PGL – Daniel V. Ribeira, Ourense, 25 anos, está acabando os seus estudos universitários como técnico informático. Firme valedor do sofware livre, acredita nos bons argumentos acompanhados de cordialidade e para ele o e-Estraviz é … uma maravilha.
Daniel V. Ribeira é ourensano, umha cidade onde se pode viver em galego, nom é?
É em verdade umha cidade maravilhosa onde viver em geral e em galego em particular. Ao ser umha cidade nem mui pequena nem mui grande, tens todo quanto precisares perto; temos um pouco de todo o que oferecem as grandes cidades da Galiza sem deixar de sermos umha cidade clássica propriamente galega onde “todo o mundo se conhece”.
Para a gente que gostamos do galego, também nos oferece grandes possibilidades. Para já, em Ourense – ou quiçá só na minha contorna – nom chegou a transcender a questom do galego quer para bem quer para mal.
Nom vou enganar ninguém, o galego nom goza dumha situaçom hegemónica, aliás tampouco existe um sentimento de rejeitamento o que fai possível fazer umha vida em galego sem ter que aturar situaçons tensas ou violentas.
Porém, a normalizaçom linguística em Ourense é outro caso mais de fracasso, pois se bem é certo que a língua é respeitada, especialmente entre a mocidade, quase ninguém a escolhe como língua inicial.
Algumhas sugestons para quando visitemos Ourense?
Devo mencionar, já que a questom é vivermos em galego, A Esmorga – http://aesmorga.agal-gz.org/ -, um centro social bem perto do campus velho da Universidade e cheio de gente muito amável e acessível a que fico muito agradecido. Qualquer pessoa que quiger passar uns bons momentos num ambiente maravilhoso, tem de passar polo local e tomar umha cerveja ou o que quiger, garanto um sucesso seguro. Para umha maior estadia na cidade, também é um bom ponto de partida para saber das numerosas atividades e eventos culturais que lá ofertam e mais dos pessoal e personagens que os organizam.
Outra boa ideia é passear polas ruas velhas da cidade e percorrer as andainas de pedra que pisárom também os membros da geraçom Nós e outras gentes singelas, botar umha boa olhada, e deixar-lhe o resto à imaginaçom. Embora muitas vezes fará de nós presa a saudade, sempre ficará um sentimento de alegria e satisfaçom, pois se as ruas e as pedra galegas continuam em pé, também a cultura e a língua terám um lugar onde se sentirem próprias e procurar-se abeiro nos dias de chuva.
Como bom remate a este passeninho caminhar que eu recomendo, nom se pode entender a vida em Ourense sem parar nos Vinhos, onde temos presente essa outra nossa cultura do bom comer e beber; parar a tomar umha cunquinha de vinho do ribeiro e polvo à feira ou qualquer outro petisco do que gostarmos é simplesmente a coroaçom perfeita com que deixar umha boa impressom nas nossas mentes.
Umha parte importante da tua atividade associativa foi desenvolvida em OUSLi (Ourense Software Livre) http://www.ousli.org
OuSLi é umha associaçom pequena, tanto em número (apenas dez sócios), como em tempo (três anos).
Neste período de vida da associaçom, concentramo-nos em que a sociedade no seu conjunto alcançasse ou melhorasse o seu conhecimento do Software Livre (em adiante SwL). Assim, destinamos distintas jornadas anuais a desenvolvedores de software, outras à presença do SwL no ensino (fundamental!!!) e também procuramos comunicar-nos coas autoridades locais.
Dentro desta linha, OuSLi fijo e mantivo comunicaçom com outras associaçons, fundaçons e instituiçons nom já da Galiza mas de toda a Espanha de que também recebeu ajuda de várias formas. Neste senso mantemos umha relaçom de colaboraçom com Mancomum como outros grupos de usuários de GNU/Linux da Galiza.
Pessoalmente também participei nas traduçons ao galego(-castelám) coordenadas na lista G11n de Mancomum, mas um aportamento mais que humilde em comparaçom coa gente que lá ajuda, especialmente os membros dos projectos de Trasno e da Ciberirmandade da Fala. Por desgraça, co governo atual, Mancomum tem de desaparecer e tudo isto terá de ser levado exclusivamente polas associaçons, mas isto já estava previsto e já se estám a organizar para que o esforço deste tempo nom se estrague.
O governo, apesar do seu programa eleitoral, abandona à sua sorte o SwL… mais umha vez será o associacionismo e o incipiente tecido empresarial a que mantenha viva esta filosofia que consiste num modelo ético, um modelo de trabalho e um modelo económico. Ainda que algumha gente, por questons políticas, só fale do modelo económico, nom se entende nem cumpre o seu principal objectivo se deixa de lado o modelo ético e o modelo de trabalho ou social. Nom me vou estender mais porque isto daria para um relatório por si mesmo.
