Diego Bernal e Xoán Lagares: “Muitos dos problemas do galego seriam resolvidos se ouvíssemos Carvalho”



978e7a99-3d7d-4d84-a30b-b5623a6160a0O presente livro recolhe 12 textos de Ricardo Carvalho Calero focados em diferentes ângulos da realidade linguística na Galiza. Que guiou o vosso processo de seleção? Porque estes textos?
Os artigos de Carvalho Calero recolhidos na Antologia foram publicados nas décadas de 70 e de 80. É nessa etapa quando o professor se dedica de forma mais intensa a pensar a língua, sem dúvida por causa do momento histórico que se estava a viver, de abertura política e de novas possibilidades sociais para o galego, após a morte do ditador e a constituição do Estado das Autonomias. Nesse sentido, Carvalho Calero é um galeguista clássico, sempre disposto e disponível para cumprir a função que se tornava necessária em cada momento histórico, que põe o seu saber filológico, até aquele momento mais centrado na história e na crítica literária, a serviço de uma necessária e inadiável política da língua, que começa pela constituição de um “galego comum”. Na diversidade de textos dessa época, artigos, conferências, resenhas, selecionamos aqueles que nos parecia que de uma forma mais clara e direta abordavam questões fundamentais: a formação histórica da língua galega e o seu lugar entre as línguas românicas, o conceito de língua e a relação entre escrita e oralidade, o papel da norma-padrão na delimitação política da língua, o conflito linguístico e a política linguística do galego como idioma minorizado. Também selecionamos dois breves textos sobre questões linguísticas, lexicais e gramaticais, mais concretas, que exemplificam a sua preocupação pela fixação de um modelo de galego culto.

Carvalho Calero é um galeguista clássico, sempre disposto e disponível para cumprir a função que se tornava necessária em cada momento histórico, que põe o seu saber filológico, até aquele momento mais centrado na história e na crítica literária, a serviço de uma necessária e inadiável política da língua, que começa pela constituição de um “galego comum”.

 

O mais simples teria sido uma seleção de textos precedidos de um prólogo mas destes mais um passo incluindo, para cada texto, umas perguntas prévias, umas posteriores e propostas de pesquisa bibliográfica.
Pensamos em elaborar uma proposta didática mais completa, que explorasse a leitura dos textos entendendo que ler é um processo de construção de sentidos. A nossa intenção é oferecer elementos que facilitem a aproximação aos textos e a sua compreensão por um jovem leitor de hoje, interessado na questão da língua, mas não especialista em estudos de linguagem. Para isso, propomos atividades de pré-leitura, com perguntas e questionamentos centrados na reflexão sobre os conhecimentos prévios, as opiniões e informações que o/a leitor/a já tem, como uma porta de entrada ao texto. Nessas questões iniciais, antes da própria leitura, também buscamos fazer uma atualização dos assuntos abordados no correspondente texto de Carvalho Calero, para que o/a leitor/a possa relacionar o que já sabe, pela sua própria experiência atual, com aquilo que o velho professor propunha quatro décadas atrás. Com as perguntas de leitura chamamos a atenção para aspectos que nos parecem centrais para a compreensão do texto, tentando fazer com que o/a leitor/a identifique informações importantes ou faça as inferências necessárias para dar sentido ao que acabou de ler. Finalmente, numa fase de pós-leitura, tentamos formular propostas de pesquisa mais largas, para ampliar as reflexões que o texto propõe, com o suporte de referências bibliográficas atualizadas sobre esses mesmos assuntos.

A nossa intenção é oferecer elementos que facilitem a aproximação aos textos e a sua compreensão por um jovem leitor de hoje, interessado na questão da língua, mas não especialista em estudos de linguagem. Para isso, propomos atividades de pré-leitura, com perguntas e questionamentos centrados na reflexão sobre os conhecimentos prévios, as opiniões e informações que o/a leitor/a já tem, como uma porta de entrada ao texto.

