com o castelhano, estamos sujeitos a prepotência da língua inglesa.

Pensa que estes com estes novos grupos estaremos mais e melhor informados a respeito da “Questão Galega”?

Claro que existirem grupos é um bom contributo para a discussão. Infelizmente quer na Galiza quer em Portugal quer no Brasil as pessoas acreditam naquilo que aprendem nas escolas e no que é vinculado pelos meios de comunicação de massa. Torna-se penoso tentar explicar a verdade e a maior parte preferir aderir a mitos nacionalistas criados para gerir e manter poderes instituídos.

É grave quando reparo que muitos nacionalistas dizendo-se de esquerda tomam medidas que anulam os seus objectivos. Os galegos chamarem à língua de Portugal de “lusa” e os adeptos da aproximação à língua portuguesa se auto proclamarem de lusistas deitam tudo a perder, dão autênticos tiros nos pés.

Por isso sinto-me agredido e muito mal tratado quando galegos querem entrar para a “lusofonia” preconizando eles próprios uma língua que, em lugar de se aproximar com a de Portugal, se afasta irremediavelmente.

Além da situação da língua, de que outros temas fala nesses grupos?

As minhas afinidades são muitas tenho dificuldade de me apartar de qualquer assunto. Estou profundamente envolvido em questões relacionadas com o património: património arquitectónico, ordenamento urbano, ordenamento rural, restauro e projectos de construir o novo com sentido sem adulterar o que herdámos, mas também sem o tratar como um cadáver com o qual não se pode viver.

O património vivo.

Isto é acredito que um património vivo não tem que servir a especulação imobiliária nem, como no caso da língua, obrigar a usar o resultado de uma investigação arqueológica, ou congelá-la como se o seu uso a estragasse. Ao contrário: preconizo o estudo e a investigação para melhor servir a comunidade. A razão e a sabedoria, com muita humildade e amor fazem milagres.

Humildade e muito amor que tentam transmitir as páginas do Portal Galego da Língua. Nós queremos encorajá-lo a continuar com esse labor de divulgação, tão necessário.

Ficarei feliz se cada um conseguir fazer o labor para o qual se sente mais eficaz.

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