Porém, agora mesmo estou centrado noutro projeto para OuSLi, que tem como objectivo fazer crescer e aumentar a utilidade do nosso sítio público. Será um catálogo de aplicativos livres em galego e colaborativo: a própria gente que empregue a página poderá engadir ou modificar o catálogo, valorar, opinar, manter umha lista de favoritos, de amigos ou mesmo buscar um aplicativo privativo para achar as alternativas a ele ligadas pola comunidade… trata-se de fazer do catálogo um sítio vivo e dinâmico que se mantenha ao dia neste fugaz mundo dos aplicativos livres e permita dar soluçons e alternativas reais e práticas para gente sem conhecimentos nem técnicos nem de outras línguas.
Aguardo que esteja disponível numha primeira versom de funcionalidade básica para este Natal, mas existem já projectos para futuras ampliaçons.
Para Pichel Campos, engenheiro informático de Imaxin, o software livre é umha oportunidade estratégica para a Galiza se ligada co Brasil. Que opinas?
Sem dúvida!
Primeiramente, o SwL é umha oportunidade estratégica em si mesma. Para qualquer país o é. Galiza nom deixa de ser umha sorte de país em desenvolvimento – avançado, mas em desenvolvimento -. Polo próprio modelo de trabalho e o modelo económico é mais que desejável, é necessário. Por si mesmos já apresentam vantagens estratégicas a meio e mui especialmente a longo prazo.
Mas o Brasil é umha grandíssima oportunidade de que som conscientes pessoas completamente alheias ao galeguismo e as correntes reintegracionistas. Um exemplo: no último acto de graduaçom da Escola Superior de Engenharia Informática da Universidade de Vigo, neste mesmo ano aqui em Ourense, o Dr. Cacho, manchego de origem e padrinho do acto, sublinhou a oportunidade incrível que implica para um galego o poder ter acesso a todo o mercado emergente da latinoamérica e a África lusófona.
O caso do Brasil em especial, já que é um país que está a crescer a passos de gigante, com grandes recursos, e que está a apostar por este modelo do SwL já que sabem as vantagens que implica a meio e longo prazo, nom é umha totobola. Nós conhecemos (como mínimo) duas variantes de duas das línguas mais faladas no planeta, alguns som países emergentes de grandes possibilidades… isto tem de ser e é umha vantagem estratégica.
Por desgraça, o galego comum é educado para ver a lusofonia como algo alheio e a muita gente custa romper cos preconceitos que nos desligam do nosso tronco comum e nos fecham portas. Isto mesmo também se passa co próprio SwL, muita gente o despreza porque é presa de preconceitos e pensa, por exemplo, que algo que nom seja dumha corporaçom gigante como M$ (Microsoft) nom pode ser bom.
Existe o trabalho galego com, para e no Brasil e somos dous mundos que temos de nos achegarmos mais e mais co passar do tempo.
Falas de que o galego comum visualiza a Lusofonia como algo alheio. Seriam mas receptivas as pessoas mais novas? Como se poderia divulgar entre elas?
Nom fago nengum descobrimento maravilhoso se digo que os mais receptivos som os miúdos. Quanto mais novo, menos preconceitos que combater e mais vontade de aprender. Isto vai da mao de que o universo cultural lusófono é atractivo, especialmente o brasileiro, por ser alegre, divertido e colorido e a Galiza nom é um país de morrinha, eu creio, pois desde bem meninhos gostamos do retrucar e a retranca, das festas de guardar e as comidas em família ou cos amigos e as brincadeiras. Se há algo no que isto é manifesto, é na produçom musical e no baile, que adoitam ser movidinhos e alegres, ao nosso jeito.
Neste senso, a figura dos futebolistas, tanto portugueses como brasileiros, seria muito boa, poder demonstrar aos rapazes que se podem comunicar com eles na sua língua sem passar polo castelám, aumentar o número de intercámbios de estudantes mas conseguindo que nom abandonem a sua língua polo castelám (tam difícil!!!), acampamentos de verao lusófonos para rapazes, conteúdos audiovisuais, livrinhos…
Do mesmo jeito que tivo éxito o Xabarin Club da TVG nos anos passados, o mesmo tipo de conteúdos, talvez remoçado na estética, seguiriam a implicar um aumento do conhecimento, respeito e goze da língua, neste caso indo além da TVG e ligando co nosso tronco comum.
Para os já nom tam miúdos, é muito mais complexo. Lutar contra os preconceitos e a construçom nacional espanholista excludente é duro e nom sempre dá resultados, como bem se pode ver na situaçom atual do galego nos meios e na política. O único jeito é nom fazer ver, senom dar a possibilidade, com paciência, com cordialidade, com factos, co uso amável, coa experiência, com muita mao esquerda de que essa pessoa chegue por si mesma a conclusons mais abertas. Umha vez que se racha coa barreira de que o galego é umha língua isolada, tudo é possível.
Foi através do sofware livre que aderiste à estratégia luso-brasileira para a língua?