Com esse aparelho de leitura gostaríamos de cumprir dois objetivos:  tanto facilitar a leitura e a compreensão de textos sobre a língua galega que têm certa dificuldade teórica e argumentativa, quanto possibilitar um diálogo mais abrangente com eles, atualizando a reflexão que propõem. Temos a convicção de que dialogar com os textos de um escritor é a melhor homenagem que se lhe pode fazer, e a relevância do pensamento linguístico de Carvalho merece que esse diálogo seja profundo e sincero.

capa livro antologia carvalhoRicardo Carvalho Calero foi requerido para elaborar uma História da Literatura, uma Gramática, um romance… e ele acedeu a isso e mais. Língua e Literatura, uma dança fértil?
Além dessa disponibilidade militante de que falávamos antes, pela própria condição minorizada do galego, qualquer escritor na nossa língua deve realizar um trabalho de elaboração linguística que um autor de uma língua hegemônica, com uma ampla tradição normativa, não precisa enfrentar. Como se todo escritor em galego tivesse de ser também, em parte, um gramático/linguista, fazedor da própria língua literária. A sólida formação filológica de Carvalho permitiu-lhe realizar trabalhos fundamentais para a cultura galega, em ambos os âmbitos. Por outro lado, para ele a língua elaborada, de cultura, normatizada, só podia ser a língua literária, de acordo com a ideologia do nacionalismo linguístico que assumia. Para essa ideologia, dominante desde o século XIX, os autores literários considerados canônicos representariam a essência do idioma; por serem os seus cultores, seriam responsáveis pela elaboração de um modelo de língua ao qual deveriam aspirar todos os usos sociais. Para uma língua em situação minoritária, como a galega, afastada da administração pública, dos meios de comunicação e do ensino, em que os “usos cultos” ficavam restritos à prática militante de um pequeno grupo de ativistas culturais e políticos, com efeito, todo o peso da elaboração linguística, para dar conta das funções sociais de prestígio, recaía sobre os/as autores/as literários/as.

Qual era a perspetiva do autor sobre o facto linguístico em geral, quais eram os seus referentes?
A visão histórica das línguas peninsulares estava pautada, no pensamento linguístico de Carvalho Calero, pelo relato construído por Ramón Menéndez Pidal e ampliado e divulgado pela Escuela Española de Filología. Segundo essa perspectiva histórica, formaram-se na Península Ibérica três faixas linguísticas que deviam corresponder a três línguas (literárias, históricas). É a partir desse relato que surge a comparação entre a consideração histórica do bloco iberromânico central, que corresponde ao castelhano-andaluz, e do bloco iberromânico ocidental, que é o do galego-português. Nesse último caso, a constituição de uma fronteira política interferiria no que Ricardo Carvalho Calero considera que deveria ter sido o resultado histórico “natural”, a constituição de uma mesma “língua literária”. A identificação entre bloco linguístico histórico e sistema se nutre da teoria estruturalista da linguagem, sobretudo a partir da releitura que Eugénio Coseriu faz da famosa dicotomia saussureana língua/fala, que ele, para dar conta da variação linguística, converte numa tricotomia sistema/norma/fala. Segundo essa interpretação, o bloco histórico galego-português constituiria um sistema linguístico, ou uma “língua histórica”, com diversas normas sociais ou “línguas funcionais”. A proposta política de Carvalho para o galego seria fomentar a convergência das falas galegas com a língua literária portuguesa, como modelo que deveria orientar os nossos usos.

O bloco histórico galego-português constituiria um sistema linguístico, ou uma “língua histórica”, com diversas normas sociais ou “línguas funcionais”. A proposta política de Carvalho para o galego seria fomentar a convergência das falas galegas com a língua literária portuguesa, como modelo que deveria orientar os nossos usos.

A perspectiva estruturalista é posta a serviço de uma ideologia da língua nacional que, por ser socialmente hegemônica no Estado espanhol, faz depender dessa convergência com uma língua literária de referência a própria “linguicidade” do galego. Para Carvalho, afinal, olhando a realidade de uma perspectiva sociolinguística, sem esse amparo numa longa tradição de língua escrita, não seria possível conquistar o status de língua nacional, pois o galego correria o risco de não superar a condição dialetal, de simples patois, sob a constante ameaça do espanhol.

Do nosso ponto de vista, uma das questões mais interessantes que levanta a leitura dos textos sobre língua de Carvalho é, precisamente, o alcance atual dessa ideologia da língua nacional, num momento histórico em que outros agentes intervêm no processo de elaboração da língua e de legitimação dos usos, para além dos autores literários do cânone erigido pela burguesia nacional. Também é interessante pensar na atual relação entre escrita e oralidade e no seu papel na construção de uma língua legítima, em tempos de superdiversidade e de extrema semiotização da vida social, quando convivem enunciados de concepção oral e escrita em diferentes meios de expressão.

Para Carvalho, afinal, olhando a realidade de uma perspectiva sociolinguística, sem esse amparo numa longa tradição de língua escrita, não seria possível conquistar o status de língua nacional, pois o galego correria o risco de não superar a condição dialetal, de simples patois, sob a constante ameaça do espanhol.

O autor é considerado o promotor intelectual da estratégia reintegracionista para a língua. Nos textos da presente edição, todos da década de 70 e 80, pode-se perceber com clareza a sua evolução?
A evolução percebe-se com dar uma simples olhadela aos textos, cada um deles escrito com soluções lexicais, morfológicas e ortográficas diferentes. É o caminho que ainda hoje percorrem muitos militantes do idioma que vão mudando a forma de escrevê-lo desde que são alfabetizados no ensino fundamental até a idade adulta. A evolução de Carvalho dá-se nestes anos porque está a produzir-se uma mudança sócio-política de calado que vai ter uma repercussão importante na comunidade linguística galega. Carvalho é consciente disto e assume o desafio, pondo o seu viçoso conhecimento linguístico ao serviço da sociedade galega com o único objetivo de abrir novas vias para garantir o futuro da língua galega. Hoje a pegada de Carvalho na língua e na sociedade galegas é imensurável, maior do que muitos consideram, mesmo em múltiplas escolhas adotadas pelo modelo normativo da Real Academia Galega.

Quanto a se é possível pensarmos hoje com Carvalho eu diria que não só é possível senão que é necessário. Sem dúvida, muitos dos problemas que hoje tem o galego seriam resolvidos se assumíssemos a responsabilidade de ouvir Carvalho.

Em que medida textos criados para o público do último quartel do século XX podem ser aproveitados por leitores e leitoras nesta década que começa? É possível pensarmos com Carvalho Calero agora?
Carvalho foi o linguista galego mais importante do século XX. A sua grande erudição, as suas reflexões argutas e a sua sábia experiência de velho galeguista, republicano e liberal que lutou a vida inteira contra toda forma de autoritarismo tornam os seus textos uma leitura obrigada para qualquer pessoa interessada na língua e cultura galegas e no fenómeno da linguagem humana. Se a isto acrescentarmos a altíssima qualidade da sua pena pouco mais pode ser dito para convidar à leitura dos seus artigos linguísticos. Quanto a se é possível pensarmos hoje com Carvalho eu diria que não só é possível senão que é necessário. Sem dúvida, muitos dos problemas que hoje tem o galego seriam resolvidos se assumíssemos a responsabilidade de ouvir Carvalho. Todo o dito nom impede que Carvalho, como qualquer ser humano, fosse filho do seu tempo. A ciência linguística avançou bastante desde finais do século passado graças aos contributos feitos polo variacionismo laboviano ou, mais recentemente, pola sociolinguística crítica e o sociocognitivismo. Carvalho, como explicamos no limiar da obra, debruça-se sobre a língua galega preso do arcabouço teórico do estruturalismo saussureano e da escola mendezpidaliana. Isto, como é lógico, tem o seu reflexo nos seus textos, sobretudo, no que respeita à sua conceição de língua e as relações entre escrita e oralidade.

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim

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