Nom. Se polo SwL fosse, eu ficaria bem ledo empregando e colaborando nas traduçons ao galego ILG/RAG.
Realmente o meu reintegracionismo é o filho da minha afeiçom pola história e a língua mas que nunca rematara num esforço de conhecimento e uso do mesmo. Neste senso, sim que é certo que o meu labor de traduçom do SwL fijo-me ser mais crítico coa norma oficial e co avance implacável do castelám nom só no uso social como também no seio do próprio uso normal do galego.
Porque apesar do que diz o preámbulo das normas da RAG, do que se pode deduzir das mesmas e do que se vê na elaboraçom das traduçons é que, em caso de dúvida, se tira em exclusiva ou preferentemente dos usos e costumes do vizinho além Padornelo. Também acontece às vezes tentar-se ser mais papista que o Papa e tira-se de palavras empregadas exclusivamente para certos usos como os labores de tala das árvores e introduzi-las em contextos modernos em que som totalmente alheias para os 100% dos galegos e galegas.
Somando isto à situaçom actual de fracasso das políticas de normalizaçom do galego de todo o período democrático, acho que cumpre fazer ver que o galego nom é umha língua ilhada, que estamos vivos no mundo e que temos muito do que estar orgulhosos sem nos tornar numha das duas alternativas que nos apresenta a política actual: ou um autista do mundo romance fechado em si mesmo, ou umha variante do castelám em lugar dumha língua própria séria.
O reintegracionismo fornece todas, sublinho, todas as vantagens do galego ILG/RAG mas outras muitas, mui úteis para todos os planos estratégicos da Galiza a um pequeno custo em forma de esforço educativo. De um ponto de vista pragmático já é desejável.
Neste meu contexto, foi determinante a minha visita ao Foro da Língua que tivo lugar no 2009 na Escola Oficial de Idiomas de Ourense, onde tivem a oportunidade de contrastar ideias co Valentim. Graças ao Valentim conhecim também o Vítor Lourenço, quem no Festigal me facilitou o Estudo Crítico… que realmente me serviu para estruturar as minhas dúvidas da legitimidade e conveniência das normas ILG/RAG e começar a dar os meus próprios passos no uso do galego reintegrado.
Que visom tinhas da AGAL, que te motivou a te associares e que esperas da associaçom?
Pois a minha visom ao sair da escola, como galego comum do que antes falava, era a dumha associaçom radical de lusistas. Co tempo fum-no vendo com mais calma e segundo aumentava o meu conhecimento, mudava a minha percepçom da associaçom, mas nom sentia a necessidade de me associar. Entendia que isto era cousa de gente com sérios conhecimentos e dedicada à língua, algo longe do meu perfil, nom obstante a minha afeiçom.
Três factos farám-me mudar de opiniom:
A situaçom actual, social e política, do galego. Requer que todos ajudemos na defesa da língua e às ideias tradicionais do galeguismo para esta. Se queremos ter umha língua própria temos de ser independentes tanto do castelám como dos nossos medos e ser conscientes de que nom nos diluimos e perdemos a nossa identidade no reintegracionismo senom que por fim volvemos caminhar sem medo polo mundo, sem vergonha de quem somos, co orgulho de sermos galegos.
O contacto coas obras da AGAL coma o dicionário Estraviz (umha obra de ciência e arte!!!), o Estudo Crítico… e o Manual de Língua e Estilo, que som dumha altíssima qualidade e realmente úteis. É um trabalho fantástico, que deixa claro que nom é umha associaçom de berrar, há um labor sério e reconhecido detrás que ademais está pensado para ajudar as pessoas, nom para as adoutrinar.
A amabilidade e acessibilidade da gente que conhecim da AGAL e da Esmorga que me deixou claro que me ia sentir como na casa. A toda esta gente que me tendeu a mao, muito obrigado.
Da associaçom nom espero nada que nom tenha recebido já. É umha satisfaçom pessoal formar parte dum coletivo com objectivos nos que crês e polos que estás disposto a lutar em forma de trabalho. Isto é o mais importante à hora de formar parte dumha Associaçom com agenda social, pensar no que podes fornecer e nom no que che pode dar o formar parte dela.
Conhecendo Daniel V. Ribeira
Um sítio web: http://www.xkcd.com
Um invento: A panca.
Umha música: Metal progressivo, por exemplo Awakenings, de Symphony X.
Um livro: Longa Noite de Pedra, de Celso Emílio Ferreiro.
Um facto histórico: A entrada, campanha e medidas económicas de Fernando I de Portugal na Galiza aquando Fernán Ruiz de Castro, Álvaro Peres de Castro e Nuno Freire de Andrade em 1369. Breve mas intenso.
Um prato na mesa: Empada de anguias!
Um desporto: Arranjar o mundo na taberna cos amigos e boa cerveja.
Um filme: Spaceballs.
Umha maravilha: O Estraviz online.
Além de galego: Bom conversador.
